CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Maricá, c’est moi
O carnaval político de Washington Quaquá
Camille Lichotti | Edição 223, Abril 2025
O prefeito Washington Quaquá pisou sorridente no Sambódromo, no Rio de Janeiro. Entrou antes mesmo da comissão de frente da União de Maricá, no figurino do malandro Zé Pelintra: terno branco, chapéu-panamá, fita vermelha e charuto nos lábios. Da pista, acenava para os amigos e aliados que ocupavam o Camarote Favela, gerido pela primeira-dama de Maricá, Gabriela Lopes Siqueira.
Foi Quaquá quem fundou a escola de samba em 2015, no seu segundo mandato como prefeito de Maricá. Desta vez, ele não mediu esforços para tentar fazer com que a escola saltasse da Série Ouro para a elite do Carnaval carioca. A União de Maricá recebeu, oficialmente, 8 milhões de reais da prefeitura para a apresentação. Essa subvenção é bem maior que a oferecida pela Prefeitura do Rio de Janeiro às escolas do Grupo Especial (2,15 milhões de reais para cada uma) e às da Série Ouro, no qual a União de Maricá desfilou (925 mil reais por escola).
O enredo escolhido pela escola neste ano foi O cavalo de Santíssimo e a coroa do Seu 7, sobre Exu das Sete Encruzilhadas Rei da Lira, uma manifestação da divindade na umbanda. O desfile foi assinado pelo premiado carnavalesco Leandro Vieira, que já atuou na Mangueira e na Imperatriz Leopoldinense (a piauí publicou um perfil sobre Vieira na edição 209, de fevereiro de 2024).
Como presidente de honra, Quaquá liderou a escola cantarolando o samba, cujo refrão diz: Maricá é meu país, meu país é Maricá. Antes do desfile, o prefeito disse ao jornal O Globo que investiria 16 milhões de reais no próximo Carnaval, com a justificativa de que “o retorno em mídia compensa o investimento”. (O recurso total reservado para 2025 é de 4,3 milhões, segundo a Lei Orçamentária Anual de Maricá.) Embalada pela euforia, a Prefeitura de Maricá caracterizou a agremiação como “uma potência do Carnaval.”
No dia 6 de março, porém, a apuração das notas não trouxe o resultado esperado: a União de Maricá ficou em quinto lugar na Série Ouro. Nesse dia, Quaquá estava em Brasília para uma longa reunião da cúpula do PT, o seu partido, com o presidente Lula. Mesmo com a agenda cheia, o prefeito encontrou tempo para atacar a organização dos desfiles da segunda divisão nas redes sociais. “Roubam à luz do dia e a RioTur é cúmplice”, declarou. “Não dá para levar o Carnaval a sério!”
Não satisfeito, ainda publicou uma nota pública de repúdio no dia seguinte, desta vez pedindo o apoio da RioTur. “Eu mesmo errei no ano passado ao defender que o prefeito Eduardo Paes não interviesse na liga, mas admito meu erro!”
A escola vencedora, Acadêmicos de Niterói, começou a desfilar na Sapucaí em 2023, depois de comprar o CNPJ da extinta Acadêmicos do Sossego – e herdar seu lugar no grupo. Como a escola desbancou agremiações tradicionais sem precisar disputar os desfiles da quarta e da terceira divisões, circulou na internet o boato de que o título teria sido comprado. Quaquá amplificou a fofoca. “A vitória da antiga Sossego é um escândalo!”, declarou no Instagram.
Vice-presidente nacional do PT, Washington Luiz Cardoso Siqueira, de 53 anos, conhecido como Quaquá pelo grasnado da voz, coleciona brigas dentro e fora do partido por causa do temperamento bronco (ele já agrediu um deputado na Câmara e chamou outro de “viadinho”) e das amplas alianças que faz.
Em fevereiro de 2023, publicou uma foto ao lado do deputado federal Eduardo Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, elogiando o “tom civilizado” do general. À época presidente do PT, Gleisi Hoffmann disse que a imagem era desrespeitosa ao partido e ofensiva às vítimas da Covid. Quaquá respondeu dizendo que a esquerda deve ser “dialógica”. No mês seguinte, criticou os ataques de Hoffmann ao arcabouço fiscal do governo, insinuando que ela se comportava como oposição.
