anais do aparelhamento

“IRRUUUU!!”

Como Bolsonaro transformou a TV Brasil na sua emissora
Imagem “Irruuuu!!”

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Milhares de crianças brasileiras assistiam ao seriado infantil Bugados quando a programação da televisão foi abruptamente interrompida. No lugar dos atores mirins, surgiu na tela a imagem do presidente Jair Bolsonaro, que visitava as obras da construção de uma ponte sobre o Rio Araguaia, no Norte do Tocantins. À sua frente, os apoiadores gritavam: “Mito, mito!” Bolsonaro esperou que fizessem silêncio e começou o seu discurso. Falou de tudo. Lembrou da guerrilha no Araguaia (“O bem venceu, derrotamos os comunistas!”), recitou seus slogans (“Deus, pátria, família, liberdade”) e encerrou com o grito dos rodeios: “Irruuuu!!” A plateia delirou. Transmitida ao vivo em cadeia nacional em plena tarde de uma terça-feira de março, a cena durou sete minutos e quinze segundos, cortando o programa da criançada.

Aparições como essa, assim relâmpago, sem aviso prévio, estão cada vez mais comuns na TV Brasil, a primeira emissora pública brasileira com alcance nacional, criada há quinze anos. Na mesma semana de março, quem assistia à animação infantil Eu Sou um Gênio teve de ouvir vinte minutos de Bolsonaro defendendo armar a população e lançando suspeitas sobre as urnas eletrônicas. Poucos dias depois, em 31 de março, quando os militares comemoraram os 58 anos do golpe de 1964, o programa Tem Criança na Cozinha também foi interrompido para mostrar Bolsonaro discursando num evento no Palácio do Planalto. Elogiou alguns generais que presidiram o país no curso dos 21 anos de ditadura e, como de praxe, atacou os ministros do Supremo Tribunal Federal: “Nós aqui temos tudo para sermos uma grande nação. Temos tudo, o que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não tem ideias, cala a boca! Bota a tua toga e fica aí!”, esbravejou, sob aplausos. O discurso durou quarenta minutos e embaralhou tanto a programação da TV Brasil que o telejornal da tarde foi ao ar com 25 minutos de atraso.

Às vezes, depois das interrupções para mostrar Bolsonaro, a programação regular nem é retomada. “Já aconteceu de termos dois convidados no estúdio, esperando para serem entrevistados, e um dos blocos do programa não ir ao ar porque o Bolsonaro apareceu fazendo um discurso. A gente ficou sem saber o que dizer para os convidados”, conta uma jornalista que trabalhou na produção do Sem Censura, um dos carros-chefes da programação da TV Brasil, e que pediu o anonimato com receio de ser retaliada por seus chefes. Em outra ocasião, o Sem Censura preparou uma edição especial sobre os 70 anos da televisão no Brasil, que incluía entrevistas com o ator Tony Ramos e o locutor Cid Moreira, veteranos da tevê brasileira. O depoimento do ator foi ao ar na íntegra. Quando chegou a vez de Cid Moreira, a transmissão foi cortada para transmitir Bolsonaro pilotando uma plantadeira em Sorriso (MT), no lançamento simbólico da safra de soja. Nesse caso, nem houve discurso. A coisa saiu no estilo Kim Jong-un: Bolsonaro dirigindo uma máquina em uma fazenda por intermináveis dez minutos.

Numa sexta-feira de março, a programação chegou a ser interrompida três vezes ao longo do dia. Pela manhã, Bolsonaro apareceu na cerimônia de lançamento de um pacote de medidas econômicas. Fez um discurso. À tarde, na assinatura de um acordo para a regularização de terras no Distrito Federal, fez outro discurso. À noite, voltou à tela numa solenidade de entrega de medalhas Ordem do Mérito a autoridades públicas, no Ministério da Justiça. Mais um discurso. Em todos, comportou-se como num palanque: criticou governadores e prefeitos pelo lockdown na pandemia, chamou a ex-presidente Dilma Rousseff de “presidanta”, os militantes do MST de “marginais”, e defendeu, mais uma vez, armar a população. “Povo armado acima de tudo”, arrematou.

Na campanha presidencial de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro demonizou a TV Brasil. Dizia que a emissora só existia para fazer propaganda do PT e de Lula, e prometeu fechá-la ou vendê-la, caso vencesse a eleição. Em outubro, na sua primeira entrevista como presidente eleito, dobrou a aposta. “Nós não queremos propaganda”, disse em entrevista à TV Record. “A nossa tevê oficial… É ideia nossa privatizar ou extinguir. Não podemos gastar mais de 1 bilhão por ano com uma empresa que tem traço de audiência.” A audiência, de fato, nunca foi grande coisa, mas o gasto estava inflado. Naquele ano, o orçamento da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável por administrar a TV Brasil, era de 723 milhões de reais.

Em maio de 2019, em seu quinto mês de mandato, Bolsonaro ainda garantia que a EBC seria fechada ou vendida. “Tá decidida essa questão”, afirmou, ao apresentador do programa The Noite, Danilo Gentili, no SBT. “A EBC como um todo é um grande peso para todos nós. Mesmo sendo privatizada ou extinta vai continuar pesando, tendo em vista a quantidade enorme de funcionários concursados.” A má vontade com a emissora não era original. Quando foi criada pelo governo Lula em 2007, a EBC já era duramente criticada pela oposição de direita. Na época, o então deputado federal Onyx Lorenzoni, em discurso na Câmara, questionou: “Que necessidade há de o Brasil criar uma tevê para dar proteção, fazer ode e jogar confete e incenso no presidente da República?”

Em abril de 2019, um mês antes de dizer que “tá decidida essa questão”, Bolsonaro tomara a direção oposta: fundiu a TV Brasil com a NBR. A TV Brasil foi criada para ser uma emissora pública, sem influência do governo em sua linha editorial, à semelhança do que acontece com a BBC inglesa. Já a NBR, fundada em 1998, tinha o propósito inverso: era uma emissora do governo, destinada a fazer publicidade das ações do Poder Executivo. Com a fusão, Bolsonaro juntou jornalismo com propaganda – e tudo virou propaganda. Se Lula tinha “uma tevê só para ele”, como acusavam os adversários, Bolsonaro passou a ter duas. E Onyx Lorenzoni tomou um gosto danado por confete e incenso. Vive dando entrevista à TV Brasil para falar bem do governo.

No plano formal, as duas emissoras continuam existindo em separado. Uma segue se chamando TV Brasil e a outra trocou o nome de NBR para TV Brasil 2. Mas, na prática, elas são indistinguíveis. A programação da ex-NBR, de divulgação das ações do governo, vive transbordando para a da TV Brasil, cuja audiência é maior. Em razão disso, entre agosto de 2020 e julho de 2021, as aparições-surpresa de Bolsonaro ocuparam 158 horas da programação da TV Brasil, segundo levantamento da Ouvidoria Cidadã, um grupo voluntário formado por funcionários e ex-funcionários da EBC que se impuseram a missão de chamar a atenção para o desmonte da empresa. As 158 horas correspondem à exibição de uma novela inteira da Globo, do primeiro ao último capítulo, e mais metade de outra novela.

