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INFINITO PARTICULAR

A aventura de traduzir a poeta Louise Glück

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A poesia de Louise Glück me incendiou em meados de 2019. Embora a memória seja também invenção, parte da imaginação de nossa presença sobre a Terra, lembro com nitidez: num sábado à tarde, em São Paulo, visitava um amigo e jogávamos conversa fora. Assuntos de sempre, aqueles que não se exaurem porque endossam nossa existência, uma intimidade fundada em poesia e música. De supetão, meu amigo se levantou para comprar gelo, sua festa começaria dali a pouco. Ele não quis companhia. Eu fiquei sob a claridade da conversa e alcancei, num cesto ao lado do sofá, um exemplar antigo da revista New Yorker. Edição de 11 de dezembro de 2017, a capa mostrando um engarrafamento de árvores de Natal no metrô (Tom Gauld assinava o desenho). Abri a revista: Life, my sister said,/is like a torch passed now/from the body to the mind./Sadly, she went on, the mind is not/there to receive it. (A vida, disse minha irmã,/é como uma tocha que agora passa/do corpo para a mente./Que triste, ela continuou, a mente não/estar ali para recebê-la.)

Perdão, João, mas eu arranquei a página e a guardei na bolsa. Precisava de um dia sem ressaca para traduzir o poema todo – Autumn (Outono), joia lapidada por uma mulher de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas que parecia falar comigo. É assim, às vezes, na vida que forjamos a partir dos chamuscos provocados por alguns versos.

Releio hoje a tradução que fiz daquela estrofe e a considero insatisfatória. Na época, traduzi mind como espírito. Sofistiquei demais o que deveria ser despojado. Por isso, reproduzo aqui a tradução da saudosa mestra Heloisa Jahn, que morreu no ano passado.

A convite da poeta Alice Sant’Anna, logo depois de a autora nova-iorquina ganhar o Nobel de Literatura de 2020, tive a alegria de traduzir parte de Poemas 2006-2014, coletânea lançada pela Companhia das Letras em junho de 2021. A obra reúne três livros de Glück, até então inéditos no Brasil: Averno (2006), Uma vida no interior (2009) e Noite fiel e virtuosa (2014). Helô traduziu o primeiro e Marília Garcia se encarregou do terceiro. Fiquei com o segundo. Na verdade, torci para que fosse confiado a mim. Eu o frequentava havia meses e me sentia desafiada por sua simplicidade aparente, que evidenciava um conhecimento profundo da matéria humana.

Glück situou o livro de 2009 num vilarejo montanhoso. De lá, escreveu sobre a superfície que a circundava (a vida), mas sem deixar de escarafunchar as zonas temerosas (a morte). Revelou, assim, luminosidades insuspeitas do ser. Graças a Uma vida no interior, cresci como leitora: aprendi árvores e frutas, a natureza semelhante das paixões e das famílias, a saudade e a solidão. Reconheci que Glück pintava sua aldeia – íntima e geográfica – para voltar a habitá-la. Em consequência, pintava outras aldeias, também a minha, para que eu voltasse a habitá-la.

Nos despedimos da autora no mês passado. Oitenta anos, uma vida inteira dedicada à escrita do poema. Ela nos deixou outros doze livros de poesia, além de uma ficção curta (Marigold and Rose: a fiction) e dois volumes de ensaios, um legado que começou a vir a público no final da década de 1960. Talvez por ter ensinado literatura em escolas e universidades dos Estados Unidos durante muito tempo, e apesar de vencer outros prêmios importantes, como o Pulitzer, Glück circulou com bastante discrição no meio intelectual. É difícil, inclusive, definir a linhagem de sua poesia, um amálgama de mitologia clássica, psicanálise, filosofia e cotidiano. Entre seus contemporâneos americanos, a autora quiçá dialogasse com Sylvia Plath, pela magnitude do sombrio, ou com Anne Sexton, pela reflexão sobre relações familiares e de amizade (ainda que Glück fosse bem menos ferina que Sexton).

A experiência de traduzir uma poeta viva e filiada sobretudo a si mesma foi, digamos, aventurosa (e venturosa). Como toda grande poeta é sobretudo filiada a si mesma, há algo de que nenhuma delas consegue escapar: o som de sua própria voz, os registros em áudio e vídeo que perpetuam suas cordas vocais a disseminar versos no espaço. Voz é escansão. A maneira como poetas leem seus poemas geralmente se assemelha à maneira como os escrevem, já que os escrevem no compasso muito particular de seu pensamento. Se puser em suspensão a timidez ou certa inabilidade para projetar a voz, o leitor que ouve enquanto lê será capaz de captar o ritmo do pensamento de quem escreve.

Ler e reler Uma vida no interior não me pareceu suficiente. Dispus-me a escutar os registros da voz de Glück – há várias gravações na internet. Desse modo, pude viver seus poemas pelo ouvido. Não bastasse, fiz questão de lê-los em voz alta e de me perguntar a todo momento: do que é feita a voz de Glück, o que suas inflexões me dizem, que notas essa voz me dá com mais frequência? Se isso não é um jeito de admirar ainda mais poetas que admiramos, é uma armadilha que criei para mim mesma. Buscava ouvi-la ou me ouvir? No fundo, buscava nós duas. Por isso, se escreve e também por isso se traduz: para ir ao encontro do ímã que atrai o indefinido – fator movente da criação e da transcriação, o mistério da poesia e do amor.

Traduzir é amar melhor poetas que amamos para fazer com que outras pessoas amem seus poemas e sejam amadas de lambuja. Um ato de generosidade e agradecimento. Traduzir poesia é um gesto visto por tanta gente como uma tarefa que não se coaduna com a realidade – uma missão impossível. Justo por essa razão insisto em traduzir poesia, para amar mais e melhor o que sempre me será desconhecido e, por isso, nunca deve parar de brilhar dentro dos meus olhos.


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É autora de alguns livros de poesia, entre eles Veludo rouco (Companhia das Letras), e um de ensaio Uma encarnação encarnada em mim: cosmogonias encruzilhadas em Stella do Patrocínio (José Olympio).