Em janeiro deste ano, ele defendeu publicamente Domingos Brazão, ex-deputado estadual suspeito de ser o mandante do assassinato de Marielle Franco. Postou foto com a mulher e os filhos de Brazão e qualificou as acusações como “maldade”. Mais uma vez, Hoffmann foi a público esclarecer que aquele não era o posicionamento do PT.
Além de ser uma figura relevante no Rio de Janeiro (estado em que o PT tem uma histórica dificuldade eleitoral), Quaquá conquistou a simpatia de Lula. Na eleição de 2022, costurou a aliança entre o então candidato à Presidência e o prefeito de Belford Roxo, Waguinho, acusado de envolvimento com a milícia local. Waguinho cedeu o palanque em troca de um ministério (no fim das contas, Jair Bolsonaro teve mais votos em Belford Roxo).
Maricá, na Região Metropolitana do Rio, é apresentada como um exemplo de gestão do PT. Nos dezesseis anos à frente do município, o partido implementou políticas inovadoras, como a Tarifa Zero dos ônibus municipais e a criação de uma moeda social. Em 2016, Quaquá chegou a inaugurar uma estátua de Che Guevara em frente ao hospital municipal de mesmo nome.
O município é o que mais recebe royalties pela exploração de petróleo no país. Ao longo de 2024, foram 2,7 bilhões de reais. Além de repasses para a saúde e a educação – e para o desfile de Maricá na Sapucaí, segundo o Portal da Transparência –, os royalties alimentam fundos geridos pela prefeitura, como a Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), que patrocina uma ampla gama de projetos, de saneamento básico à promoção de eventos, incluindo uma Universidade do Carnaval. Em seu site, a Codemar também informa que “apoia” a União de Maricá. Não há, porém, informações sobre o valor desse apoio.
A prefeitura disse à piauí, em nota, que a Codemar não faz repasses diretos à escola de samba, e que o apoio se dá “por meio da disponibilização de infraestrutura – como grades, arquibancadas, tendas e equipamentos de som – para a realização de ensaios e atividades culturais”.
A União de Maricá – cujo CNPJ foi comprado da antiga Império da Praça Seca – passou a receber os vultosos repasses da prefeitura em 2021 (quando Fabiano Horta, também do PT, era prefeito). Estreou na Sapucaí em 2024. A ideia de usar o Carnaval para enaltecer a cidade, porém, remonta a 2013, quando a prefeitura comandada por Quaquá pagou 3 milhões de reais à Acadêmicos do Grande Rio para levar ao Sambódromo o enredo sobre Maricá. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) processou a prefeitura por “injustificado dano ao erário municipal”. Em janeiro deste ano, o TCE-RJ negou o último recurso do município neste caso.
Ainda em 2013, Quaquá foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral por usar o programa Renda Melhor para obter benefícios eleitorais, o que configura abuso de poder político. Também foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro por utilizar um decreto municipal para conceder “de forma indevida e indiscriminada, uma gratificação de representação de gabinete a mais de cem correligionários e apadrinhados políticos”.
Depois de repudiar o resultado do Carnaval, Quaquá publicou uma foto com o presidente Lula em Brasília, onde acontecera a discreta reunião para discutir quem deve ocupar a presidência do PT. Abraçados, os dois seguravam o recém-lançado livro de Quaquá, Diálogos com a utopia: um necessário debate sobre a estratégia da esquerda brasileira para construir um socialismo democrático.
A imagem de capa repete a pose em Brasília: Lula e Quaquá aparecem sorridentes. A legenda composta pelo prefeito, porém, não foi tão amigável. “Não precisamos do governo pra porra nenhuma! Maricá vai bem, obrigado”, escreveu. “Mas o povo pobre, o povo que quer e precisa de uma vida melhor, esse precisa dele!”
Na semana seguinte, Quaquá foi à França. Acompanhado do ministro do Turismo, Celso Sabino, participou da maior feira imobiliária do mundo, para lançar os próximos projetos de Maricá: um gigantesco complexo hoteleiro e um resort temático batizado de Samba, Futebol e Caipirinha. “Nosso objetivo é tornar Maricá uma cidade global”, anunciou o prefeito.