Hoje, a TV Brasil tem canal próprio em três cidades – Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. A audiência é baixa. Seus programas mais populares chegam a 1,6 ponto no Ibope, o que, na capital paulista, corresponde a 328 mil telespectadores. Nas demais capitais, embora a emissora não tenha canal próprio, seu conteúdo é reproduzido pelas tevês estaduais, o que acaba ampliando o alcance. Em janeiro deste ano, segundo o Kantar Ibope Media, cerca de 18 milhões de brasileiros assistiram à emissora em algum momento. Nada que se compare à audiência de um império televisivo como a Rede Globo, mas também não é desprezível para um presidente em campanha pela reeleição.

Desde o início, o governo Bolsonaro executa um projeto metódico de destruição, como ele próprio anunciou no célebre jantar na residência do embaixador brasileiro em Washington, em março de 2019. “O Brasil não é um terreno aberto, onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo”, disse Bolsonaro na ocasião, dirigindo-se aos convidados, que incluíam representantes da extrema direita norte-americana. “Nós temos é que desconstruir muita coisa.” Bolsonaro esclareceu que ficaria satisfeito se conseguisse completar a missão de demolição geral, frisando que a tarefa de reconstrução, de colocar algo no lugar do que foi desmontado, não caberia a ele.

O plano tem sido cumprido à risca para onde quer que se olhe: na Polícia Federal, na Anvisa, na Cinemateca, no Ibama, no Inep, na Fundação Palmares, na Funai, nas Forças Armadas, no MEC, na Procuradoria-Geral da República – a lista é interminável. Nesse contexto furioso de aniquilamento, não surpreende que o projeto para construir um sistema de comunicação pública no Brasil – pública, e não estatal – esteja sendo demolido pela via do aparelhamento político-eleitoral. Para tanto, Bolsonaro tem aliados ideológicos cujo trabalho pode servir de inspiração.

Um caso exemplar de uso inescrupuloso de uma emissora estatal vem da Hungria de Viktor Orbán, o extremista que Bolsonaro chamou de “irmão” quando o visitou em Budapeste, em fevereiro passado. Durante a recente campanha eleitoral, ao final da qual Orbán conquistou seu quarto mandato consecutivo, a televisão estatal foi usada com apuro. Enquanto Orbán recebeu intensa cobertura – em eventos, viagens, inaugurações, discursos –, a emissora estatal m1, a de maior audiência no país, concedeu ao seu principal adversário, Péter Márki-Zay, nada além de cinco minutos.

Aconteceu o seguinte: Márki-Zay foi ao estúdio, sentou-se a uma mesa redonda e, entre ele e o apresentador, havia um grande relógio marcando o tempo. Márki-Zay começou com um irônico balanço de sua ausência da programação da estatal durante os quatro anos anteriores: “Muito obrigado, muito obrigado pela oportunidade de falar cinco minutos em quatro anos. Muito obrigado.” Assim que o relógio bateu cinco minutos, a transmissão terminou. Seus cinco minutos não foram transmitidos em horário nobre. Era uma quarta-feira de manhã. Márki-Zay não voltou mais a aparecer na tela da tevê. Dias antes, a tevê exibiu um discurso de Orbán – durou uma hora.

No governo Bolsonaro, a TV Brasil passou a cumprir um papel semelhante. No noticiário político da emissora, os candidatos de oposição nunca aparecem – principalmente Lula, o líder das pesquisas. O então governador de São Paulo, João Doria, não apareceu na tela da emissora nem mesmo no domingo, 17 de janeiro de 2021, quando promoveu a aplicação da primeira dose de vacina contra a Covid no Brasil, o que representou uma vitória substancial sobre Bolsonaro. Só no dia seguinte a TV Brasil noticiou o assunto, mas o fez com peculiaridade húngara: como recebera as imagens geradas pelo governo de São Paulo, a emissora escalou seus editores de vídeo para selecionar apenas cenas em que Doria não aparecia.

Mas o uso político-eleitoral da TV Brasil só entrou no radar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em julho do ano passado, quando a tevê transmitiu uma live de duas horas em que Bolsonaro, sem apresentar uma única evidência, denunciava que as urnas eletrônicas já tinham sido fraudadas e insinuava que voltariam a sê-lo. O TSE abriu um inquérito para investigar se Bolsonaro havia cometido crime ao fazer essas denúncias sem cabimento e, dentro desse inquérito, convocou os diretores da EBC para depor. Mas tudo acabou com uma mudança cosmética: daquele momento em diante, temendo uma reação mais dura do TSE, a emissora deixou de transmitir eventos presidenciais na íntegra. Passou a interromper sua programação apenas quando Bolsonaro vai discursar.

A existência da EBC sempre foi uma aberração para as convicções liberais do ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas a conveniência do presidente em usá-la politicamente, associada às dificuldades técnicas de privatizá-la – seus canais de tevê e rádio não podem ser vendidos e teriam de passar por um novo processo de outorga federal, e seu parque tecnológico está obsoleto –, acabou colocando os planos de venda em banho-maria. Em maio de 2020, Bolsonaro autorizou o estudo de parcerias entre a EBC e a iniciativa privada. Um ano depois, a empresa entrou no Programa Nacional de Desestatização, mas o estudo de viabilidade a cargo do BNDES não ficou pronto até hoje.

Ninguém acredita que o plano de privatização avance em pleno ano de eleições. Nos bastidores do Ministério das Comunicações, não se fala mais em vender, mas em “otimizar” a EBC – ou seja, fica tudo mais ou menos como está, talvez com redução de gastos (orçamento anual de 641 milhões de reais) e de pessoal (1,7 mil funcionários). “O governo percebeu que é importante ter um sistema de comunicação”, diz uma assessora do ministério, que pede para se manter no anonimato, pois não tem autorização para falar em nome do governo. Na verdade, Bolsonaro se deu conta da relevância da emissora logo no primeiro dia de governo.

Em 1º de janeiro de 2019, a EBC pôs na rua uma operação sem precedentes para cobrir a posse de Bolsonaro. Tradicionalmente, cabe à empresa coordenar o pool de emissoras públicas e privadas que transmitem a cerimônia. Naquele ano, porém, a EBC montou uma estrutura inédita. O então presidente da empresa, Luiz Antonio Ferreira – remanescente do governo de Michel Temer –, pôs a serviço da TV Brasil dezenas de câmeras e três unidades móveis, como são chamados os caminhões que carregam a estrutura da tevê para áreas externas. Uma antena de internet foi contratada especialmente para a ocasião, a fim de garantir o acesso dos jornalistas à rede ao longo do dia. Além da TV Brasil, outros veículos da EBC, como a Rádio Nacional e a Agência Brasil, mobilizaram todas as suas equipes para cobrir ao vivo a cerimônia por horas a fio.

“Foi uma operação incomum, que não tínhamos feito até então”, relembra um funcionário da emissora, que acompanhou o evento e pediu para não ter seu nome citado. “Claramente a ideia era tentar agradar o Bolsonaro para ele não fechar a EBC.” A estratégia deu certo. Encerrados os trabalhos, os jornalistas souberam por meio de seus chefes que a cobertura havia sido muito elogiada no Palácio do Planalto, sobretudo pelos militares. “A equipe nos bastidores ficou enlouquecida quando soube que a repercussão tinha sido boa”, conta Kariane Costa, repórter da Rádio Nacional e representante dos funcionários no Conselho de Administração da EBC. Ela participou da cobertura em Brasília. “Acho que aquele dia foi um ponto de virada.”

