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O Uruguai diante da pior seca em 74 anos

    Denise Mota em sua cozinha: “Viver sob as imposições da seca parece absurdo para Montevidéu, em um país que ocupa 5% do Aquífero Guarani, a segunda maior reserva de água doce do mundo” CRÉDITO: LUA ERRAMUSPE MOTA_2023

carta do uruguai

O Uruguai diante da pior seca em 74 anos

Como a falta d’água se tornou uma ameaça para a população de Montevidéu

Denise Mota | Edição 204, Setembro 2023

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10 DE MAIO DE 2023, QUARTA-FEIRA, ÀS 16 HORAS_“Escuta isso”, me escreve uma colega pelo WhatsApp. Num áudio de 56 segundos, um suposto eletricista nos aconselha a desligar os aquecedores domésticos antes de entrarmos no banho. O motivo: como a água da torneira apresenta maior salinidade há algumas semanas, podemos “nos eletrocutar” debaixo do chuveiro.

Sou jornalista e nasci em São Paulo, mas vivo em Montevidéu desde 2005. Aqui, boa parte dos aquecedores de água é elétrica e não a gás, como no Brasil. Exerço a função de editora numa agência de notícias, e a mensagem que acabo de receber vem de Manuela Silva. Por dever de ofício, a jovem repórter duvida do que ouviu. Ela diz que vai checar a informação. Concordo que a gravação parece suspeita. Tem os ingredientes clássicos dos relatos falsos que emergem em momentos de crise: é alarmante e protagonizada por um anônimo, mas “especialista” no assunto. “Desde que comecei a morar sozinha”, comenta Manuela, “meus maiores medos são usar o aquecedor e o botijão de gás”.

Na minha casa, continuamos bebendo água da torneira filtrada, apesar da elevação nos níveis de sódio (de 280 mg por litro para 440 mg) e cloreto (de 250 mg para 720 mg), substâncias que compõem o sal. Por enquanto, a mudança não deixou o líquido com gosto salgado – não segundo o meu paladar, quero dizer. Mesmo assim, a situação gera crescente inquietude. Ontem, o Ministério de Saúde Pública recomendou que grávidas e pessoas com doença renal crônica, insuficiência cardíaca ou cirrose deixem de tomar água da torneira. Aos hipertensos, aconselha-­se beber apenas 1 litro por dia.

 

Há duas semanas, a Obras Sanitárias do Estado (OSE), instituição responsável pelo abastecimento hídrico em todo o Uruguai, informou que a salinidade da água corrente iria aumentar por causa das ações de combate à seca que atinge Montevidéu e a Região Metropolitana. Na prática, isso significava que 60% da população uruguaia se veria afetada pela alteração, ou seja, 2 milhões de pessoas. Até os rumores sobre o choque debaixo do chuveiro, minha vida estava completamente normal, e a falta d’água ainda não era um assunto nem “o” assunto, como agora.

O país enfrenta sua pior seca em 74 anos. Tamanha aridez vem diminuindo aceleradamente as reservas de Paso Severino, no Rio Santa Lucía, principal represa que serve Montevidéu e arredores. Não há previsão de chuvas que possam reverter ou mesmo estabilizar a queda no curto prazo. Como Paso Severino já não consegue arcar com o fornecimento hídrico rotineiro, as cidades prejudicadas tiveram de se virar e lançar mão também de uma pequena represa, a de Aguas Corrientes, cujas reservas possuem maiores quantidades de sódio e cloreto por se alimentarem parcialmente do Rio da Prata. Apesar do nome, esse rio é um estuário. Ou melhor: é uma zona alagada em que as águas doces dos rios Uruguai e Paraná se encontram com as salgadas do Oceano Atlântico. Eis o porquê de o Rio da Prata se mostrar mais salobro que o Santa Lucía.

