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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

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Feijoada suíça

Restaurante homenageia Paulo Freire

Valéria Maniero | Edição 161, Fevereiro 2020

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No Le Portugais-Marisqueira, o primeiro restaurante português inaugurado em Genebra, em 1973, ninguém coloca em dúvida a memória do educador Paulo Freire. Em meio aos tradicionais bolinhos de bacalhau, caldo verde, tripas à moda do Porto, filetes de polvo grelhado e bacalhau assado e cozido, o cardápio ostenta um único quitute não lusitano, também o único da casa a ter uma dedicatória: “Feijoada brasileira – Em homenagem ao nosso amigo Paulo Freire.”

Servida num prato branco quadrado, a feijoada segue a receita tradicional, com as carnes de boi e porco mergulhadas em farto caldo de feijão preto e acompanhadas de uma porção de arroz decorada com um tomate-cereja. Custa 38 francos suíços (em torno de 167 reais). A couve, a farinha de mandioca, a laranja e o molho vinagrete constituem uma guarnição à parte, ao preço de 6 francos suíços (em torno de 27 reais).

Não apenas os brasileiros em Genebra pedem o prato. “Suíços e portugueses também gostam. Às vezes, alguns deixam as orelhas de porco; outros comem tudo”, contou o chef Fernando Martins, suíço-português de 52 anos. Ele serve de 100 a 120 feijoadas por mês no restaurante de decoração sóbria, com piso marrom de cerâmica e cadeiras e mesas escuras. Algumas lembranças de Portugal aparecem aqui e ali: num canto, um galo de Barcelos; na parede, um quadro de azulejos azulados com a imagem de duas caravelas.

 

“Quando Paulo Freire faleceu, em 1997, perguntei à Cristina, filha dele que mora em Genebra, se eu podia colocar a dedicatória”, explicou Martins. “Ela ficou toda contente e disse que sim. Desde então, aparece desse modo no cardápio.”

Foi o educador quem ensinou a receita da feijoada à família Martins. “Um dia, ele disse aos meus pais que as tripas à moda do Porto eram um bocadinho como a feijoada brasileira, só que o feijão não era da mesma cor e as carnes não eram as mesmas. Naquela época, pouca gente sabia o que era a feijoada brasileira. Meu pai não conhecia.”

Freire, então, mandou vir as carnes, o feijão preto e a farinha de mandioca do Brasil, e junto com sua primeira mulher, Elza Freire, preparou a receita inaugural. “Era 1974 ou 1975. Ficaram os dois aqui toda a tarde com os meus pais e fizeram o prato”, lembrou Martins. A feijoada foi adotada pelo restaurante, que passou a servi-la às quartas-feiras e aos sábados. Mais tarde, o prato entrou de vez no cardápio. “Como os suíços começaram a gostar, tivemos que incluir na carta.”

 

Não são só Martins e seu restaurante que se preocupam com a memória de Freire na Suíça. Também a Universidade de Genebra, a cerca de 1 km do restaurante, promoveu no ano passado um seminário em que professores de vários países discutiram durante dois dias a obra do educador. “A herança pedagógica de Freire se perpetua tanto por causa da força dos conceitos mais destacados de seus escritos quanto por seu alcance prático para as populações excluídas da educação”, dizia o descritivo do encontro Repercussões Internacionais da Obra de Paulo Freire. “Os conceitos de conscientização, opressão, diálogo e solidariedade repercutem em particular no conturbado momento atual, quando milhões de refugiados são lançados ao exílio e milhões de crianças não dispõem de uma educação de qualidade nem de condições dignas de vida.”

 

Paulo Freire exilou-se do Brasil em 1964, logo após o golpe militar. Foi para a Bolívia, Chile, Estados Unidos e, por fim, para a Suíça, onde viveu entre 1970 e 1979 e atuou como consultor do Conselho Mundial das Igrejas. Esteve no Le Portugais-Marisqueira – que, à época, se chamava Marisqueira-Le Portugais – pela primeira vez a convite do sociólogo suíço Jean Ziegler, que desejava lhe apresentar o dono do lugar, José Martins, pai de Fernando, refugiado em Genebra após ser perseguido pela ditadura de António Salazar.

Uma amizade nasceu entre os dois exilados. “Eles conversavam muito, trocavam ideias, passavam horas a falar de política internacional”, lembrou Martins. “Eu tinha 6, 7 anos, era uma criança. Quando o brasileiro vinha, meu pai chamava e dizia: ‘Está aqui Paulo Freire.’ E eu ia. Meu pai fazia questão que eu fosse sempre cumprimentá-lo.”

 

Freire passou a ir com frequência ao restaurante com a mulher e os filhos. “Vinham comer todos aqui. Ele era muito carinhoso, fraternal. Não é o satanás que o Jair Bolsonaro descreve. Ele levou a alfabetização e a cultura ao povo, a fim de que este pudesse se emancipar”, disse o chef.

Em 1976, Freire chegou ao restaurante com um exemplar de um de seus trabalhos mais importantes, Pedagogia do Oprimido. Embora tivesse sido escrito em 1968, o livro só seria publicado no Brasil em 1974. O educador redigiu no exemplar uma dedicatória aos pais de Fernando Martins: “A Sótera e José, em cuja casa experimentamos não apenas o gosto de uma comida excepcional, mas, sobretudo, o prazer de um real encontro humano. Com o abraço amigo dos Freire.”

Catorze anos depois, voltou ao restaurante e fez uma dedicatória para o novo chef, que havia comprado o mesmo livro na tradução francesa – Pédagogie des Opprimés: “Para Fernando, que conheci menino, com a alegria de revê-lo agora, homem, com o abraço fraterno de Paulo Freire.” No restaurante, Martins guarda com cuidado os dois exemplares.

Não foi a última vez que o chef e sua mulher, Antonina, encontraram o brasileiro. “Em 1994, ele veio outra vez com a família. Ficamos felizes. Tivemos um momento a falar do Brasil. Ele comeu tripas à moda do Porto, que adorava.”

Para a feijoada que o ministro Abraham Weintraub não comeria, Martins compra todos os ingredientes em mercados e açougues de Genebra, mas a carne seca precisou ser substituída por um produto equivalente feito na Suíça. Cristina Freire, filha do educador, de vez em quando vai ao restaurante conferir o prato. “Já pedi várias vezes. É uma homenagem e um gesto de carinho”, disse ela, que sempre se recorda da alegria de seu pai à mesa. “Ele gostava muito de comer. Era um homem guloso.”

Valéria Maniero

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