O primeiro Sete de Setembro do governo Bolsonaro também foi marcante. Na ocasião, a TV Brasil produziu um clipe afinado com a estética bolsonarista: imagens de ministros – militares e civis – cantando o Hino Nacional de forma solene alternavam-se com filmagens da bandeira do Brasil tremulando no Planalto e cidadãos comuns vestindo a camiseta da Seleção. Na cobertura do desfile militar, em Brasília, os repórteres entrevistaram oficiais de várias patentes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O vice-presidente Hamilton Mourão falou sobre sua admiração pelos pracinhas brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial. Bolsonaro, minutos antes de sair para o desfile, deu entrevista à emissora.

A hashtag #TVbrasilno7 foi reproduzida milhares de vezes no Twitter. Ao longo do dia, a emissora atingiu o quarto lugar no ranking de audiência no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. “O pessoal da transmissão estava dando pirueta de costas, inclusive gente que era de esquerda. Nós ficamos sabendo que o Bolsonaro amou a cobertura”, diz um ex-funcionário que trabalhou na parte técnica da transmissão. O novo presidente da EBC, Luiz Carlos Pereira Gomes – ele próprio um general da reserva do Exército, que acabara de ser nomeado por Bolsonaro – não conteve a alegria. Num comunicado aos funcionários, dias mais tarde, celebrou a cobertura do Sete de Setembro: “Foi um sucesso! Este é o padrão EBC, padrão de EXCELÊNCIA.”

Um jornalista da Rádio Nacional, baseado no Rio de Janeiro, que também teme retaliações se tiver sua identidade revelada, compara a situação dos funcionários da EBC à dos escravos gregos. “Quando os romanos dominaram a Grécia, descobriram que os gregos sabiam mais do que eles, sabiam mais matemática, mais geometria, tudo. E aí cada romano passou a ter um escravo grego para fazer as coisas por ele”, diz o jornalista, para concluir: “A EBC, para os bolsonaristas, virou isso: nós fazemos o que eles sozinhos não sabem fazer. Eles perceberam que nós podemos ser úteis.”

Em outubro de 2007, no primeiro ano do seu segundo mandato, Lula assinou o decreto de criação da EBC, respondendo a uma antiga demanda de movimentos sociais e estudiosos que defendiam a criação de um sistema público de comunicação no país, capaz de veicular conteúdos relevantes que não atraem o interesse da mídia tradicional por falta de apelo comercial – como acontece com a programação infantil, desde que a publicidade voltada para crianças foi proibida no Brasil. (A TV Brasil é hoje a única opção de entretenimento na tevê aberta para crianças, razão pela qual essa faixa de horário é uma das que rendem a maior audiência da emissora.)

Financiada com dinheiro público, a EBC passou a englobar tudo o que havia de público e estatal na área – a Rádio MEC, a TVE do Rio de Janeiro, a TVE do Maranhão e a Radiobrás, criada na ditadura militar, que aglutinava a Rádio Nacional, a Agência Brasil e a TV Nacional. A EBC nasceu para ser a versão brasileira de emissoras públicas que, há décadas, existiam na Europa, como a portuguesa RTP e a italiana RAI, mas sobretudo a mais bem-sucedida de todas, a inglesa BBC. Dois meses depois da assinatura do decreto, ao meio-dia de um domingo, 2 de dezembro, a TV Brasil entrou no ar. Um pequeno clipe com locução da atriz Zezé Motta anunciava a inauguração do canal, que àquela altura só podia ser assistido em quatro cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e São Luís. “Nasce hoje uma nova televisão, para que os brasileiros tenham mais possibilidade de escolha”, disse Zezé Motta, enquanto o vídeo exibia uma imagem do Congresso Nacional à luz do amanhecer. “Isso é pluralidade. Isso é democracia.”

Criada com o objetivo de ser uma emissora de alcance nacional, a TV Brasil era, sem dúvida, o veículo mais relevante do sistema EBC. De um lado, profissionais e acadêmicos da comunicação viam na nova emissora a possibilidade de contrapor-se à hegemonia dos grandes grupos privados de comunicação, com a Rede Globo à frente. De outro, produtores culturais e artistas sonhavam que, com o novo canal, conseguiriam ampliar a janela de exibição de filmes e shows nacionais.

Para blindar a EBC de interferências do governo, criaram-se algumas regras já na largada. Uma delas definia que o presidente da empresa, embora fosse nomeado pelo presidente da República, teria um mandato de quatro anos, desencontrado com anos eleitorais. A primeira presidente, a experiente jornalista Tereza Cruvinel, que fizera uma carreira bem-sucedida no jornal O Globo, ficou no posto de 2007 a 2011. Caso tivesse derrotado a petista Dilma Rousseff na eleição de 2010, o tucano José Serra não poderia trocar Cruvinel por um nome de sua confiança no seu primeiro ano de mandato. Era uma forma de garantir alguma estabilidade e desvincular a empresa das trocas no poder.

Criou-se também o Conselho Curador, para permitir a participação popular na EBC. O grupo era formado por 22 conselheiros, dos quais 4 eram ministros indicados pelo governo. Havia também 1 representante da Câmara, 1 do Senado e 1 dos funcionários da empresa. A maioria, os demais 15 conselheiros, eram representantes da sociedade civil. (Na primeira formação do conselho, todos os quinze lugares foram ocupados por pessoas escolhidas pelo governo. Quando o mandato desses primeiros conselheiros terminou, o preenchimento passou a ser feito por consulta pública.) Reunindo-se a cada dois meses, o conselho tinha como missão avaliar a qualidade da programação da EBC – em termos de diversidade, de linha editorial – e poderia, em casos extremos, decidir pelo afastamento de diretores da empresa.

Esses mecanismos protegeram a EBC de intervenções acintosas, mas não cortaram o cordão umbilical que a ligava ao governo. Em parte, por razões financeiras. O tributo que ajudaria a sustentar a EBC seria cobrado das empresas de telecomunicações, como Vivo, Tim e Oi, adotando um modelo de financiamento vagamente similar ao aplicado à BBC, mas as teles contestaram o novo imposto na Justiça. Ao longo dos anos de pendenga jurídica, o grosso do dinheiro, que chegou a passar de 2 bilhões de reais, ficou retido. Quando os recursos foram finalmente liberados em 2018, em vez de caírem no caixa da EBC, acabaram engolidos pelo Tesouro Nacional. Por isso, a autonomia financeira sonhada na criação da EBC desde 2007 nunca se concretizou.

O jornalismo também jamais se livrou dos cacoetes governistas. “Havia na redação uma cultura muito arraigada de quem veio da Radiobrás. O governo não mandava bilhetinho, não telefonava, mas havia certo pudor jornalístico, certo receio dos funcionários”, diz Murilo Ramos, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em políticas de regulação de mídia. Ramos fez parte do Conselho Curador entre 2010 e 2015, como representante da sociedade civil. Ele sempre achou prejudicial que a EBC dividisse o mesmo espaço físico que a NBR. As duas redações não se misturavam, como acontece hoje, mas o convívio próximo tirava a nitidez da fronteira que devia separar a comunicação pública e a comunicação governamental. “Quando eu chegava às reuniões do conselho e via o logo da NBR na parede, eu dizia: ‘Vou ficar feliz no dia que esse pessoal sair daqui’”, conta Ramos. “Eles não pertencem à EBC.”

