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SOPROS EM SUSPENSO

Uma banda escolar luta para comemorar seus 70 anos
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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É quarta-feira, 12 de agosto, dia de ensaio da banda do Colégio Estadual Manoel Ribas, mas os instrumentos continuam guardados em um depósito nos fundos dessa escola de ensino médio na cidade gaúcha de Santa Maria. Na sala bege e com piso de madeira gasta, uma prateleira que vai do chão ao teto está lotada de tambores, trompetes e baquetas – sem qualquer uso no momento. 

Em uma dependência próxima, armários guardam quepes e jaquetões vermelhos com detalhes em amarelo – as cores da banda –, ao lado de troféus conquistados pelo grupo. Um pouco mais afastada, a sala onde se ensaiam as coreografias permanece trancada. 

A notícia da suspensão das atividades da Banda Marcial Manoel Ribas chegou aos estudantes em 6 de agosto, durante um ensaio. “Foi um momento triste”, recorda a advogada Nátura Mayer, de 38 anos, que integrou o grupo musical em 2003 e mais tarde se tornou participante voluntária. Dois dias depois, a banda anunciou publicamente a paralisação, pelo Instagram, causando comoção na cidade. 

A quietude no pátio da escola, onde deveriam estar sendo realizados os ensaios para o desfile de Sete de Setembro, causa estranheza no professor aposentado José Paulo Rorato, de 65 anos, que foi regente da banda e é também voluntário. “Um amigo meu, que mora aqui pertinho, disse que ouvia a banda todos os dias, e que agora é só silêncio”, afirma Rorato. “É um silêncio que a gente não quer.”

Criada em 1956, três anos depois da fundação da escola que a abriga, a Banda Marcial Manoel Ribas completa 70 anos no dia 20 de outubro e é uma das mais longevas do Rio Grande do Sul. O grupo foi criado por iniciativa do primeiro diretor da escola, padre Rômulo Zanchi, como uma simples fanfarra – um conjunto com cornetas e instrumentos de percussão. Em 1961, assumiu a formação marcial, que inclui instrumentos mais complexos, como trombones e trompetes. Também incorporou coreografia e baliza. 

Professora do Manoel Ribas, Maria Helena Romero reconstituiu a trajetória da banda em sua tese de doutorado em história pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicada com o título Dos trilhos aos livros: o ensino médio em Santa Maria nas páginas de “A Razão” (1901-1961). Em um trecho do livro, ela descreve o “esforço coletivo” que sempre sustentou o grupo: “Os alunos percorriam as salas de aula e as ruas de Santa Maria pedindo doações de toda sorte – de gado e sacos de arroz a jornais e garrafas vazias para reciclagem.” É um envolvimento comunitário muito diferente dos shows com cantores do momento, promovidos por tantas prefeituras do interior, sobretudo em anos de eleição municipal. 

Até o anúncio do encerramento das atividades, a banda contava com cerca de sessenta integrantes, entre alunos e ex-alunos. A advogada Nátura Mayer fez parte dela quando cursava o ensino médio. Na época, ela queria aprender dança, mas não tinha como pagar aulas particulares. Optou então por desfilar com o grupo musical, já que precisava comprar apenas a roupa para a apresentação: uma meia-calça, um short e uma sapatilha. “Depois, dei continuidade como coreógrafa e fiquei até hoje, como voluntária”, ela diz. 

Mayer e o ex-regente Rorato participam da coordenação da banda, ao lado do professor Daniel Santos da Silva, de 43 anos, que atua como regente voluntário no grupo, pois não dá aulas na escola. Silva integrou a banda em 1998, quando era aluno da Manoel Ribas, e depois de se graduar em música pela UFSM passou a ensinar instrumentos de sopro para os estudantes. Ele conta que os três voluntários conseguiram suportar as condições precárias em que trabalhavam até bem recentemente. “Mas chegou um ponto em que ficou insustentável”, diz.

Até 2023, a banda se manteve graças à Lei Estadual de Incentivo à Cultura (naquele ano captou 80 mil reais). Em 2024, perdeu esse apoio. “Disseram que não estávamos aptos para a captação de recursos”, explica Mayer. O grupo passou a depender sobretudo de rifas para custear transporte e participação em campeonatos. 

Havia outros problemas, anteriores a este. Em 2022, com a reforma do ensino médio, a banda perdeu a classificação de atividade extracurricular, o que desmotivou a participação dos estudantes. As mudanças na carga horária dos docentes concursados também fizeram com que o único professor da Manoel Ribas que orienta a banda, André Luis Eckert, de 41 anos, deixasse de ter tempo suficiente para isso.

A comoção causada em Santa Maria pela notícia da suspensão da Banda do Maneco – apelido que ganhou por causa do nome da escola – chamou a atenção do poder público. Em 10 de agosto, dois dias depois da interrupção dos trabalhos, a direção da escola e os coordenadores da banda foram recebidos na 8ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) para compartilhar suas demandas. 

Uma delas era o aumento da carga horária remunerada de professores, o que permitirá que docentes possam dedicar mais tempo ao grupo musical. Segundo Juliano Tavares, diretor do Manoel Ribas, o colégio já iniciou os trâmites para isso, mas o processo é demorado. Por enquanto, os três coordenadores da banda estão cautelosos. “Até o momento nada é real, é tudo conversa”, adverte Mayer.

De outra demanda, mais antiga, pouco se falou na reunião no CRE: a falta de recursos fixos para a banda. Os coordenadores avaliam que a solução dos problemas teria de vir em três tempos. No curto prazo, seria preciso renovar instrumentos, uniformes e outros materiais. No médio, criar condições para que a banda tenha saúde financeira, sem depender de rifas e campanhas. No longo prazo, estabelecer um vínculo permanente com o Estado, que permita a continuidade do projeto. Todos estão esperançosos de que haja uma saída. 

Com a mobilização, Silva apresentou na manhã de 25 de agosto as demandas da banda na Câmara de Vereadores de Santa Maria. “Depois da comoção que causou a suspensão, talvez consigamos retornar neste ano”, estima o regente. Mas não se sabe ainda se para o desfile do Sete de Setembro e o do aniversário de 70 anos. Em meio a tanta incerteza, a Banda do Maneco continua a buscar amparo naquilo de que sempre dependeu: o esforço coletivo.


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É estagiário de jornalismo na piauí