Ícaro, um destemido de espírito elevado
| Edição 176, Maio 2021
EDIÇÃO PRIMOROSA
A piauí_177, junho, traz uma das mais belas capas de todos os tempos. Chama a atenção na exposição das bancas. Mais uma vez, é um conteúdo exemplar. Passando pela abertura de Fernando de Barros e Silva: Eichmann e os rinocerontes e o teatro do absurdo de Ionesco que é esse nosso desgoverno. Há uma reportagem um tanto quanto elogiosa ao prefeito de Belo Horizonte (Chega de pá, pá, pá), mas muito bem escrita, reportagem de fôlego, cheia de detalhes. E então nos deparamos com textos primorosos de Roberto Andrés (A volta da alternativa) e Tejas Harad (Mais medo dos mortos que dos vivos). E outros. E outros… Mas a seção Ensaio desta vez nos brindou com um texto genial sobre Alfredo Bosi. Saudades imensas. Porém, o que mais me marcou foi a última página: a Despedida. Confesso que num primeiro momento não entendi do que se tratava. Depois, vi o imenso trabalho de Will Barcellos, que com 500 mil pontos homenageou os mortos da pandemia. É de sentir frio na espinha! Fechou com chave de ouro e serviu como resposta aos irmãos caras de pau da capa. Políticos que só não devem ser esquecidos para que no futuro não venhamos a repetir tanta monstruosidade.
GERALDO MAGELA MAIA_BELO HORIZONTE/MG
Prezados, saudações mineiras. Boa dimais a piauí_177, junho, que ora leio. Gostei tanto que comprei duas, parabéns!
ÍCARO E. DA SILVA_NOVA LIMA/MG
NOTA GERAL AOS BRASILEIROS: Por que vocês não são todos como Ícaro, cujo nome remete logo às alturas do espírito, da curiosidade, da ambição, do destemor?
GUILHOTINA
Não estava conseguindo ler a minha revista deste mês (piauí_177, junho), até que descobri o motivo do meu mal-estar: os cabeçalhos! Tive que cortá-los da revista. Não aguentei. Não aguento mais tanta tristeza.
MILA GUIMARÃES COSTA_BRASÍLIA/DF
KALIL
Leitor assíduo da revista, me surpreendi com a matéria sobre o prefeito Alexandre Kalil (Chega de pá, pá, pá, piauí_177, junho), de cunho simpático e personalíssimo, de quem não conhece a realidade de Belo Horizonte. Em seu arroubo autoritário, desprezando os avisos sobre o início da pandemia (como outros prefeitos), autorizou a realização do Carnaval, afirmando que ele é quem mandava, o que certamente ajudou na disseminação do vírus na cidade, com os turistas que ali aportaram. Depois de um temporal que destruiu uma região da periferia, assumiu a culpa da prefeitura, prometendo resolver o problema, que já se repetiu duas vezes. Aplicou lockdown por quase seis meses, porém cobrou taxas de funcionamento dos empresários. É a pior cidade para aprovar um projeto de edificação.
ELIAS NOGUEIRA SAADE_BELO HORIZONTE/MG
NOVA ORDEM
Que perfeição em forma de artigo o texto de Roberto Andrés, A volta da alternativa, piauí_177, junho!
Tudo aquilo que busco ler no raso cenário da imprensa brasileira hoje estava nesse artigo! Dados interessantes, análises apuradas e pontos de vista diferentes. Aprendendo, avaliando, discordando de algumas coisas (esquerda libertadora) e concordando com várias outras (carro: o novo “câncer” da sociedade!), congratulo vocês, da piauí, pelo excepcional artigo exposto.