O professor considera, no entanto, que as críticas à empresa sempre foram maiores que seus problemas reais. “Isso que os jornalões e forças ditas liberais sempre criticaram aqui no Brasil é um conceito aceito no mundo todo. Nenhuma empresa pública nos países centrais do capitalismo é totalmente independente, e nem por isso deixa de produzir conteúdo de qualidade, com autonomia. É preciso desmistificar essa ideia”, diz Ramos. “A EBC ainda estava aprendendo a fazer jornalismo público. Eu dizia que seria preciso esperar uma geração inteira para sabermos se o projeto deu certo.”

Mas o grande teste chegou em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff.

Na agitada noite do dia 2 de dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, anunciou a abertura de um processo de impeachment contra Dilma Rousseff, a autonomia da EBC começou a estremecer. Daquele dia em diante, a fronteira entre o interesse público e o interesse do governo passou a ficar cada vez mais tensionada. O Conselho Curador da empresa se dividiu nas discussões internas: uma parte dos conselheiros defendia que os veículos da EBC deveriam tomar posição em favor da democracia – isto é, contra o impeachment –, e outra parte argumentava que o dever da empresa era permanecer neutra.

Na avaliação de vários jornalistas da empresa, preponderou o primeiro grupo. Márcio Garoni, repórter da TV Brasil em São Paulo e diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), lembra que a emissora cobriu atos contra e a favor do governo – mas, em dado ponto da crise, “rolaram coisas estranhas”. “Houve um evento em defesa da Dilma num salão fechado da USP, no Largo São Francisco, e a TV Brasil foi lá cobrir ao vivo. Não era o tipo de coisa que a gente costumava fazer”, diz ele. Em abril de 2016, a tevê transmitiu por horas um ato contra o impeachment realizado na Lapa, no Rio, no qual Lula discursou. A Ouvidoria da EBC, que fazia papel de ombudsman e publicava uma coluna periodicamente no site da empresa, apontou o desequilíbrio da cobertura, destacando que os âncoras da tevê se referiam aos protestos como “atos em defesa da democracia e contra o golpe”.

Garoni, que trabalha na empresa desde 2012, considera que decisões como essa acabaram fragilizando a EBC. “Foi algo que nós criticamos internamente, porque tanto a empresa quanto nós, funcionários, acabamos ficando expostos.” Em maio de 2016, quando assumiu a Presidência depois da queda de Dilma, ainda como interino, Michel Temer vingou-se da EBC. Com apenas quatro dias no cargo, demitiu sumariamente o então presidente da empresa, o jornalista Ricardo Melo, que, por sua vez, estava na função havia duas semanas, depois que Américo Martins abrira mão do emprego por motivos pessoais.

A EBC, então, entrou em convulsão. A decisão de Temer contrariava a lei, que garante mandato de quatro anos ao presidente da empresa. Melo recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e retomou o mandato depois de duas semanas. O presidente indicado por Temer, o jornalista Laerte Rimoli, teve de sair de cena. Em setembro, nova reviravolta: o governo publicou uma medida provisória acabando com o mandato de quatro anos do presidente da empresa e extinguindo o Conselho Curador. Melo foi demitido novamente e Rimoli reassumiu o cargo. À tarde, no mesmo dia, ao perceber que o STF ainda não havia se manifestado sobre o assunto, o governo voltou atrás: Melo reassumiu o cargo, Rimoli ficou de fora. Seis dias depois, o ministro Dias Toffoli, do STF, resolveu que o governo estava certo: Rimoli re-reassumiu. (Na confusão, o manual de redação da EBC entrou em parafuso: ora se referia a Dilma como “presidenta”, como sempre fizera, ora como “presidente”, por ordem de Rimoli.)

A nova gestão, uma vez empossada, abriu um programa de demissão voluntária – que reduziu o total de funcionários de 1,9 mil para 1,7 mil – e promoveu um choque de austeridade. Numa tacada, Rimoli rescindiu o contrato de vários apresentadores e comentaristas, entre os quais figuras abertamente simpáticas ao PT, como o sociólogo Emir Sader. Outros viraram alvo não apenas por suas posições ideológicas, mas também pelos seus contracheques. A empresa do jornalista Luis Nassif, por exemplo, recebia, em valores atualizados, cerca de 20 mil reais para produzir cada episódio do Brasilianas.org, programa de entrevistas e análise política. O Observatório da Imprensa, de Alberto Dines, custava 98 mil por episódio, em valores atualizados. Nos dois casos, parte do dinheiro era usada para remunerar a equipe do programa e bancar custos de produção, como iluminação e cenário. Ainda assim, como admite Ricardo Melo, eram valores acima do razoável, considerando que estúdio e equipamentos eram fornecidos pela EBC. “Havia alguns absurdos, sim, ainda mais levando em conta que nosso orçamento era pequeno. Faltava dinheiro para tudo. Mas, quando assumi a presidência, essas coisas já estavam assinadas, não tinha o que fazer”, ele justifica.

A principal herança deixada pela gestão Temer, no entanto, foi o fim do mandato de presidente da EBC e a extinção do Conselho Curador. Por mais que a empresa nunca tenha sido realmente autônoma – o conselho, em especial, sempre teve maioria de figuras ligadas à esquerda –, a anulação desses mecanismos tornou a EBC ainda mais vulnerável a intervenções políticas. Desde então, se a cobertura jornalística desagrada ao presidente da República, ele pode trocar o comando da empresa sem pestanejar. E se o presidente da EBC resolver alinhar o jornalismo aos interesses do governo, não há mais nenhuma instância interna que possa ameaçar a sua permanência no cargo.

Com isso, ainda no governo Temer, o governismo começou a se propagar. No dia 18 de maio de 2017, por exemplo, quem se informou pelos veículos da EBC não ficou sabendo que o governo estava desmoronando depois da divulgação da conversa entre Temer e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, na qual o presidente, aparentemente, avalizava o pagamento de propina ao deputado Eduardo Cunha. “Tem que manter isso aí”, disse Temer. A notícia, divulgada pelo jornal O Globo às 19h30, só foi aparecer no site da Agência Brasil às 21h50 – e com um título que neutralizava o ataque e vitaminava a defesa: “Temer diz que jamais solicitou pagamento para obter silêncio de Cunha.” Na TV Brasil, o telejornal da noite sequer tocou no assunto.

No Carnaval do ano seguinte, as câmeras da TV Brasil fizeram acrobacias para desviar dos cartazes e gritos de “Fora, Temer”. Pequenas notícias passaram a causar dor de cabeça. O repórter Márcio Garoni conta que sofreu uma reprimenda ao cobrir a morte de Marisa Letícia, mulher de Lula, em 2017. “O velório foi num sábado, e a matéria não tinha nada de política. Mas me disseram que o pessoal em Brasília se incomodou, achou que o Lula estava sendo exaltado, e aí decidiram que eu não faria mais cobertura de política.”