Agora, portanto, nossas casas são abastecidas pelas duas represas ao mesmo tempo. As águas de ambas se misturam em nossas torneiras. Daí o aumento da salinidade. O Ministério de Saúde Pública aprova tal acréscimo “em caráter excepcional”. O governo federal espera que a estratégia segure as pontas durante o mês de maio, enquanto aguarda as chuvas que amenizariam a situação em junho.

 

A seca decorre do fenômeno conhecido como La Niña, que resfria demasiadamente o Oceano Pacífico e modifica o clima em diversas partes do planeta. Não se trata de nada inesperado. O La Niña, que dura entre nove e doze meses, acontece de tempos em tempos. Com um mínimo de planejamento, seria possível evitar que a represa se aproximasse do colapso.

 

ÀS 19 HORAS_Tenho dois filhos adolescentes: a Lua, de 15 anos, e o Pedro, de 13. Um dos meus rituais ao retornar do trabalho é perguntar quem já tomou banho. Em seguida, “convido” o(s) relapso(s) a se dirigir(em) para a ducha. Dessa vez, antes de abordá-los, fui espiar o noticiário. Grande ebulição, mas em virtude dos jogos amistosos do Uruguai, que antecedem a Copa do Mundo Sub-20 de futebol masculino. Por outro lado, nas redes sociais, a paranoia escala: não só o eletricista misterioso, mas também os bombeiros estariam recomendando se banhar com o aquecedor desligado. Ouço novamente o áudio do WhatsApp: “Como ficou salgada, a água da torneira pode conduzir a eletricidade do aparelho. Aconselho que não usem o aquecedor ligado durante o banho. Nunca acontece, até que acontece.”

 

11 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_O fantasma do choque embaixo do chuveiro invade a home dos jornais de circulação nacional. Os bombeiros vêm a público para explicar que, com instalações elétricas adequadas e aquecedores em bom estado, não há perigo nenhum. Outros técnicos confirmam que o problema não existe. O máximo que pode acontecer é a alta salinidade da água corroer os aparelhos.

 

Alívio para muitos, desassossego para alguns: em casa, os adolescentes abandonam as últimas esperanças de passar uns dias sem banho. Volto a ver televisão todas as noites, algo que não fazia desde o fim da pandemia. Num dos noticiários mais populares do país, o destaque é uma reportagem com um… eletricista! Redobro a atenção. O homem segura uma resistência de aquecedor e, diante de outras peças enferrujadas, ignora o que disseram os bombeiros. Recomenda que desliguemos, sim, o aparelho na hora da ducha. A entrevista desperta centenas de comentários no Twitter: “Isso é um absurdo!”; “Que picaretas bizarros”; “Vocês vão nos enlouquecer!”.

Estamos no último mês do outono, e já se sente a proximidade do inverno. Hoje à noite, a temperatura é de 13ºC.

 

12 DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Telejornais consultam dermatologistas, que aconselham proteger a pele do sal com chuveiradas rápidas e creme hidratante. Para os mais sensíveis, o melhor é tomar banhos que alternem água da torneira e água mineral. As reportagens desencadeiam críticas e ironias nas redes sociais: “Banho com Evian?”; “Quem vai pagar tudo isso?”; “Façamos como Cleópatra”; “Assim está o Uruguai, amigos…”.

 

14 DE MAIO, DOMINGO_Em casa, a gente sempre brincou que minha filha é sommelier de água. Ela nunca gostou de refrigerante e, aos poucos, deixou de beber suco engarrafado. Toma leite achocolatado, chá no inverno e suco natural quando está muito inspirada. A bebida favorita dela é mesmo água. Não deixa de ser irônico, porque a Lua começou a caminhar aos 13 meses, enquanto tentava alcançar uma garrafa de Coca-Cola.

À tarde, ela disse que a água do filtro estava estranha. Pegou outra de uma jarra na geladeira, também filtrada, e achou normal. Vida que segue.

