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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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A escolinha do professor Ernesto

O ex-chanceler de Bolsonaro segue as pistas do globalismo, de Platão a John Lennon

Luigi Mazza | Edição 199, Abril 2023

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Em sua cruzada contra o marxismo cultural, a China, as vacinas e a globalização, Ernesto Araújo sempre julgou necessário estudar o inimigo. Diz ter lido, entre outros pensadores marxistas contemporâneos, Slavoj Žižek e Alain Badiou. Mas em outubro do ano passado, dada a importância do momento histórico – faltavam poucos dias para o segundo turno da eleição presidencial –, o ex-chanceler de Jair Bolsonaro resolveu cortar intermediários e ir logo à fonte de todo o mal: Karl Marx.

“Precisamos entender melhor o que está por trás do projeto marxista”, justificou aos alunos do Curso de Logopolítica, uma série de aulas transmitidas online em que Araújo compartilha seus conhecimentos de filosofia e geopolítica. O neologismo “logopolítica” é de sua lavra: trata-se, segundo ele, do “terreno na intersecção da geopolítica, filosofia, cultura e teologia”. Logos, em grego, pode significar tanto linguagem quanto razão.

Na ocasião, Araújo pôs os alunos para estudar as Teses sobre Feuerbach. O texto, escrito por Marx antes de completar 30 anos e só publicado depois de sua morte, é um acerto de contas com o materialismo – na visão de Marx, limitado – do filósofo alemão Ludwig Feuerbach. São onze teses que, para muitos estudiosos do marxismo, formam o primeiro esboço do que viria a ser conhecido como materialismo dialético. Araújo tem uma interpretação um tanto distinta: “Marx vai dizer, basicamente, que Feuerbach não foi longe o suficiente na destruição do cristianismo.” Antes de iniciar a leitura, o diplomata observou, en passant: “Não sei se é coincidência ou não, mas o número onze é im­portante em alguns círculos ocultistas.”

 

Marx argumenta, na terceira tese, que o erro de Feuerbach é enxergar o ser humano apenas como produto das circunstâncias – quando, na verdade, ele é pro­duto e causa. O educador também precisa ser educado, exemplifica Marx. Ao deparar com esse trecho, Araújo teve uma epifania: o filósofo alemão defendia a doutrinação de professores. “Marxismo cultural praticamente puro”, comentou, com um sorriso nervoso. Leu trechos do original em alemão e encerrou a aula fazendo um pedido óbvio aos alunos: que votassem em Bolsonaro. “É o único caminho para que não caiamos no programa das teses sobre Feuerbach.” Lula venceu a eleição, e ainda não se tem notícia de tal programa. Araújo continua vigilante.

Desde junho, quando inaugurou o curso, o ex-chanceler ministrou mais de quarenta aulas ao vivo, a maioria com duas horas de duração. A ementa é abrangente, como demonstram os títulos dos vídeos: numa semana, os alunos aprendem sobre “Crime, Clima, China”; noutra, sobre “O Triângulo das Bermudas do Corruptariado”, ou “Zaratustra contra o globalismo”. Por vezes, Araújo brinda os estudantes com leituras em grego, latim, alemão e francês.

Tamanha erudição deixa os pupilos embasbacados. Em um grupo de Telegram dedicado ao curso, um aluno definiu as aulas como um “oásis intelectual e espiritual no caótico cotidiano”. Uma colega foi além. “Professor, cada aula sua é um livro, uma complexidade, uma obra poética, uma aventura generosa nos convidando a ter fome de sabedoria”, afirmou, depois de assistir a Araújo esmiuçar passagens do Novo Testamento em grego.

 

 

Ernesto Araújo alinhou o Itamaraty ao ideário de Donald Trump, que ele saudara como a salvação do Ocidente em um artigo de 2017. Pressionado, pediu demissão depois que Joe Biden chegou à Casa Branca, em 2021. Desde então, leva uma vida pacata. Ao contrário de outros ex-ministros, optou por não disputar eleições, e também não quis retornar à diplomacia. Pediu licença não remunerada do Itamaraty e se mudou para os Estados Unidos, onde vive com a mulher, a diplomata Maria Eduarda de Seixas Corrêa. Ela trabalha no consulado brasileiro em Hartford, Connecticut. Ele se dedica aos estudos.