As intervenções, ainda assim, eram apenas episódicas. “Bem ou mal, a gente ainda fazia jornalismo naquela época”, resume Kariane Costa, da Rádio Nacional. “Hoje parece que a gente vive em outro mundo.” O jornalismo tornou-se a grande vítima, sobretudo depois que a TV Brasil e a NBR viraram uma coisa só. “Pauta sobre indígenas? Não passa. Sobre a comunidade LGBTQIA+? Não passa”, diz Ana Graziela de Oliveira, repórter da TV Brasil em Brasília desde 2008. Embora reconheça que a emissora nunca alcançou total liberdade editorial, Oliveira relata que a limitação imposta aos repórteres desde 2019 não tem precedentes. “Acho que, nos governos anteriores, a gente chegou a alcançar 80% da autonomia que sempre sonhamos ter na EBC. Hoje estamos com 10%.”

Em situações pontuais, a interferência é aberta. “Se alguém grava matéria falando em ditadura, a chefia manda regravar trocando por ‘regime militar’”, conta Oliveira. Mas, na maioria dos casos, as imposições se dão de maneira sutil. Quase todos os jornalistas ouvidos pela piauí para esta reportagem contaram que nunca receberam censura expressa, informando sobre o que poderia ou não ser falado na EBC. Os espaços para discussão, porém, foram extintos. Não há mais reuniões de pauta nem na tevê nem no rádio. As conversas são individuais, as pautas chegam prontas. São as “RECs”, ou seja, “matérias recomendadas”. A recomendação, é claro, tem força de ordem.

Até o ano passado, Ana de Oliveira trabalhava no programa Caminhos da Reportagem, um especial jornalístico que vai ao ar uma vez por semana. Cada vez trata de um assunto específico e acumula prêmios de jornalismo. O formato é parecido com o do Profissão Repórter, da Globo. Acostumada a cobrir grandes temas, como aborto, imigração e violência urbana, Oliveira recebeu a ordem de gravar um programa sobre os parques do Sul do Brasil em 2019. O motivo? O Ministério do Meio Ambiente ia leiloar os parques e, segundo seus chefes, a divulgação ajudaria no plano de concessão.

Os exemplos são vários. O jornalista Lucas Krauss, que trabalha com edição de textos na TV Brasil, conta que, durante a crise hídrica do ano passado, quando havia a possibilidade de um apagão energético no país, a tevê não deixava passar críticas à atuação do governo federal. “Uma vez ouvimos o representante de uma associação de energia que disse que o governo demorou a agir. E ele deu soluções possíveis para a crise. Escrevi uma nota, que estava pronta para ser lida no ar durante o telejornal. Mas ela foi limada pela chefia, sem nenhuma explicação”, diz Krauss. Ele trabalhava há quase dez anos na empresa e nunca tinha sofrido intervenções como essa até então. “A situação em que a EBC está hoje não tem precedentes”, afirma.

No jornalismo diário, para evitar assuntos que incomodam o governo, opta-se por noticiar trivialidades. “Já fiz matéria sobre o Dia do Cuscuz, sobre fertilizantes feitos com base em casca de ovo… Vai ser meu Pulitzer”, conta Kariane Costa, entre o riso e a indignação, referindo-se ao principal prêmio do jornalismo norte-americano. Em janeiro, quando Bolsonaro faltou ao depoimento que deveria dar à Polícia Federal no inquérito sobre vazamento de dados sigilosos sobre as urnas eletrônicas, Costa estava ocupada repercutindo uma operação policial que prendeu cinco pessoas no Piauí por fraudes no INSS. “Se você reclama, se contesta, você vira inconveniente. Não é todo dia que você está a fim de brigar, então acabamos aceitando. A gente tem que fazer um esforço enorme para não pilhar e enlouquecer”, diz ela.

A tentativa de desviar de assuntos relevantes – e incômodos ao governo – chegou ao auge em junho de 2021, período em que a pandemia começava a sair de seu período mais mortífero. A direção da EBC teve a ideia de bolar um programa só de boas notícias, o Bom de Ver. Criaram um grupo de WhatsApp para discutir pautas, no qual surgiram ideias como uma reportagem sobre os benefícios de se adotar animais para a saúde mental dos donos e outra sobre a história de um menino que pediu para incluir o nome do padrasto na certidão de nascimento. Chegaram a gravar um piloto do programa, apesar da contestação dos repórteres, que protestavam contra a iniciativa de esconder fatos graves sob um noticiário falsamente ameno – até que o projeto vazou para a imprensa e, diante da péssima repercussão, acabou indo para a gaveta.

No governo Bolsonaro, quem primeiro se apossou da EBC foram os militares. A turma era comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz, então ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência. Na época, a pasta abarcava a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), que, por sua vez, era responsável pela EBC (hoje ela faz parte do Ministério das Comunicações). Pelas mãos de Santos Cruz, militares da reserva, alguns dos quais já trabalhavam na burocracia da empresa havia anos, foram alçados a cargos de chefia. Em abril de 2019, dos seis diretores da empresa, dois eram do Exército. Pelo trabalho, recebiam entre 25 mil e 27 mil reais por mês.

As Forças Armadas sempre nutriram certa simpatia pela comunicação pública. Em parte, porque são órfãs da Radiobrás, que durante a ditadura propagandeava as realizações do regime militar. Mas principalmente porque consideram a comunicação um ponto-chave na integração do território nacional e na garantia da soberania. A Rádio Nacional da Amazônia, criada em 1977 e administrada hoje pela EBC, é o xodó dos militares. Cobre mais da metade do país e leva informação para populações indígenas e ribeirinhas. A ela se soma, desde 2006, a Rádio Nacional do Alto Solimões, instalada em Tabatinga (AM), na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. Até então, nenhuma rádio em língua portuguesa alcançava os moradores dessa região.

Santos Cruz, ao contrário de muitos colegas de farda, não é um fã da EBC. “Por mim, isso nem existia”, disse ele, numa conversa em seu apartamento em Brasília, no começo de abril. Tirando as rádios amazônicas, o general não vê valor na comunicação pública. Mas, desde o início do governo, Santos Cruz sabia que não poderia fechar a empresa. “O Bolsonaro falou que ia acabar com a EBC, com a ‘TV do Lula’, mas não sabia como fazer. É só demagogia. Como ficam os equipamentos da EBC, que valem uns 60, 80 milhões de reais? E os quase 2 mil funcionários?”

Em suas primeiras semanas no cargo de ministro, Santos Cruz visitou – em alguns casos, aparecendo de surpresa – as quatro sedes da EBC, em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e São Luís (esta última foi fechada em maio de 2019). Nessas ocasiões, reuniu os funcionários para conversar e tranquilizá-los, já que muitos achavam que poderiam estar no olho da rua em questão de meses. O general aproveitou os encontros para, segundo ele, deixar claro como achava que deveria ser o trabalho da EBC: “Não tem que ser ideológico, não tem que fazer propaganda de governo, não tem que fazer propaganda de presidente ou de ministro, e não tem que competir com a tevê aberta”, repete ele. Ao ser indagado se achava que a EBC era um antro de esquerdistas, Santos Cruz é lacônico: “Você percebe, pela conversa com alguns interlocutores… alguns tinham ideologia. Mas não sei dizer, nunca assisti à TV Brasil.” Nem quando esteve no cargo? “Pouca coisa. Gosto daqueles documentários sobre animais.”

