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MAS AÍ O LANCE

Ruy Carlos Ostermann entendeu a ciência e o acaso do futebol
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Como quase tudo que vale a pena, o futebol é uma ilusão. Uma vida dedicada ao Grêmio me fez aceitar isso. Tirando os picos dos títulos, ou de alguma vitória especial que acaba valendo por si, a regra é lidar com a angústia, a estupefação que só não vira desistência porque um raio sempre pode cair na cabeça aleatória do jogo – e essa esperança é o que garante histórias centenárias de clubes, patrocínios e direitos de tevê, salários inverossímeis de um negócio hoje bastante afeito à lavagem de dinheiro ou da imagem de regimes tirânicos mundo afora.

O gaúcho Ruy Carlos Ostermann, que morreu no fim de junho aos 90 anos, sustentou a ilusão de modo peculiar. Ouvi-lo era achar que se podia entender o jogo – que havia algo de lógico, de sistemático a explicar um resultado tanto quanto uma bola espirrada ou a dor no púbis de um ponta-direita. Como sabe todo torcedor com décadas de futebol na carcaça, a suposição não deixa de estar certa: no longo prazo talvez seja isso mesmo – em uns 80% dos jogos, ganha a equipe melhor e/ou mais organizada –, embora no prazo cruel dos noventa minutos os outros 20% estejam ali – um fantasma à espreita, nosso medo e nossa fé torturada.

Jornalista e ex-professor de filosofia, leitor dos existencialistas franceses que teve passagem pela política (no PMDB da redemocratização), Ostermann uniu diferentes facetas num estilo único, presente no imaginário de ao menos três gerações de gaúchos que acompanharam suas considerações no rádio, no jornal e na televisão. Nele havia uma mistura de informação e elevação poética, cujo tom não se confunde com o lirismo de um Armando Nogueira ou a metafísica passional de um Nelson Rodrigues.

As imagens e metáforas de Ostermann eram mais concretas, ligadas à geografia e aos movimentos do que ele via antes de tudo como um jogo físico. Numa transmissão de rádio qualquer da minha memória, um volante deslocado para a lateral se atrapalhou porque não estava adaptado à “rotina do lugar”. Em outra, o fato de um meia franzino ser “pernalta” tinha ligação com a sua “virtude de estar sempre em pé”. Numa terceira, uma bola recuperada por um zagueiro era a vitória “enérgica” de um corpo “espadaúdo”.

A junção de grandeza e detalhe – o olhar sobre a filosofia e a técnica – começou a dar fama a Ostermann nas décadas de 1960 e 1970. Foi ali, arrisco dizer, que ele sintetizou numa só teoria a admiração pelo Grêmio do treinador Oswaldo Rolla, tetracampeão gaúcho de 1956 a 1959, e pelo Internacional de Rubens Minelli, bicampeão nacional de 1975 e 1976. Nos dois casos, o jogo deixava a tradição brasileira da fantasia algo etérea para incorporar influências metódicas vindas de fora – a escola germânica de preparo físico, os sistemas coletivos de defesa e ataque da seleção húngara de 1954 ou da Holanda de 1974.

Apelidado de professor, Ostermann comandou por 33 anos o Sala de Redação, um dos mais tradicionais programas de debates esportivos do rádio. Ali defendeu com coerência e verve, e às vezes com alguma rabugice, a ideia de futebol que o resto do país associa ao Rio Grande do Sul (vigoroso, disciplinado, pragmático). Discutir até que ponto essa defesa contribuiu para a construção de tal imagem, e até que ponto isso influenciou a realidade futura de equipes que jogavam segundo certas expectativas da imprensa e da torcida, já indica a relevância dessa figura sui generis da crônica – unanimemente respeitada por fugir aos lugares-comuns de seu metiê.

Ostermann é creditado como pioneiro na anotação dos dados de uma partida: número de escanteios, chutes, faltas, impedimentos – o que hoje os softwares de scouting fazem com mais precisão e abrangência. Mas o rosto humano do futebol está sempre por baixo das máscaras científicas, e isso o professor sabia e celebrava. Para quem não o conheceu em jornadas esportivas que encheram domingos do passado de glória e melancolia, vale procurar no YouTube o registro que a Rádio Gaúcha fez de um gol espetacular de Ronaldinho Gaúcho num Grenal decisivo de 1999.

A sequência inclui uma tabela e uma caneta (no Sul, chamada de “janelinha”), que levam o futuro melhor jogador do mundo – então com 19 anos – a ser exaltado pelo narrador Pedro Ernesto Denardin (“o ciclone da defesa adversária!”). A voz do radialista tenta se sobrepor aos “porra!” e “caralho!” de alguém no microfone aberto e aos gritos de “Pelé! Pelé!” do também célebre cronista Paulo Sant’Ana. Em seguida, entra o repórter Antonio Carlos Macedo, ainda em tom impactado, relembrando o Santos dos tempos áureos e enfatizando o “crime” que foi o toque final em frente ao goleiro. Só então a palavra vai para o comentarista da partida.

“Um jogo equilibrado, um jogo sem definição, um jogo de bola na trave”, diz Ostermann, na dicção cristalina de seus erres vibrantes. “Mas aí o lance.” O resto da fala importa menos. É na entonação da adversativa, na pausa ínfima depois da palavra “lance”, que se concentra a perplexidade, o ensaio de deslumbramento que – porém, e sempre – evoca as circunstâncias reais sem as quais o milagre não seria milagre. É uma aula sobre sutileza jornalística – e sobre o objeto que o professor passou a vida amando rigorosamente.


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Escritor e jornalista, é autor de Diário da Queda e Solução de Dois Estados (ambos pela Companhia das Letras)