CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
“Somos brasileiros”
Um escritor narra as histórias da imigração japonesa
Tatiane de Assis | Edição 233, Fevereiro 2026
Na escola, o adolescente Oscar Nakasato era o “CDF gente boa”, com quem os colegas queriam estudar antes da prova. Também era um leitor voraz, desde a infância. Primeiro, foram os gibis típicos de sua geração, como Turma da Mônica, Pato Donald, Tio Patinhas. Depois, vieram os romances A ilha perdida e Éramos seis, da escritora paulista Maria José Dupré (1898-1984). “Aos 13, 14 anos, eu já lia Machado de Assis e Eça de Queiroz”, ele recorda. De vez em quando, como todo adolescente, Nakasato fazia pose: “Na biblioteca do colégio, havia uma edição de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Era um livro de capa dura, na cor vermelha. Nem li na época, mas ficava circulando com ele para impressionar os outros estudantes.”
Hoje, com 62 anos e três romances publicados – Nihonjin (2011), Dois (2017) e Ojiichan (2024) –, Nakasato não sabe definir bem de onde veio seu interesse pelos livros. A escola certamente influiu, mas ele não se lembra de um professor específico que lhe tenha indicado leituras marcantes.
Seus pais fizeram só o ensino fundamental. Primeira geração de descendentes de japoneses nascidos no Brasil, eles trabalhavam a terra no município de Floresta, no centro-norte do Paraná. Em 1972, Yassuo, o pai de Kakasato, decidiu mudar-se com a família para Maringá, a 30 km de Floresta, porque lá os filhos teriam acesso a escolas melhores.
Não foi uma mudança fácil para o pai: aos 40 anos, ele se empregou como contínuo na concessionária de carros de um primo. Sua mulher, Emiko, dividia o cotidiano de afazeres domésticos com serviços de costura, para ajudar no orçamento.
Oscar Nakasato começou a se afastar do convívio com nikkeis, como são chamados os descendentes de japoneses, no início da adolescência. Isso afetou até sua vida amorosa: ele passou a se interessar mais por garotas que não pertenciam à comunidade nipônica. Na hora do vestibular, resolveu se distanciar do estereótipo que associa estudantes de ascendência asiática às ciências exatas, e decidiu fazer direito na Universidade Estadual de Maringá (UEM), que ficava a meia quadra de sua casa.
Quando veio o resultado, ele se orgulhou. “Passei em primeiro lugar”, conta. Mas logo constatou que aquele não era o curso certo para ele, e só continuou porque trabalhava durante o dia e havia poucas opções de cursos no período noturno.
Dois anos e meio depois, porém, Nakasato desistiu de vez do direito. Passou alguns meses pensativo e indeciso – e acabou se matriculando no curso de letras. Uma escolha que sua irmã mais velha, Marcia Takahashi, hoje com 70 anos, considerou óbvia: “Esse negócio foi sempre o forte dele.” Ela lembra que o irmão cultivava não só o gosto pela leitura, mas também pela escrita: ainda bem jovem, sentado à escrivaninha, datilografava páginas e páginas em uma máquina de escrever Olivetti.
Quando trocou de curso, ele trabalhava na Caixa Econômica Federal e refletiu bastante antes da mudança. “Pensei: ‘Vou estudar letras porque gosto de literatura, mas dinheiro eu ganho de outro jeito.’ Eu não queria ser professor”, conta. Depois, Nakasato fez mestrado e doutorado em letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Assis. E acabou tomando gosto pela docência: lecionou por um tempo na UEM e, em 1996, tornou-se professor titular no Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, atual Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
Ao se lançar como escritor, perto dos 50 anos, Nakasato já voltara a se aproximar da cultura nipônica e dos nikkeis – até chegou a fazer um curso de japonês. Nihonjin, seu romance de estreia, é reflexo dessa reconciliação: trata da experiência dos imigrantes japoneses ao longo de três gerações. A trama, apesar do apreço do escritor pela tradição japonesa, também ressalta as variadas tensões enfrentadas pelos descendentes. Um dos personagens, Haruo, em crise, pergunta-se sobre sua identidade: se seria japonês ou brasileiro.
Há traços biográficos na história, mas o autor faz questão de frisar que não transpôs sua vida para os livros. “São romances de ficção”, ele ressalta. Nihonjin foi selecionado para publicação em um concurso de obras inéditas promovido pelo selo Benvirá, da editora Saraiva, em 2011, e ganhou no ano seguinte o Prêmio Jabuti de melhor Romance Literário. Em 2025, o livro (relançado pela editora Fósforo) foi adaptado para um filme de animação, Eu e meu avô nihonjin, dirigido por Celia Catunda. Para ler o título – nihonjin significa “pessoa japonesa” –, basta pronunciar o “j” como “dj”, ensina o autor.
“Eu sei de escritores que têm tudo muito planejado na cabeça quando começam a escrever. Parece que o Milton Hatoum trabalha um pouquinho dessa forma. Eu, não”, diz Nakasato. “Quando eu tenho uma ideia, já coloco logo no papel.”
Apesar dessa ventilada despretensão, a editora Eloah Pina, com quem o escritor trabalhou na Fósforo, diz que não é bem assim. “Para o seu terceiro romance, Ojiichan [avô, em japonês], ele fez previamente uma pesquisa muito ampla sobre como vivem as pessoas da terceira idade na comunidade nipo-brasileira”, diz Pina. “Ele é um autor muito cioso, disciplinado.”
Nihonjin também foi precedido por uma pesquisa: o doutorado de Nakasato. Ele mapeou os personagens nikkeis na literatura brasileira entre as décadas de 1920 e 1990 – e ficou frustrado com o que descobriu. “Tanaka foi o primeiro personagem nipônico que eu encontrei, em Amar, verbo intransitivo [publicado em 1927], de Mário de Andrade”, conta. “Até a década de 1980, há poucos. O que muda é que, na década de 1970, alguns escritores nikkeis também começaram a publicar suas histórias.”
Ele diz que atualmente personagens de origem nipônica têm aparecido em obras escritas por autores nikkeis e não nikkeis, e cita autores como Adriana Lisboa, Ana Shitara, Bernardo Carvalho e Marilia Kubota. Ainda é pouco, mas Nakasato vê avanços. “Havia antes um estereótipo negativo. Depois, houve um estereótipo positivo”, diz. “Agora, acho que os descendentes de japoneses no Brasil estão sendo bem representados, realmente. E como brasileiros. Nós somos brasileiros.”