Sua gestão, porém, produziu documentários sobre outro tipo de fauna. Em abril de 2019, foi ao ar o programa Faróis do Brasil, que entrevista membros da Marinha e historiadores para contar a história de faróis instalados na costa brasileira. Em setembro, estreou o Fortes do Brasil – mesma ideia, mesmo formato, dessa vez aplicada ao Exército. Os dois programas são veiculados até hoje na TV Brasil, com novas temporadas. Outra atração carregada com tinta verde-oliva, Brasil em Obras, chegou a ser produzida, mas não saiu do papel. A Aeronáutica foi a única das três Forças a não ter um programa. Talvez para compensar, a tevê resgatou um antigo seriado da TV Tupi chamado Águias de Fogo, que conta as “histórias de bravura nos ares” de “um heroico esquadrão de aviação”, conforme divulgou a emissora.

Integrada à administração federal mais povoada por militares desde o fim da ditadura, a TV Brasil, que não deveria ter ideologia nem fazer propaganda, passou a ter a cara ideológica do governo. O programa Estação Plural, que tratava do universo LGBTQIA+ e era apresentado por uma mulher trans, um gay e uma lésbica, foi a primeira vítima – ainda antes de o governo Bolsonaro tomar posse. Foi ao ar pela última vez em dezembro de 2018. Trilha de Letras, quadro de entrevistas sobre literatura, em que escritores eram convidados a falar de seus livros, resistiu um pouco mais: foi cancelado em agosto de 2019 e nunca mais voltou à programação. Era só o começo.

Quando Santos Cruz deixou o governo, em junho de 2019, a Secretaria de Governo passou a ser dirigida por um admirador da EBC, o também general Luiz Eduardo Ramos. Pai de uma funcionária da TV Brasil, Ramos já se referiu à empresa como “uma joia rara, que todos nós amamos”. Para comandar a EBC, escalou outro general, Luiz Carlos Pereira Gomes, aquele que festejou o “padrão de EXCELÊNCIA” na cobertura do primeiro Sete de Setembro do governo Bolsonaro. Trocaram-se os militares, mas pouca coisa mudou no chão de fábrica.

Até que chegou a pandemia.

Na tarde do dia 4 de junho de 2020, uma quinta-feira, o repórter Gésio Passos, da Rádio Nacional, se preparava para cobrir mais uma coletiva de imprensa do Ministério da Saúde, como vinha fazendo desde o começo da pandemia. Ele estava em casa, em trabalho remoto. O cenário epidemiológico do país era grave: no dia anterior, haviam sido registradas 1 348 mortes pela Covid, um recorde até então. Ao todo, 32 mil pessoas já haviam morrido da doença no Brasil.

No dia anterior, o general Eduardo Pazuello, depois de quase vinte dias de interinidade, finalmente tomara posse como ministro da Saúde. Além dele, vários miliares ocupavam cargos importantes na pasta. Até o empresário Carlos Wizard, um notório negacionista, estava sendo cotado para assumir uma secretaria no Ministério da Saúde. Diante disso, Gésio Passos achou lógico mandar a seguinte pergunta, por escrito:

“Quais critérios estão sendo usados para a ocupação dos cargos comissionados no Ministério da Saúde? Militares e empresários sem nenhuma experiência em saúde pública terão condições de combater a maior pandemia dos últimos cem anos?”

A pergunta foi enviada para o grupo de WhatsApp que o Ministério da Saúde criara para receber as questões de jornalistas. Quando a coletiva começava, alguém lia as perguntas enviadas pelos repórteres e as autoridades da Saúde respondiam. Mas a mensagem de Passos não foi lida na coletiva e acabou ficando sem resposta. Não foi um esquecimento. Na cúpula da EBC, a pergunta caíra como uma bomba.

Em um grupo de WhastApp que reunia apenas chefes do radiojornalismo, Graziele Bezerra, coordenadora de reportagem, reproduziu a pergunta e escreveu, alarmada: “Isso chegou no Palácio.” Ela convocou uma reunião urgente com os colegas. Na mensagem, usou um emoji de uma mulher com a mão sobre o rosto, sugerindo que a pergunta era uma inconveniência intolerável. A piauí teve acesso à troca de mensagens.

“Estão querendo a cabeça da Sirley [sic]”, completou Bezerra. Ela se referia a Sirlei Batista, diretora de jornalismo da EBC.

“PQP”, respondeu uma participante do grupo.

“Sobrou pra gente”, replicou outra.

“Só sei que os milicos tão putos”, concluiu Bezerra, depois de ter avisado que Gésio Passos “não deve mais fazer as coletivas do ministério”.

Dito e feito. Repórter com dez anos de casa, Passos foi afastado da cobertura da pandemia dias depois. A direção da empresa transferiu-o para a Radioagência Nacional, veículo da EBC que serve basicamente para editar e disponibilizar programas e reportagens para rádios que queiram utilizá-los. “Passei a não cobrir mais nada de governo”, contou Passos, numa conversa com a piauí no final do ano passado. “Agora estou sendo escalado para fazer matéria sobre amigo oculto, sobre os perigos do pisca-pisca de Natal…”

O repórter Victor Ribeiro, da Rádio Nacional, também foi perseguido durante a pandemia. No dia 11 de maio de 2021, ele cobriu ao vivo a CPI da Pandemia, que, naquele momento, ouvia o depoimento do presidente da Anvisa, contra-almirante Antonio Barra Torres. No final do dia, Ribeiro redigiu a notícia que gravaria e, como toda a imprensa, destacou o que havia de mais relevante no depoimento: Barra Torres dissera que se arrependia de ter participado de um ato público com aglomeração ao lado de Bolsonaro em plena pandemia. Também disse que, como titular da Anvisa, havia contraindicado o uso de remédios não comprovados contra a Covid.

Antes de gravar a notícia, Ribeiro passou o texto para a aprovação de sua chefe direta, como sempre fez. Quando recebeu o documento de volta, a notícia principal havia sido apagada. Não havia mais uma palavra sobre Bolsonaro ou sobre o tal “tratamento precoce” que a Anvisa barrara. Ribeiro se recusou a gravar. Dias depois, foi chamado pela chefe para uma conversa na sede da EBC em Brasília. Ao chegar, foi surpreendido: teria que assinar um Termo de Ajustamento de Conduta, conhecido como TAC – uma espécie de advertência em que o funcionário público reconhece que cometeu uma infração leve. Como não concordava que tivesse feito algo errado, Ribeiro se recusou a assinar o papel. A empresa então chegou a abrir uma comissão interna para “investigar os fatos” e, se necessário, puni-lo. Ribeiro não arredou pé: acionou uma advogada e acompanhou o caso de perto. No fim das contas, a EBC achou mais prudente encerrar o processo. Não houve punição a Ribeiro, que permanece até hoje no cargo.

A cobertura da pandemia, durante a qual Bolsonaro boicotou a vacina e as medidas de prevenção enquanto defendia remédios ineficazes, marcou a virada da EBC e de seu principal veículo, a TV Brasil. Nesse período, a omissão e a censura agravaram-se a tal ponto que o tom do noticiário, muitas vezes, era inversamente proporcional à gravidade dos fatos. Os governistas tornaram-se presença constante nos veículos da empresa. Pazuello aparecia com insistência, tentando vender a ideia de que a vacina era resultado dos esforços do governo federal, e não do então governador João Doria.

Quando se aplicou a primeira dose da vacina infantil contra a Covid, repetiu-se o teatro do início da vacinação dos adultos: Doria, que também foi o primeiro a trazer ao país a versão do imunizante para crianças, sumiu do noticiário oficial. “O Doria, no começo da pandemia, fazia coletivas todo dia. Embora fosse em clima de campanha, eventualmente trazia informações relevantes. Mas recebemos uma orientação clara para não mostrá-lo”, diz Márcio Garoni, repórter da TV Brasil em São Paulo.