O objetivo de seu curso, conforme explicado na aula inaugural, é esquadrinhar a origem e os métodos do “globalismo” – uma assombrosa rede de poder mundial que assombra a extrema direita do mundo todo. Na estante de livros que aparece atrás de Araújo em todas as aulas, é possível encontrar autores que se consagraram com teorias conspiratórias desse gênero, como Marc Morano e Eric Metaxas. Repousando sobre os livros, há uma bandeira com a cruz da Ordem de Cristo.

A inscrição no curso de logopolítica custa 450 reais (quem comprou na Black Friday pagou 297). A julgar pelo número de participantes do grupo de Telegram (eram 67, em março deste ano), Araújo deve ter faturado uns 30 mil reais com a empreitada. O perfil dos alunos é diverso: há professores universitários, um engenheiro aposentado da Petrobras, uma costureira. Recentemente, ele começou também a fazer mentorias com um grupo mais restrito de estudantes. O preço não foi divulgado.

 

Quem se inscreve no curso aprende que as raízes do globalismo podem ser encontradas antes de Cristo, na Grécia antiga. “O sofista não é materialista nem idealista, é um idólatra do poder. Isso mais tarde resulta no pragmatismo, o pragmatismo se abre para o marxismo e aí você tem o globalismo”, ensina Araújo, numa aula sobre Heráclito e Platão. Os alunos aprendem a farejar o globalismo nas pequenas coisas – como num verso de Imagine, de John Lennon. “Nothing to kill or die for. Não lute. Essa é a mensagem que a gente recebe desde criança”, lamentou o diplomata.

 

Observando o Brasil a 6 mil km de distância, Araújo torceu fervorosamente por um golpe de Estado. Na primeira aula depois da eleição, até liberou os alunos empenhados em derrubar o governo eleito. “Quem estiver nas manifestações não vai levar falta”, avisou. Em 12 de dezembro, quando bolsonaristas atearam fogo em ônibus e tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília, Araújo buscou inspiração na poesia. “Como diria Fernando Pessoa: É a hora”, disse, citando o verso final de Nevoeiro, último poema de Mensagem. Dias depois, um aluno otimista escreveu: “Estou sentindo cheiro de intervenção.” O diplomata respondeu em chave lírica: “Está soprando um vento na noite escura.”

Perto da virada do ano, uma aluna se exasperou porque os tanques não se moviam rumo à Brasília: “Ernesto, ainda crês que algo (que nós esperamos) vai acontecer? Quando? O PR viajou mesmo para os EUA, meu Deus?” O professor buscou tranquilizá-la. “Parece que não viajou.” E, numa tentativa de traduzir a conjuntura, recorreu à dialética: “Acho que qualquer ação está tão improvável que é capaz de acontecer algo, paradoxalmente.” No dia seguinte, Bolsonaro embarcou rumo à Flórida. Só retornou no final de março.

Quando a turba bolsonarista invadiu a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro, Araújo soube da bagunça em primeira mão por um de seus alunos, que participava do ataque ao Congresso Nacional e filmava tudo. Ficou eufórico. “Viva mil vezes”, celebrou o ex-chanceler, à medida que recebia fotos e vídeos da invasão. “Tão fazendo ocupação”, escreveu o estudante golpista. “Refundação”, corrigiu o professor.

Tudo é incerto e derradeiro/Tudo é disperso, nada é inteiro, diz Pessoa no poema Nevoeiro. O golpe não prosperou, e os alunos do curso de logopolítica foram tomados pelo desânimo. Um deles perguntou ao professor se o Brasil ainda tinha jeito. A resposta foi enigmática: “O jeito virá quando a gente não espera, de onde a gente não espera. Acho que o misterioso mecanismo da história foi posto em movimento.”

Luigi Mazza
Luigi Mazza

Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina

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