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ENGENHO E ARTE

Vivo com certas palavras, abelhas domésticas; ou com qualquer palavra, como a palavra qualquer
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Vivo com certas palavras, abelhas domésticas[1];
ou com qualquer palavra, como a palavra qualquer
que, agora, irrompe e se impõe ao desaviso,
como se houvesse em mim a força e o propósito
de palmilhar vagamente uma estrada de Minas[2],
solene e à espreita de um desencanto grave;

E como se eu vivesse ao correr da pena,
em leva e traz sem trégua, ao peso de mim mesmo,
sujeito ao escárnio, por exibir solene,
o dom da analogia e a música adequada,
em certos instantes que invento.

Porém, quisera-me inventor de um descrever feroz,
à margem ou ao centro: uma construção esperta,
sem a falsa elegância ou a sedução barata,
que são meus vícios brutos, sem alma e sem remédio;
e que rondam renitentes, agorinha, neste instante.

Abriria os olhos, incuriosos, lassos,
para a máquina, o discurso (e por que não a vida?)
construídos com o engenho e a arte dos milagres.
E ficaria só, contente, no meu íntimo,
a remoer o sentimento apagado
e o traço tosco da poesia.


[1]  João Cabral, “Psicologia da composição”.
[2]  Carlos Drummond de Andrade, “A máquina do mundo”.


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É sociólogo e poeta. Publicou A Estrela Fria (Companhia das Letras) e Encouraçado e Cosido Dentro da Pele (Confraria do Vento)