ANDRÉ DE ASSIS PIRES_SÃO PAULO/SP
BOLSONARISMO
O surgimento dessa coisa chamada bolsonarismo muito me assustou, mas tenho tentado um entendimento. Para isso, o texto de Miguel Lago publicado na piauí_176, maio, (“Batalhadores do Brasil…”) é dos mais importantes. O autor, antes de sugerir uma forma de oposição, descreve parte de seus vetores, dos quais ele, o presidente, se faz veículo: o indivíduo com direito ao gozo de premiações do mundo capitalista (na falta de melhor expressão) em que nada pode limitá-lo, sejam radares de velocidade ou um vírus novo com grande impacto na raça humana. O outro, a ampliação do discurso do homem de bem, onde tudo o que está fora é diferente, e o assume como inimigo. É quem está fora do condomínio. É quem não é cristão. O autor afirma que pode ser nossa primeira legítima revolução, em que a satisfação do desejo individual pode não ser limitada. Freud descreveu o mal-estar na civilização em 1929, no qual está a ideia do tanto que existe em todos nós que não consegue se realizar em suas paixões e se transforma continuamente em civilização.
Talvez seja um bom retrato de onde estamos.
ANDRÉ LUIZ R. DE SOUZA_ BELO HORIZONTE/MG
PIAUÍ 176
Não sei quanto aos outros leitores da revista, mas no meu caso tenho o hábito de começar a leitura pela seção de Cartas e depois optar pelos outros textos aleatoriamente. Na piauí_176, maio, comecei com a reportagem O major da cocaína e logo após já engatei a leitura com a história da Gizele Machado Torres e sua luta para concluir o curso universitário e entrar na pós-graduação (Um pé na cozinha e outro na pós). Não dá para não se chocar com a diferença entre a realidade dessas duas pessoas. O primeiro é um criminoso da mais alta periculosidade que até agora não cumpriu pena e está foragido depois de muitos anos na criminalidade, tendo amealhado uma fortuna de milhões de dólares com o tráfico internacional de cocaína e a conivência de muitas figuras “impolutas” deste país. Quanto à história de vida da Gizele, com todas as suas limitações, baixa autoestima, sofrendo bullying desde criança devido à cor de sua pele e característica de seu cabelo, ter saído de um lar, onde a regra seria não sair das cozinhas dos brancos e do quartinho de empregada, para a sala de aula de uma universidade pública, e já galgando uma vaga no mestrado. Não dá para não sentir um choque de realidade depois da leitura desses dois perfis.
VALÉRIA BORDIN_FLORIANÓPOLIS/SC
ESQUINAS
Como numa sinfonia de Shostakovich, desde o começo do texto (Solo no sertão, piauí_176, maio) se sente o bafo da dialética marxista no ombro da narrativa. Resultado: O paraíso do proletariado existe – ele é a poesia premiada com Jabutis bem nutridos “n’A desgraça do capitalismo”.
Ah! E o que seria do mundo sem os nefelibatas, não é mesmo?
MÁRCIO XAVIER_SÃO PAULO/SP
NOTA AÉREA DA REVISTA: Ícaro, nosso leitor exemplar, nos informa que suas andanças pelos céus seriam bem mais solitárias se não fosse pelos nefelibatas (sem vergonha, pessoal: o Houaiss tá aí pra isso mesmo). “É uma gente muito leve”, assegura.
Quero parabenizar a jornalista Consuelo Dieguez pelo texto Um conto da peste (piauí_177, junho), na Esquina, por ser um libelo à trivialidade airosa. Foi bonito ver discussão de grupo de WhatsApp entre bem-nascidos. Perdoe a curiosidade: São seus vizinhos, Consuelo?
LEILA COSTA PEREIRA_SÃO PAULO/SP
NOTA BEM-NASCIDA DA REDAÇÃO: Consuelo não tem vizinhos. Nossa repórter jet-setter mora num castelo encarapitado nas escarpas nevadas de Monte Carlo. A propriedade é tão grande que a casa mais próxima fica noutro fuso horário.
BENAMÊ
A piauí insiste em publicar textos de uma pessoa que se apresenta como Benamê Kamu Almudras, que faz uma série de ataques generalizados aos alunos (Parece revolução, mas é só neoliberalismo, piauí_172, janeiro, e Pós-verdade e carteiradas de identidade, piauí_175, abril).
