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    CRÉDITO: REBERSON ALEXANDRE_2026

ficção

Intolerâncias

Sobrevivências e efeitos colaterais

Paulo Vicente Cruz | Edição 235, Abril 2026

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LACTOSE

Evito leite e derivados. Fujo dos desconfortos gastrointestinais que me causam. Muita gente me evita, também fugindo de desconfortos. A mulher na esquina segura a bolsa mais firme enquanto eu passo. Suas vísceras imaginam o perigo, acendem o alerta. Eleva-se o nível de cortisol no seu corpo um tanto decadente, que segura uma falsificação tosca de uma marca de bolsas de couro. No meu caso, uma certa inconsequência e a inevitável necessidade de enfrentar um mundo com traços de leite até num cream cracker insosso me fazem ignorar, por vezes, os riscos ou ingerir doses de enzima sintetizada para digerir enfrentamentos inescapáveis. A ciência ainda precisa avançar muito para que uma idosa com uma bolsa falsificada possa lidar com o medo que minha presença gera por meio de artifício semelhante.

Um cálculo feito na velocidade da luz não dá tempo de transformar em palavras tudo que se passa na cabeça dessa mulher. Existe apenas a resposta de suas entranhas ao que ela pensa e não tem coragem de nomear. Uma bolsa roubada, um celular perdido, um cartão bancário a cancelar. Imagina se alguém à minha semelhança namorasse a sua neta. Não sabe muito bem se o temor é de um possível crime, dos desejos da neta ou do mundo que avalia estar virado. Ela apenas segura o que tem – a vida voa mesmo. Algo que certamente já não possui é a infância da netinha, a quem entupia com bolos cheios de açúcar e farinha Dona Benta, feitos por alguém que tratava como se fosse Tia Nastácia. A menina já cresceu e ela não pode controlar de quem a garota vai gostar. Essa juventude é mesmo idiota. Embora ela ache isso, não fala para a moça.

 

O que eu tenho a ver com esse saco feito de imitação de pele bovina, com esse cartão com dinheiro de uma aposentadoria parca, com essa carteira cheia de fotos 3×4 de gente mimada, com esse telefone de armazenamento comprometido, com essa neta que espero nunca conhecer? Não vale a pena falar nada disso para esse aglomerado de ressentimento com ar de desproteção. Não dá tempo. Lactose demais no almoço. Raiva em demasia por dentro. Dor de barriga, dor de estômago, náusea. Só a pressa para atravessar a linha de chegada de casa. O prêmio é uma privada onde tudo vai para fora. Não tem enzima que dê jeito. Um jato forte sai da boca. Algum alívio, mas a certeza de uma próxima vez.

 

HERÓIS

A gente sabe o que tem que fazer. Não tem conversa. É meter o pé na porta, dar porrada em quem aparecer na frente pra defender, pegar o bandido e dar porrada também. Muita porrada! Se não tiver ninguém pra testemunhar a gente salvando a humanidade desses vermes, batemos mais, penduramos de cabeça pra baixo, fazemos eles confessarem olhando pra uma câmera. Depois é só deixar os idiotas na porta de uma delegacia com uma placa escrito “presente” pendurada no pescoço. Se o dia for de mau humor, simplesmente ocultamos o cadáver.

 

Mas isso é método pra coisa pequena. Se o negócio for mais complicado, ameaça à nação ou a algum milionário, destruição do planeta com um método que não seja o nosso, aí o caldo entorna. Tem que voar mais rápido que o som até a terra desses desgraçados e jogar meteorito, lançar o raio vermelho e quente que sai dos nossos olhos e mostrar quem manda. É uma pena… Às vezes morre também quem não tem nada a ver com o rolo. Mas faz parte. Tem gente que nasce ou está no lugar errado na hora errada.

Não negociamos. A gente sabe o que é o certo. Ação! Máquina! Somos homens de aço (Tá bom… Mulheres também). Nosso negócio é agir. Não há beleza, a não ser na luta. Detestamos os fracos, mas precisamos deles. É preciso ter quem proteger e quem ateste que somos fortes. Por isso, depois de toda destruição produzida por nós, salvamos os moribundos das ruínas. E, se alguém verdadeiramente nos importa, damos a volta ao mundo na velocidade da luz em direção contrária à rotação da Terra. Faremos o tempo voltar. Ressuscitaremos quem achamos que vale a pena.

