Fabrício Marques 02 Set 2026
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A piauí publica nesta edição um trecho do primeiro romance do poeta Sebastião Nunes, que pode ser lido aqui. A seguir, leia a apresentação da obra de Nunes, escrita pelo jornalista e também poeta Fabrício Marques:
Toda lembrança que temos do sarcasmo e da virulência dos poemas e prosas do escritor mineiro Sebastião Nunes se dissipa quando estamos diante do homem de 87 anos, 1,78 metro e 58 kg. Com os óculos de aro redondo, a barba grisalha, a fala baixa e mansa, a figura longilínea, ele mais parece um monge sereno. Nada permite entrever o “sátiro multimídia” (como já foi chamado), que sempre buscou a porção de lirismo contida no grotesco, na escatologia e no deboche, como no poema Oh, que estúpido fui!, em que ele escreve: Quebrei minha panelinha literária/No dia em que nasci/Voaram cacas, caquinhos e cagões/Fedendo como nunca vi.
Esse poema, que também expressa a aversão de Nunes às etiquetas e aos compadrios literários, deu título a uma exposição em Belo Horizonte em 2023, no Centro de Memória da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na abertura, Nunes fez um balanço de seus então 55 anos de estrada na literatura mais experimental: “Perambulei muito, escrevi muito, briguei muito e, pelo excesso de desencontros, me pus sempre à margem, sem qualquer vínculo com os movimentos poéticos.”
Irreverente e transgressor, Nunes é um corpo estranho e de difícil classificação na literatura brasileira, parente distante de Gregório de Matos, Décio Pignatari, Glauco Mattoso, Millôr Fernandes e Valêncio Xavier. Tanto mais que, como artista gráfico e editor, ele pensou cada apresentação de seus poemas e textos com uma forma visual, recorrendo a diversos recursos, da colagem à gravura.
Há poucas semanas, lá da margem em que vive, em Belo Horizonte, Nunes colocou o ponto final no seu primeiro romance, Memórias pré-póstumas de Machado de Assis (ainda sem editora). Como não poderia deixar de ser, o livro é um longo pastiche de pastiches, uma farsa alucinante e divertida que tira sarro da literatura, “essa besteira de intelectualoides ultrapassados”, nas palavras do escritor.
Enquanto agoniza em seu pré-velório, Machado de Assis é assistido pelos assessores Franz Kafka, Fernando Pessoa, Raymond Chandler e Albert Camus. Mas esses são apenas os primeiros autores que aparecem no livro, no qual desfila todo um cânone literário: Cervantes, Camões, Sade, David Foster Wallace, Roberto Bolaño, Marcel Proust etc.
Quem aproxima toda essa barafunda é Sancho Pança, montado em Ruço, que pode ser um jegue, ou um burro, ou um asno, ou um jerico. Em sua jornada, Sancho e todos os “ex-viventes figurantes nesta despautérica narrativa” se dirigem para o Salão das Trepadas Infinitas. Numa encruzilhada, ele se depara com duas filas: uma de gente crucificada, outra de gente enforcada, na qual está o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), autor que enfrentou a incompreensão e o escárnio quando lançou seu único livro de poema, Eu – como descreve o trecho do romance que a piauí publica nas próximas páginas.
Estamos no reino da ironia e do nonsense, da esculhambação e do pós-moderno. O romance é um acerto de contas de um leitor-escritor que apostou suas fichas na literatura, e hoje a vê completamente relegada a um posto inferior, sem influência nenhuma, ou quase nenhuma, no planeta de redes sociais, extremos climáticos, inteligência artificial e podres poderes.
Sebastião Nunes nasceu em Bocaiúva, no Norte de Minas Gerais, em 5 de dezembro de 1938, filho da costureira Geralda Oliveira Nunes e do sapateiro e motorista de táxi Levi Araújo Nunes. No terceiro ano do grupo escolar, foi colocado de castigo e obrigado a decorar o poema Bárbara bela, de Alvarenga Peixoto. “Acho que foi nesse dia que me apaixonei pela poesia”, ele conta.