Pior. “Desde que começou a pandemia, a gente não pôde entrevistar vítimas ou parentes de vítimas da Covid. Só falamos do assunto por alto. Depois de muito tempo, conseguimos entrevistar pessoas que sofriam com sequelas, mas ficou nisso”, conta Garoni. A emissora, em linha com o negacionismo de Bolsonaro, não podia sequer noticiar o fato mais elementar: que a vacina era a única forma conhecida e a mais eficaz de se combater o vírus. Garoni conta que ouviu a seguinte ponderação de uma chefe: “Tem gente que acredita em tratamento precoce, não vamos incomodar esse pessoal.”

“Esse pessoal” frequentou os estúdios da EBC. Em julho de 2020, a oncologista Nise Yamaguchi, na época cotada para assumir o Ministério da Saúde, deu uma longa entrevista à TV Brasil, na qual o empresário Carlos Wizard teve uma breve participação. A conversa amigável durou mais de uma hora e foi transmitida ao vivo nas redes sociais da tevê. “Essa história de que não tem cura para esse novo coronavírus não é verdade – tem”, anunciou a oncologista, sorridente. A apresentadora teve de dar saltos triplos carpados para explicar aos telespectadores o motivo daquele encontro. “A dra. Nise faz parte de um grupo de médicos que se reúne para discutir o tratamento para o coronavírus. E o Carlos Wizard foi quem juntou esse grupo”, resumiu, no começo da entrevista. A conversa depois foi condensada num programa de meia-hora veiculado na TV Brasil. O grupo de médicos, descobriu-se mais tarde, era o gabinete paralelo que sequestrou o Ministério da Saúde durante a pandemia. (Meses depois, o YouTube deletou a entrevista de sua plataforma por disseminar fake news. O vídeo, porém, só foi deletado da conta da TV Brasil. Ele ainda pode ser assistido no canal de YouTube da TV BrasilGov – da antiga NBR –, assim como no perfil da TV Brasil no Facebook.)

“Intervenções como essas que a gente viu e ainda vê seriam um escândalo em outros países. Se o primeiro-ministro britânico interfere na BBC vira manchete nos jornais, é uma coisa inadmissível”, afirma Juliana Nunes, funcionária licenciada da EBC. Ela tem acompanhado as denúncias de censura por meio do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, onde atua como coordenadora. “Como temos no Brasil uma mídia privada concentrada em poucas famílias, como não temos uma comunicação pública bem desenvolvida, essa discussão fica muito restrita. Não tem a repercussão que deveria.”

Na redação da empresa, há um clima de perseguição. Alguns funcionários acreditam que suas redes sociais são monitoradas. “Eu fechei minhas publicações no Facebook e deletei todas as pessoas que pudessem ter relação com a chefia”, conta uma repórter da TV Brasil que pediu para ter seu nome preservado. Os mais prevenidos não acessam o WhatsApp no computador do trabalho porque temem que estejam sendo vigiados. Há quem não conecte o celular no wi-fi da empresa.

Ao longo da apuração desta reportagem, a piauí tentou contato com a direção da EBC várias vezes, mas não obteve resposta. Depois de insistentes e-mails com pedidos de entrevista serem ignorados, uma assessora informou, por telefone, que a empresa avaliou que não deveria se manifestar. O ministro das Comunicações, Fabio Faria, que comanda a pasta responsável por administrar a EBC, também não quis dar entrevista.

Depois de ser dominada pelos interesses do governo, a EBC começou a perder o pouco que ainda restava de sua essência – e passou a tentar mimetizar a mídia comercial. Em setembro de 2020, o general Pereira Gomes foi demitido por pressão da Secom, na época comandada por Fabio Wajngarten. O militar era criticado internamente por não entender nada de televisão e dar pouco destaque às ações do governo. Foi substituído pelo publicitário Glen Valente, ex-diretor comercial do SBT. Valente, que é amigo de Wajngarten e trabalhava na Secom desde 2019, assumiu a EBC com duas missões: aproximar a comunicação da empresa dos interesses do Planalto e aumentar a audiência da TV Brasil. Com o pragmatismo de um executivo da mídia comercial, recorreu a uma receita tão velha quanto eficaz: futebol e novela.

Com ajuda de Wajngarten, que costurou um acordo de última hora com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Valente conseguiu levar à tela da TV Brasil, com exclusividade, um amistoso da Seleção Brasileira contra o Peru. A partida, que o Brasil venceu por 4 a 2, fez com que Valente cumprisse as duas missões: atraiu 1,3 milhão de espectadores, uma das maiores audiências da história da emissora, e promoveu uma bajulação política até então inédita. No final do segundo tempo, o narrador do jogo leu uma mensagem em nome da Secom mandando um “abraço especial ao presidente Jair Bolsonaro, que está assistindo ao jogo”. A reverência causou espanto e virou assunto nas redes sociais. Um gaiato tuitou: “TV estatal passando jogo do Brasil e dando salve pro Bolsonaro. Não tá fácil aqui na Venezuela.”

Meses depois, a EBC adquiriu por 3,2 milhões de reais os direitos de transmitir Os Dez Mandamentos, megaprodução da Record, que já tinha exibido e até reprisado a atração. Em catorze anos de existência, a TV Brasil nunca havia passado uma novela. Exibia apenas programas restritos aos canais fechados, de modo a oferecê-los para um público que não pode pagar tevê a cabo. Não só comprou um produto que todo mundo já conhecia, beneficiou uma emissora amiga, já que a Record pertente ao bispo Edir Macedo, aliado de Bolsonaro, como fez ainda pior: não tinha exclusividade (ou seja, a Record podia voltar a reprisar a novela quando bem entendesse) e só podia oferecer os capítulos no seu streaming, o TV Brasil Play, até sete dias depois de eles terem sido veiculados na tevê. A equipe responsável pelo contrato na EBC avisou que era um mau negócio, mas veio a ordem: era para comprar mesmo assim.

O ponto mais contestado do negócio foi, claro, o favorecimento à emissora do bispo Macedo, mas a motivação da compra era outra. Segundo um funcionário da área de parcerias da EBC que conversou com a piauí sob condição de anonimato, a ordem da chefia foi uma só: “Temos que subir a audiência.” A equipe saiu em busca de uma novela. “Mas a Globo não vende. O SBT não dava, porque o Glen [Valente] trabalhou lá. Falamos com a Televisa [do México], mas não daria para fechar negócio em tempo hábil. Acabou sobrando a Record”, diz ele.

A novela impulsionou a audiência. A TV Brasil fechou 2021 no quinto lugar entre as emissoras mais assistidas do país – seu melhor desempenho na história. Ficou ligeiramente à frente da RedeTV!, com média de 0,35 pontos no Ibope ao longo do ano, o equivalente a 86,4 mil domicílios em todo o Brasil. A equipe que contestou o contrato foi demitida. “Disseram que a gente estava em desalinho com a direção da empresa”, conta o funcionário que conversou com a piauí. Como todos eram concursados, o que lhes dá o direito de só ser demitido com justa causa, foram realocados para outras áreas.

