CRÉDITO: GIORGIA MASSETANI_2025
Ilusões de nuvens
Uma plantação de algodão imensa com ninfas néfeles
Felipe Franco Munhoz | Edição 221, Fevereiro 2025
Epígrafe-escultura ~
Nimbus ~ Berndnaut Smilde
~ aerogel
Uma plantação de algodão: imensa. Entra o Coro de ninfas néfeles. Começa a tocar Cheryl Frances-Hoad: Cloud movements: III. Larghetto. Acima do palco, no alto, contra o céu azul da abóboda cenográfica, passa, pairante, uma nuvem. Solitária. Sujeita, em sua trajetória, a transformações estruturais; dentro dessa nuvem (única), ilumina-se um letreiro com a proposta de revelar-definir o formato vigente. Quem observa da plateia tal nuvem, porém, jura enxergar formatos outros (múltiplos) em relação ao que aparece escrito; quem observa da plateia tal nuvem, também, não concorda, em geral, com as interpretações de seu vizinho. Nuvem: cápsula de enigmas. Aparece escrito: 1. Gris copa de samaumeira amazônica, plongée; 2. Gris interrogação Por quê?; 3. Gris cogumelo nuclear; 4. Gris camelo surrealista com corcovas mil; 5. Gris camelo regular; 6. Gris dromed-não: cão; 7. Gris cão, calado e com boca escancarada.
Imóvel cão – feroz? –, desliza a Massa
da nuvem: densa e leve Massa (lã
poluta, cinza); à Massa o cão fracassa:
parece, a Massa, aberta forma, vã:
a Massa, enfim desfeita; foi-se, escassa.
E, no alto, resta apenas o céu azul da abóboda cenográfica. O movimento acaba: o mi conclusivo – e: vazio. E o céu azul da abóboda cenográfica vai ficando monótono, vai ficando irrelevante, sem graça. A promessa da chuva que não veio. Nada aconteceu. Nada acontecerá? Desconforto geral?
Epígrafe-escultura ~
Clouds ~ Olaf Breuning
~ alumínio
Surge, sobre o palco, misturada ao algodão, uma nuvem de pontos: projeção tridimensional de marmórea esfinge. Entra um – anacrônico? – hippie (segurando uma clepsidra portátil com fissuras). Decifre-nos, mesma essência, murmura, nebulosa?, a falsa esfinge.
Eu sou a jovem fita / cassete
(que não se rebobina – / jamais!);
e minha neta guarda nuvens, / intrainternet,
e minhas costas gritam dores / neandertais.
Ouvi, ao vivo, o pouso / na lua
(da nave, ao grande salto – / fiel?);
e, dela, a neta, o minidrone / pisca-flutua;
e tenta, a neta, em toques, clique / sobre papel.
Bonnie&Eu em divã:
lendo o paper tabloide;
Freud, fruta pagã,
jogos fora da lei;
Clique e: nude frontal,
juro, na polaroide –
mas a prova (o portal)
Eu estava: indo embora moscas volantes de consultório oftalmológico. São Paulo. 10h03. Pupilas dilatadas. Eu assisti: na televisão moscas volantes da sala de espera do consultório. Embaçado, era: Fumaça, ferro, concreto, horizonte, moscas volantes Fumaça, tudo estático, somente Fumaça em deslocamento; e era: Simone Duarte A torre acaba de desabar! Carlos Nascimento Desabou a torre. Desabou uma das torres do World Trade Center. Simone Duarte Uma das torres acaba de desabar! [Silêncio; !; alguém diz, ao fundo, a palavra “Nossa”.] Carlos Nascimento Bem… isso que nós ’tamos vendo [Entra um close da torre cadente e, sumiu a torre, uma trilha moscas volantes de rolos de fumaça – vulcão mais vulcão às avessas.]; é, eu volto a repetir: é um fato extraordinário; olha, nesse momento [Inicia-se um zoom out.] é o mo– é quando a torre desabou, uma das torres atingida pelo avião [Ruídos, ao fundo, indistintos.] desaba no centro da cidade de Nova [Ruídos indistintos e crescentes] York.
já, faz tempo, queimei.
Eu sou a fita – velha: / poeiras.
Você? Pior?
A nuvem de pontos reorganiza-se: marmóreo pufe. O hippie, agitando à frente as palmas moscas volantes, tenta sentar-se na projeção tridimensional; ele cai estatelado. Gelo-seco. O hippie é envolvido.
Epígrafe-escultura/poema visual ~
Isto não é uma nuvem ~ Lygia Pape
~ madeira, nylon, texto
Começa a tocar Augusta Read Thomas: Two e. e. cummings songs, Sky candy (ref. gravação da San Francisco Girls Chorus, de 2008). O gelo-seco, violeta e: vi o lets. O gelo-seco dissipa-se. O hippie e a clepsidra portátil com fissuras desapareceram. A nuvem de pontos reorganiza-se: marmórea esfinge. Entra uma – contemporânea? – scholar (pesquisando em celular brilhante). Decifre-nos, mesma essência, murmura, nebulosa?, a falsa esfinge.