Em 1955, mudou-se para Belo Horizonte, onde prestou vestibular para publicidade. Abandonou o curso depois de um ano e meio, mas passou a trabalhar na área como tipógrafo, arte-finalista e diretor de arte. Foi nessa época que conheceu os escritores Sérgio Sant’Anna, Adão Ventura, Luis Gonzaga Vieira e Jaime Prado Gouvêa, que se tornaram amigos próximos. Os encontros se estenderam à colaboração com o Suplemento Literário de Minas Gerais, idealizado por Murilo Rubião e lançado em 1966. Dois anos depois, Nunes lançou seu primeiro livro de poesia, Última carta da América, com dezesseis páginas, em edição do autor, dedicado a Rubião. No mesmo ano, casou-se com Josefa Teixeira Nunes e se formou em direito na UFMG (mas nunca atuou como advogado).
O espírito endiabrado aproximou Sebastião Nunes e Sérgio Sant’Anna. Em uma das aventuras dos dois amigos, no final dos anos 1960 em Belo Horizonte, eles foram bêbados a uma exposição de Guignard acompanhados do futuro roteirista Carlos Alberto Ratton. Os três saíram de lá com um quadro do pintor, que depois ofereceram à venda por uma ninharia. Como ninguém quis comprar, devolveram o quadro ao seu lugar.
No início dos anos 1980, ambos lançaram livros em que citam um ao outro: Um romance de geração, de Sant’Anna, pela Civilização Brasileira, e Somos todos assassinos, de Nunes, uma sátira em prosa e imagens ao mundo da publicidade. O livro de Nunes foi publicado pela editora Dubolso, recém-fundada por ele e que lançaria quase todos os seus livros subsequentes.
De 2001 a 2014, ele foi cronista dominical no jornal O Tempo, de Belo Horizonte. Nos domingos anteriores à eleição de 2014 escreveu duas crônicas ridicularizando Aécio Neves, então candidato à Presidência, e a Rede Globo. O dono do jornal, Vittorio Medioli, não gostou, e Nunes foi despedido. Não foi o primeiro problema do escritor em Minas. Em 1988, a secretaria estadual de Cultura mandou recolher o jornal Ponta de Lança, do Palácio das Artes, por ter publicado seu poema As rampas do Palácio, em que zombava dos governos brasileiros em geral.
Depois de O Tempo, Nunes migrou para o portal GGN, de Luis e Lourdes Nassif, no qual escreveu com liberdade total até o fim de 2022. O período em que colaborou com os dois veículos rendeu três livros de crônicas: Adão e Eva no paraíso amazônico, Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo e Ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil.
Pode-se afirmar que Nunes foi um precursor do crowdfunding – o sistema de financiamento coletivo em que os participantes pagam previamente por um produto antes de recebê-lo. A cada lançamento previsto pela Dubolso, o poeta enviava antes uma carta padrão – que chamou de “carta pedinchona” – para trezentos possíveis mecenas, aos quais pedia uma colaboração monetária, já que não tinha como bancar a edição sozinho. Pelo menos a metade deles respondia, o suficiente para bancar o livro.
Algumas respostas ao longo dos anos denotam a recepção favorável aos pedidos, como estas, de 1974, encontradas no acervo de Nunes:
• O poeta Carlos Drummond de Andrade: “Continuo fazendo parte de seu eleitorado, Sebastião Nunes. Aí vai o minicheque para o seu próximo livro.”
• O linguista Antônio Houaiss: “Aí vão [os cheques], sem pânico!”
• A educadora Nelly Novaes Coelho: “Mecena-mirim, recebi nova mensagem. p.s. – O tutuzinho foi pelo correio.”
• O escritor Caio Fernando Abreu: “Gostaria imensamente de ajudá-lo. Além de conhecer e gostar – muito – do seu trabalho, acho SENSACIONAL essa ideia de editar seus livros pedindo ajuda a pequenos e grandes ‘mecenas’. Infelizmente para nós dois você me pega numa época de vacas magérrimas.”
Essa comunidade particular de leitores incluía nomes tão ecléticos quanto José Paulo Paes (que, em 1979, lhe escreveu: “Grato pelo seu último envelope de terrorismo poético. Explode bem, no seu brutalismo”), Jorge Amado (1979: “Gostei muito – realmente muito – de Serenata em B menor”) e Rubem Fonseca (1983: “Li com imenso prazer A velhice do poeta marginal. Sou um velho admirador de seu trabalho”). Em carta, Clarice Lispector disse, em 1973, quando o autor tinha publicado apenas três livros: “No seu trabalho, que é muito, muito bonito, falta o interlocutor. Você está na fase de se comunicar consigo mesmo – fase importantíssima, sem a qual não se caminha para a frente. E está faltando o ‘outro’.”