Nós somos heróis. Não queremos a paz. A gente não quer saber nome, história, motivo, antecedentes. Mandamos ver. A justiça somos nós. Se não tem medo, se não tem perigo, não tem razão para nossa superforça mutante, pra nossa viagem numa cápsula até este lugar. Farão filmes sobre nós. Escreverão sobre nosso legado. Vão disfarçar bem o pavor. Seremos homenageados. Vamos acreditar que nos amam e que somos bons.

 

 

CHUVA

Não suporto chuva. As garoas ainda são aceitáveis, mas chuva mesmo não dá. Não moro num paraíso campestre, onde o frescor da água e o cheiro de terra molhada renovam tudo. O que cai do céu encharca as grandes cidades, transformando as ruas numa grande sopa de lixo e leptospirose potencial. Bueiros entupidos ajudam a formar rios de cor marrom. Os carros e ônibus superlotados navegam com dificuldade. Há quem precise negociar com goteiras domésticas e rezar para que o chão que sustenta as casas não desmanche. Por sorte, levanto a mão neste dia irritante e um táxi não me ignora. Por sorte, meus recursos me permitem pegar um táxi. Por sorte, tenho uma casa segura e sem goteiras em um bairro menos negligenciado por governantes. Por sorte, vou trocar estas roupas ensopadas por outras secas. Isso depois de um banho quente que virá da água encanada que abastece a residência.

Por ora, aguento o pedágio de ouvir o motorista falastrão que me conduz para casa. “Meu filho, a cidade quando chove é essa zona. Vou te dizer, isso é assim há muito tempo. Você é novo, não deve saber, mas já foi até pior.” Ele interrompe por um minuto para meter a mão na buzina e xingar o carro da frente. “Mas chuva não é nada. O problema da cidade é a violência. Tu é garoto, não viveu isso, mas teve um tempo que era mais tranquilo. Agora tá demais. A questão é que todo mundo quer fazer carinho em bandido agora.” Não vou perguntar para o sujeito de que bandidos ele está falando nem de que tempo. Desviar é mais prático. “Qual é a previsão pra chegar, senhor?” Eu o chamo assim, embora tenhamos aparentemente idades próximas – a educação é um vício por vezes inconveniente. “O GPS tá dando aqui 20 minutos.” Ele volta à carga. “Você… Dá pra ver que é um garoto legal. Tá aí arrumadinho, óculos, cara de trabalhador. Mas tem uns aí que eu não paro pra pegar, não. Garoto, aprende uma coisa. Tem que confiar no faro, na intuição. Eu não arrisco. Não vou com a cara, não paro.” Em que momento as pessoas viram cretinas? Talvez seja desperdício tentar descobrir a origem de certas misérias. Não quero saber. Quero só que esse sujeito pare de falar. Desejo apenas chegar em casa. “Menino, viu o que aconteceu ontem? A cidade parou. Dizem que vai parar de novo. Eu vou pra casa depois dessa corrida e não saio mais hoje. Guerra. A gente tá vivendo uma guerra.” Tento protelar a decisão: descer do carro desse infeliz. Detesto chuva! Não quero meter o meu pé na poça. Sempre penso que no meio de uma poça pode ter uma bosta de cachorro submersa. Já pensou? Pisar na poça e na bosta? Dizem que pisar na bosta dá sorte, mas é bobagem. Nesse caso seria azar duplo. De toda forma, não é exatamente auspicioso dividir o espaço de um carro em mau estado de conservação com um indivíduo que jura que é decente, tratando um homem negro de 50 anos como se fosse um menino.

O sinal está fechado. Uma sinfonia de buzinas tenta apressar a mudança de cor do vermelho para o verde. Não funciona. Nem o sinal abre nem o engarrafamento diminui. Nunca ando com dinheiro, mas tenho hoje uma nota que vale o dobro do trecho percorrido. “Eu fico aqui.” Estico o braço para entregar a cédula. O sujeito tenta dizer alguma coisa, mas já estou abrindo a porta sem esperar o troco. Piso em cheio numa poça enorme, mas não tem nenhuma merda submersa. Corro até o ponto de ônibus. Vou entrar no próximo, lotado de gente molhada e sobrevivente de explorações laborais. Não suporto chuva. Estou encharcado, de saco cheio. Isso não é sorte e não sou garoto de ninguém.

Paulo Vicente Cruz
Paulo Vicente Cruz

É jornalista e escritor. Publicou Enquanto os gigantes dançam (contos), Não caberá (poemas), ambos pela Quelônio, e o romance A vida não é um animal doméstico (Diadorim).

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