Qual a primeira representação, em pintura,
de uma nuvem? Responde o Google,
responde o fórum Quora, responde
“Martin Fox, art historian”, que há
sugestões de nuvens em pinturas romanas,
tal qual (século I) no afresco O sacrifício
de Ifigênia (de incógnita autoria),
das ruínas Casa do Poeta Trágico,
em Pompeia, e há sugestões de nuvens
na pintura chinesa antiga (século VI ou VII),
na pintura narrativa Admoestações
da instrutora às damas da corte,
de Gu Kaizhi. Com protagonismo, porém,
Fox identifica nuvens (1130) na pintura
Montanhas nubladas, de Mi Youren.
Logo abaixo do historiador, responde
“Assistant, Bot”, a inteligência artificial,
que um dos exemplos mais antigos
de nuvens representadas em pintura
encontra-se (1600 a.C.) no
Afresco primavera [de incógnita autoria,
do sítio arqueológico Akrotiri],
na ilha grega de Santorini. Nova busca:
PINTURA PRIMEIRA NUVEM.
A scholar fica fascinada com o resultado The first cloud (1887), de William Quiller Orchardson. O recinto suntuoso, o elegante casal. Onde a primeira nuvem? Seria a primeira nuvem, o vestido da mulher de costas? Não: a scholar repara na distância entre o casal. Bastidores da burguesia britânica. A postura do homem de smoking, seus olhos abatidos; o reflexo da mulher, no vidro da janela, o espectro de um rosto. A lareira desprovida de fogo. A primeira nuvem é metafórica: é a promessa da chuva que virá. Em ensaio para a National Gallery of Victoria, o curador Ted Gott explica: ao ser exibida na Royal Academy, em Londres, o óleo era acompanhado por versos de Alfred Tennyson: Pequena fresta à flauta leva – assim,/no tempo: aos poucos – lás e fás ao fim. Gott indica, ainda, a presença do tapete oriental sob os pés do homem derrotado, pés abafados, amordaçados, e a presença do parquete sob os pés da mulher triunfante, pés (invisíveis, cobertos pelo vestido de festa) à iminência do Adeus que deixará, pelo ambiente, o eco do som dos sapatos de salto; aliada aos decassílabos, portanto, a pintura mostra “o presságio da chegada de uma feroz tempestade, que tudo engolirá”. Que destruirá o relacionamento. A primeira nuvem é o preâmbulo do colapso.
A derrota (off)
Quem dera nunca os nossos pés na festa.
Quem dera os meus sapatos menos gastos.
Epígrafe-escultura ~
Cloud gate ~ Anish Kapoor
~ aço inoxidável
O triunfo? (off)
Agora é tarde: o breu, no vidro, atesta.
Perdida, a linha?; pés traçaram rastos.
A nuvem de pontos reorganiza-se: marmóreo labirinto. Fog. A scholar é envolvida. Estrepsíades Não seria Zeus? O fog dissipa-se. A scholar e o celular brilhante desapareceram. Apenas a plant – Apenas o algodão sintético: fibras de poliéster. Começa a tocar Joni Mitchell: Both sides, now (2000). Acima do palco, no alto, contra o céu azul da abóboda cenográfica, regressa, pairante, Massa a nuvem. Sócrates Turbilhão do éter. 1. Gris trama esvoaçante de cabelo de anjo; É a nuvem de Oort, garante, da plateia, um observador; É a nuvem de Ulysses, na verdade, contesta seu vizinho, matutina, diminuta mão de mulher; Discordo: é, das mãos de Néfele, uma volumosa urna; Discordo: é uma pipoca; Discordo: são duas; Discordo: é uma das nuvens-pavimentos da Capela Sistina; Discordo: é, escaneada, impressa, recortada, uma folha de Goethe; Discordo: é o exato cão – feroz! – do início, calado e com boca escancarada.
Suspensa liga (de espanto),
Dispõe-se afável e tétrica,
mesclando gotas e luz,
mutante, a cápsula acima:
dilata lupas enquanto
demonstra o logro da métrica,
da forma, formas reduzdecreta a morte da rima
2. Gris castelo de sorvete; 3. Gris desfiladeiro de plumas; 4. Gris corpo nu, arcaico, em polaroide; 5. Gris envelope Nuvem Nove de plástico; 6. Gris rosto (é a neta do hippie) de uma criança; 7. Gris rosto (é um espelho), o reflexo de quem observa da plateia tal nuvem – rosto que fracassa, que se desfigura, que se rasga em retalhos: dispersando-se, escasso. O volume da música, a partir de 1’09”, começa a falhar 120dB0dB120dB0dB120dB: frestas à flauta?; até que, em 1’41” 0dB, a música é interrompida. Colapso? Upload. Blecaute.