Em 1998, Nunes enviou pelo correio 120 caixas para cada um de seus leitores fiéis. Dessa vez, eles receberam não um livro, mas um caixão em miniatura (35 cm x 28 cm), de madeira marrom, construído por Antônio Carlos Pereira, um guia turístico de Sabará que fazia bicos como carpinteiro. Na tampa, que se abria com dobradiças, havia uma pequenina cruz de madeira. O remetente informava num dos prospectos encontrados dentro do caixão: “Essa pequena urna e seu magro conteúdo, antes satírico que macabro, está sendo enviada à maioria dos intelectuais que, ao longo de aproximadamente trinta anos, acompanharam meu trabalho e de alguma forma me ajudaram nele.”
Os destinatários receberam o caixão dentro de uma caixa de papelão chamada “arquivo morto”, com um exemplar da fábula Decálogo da classe média. Nela, Nunes apresentava os “inclames” (indivíduos da classe média), os “mauseráveis” (que representam “os fracos e humilhados, os tristes, os sedentos de tudo e esfomeados de tudo, os chamados marginais-à-margem, os mancos, os desdentados, os sestrosos, os chamados artistas-arteiros, os infelizes, os simples de espírito e por aí vai”) e os “panderosos”, aqueles que podem tudo.
Receber um caixãozinho de defunto pelo correio provocou alguns imprevistos. Nunes lembra que o escritor Valêncio Xavier ligou para contar que a mulher de Dalton Trevisan, um dos presenteados, tinha morrido quinze dias antes.
Entre 1988 e 1989, Nunes lançou as Antologias mamalucas 1 e 2, em que reuniu dois livros inéditos e toda a sua produção poética, concentrada em oito trabalhos: Última carta da América, A cidade de Deus, Finis Operis, Zovos, O suicídio do ator, Serenata em B menor, A velhice do poeta marginal e Papéis higiênicos. Com a publicação das antologias, ele anunciou que nunca mais iria publicar poesia – e cumpriu o prometido.
Até que, neste ano, foi lançada a primeira edição comercial de sua poesia, também chamada Antologia mamaluca (Círculo de Poemas/Fósforo), com uma seleção das duas coletâneas anteriores. Ali estão poemas como Amor rarefeito, um bom exemplo de seu escracho melancólico: Prefiro a zona, meu amor, às mesas/da classe módica babacal e lesma. Ou Inconfidência mineira, de apenas três versos: E como todo enforcado que se preza/Tiradentes morreu de pau duríssimo/apaixonado pela pátria amada.
Casado com Maria Zélia Versiani Machado, sua terceira mulher, e com os sete filhos (dois do primeiro casamento de Zélia) criados e dispersos pelo mundo, Sebastião Nunes agora está trabalhando em um site no qual deixará disponível toda a sua obra. Por isso, decidiu aprender programação, comprou um domínio na internet e pagou pelo direito de usar uma plataforma de criação. “Acho que dará o recado e me dei o prazo de até o fim de 2027 para botar no ar minha arapuca de pegar jacu”, diz. “Não é para vender nada ou me pavonear, mas apenas como registro do que produzi.”
Ele também se deu conta de que sua biblioteca estava se desfazendo com o tempo e que livros preciosos corriam o risco de se perder, destruídos por mofo, poeira, goteiras e traças. Foi então que lhe ocorreu vender os livros em sebos virtuais, inclusive obras raras, como uma primeira edição do Remate de males (1930), de Mário de Andrade. O próprio escritor se divertiu escrevendo as apresentações dos livros para os sebos, como a que fez para uma edição de Ilusões perdidas, de Balzac:
Balzac era um cara gorducho, baixinho e feio, que deixava duquesas e outras aristocratas malucas. Foi um puta escritor, a ponto de Marx usá-lo como exemplo de alguém capaz de afrontar os valores da burguesia. Não acredito que fosse sua redonda silhueta o que encantava tanta mulher rica e bonita. A Comédia humana, talvez? Esse conjunto enorme poderá ter atraído os olhares para um sujeito esforçado e dedicado ao máximo à arte de ganhar dinheiro – veja só! –, pois o preguiçoso Balzac trabalhava apenas porque fazia dívidas como um louco. Comia uma refeição rápida lá pelas seis da tarde e dormia até meia-noite. Acordava e em seguida escrevia madrugada adentro, mantido a café preto. Morreu aos 50 anos de tanto trabalhar. Bem feito! Exemplares quase novos, com capas duras um pouco manchadas e cortes levemente amarelados.