 

15 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_Acordei na pilha de tomar café. Mesmo depois de quase duas décadas no Uruguai, não perdi a alegria (e a mania) de iniciar o dia bebendo o cafezinho que trago das visitas ao Brasil. Nesta manhã, assim que dou o primeiro gole, sinto um gosto esquisito. Parece salgado. Lavo a xícara, provo de novo. Não melhora.

A água volta a virar “o” assunto em casa, no trabalho e entre amigos. A piora do sabor agora é nítida. A quantidade de sódio e cloreto ultrapassou os níveis expandidos anteriores, ainda com o aval do Ministério de Saúde Pública.

A OSE anuncia que as reservas de Paso Severino devem durar mais dezoito dias, se tanto. Decidimos comprar água engarrafada. Nós e a cidade inteira: os estoques se esgotam rapidamente no comércio.

 

16 DE MAIO, TERÇA-FEIRA_A imprensa noticia uma reunião entre o secretário da Presidência da República, Álvaro Delgado, alguns ministros e autoridades da OSE – a essa altura, rebatizada de OSAL nos memes que se multiplicam pela internet. O presidente Luis Alberto Lacalle Pou, de centro-direita, não participa do encontro. À noite, Delgado reitera que o governo federal está tomando providências para manter o fornecimento hídrico até que as chuvas reapareçam. Também diz que haverá monitoramento dos preços da água engarrafada e que uma nova represa será construída.

 

17 DE MAIO, QUARTA-FEIRA, ÀS 18 HORAS_Recebo uma breve mensagem no Whats­App do Super Halo, o mercadinho ao lado de casa: “Chegou água!” Quem quiser comprá-la deve ir logo porque a procura está imensa. O limite é de dois galões de 6 litros por família. Nas redes sociais, as pessoas trocam dicas sobre onde se pode encontrar água mineral.

Desde 2011, moro em Palermo, uma área antiga em que a cultura negra fervilha, assim como no vizinho Barrio Sur. São lugares que conservam muito do passado. Casas compridas (as “linguiças”) se misturam com edifícios baixos, pensões, praças, parquinhos, uma porção de idosos e inúmeras crianças. O churrasquinho na porta das residências e as cadeiras na calçada durante os fins de semana ainda resistem. Os vizinhos se conhecem e se cumprimentam.

É como uma pequena cidade do interior. Um dia, por exemplo, minha filha perdeu a carteira de identidade. A gente soube antes de a própria Lua perceber, porque o documento apareceu no mercadinho e eles nos avisaram. O Super Halo está incrustado na alma desse micromundo. Principalmente no verão, abastece de água, suco, refrigerante, cerveja e vinho os bailarinos e músicos das comparsas, grupos que tocam o candombe pelas ruas, um ritmo afro-uruguaio. Nessas ocasiões, os tambores ecoam sem cessar e se transformam na trilha sonora de nossas noites. O mercadinho fica em frente a uma praça, que serve de palco tanto para manifestações políticas quanto para festas infantis. No Super Halo, compartilhamos todas as fofocas da região.

 

ÀS 19 HORAS_Volto do trabalho e corro até o mercadinho com meu marido, Mauricio Erramuspe. Estamos apreensivos. E se a água já tiver acabado? Felizmente, cada um de nós consegue um galão. Regressamos para casa fantasiando o pior: “Daqui a pouco, vai começar o contrabando de água.” Rimos do prognóstico, fingindo achar graça.

 

21 DE MAIO, DOMINGO_Ontem, a Lua estava animada: iria ao último aniversário de 15 anos do seu vasto grupo de amigas. “Vai ser um festão”, previu. Hoje está perplexa: em determinado momento da comemoração, a água engarrafada terminou. Minha filha ficou a seco.