Ao permitir isso, a revista parte do pressuposto de que um professor em sala de aula é um pobre coitado vulnerável e que os alunos são uns tiranos. Não é verdade. A escola, do fundamental à universidade, reproduz o ambiente de democracia formal deste país. Em um modelo autoritário, é simples assim: o professor manda, o aluno obedece.
O referido professor ataca os alunos e, assim como os partidos políticos do país, desqualifica as vozes divergentes entre sua clientela. Diz que “todo debate pode hoje, de repente, tornar-se um julgamento sumário”. É verdade. Ele mesmo faz isso, ao sequer dar o direito de seus alunos se manifestarem a respeito de suas aulas e também avaliá-lo. Ao menos, desconhecemos se permite ser avaliado. A piauí deu uma tremenda pisada na bola, ao admitir que o referido professor veio nos trazer a tábua com os Dez Mandamentos, em vez de trazer à discussão seus alunos ou pessoas com ideias mais arejadas, como Pedro Demo ou o professor Bernardo Kipnis, da Faculdade de Educação da UnB, de quem fui aluno por mais de vinte anos. E digo que Bernardo foi o único professor que me ensinou a valorizar a liberdade de expressão e a me sentir motivado para aprender mais do que o previsto. Nunca se negou a ser avaliado, e deixou claro, desde sempre, que nós, alunos, é quem deveríamos assumir nossa avaliação e nosso aprendizado. O resto é tubaína.
RICARDO FERNANDES DE OLIVEIRA_SALVADOR/BA
MERCÚRIO
Mercúrio é uma substância e elemento químico com propriedades muito particulares, incluindo sua toxicidade. O artigo de Aparecida Vilaça (Mal invisível, piauí_176, maio) é muito detalhado sobre a contaminação em curso de povos indígenas em razão do garimpo desenfreado e criminoso na Amazônia. Porém, a descrição química do mercúrio ficou ao largo e poderia ser mais aprofundada e esclarecida, haja vista a natureza da revista e o espaço destinado à reflexão. Chamamos de espécies químicas as principais formas em que um elemento se apresenta, sendo, no caso do mercúrio, a metálica líquida que o define como tal, e é inofensiva. O problema começa com a espécie metálica e gasosa, extremamente absorvível e tóxica. As formas iônicas em diferentes estados de oxidação são as que melhor se transportam em meios aquosos, e a complexada (também em vários estados de oxidação), aquela que estará dentro de sistemas biológicos, causará os maiores estragos. Por fim, fica a sugestão de incorporar o artigo como um contraponto à série documental Arrabalde quando ela for publicada em livro – já que assim clamam os leitores. A imagem fortemente biológica que aqueles artigos trouxeram precisa ser completada pelos minerais que lá estão e para lá são levados.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
FICÇÃO
Sou incapaz de ver talento nos textos de Itamar Vieira Junior (Voltar, piauí_176, maio). Eles me soam forçados em todas as dimensões: as tramas hollywoodianas, os contextos exóticos e extraordinários, as tentativas de lirismo em descrições artificiais, as explicações masculinas de como as mulheres enxergam o mundo e o sucesso entre leitores e editores que buscam expiar suas culpas burguesas de maneira fácil e indolor. Adorei a ironia de ter Robert Walser (Passeios pelo interior) publicado logo em seguida: “Quanto menos um escritor precisar de ação e de entorno regional, mais significativo é com frequência seu talento. De antemão duvido de escritores que se sobressaem pelo enredo e necessitam do mundo inteiro para seus personagens.”
IURI BAPTISTA_CAMPINAS/SP
PIAUÍ_175
As matérias “Ai, meu Deus” e Eu existo!, publicadas na piauí_175, abril, são duas histórias que se complementam. De um lado, uma repórter descrevendo perfeitamente a loucura que é falar sobre celebridades – e agora também sobre as subcelebridades das redes sociais. Fazer jornalismo sem informação, de fato. É co-mo fazer feijoada sem feijão. Mas o brasileiro dá seu jeitinho.
Nessa esmagadora era das redes sociais, é o que rende. É o jogo.
