CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Gabriel e as abençoadas
As lições de um dedetizador a uma cliente apavorada
Consuelo Dieguez | Edição 225, Junho 2025
A mulher acendeu a luz da cozinha e deparou-se com a besta do Apocalipse. Desesperada, ela pegou o inseticida na despensa e iniciou a perseguição. O bicho inominável correu em direção à porta da sala. A mulher foi atrás e lançou o jato venenoso, cobrindo o ambiente com uma névoa esbranquiçada. Mas a criatura desapareceu sem deixar rastro.
Como viajaria na manhã seguinte, a mulher enviou uma mensagem para a diarista relatando a ameaça. “Como é possível? Tudo tão limpo aí. Pode deixar que vou encontrá-la”, garantiu a profissional que arruma a casa.
Como prometido, no começo da tarde do dia seguinte, a mulher recebeu a foto do inseto abatido. “Ela faleceu com o veneno. Quando encontrei, estava nos últimos instantes de vida, e logo virou as patas para cima.” Apesar da repugnância que a foto lhe causou, a mulher respirou aliviada.
Dias depois, de volta à casa, quando tudo parecia tranquilo, “uma parente da outra”, como ela definiu para a diarista, foi vista entrando pela área de serviço, cambaleando. Intrigada, a profissional perguntou: “Será que o prédio foi dedetizado e a senhora não foi avisada?” Só podia ser isso, concluiu a mulher, e ligou imediatamente para a portaria. A diarista estava certa. “E por que não me avisaram da dedetização no prédio? É claro que essas bandidas estão procurando um lugar seguro”, reclamou a moradora.
A mulher logo enviou mensagem para uma amiga contando seu drama e pedindo a indicação de uma boa empresa de dedetização. A amiga não soube recomendar ninguém, mas tentou acalmá-la: “Deixe de exagero. Não precisa dedetizar, coloque veneno nos ralos que resolve.”
Não bastava. A mulher consultou mais uma vez a experiente diarista. Sensata, a profissional respondeu: “Olha, se eu fosse a senhora dedetizava. Porque eu matei um filhotinho dela outro dia. Elas têm filhotinhos muito rápido.”
Aí era demais. Melhor ligar para uma firma de dedetização. Dois dias depois, bateu à porta da sua casa o funcionário enviado pela empresa que exterminava insetos.
Gabriel Cotrin, de 26 anos, é alto, magro, negro, com um sorriso fácil. Compenetrado, ele iniciou seu questionário. “Tem animais aqui? A senhora tem rinite, sinusite? É alérgica? Porque vou pulverizar os rodapés também.” A mulher respondeu: “Não. Sou alérgica a barata. Pulveriza tudo.” Compreensivo, Cotrin tentou acalmá-la. “Isso não é nada. Aconteceu porque dedetizaram o prédio. A senhora fez bem em nos chamar. Se a senhora soubesse o que a gente vê por aí…” Pronto.
Vendo o interesse da mulher pelo que ele via por aí, Cotrin, com cinco anos de experiência no ramo, lhe contou já ter testemunhado de tudo. Certa vez entrou numa casa onde as baratas “francesinhas, aquelas pequenas” saíam até por detrás do espelho da sala. “Faziam a festa.” A cliente sentiu um arrepio. “Como é possível?”, disse. “Casa muito suja”, explicou Cotrin, sempre tranquilo. “Não sei como os moradores deixam a situação chegar nesse estado. E olha que era um casal gay, que costuma ser mais organizado do que os homens héteros.”
Percebendo a mescla de fascínio com o horror da cliente, continuou. “Se eu tivesse um vídeo aqui eu lhe mostrava.” E ela: “Não, não quero ver.” A conversa continuou animada. “A senhora sabe que uma vez eu fui em uma casa que tinha superlotação de barata? Elas gostam de ficar nas dobradiças. Mas estavam todas cheias. Excesso de povoamento. Já estava desconfortável para elas”, disse Cotrin, mostrando uma inusitada simpatia pelo desconforto dos insetos. “A dona da nossa empresa costuma dizer que barata gosta dos quatro As: “Alimento, abrigo, água e acesso.” E a cliente: “Igual ao ser humano.” Cotrin ressalvou: “Só que fazem tudo de graça. Não pagam nada. São umas folgadas.”
Ele continuou desfiando seus conhecimentos: “Quando elas aparecem de dia é porque já estão muito confortáveis na casa, já desenvolveram intimidade com o ambiente, com os moradores. Se sentem seguras. Sabem que podem circular sem medo. Acham que são donas do pedaço.”
Quando estava finalizando o serviço, Cotrin provocou: “A senhora sabe que tem lugar onde se come barata?” A cliente, enojada, só conseguiu dizer: “Não me diga. É mentira.” Ele seguiu com a descrição antropológica: “Mentira nada, na China eles comem barata. Tem um vídeo aqui para lhe mostrar.” A mulher reagiu: “Não quero ver.” “A senhora veja para acreditar em mim.”
Diante da insistência, ela olhou de soslaio para a nojeira. E tentou contestá-lo. “Isso era no passado, quando a China era pobre. Agora estão ricos. Já conviveram com outras culturas, não comem mais.” Cotrin pontificou: “Ih, que outra cultura que nada. É tradição. Deixa o rapaz chegar na casa do pai, lá no interior da China, que vai ouvir: ‘Aqui come balata.’ Se não comer, apanha.’” E riu.
Quando se preparava para sair, Cotrin deu mais umas borrifadas na casa para tranquilizar a cliente. Antes que ela fechasse a porta de casa, o exterminador assegurou: “Agora a senhora está protegida. Essas abençoadas não voltam mais.”