Satisfeita com os resultados, em janeiro deste ano a EBC comprou mais uma novela da Record: A Escrava Isaura. Originalmente, a novela foi ao ar na Globo, em 1976, com enorme sucesso. Em 2004, a Record fez um remake – e vendeu para a TV Brasil por 1,9 milhão de reais, naquelas mesmas condições: sem exclusividade e com direito restrito ao streaming. É o novo carro-chefe da programação de uma emissora que nasceu para se diferenciar da mídia comercial e acabou reduzida a isso: um veículo de propaganda do governo que retransmite velhos folhetins de sucesso. É como se a BBC fizesse o marketing de Boris Johnson e, nas horas vagas, exibisse Johnny English.

No começo de abril, jornalistas e ex-membros do Conselho Curador da EBC se reuniram em um seminário virtual intitulado Reconstrói EBC e a Comunicação Pública. Foram duas rodas de conversa transmitidas ao vivo em dois dias – uma na sexta-feira, outra no sábado. Encontros como esse passaram a acontecer recentemente, num primeiro esforço para pensar o que vai ser da empresa caso, ao final deste ano, Bolsonaro deixe o Palácio do Planalto. A ideia é formular propostas a serem discutidas na campanha.

O tema não desperta grandes paixões, pois, dez dias depois da transmissão, os vídeos do seminário não chegavam a quatrocentas visualizações cada. As respostas ao desafio ainda são vagas. Parte dos ex-funcionários defende que a nomeação do presidente da EBC passe a ser submetida à aprovação do Senado, depois de uma sabatina, como acontece com as indicações para autarquias, agências reguladoras e embaixadas. A ideia é criar uma nova camada de proteção à autonomia da EBC. Outros destacam que só haverá mudança real quando se estabelecer, por lei, que o dinheiro do imposto cobrado das teles deve ir direto para os cofres da empresa.

Murilo Ramos, professor da UnB, defende uma reformulação do modelo da EBC. Ele acredita que vincular a empresa à Secretaria de Comunicação do Planalto foi um equívoco de origem. A relação da EBC com a Presidência, mesmo durante os governos que não se empenhavam em desmontar a ordem democrática, mostrou-se tóxica. Ramos também acha que seria preciso recriar e reformular o Conselho Curador para garantir que haja, de fato, participação social.

Em dado momento, Ramos evocou a pergunta clássica: “Por que a EBC não conseguiu ser a BBC brasileira?” O problema, disse ele, não está na resposta, e sim na pergunta. A ideia de criar uma rede comparável à das grandes emissoras europeias foi uma ilusão, explicou. A TV Brasil nunca teve chance de competir com as empresas privadas, que dominam a televisão brasileira desde seu nascimento no século XX. Em vez de pensar em BBC, o Brasil deveria ter se inspirado na PBS – a Public Broadcasting Service, emissora pública de televisão dos Estados Unidos.

Os norte-americanos, como os brasileiros, conheceram a mídia privada muito antes da comunicação pública, lembra Ramos. Por isso, quando foi criada no fim dos anos 1960, a PBS não pretendia competir com os grandes canais de tevê, já então bem estabelecidos. Também não seria fácil unir numa mesma rede todas as emissoras universitárias e estaduais que já existiam. “Então, eles pensaram o seguinte: vamos juntar todo mundo numa grande cooperativa, cruzando as programações”, explica o professor. Assim, a PBS funciona de forma descentralizada: ela fomenta a criação de conteúdo em centenas de emissoras e, a partir daí, monta sua programação. Mas cada emissora é independente para transmitir seu próprio conteúdo.

Os privatistas norte-americanos mais assanhados torcem o nariz para o financiamento público da PBS, mas ninguém compara sua audiência com a de grandes emissoras privadas. Seu jornalismo e seus programas educativos têm qualidade indiscutível. Em fevereiro, finalmente deixou de exibir a famosa série Arthur, dirigida ao público infantil, depois de 25 anos em cartaz. Produziu Sesame Street, outro programa infantil, que se tornou um sucesso planetário, inclusive no Brasil, cuja versão se chamou Vila Sésamo.

Seguindo o modelo da PBS, a TV Brasil poderia abandonar a ambição de ser uma grande emissora à moda tradicional e tocar uma operação mais enxuta, destinando recursos a programas de qualidade, produzidos por ela mesma ou por emissoras afiliadas. Em vez de atuar como cabeça de rede, centralizando todo o trabalho de jornalismo e entretenimento, aproveitaria o melhor que essas afiliadas produzissem. (A série Arthur era uma criação de uma afiliada da PBS em Boston.)

É possível fazer algo semelhante no Brasil, a essa altura da história? Para Tereza Cruvinel, primeira presidente da EBC, a ideia é boa, mas não é exequível. “No Brasil as tevês locais são sucateadas, produzem pouquíssimo. Não temos aqui essa constelação de emissoras públicas bem estabelecidas, como acontece nos Estados Unidos”, diz. Cruvinel, como Ramos, não demonstra grande ânimo ao tentar responder quais são os caminhos possíveis para a EBC daqui em diante. “Não sabemos como vão ser as coisas, isso está em aberto”, diz Ramos, de forma lacônica. “Mas não podemos jogar fora o que se acumulou de experiência desde 2007. A criação da EBC – eu tenho certeza disso – foi uma medida civilizatória.” Que, nos dias de hoje, vive o auge de sua decadência.

Um dos exemplos mais pitorescos é o Sem Censura. O programa de entrevistas, que foi ao ar pela primeira vez em 1985, na extinta TVE do Rio de Janeiro, passou por uma reformulação na gestão de Glen Valente e virou um espaço de exaltação do governo Bolsonaro nas segundas-feiras à noite. Os convidados são, em sua maioria, ministros, secretários do governo e parlamentares bolsonaristas. Embora o programa sempre convide dois jornalistas de outras emissoras, os assuntos são invariavelmente amenos. A apresentadora garante que, do início ao fim, o clima da conversa seja de camaradagem.

Em fevereiro deste ano, o então ministro astronauta Marcos Pontes, por exemplo, ouviu a seguinte pergunta:

– Quando o senhor vai ao supermercado, qual é a sua maior tentação?

Milton Ribeiro, ministro responsável por uma gestão desastrosa à frente do MEC, foi indagado:

– Na escola, qual era sua matéria favorita?

O atual ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, esteve no programa pouco depois da divulgação de dados mostrando que, em janeiro deste ano, os alertas de desmatamento na Amazônia bateram novo recorde. Diante das câmeras da TV Brasil, a apresentadora lhe perguntou:

– Se você for para uma festa, qual música tem mais chance de sair dançando: alguma antiga do Sidney Magal ou uma dos Rolling Stones?

Em julho do ano passado, o então ministro do Turismo, Gilson Machado, esteve no programa:

– Qual a música o senhor mais gosta de tocar na sanfona?

Asa Branca – devolveu o ministro, sem titubear.

Em seguida, com o instrumento a tiracolo, tocou essa e outras canções para encerrar a entrevista. A apresentadora acompanhou o ritmo com as mãos e até ensaiou dar uns passos de dança. Todos sorriram no estúdio e os créditos começaram a subir ao som do sanfoneiro bolsonarista. Mais uma semana começava na TV Brasil.


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Editor do site da piauí. Foi repórter da revista em Brasília e diretor do podcast Foro de Teresina