Só nos resta fazer o melhor trabalho possível. E isso as formiguinhas operárias responsáveis pelo “trabalho sujo” do jornalismo digital fazem bem, com seriedade e responsabilidade.
Já do outro lado, só com um título – que nunca traria cliques para as redes sociais – Camille Lichotti consegue dar o tom de um texto PICA! Espaço, tempo de buscar boas histórias e escrever.
O resultado é esse. Uma matéria foda, com um texto que se preocupa em mostrar até mesmo a boataria que começou na pequena cidade após os primeiros casos de Covid-19 nos grupos de WhatsApp, usando frases dos próprios moradores.
Bela história, que tem seus tons cômicos, como o trecho “o prefeito mandou dizer que não tinha interesse em dar entrevista”, mas que arrebenta mesmo pela tristeza que é a realidade.
JUNIO SILVA_VALPARAÍSO DE GOIÁS/GO
IRMANDADE
Sou do Piauí e este nome rodopia como escárnio e atitudes pejorativas no restante do país.
Amo o meu estado, enfim…
Por isso, pergunto: Vocês já sofreram algum preconceito por ter uma revista com o nome piauí?
FRANCISCO JOSÉ ALVES DA SILVA_ALTOS/PI
NOTA ELUCIDATIVA E FILOSÓFICA DA REDAÇÃO: Perplexidade, sim; preconceito, nunca (ao menos, não que soubéssemos). É uma boa equação. Perplexidade se resolve esclarecendo a razão do nome, já preconceito é mais difícil de dirimir, até porque, hoje, a prática é incentivada publicamente. Basta pensar em certo pai, sua prole e seu entorno. Ficou em dúvida? Podem ser encontrados por aí andando de motocicleta.
ZZZZ
Quero muito agradecer-lhes. Sou um QUASE leitor da piauí. Explico: Tento ler a revista e não consigo; antes que chegue ao primeiro quarto da metade de uma coluna, um sono tremendo me aflige… e não consigo continuar a leitura. É um santo remédio.
JORGE ROBERTO AUN_SÃO PAULO/SP
NOTA TERAPÊUTICA DA REDAÇÃO: Ao longo dos anos e aqui mesmo nesta seção foram muitos os leitores que nos revelaram as diversas propriedades profiláticas da piauí. Ela evita insolação (revista sobre a cabeça), afugenta mosquito (usar como raquete), protege contra falta de ar em transporte público lotado (servindo de leque) etc. Agora vem Jorge nos abrir as portas do campo farmacológico, no qual ainda não atuávamos. Saiam para lá, benzodiazepínicos, hipnóticos e antidepressivos! A piauí pode ser assinada ou comprada na banca sem receita médica! Anvisa: Esqueça a cloroquina, que isso não leva a nada, e inclua logo a piauí no protocolo médico de combate à insônia!
DITADURA À LA CARTE
O prato polonês servido pelo Marcos Nogueira já não era nenhuma iguaria (O paladar dos tiranos, piauí_176, maio), mas quando ele escreve que o Fulgencio Batista era presidente e o Fidel Castro, déspota, aí desandou de vez.
EDUARDO AUGUSTO PEREIRA_RIO DE JANEIRO/RJ
IMORTAL
Estava lendo o romance A Claridade Lá Fora, da escritora gaúcha Martha Medeiros, quando me deparei com a seguinte passagem, à página 102: “Rosaura pegou uma publicação em papel, porém grande demais para ser uma revista. Leu o título, piauí. Achou que era um grande folheto turístico e abriu. Franziu os olhos.” A piauí foi imortalizada pela literatura brasileira. Parabéns!
CÉSAR DORNELES_PORTO ALEGRE/RS
NOTA REMISSIVA (MAIS UMA) DA REDAÇÃO: Isso nos deixa felizes. Em nome da precisão histórica, contudo, é preciso registrar que Martha Medeiros não foi a primeira a nos imortalizar. Como informamos na edição passada, somos citados por Kant (o Immanuel) num dos seus mais importantes tratados morais.
Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação:
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