A água não sobra, mas a perplexidade jorra por todos os cantos. A crise hídrica golpeou com força o imaginário dos uruguaios. O artigo 47 da Constituição de 1967, ainda em vigor, define o acesso à água potável e ao saneamento como um direito humano fundamental. Por aqui, a maioria das propagandas turísticas lança mão do slogan “Uruguai Natural” e exibe imagens aéreas de praias, rios e cascatas, que são mesmo de tirar o fôlego. Viver sob as imposições da seca parece absurdo para Montevidéu, cidade que nasceu às margens do Rio da Prata e num país que ocupa 5% do Aquífero Guarani, a segunda maior reserva de água doce do mundo. Ruiu a fantasia de que o Uruguai dispõe de uma natureza infinita, algo semelhante à crença de que, no Brasil, “em se plantando, tudo dá”.

 

24 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Se a Lua adora água, o Pedro é fã número 1 de arroz. Ele devorou o cereal no jantar, como de hábito, mas vomitou antes de se deitar. Ficamos intrigados. Pedro não tem febre, não se queixa de dor nem vomita de novo. Vamos eliminando possíveis razões até concluir que é melhor começar a fazer arroz com água mineral.

 

5 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Chegamos à sétima semana da crise hídrica. O gosto da água corrente só piora. Usamos a mineral para cozinhar quase tudo, além de preparar os inescapáveis cafezinho e chimarrão (ou mate, como preferem os uruguaios). Manuela, a jovem repórter, anda triste, calada. Teme que a compra obrigatória de galões d’água a leve à falência. Seus conhecidos também reclamam. “Acabo de voltar da feira. Estou chorando. Tudo caríssimo”, lhe escreveu uma amiga pelo celular, no fim de semana. “Desculpa, estou dramática… Os preços dispararam e foram à merda, mas os salários continuam iguais… tipo… de um dia para o outro, gastamos 120 dólares a mais de água por mês. Aí você vai à feira e o quilo do tomate custa 3,5 dólares. Claro que não compramos.” A amiga costuma fazer cálculos em dólares, não em pesos. Se lhe perguntam o motivo, ela responde, desolada: “É o que acontece quando você namora um argentino.”

 

8 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Fico sabendo que a maior salinidade da água traz outra preocupação: os trialometanos. “São compostos químicos que surgem quando o brometo da água salgada se junta com matérias orgânicas e o cloro utilizado nos processos de saneamento”, explica Danilo Ríos, mestre em engenharia ambiental e ex-gerente-geral da OSE. Os trialometanos podem prejudicar a saúde se ingeridos de modo ininterrupto por uma década ou mais. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer os classifica como “possivelmente cancerígenos para humanos”.

Não à toa, a Faculdade de Medicina da centenária Universidade da República (Udelar) passa a recomendar que a população tome “duchas rápidas” e evite “inalar o vapor d’água”. O conselho é reforçado pela Faculdade de Química da mesma instituição.

 

11 DE JUNHO, DOMINGO_Final do Mundial Sub-20. O Uruguai disputa a taça com a Itália. Em todos os lugares, só se fala da partida. A vitória dos uruguaios por 1 a 0 incendeia o país. Uma nova geração restaura a mística da Celeste, e a sede por títulos no futebol é, enfim, saciada. Os atletas jogaram muito. Só não fizeram chover…

 

13 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_O aumento de sódio e cloreto na água acaba por estragar os aquecedores elétricos, como alertaram os verdadeiros especialistas. Os aparelhos se tornam campeões de queixas e consertos. Pelo menos é o que garante minha cunhada, Alejandra Erramuspe, aflita com um curto-circuito em seu apartamento. O problema começou justamente no aquecedor do banheiro. Ela conseguiu agendar a visita da assistência técnica apenas para a próxima semana. A oficina não dá vazão à enxurrada de telefonemas e mensagens. “Eles parecem bem irritados”, conta Alejandra. “Me disseram que estão no prejuízo porque têm de trocar aparelhos ainda na garantia.”

 

19 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_A chuva teima em não cair. Por isso, o governo federal decreta “emergência hídrica” em Montevidéu e na Região Metropolitana. O presidente Lacalle Pou anuncia a construção de um sistema que possibilitará bombear água do Rio San José para o Santa Lucía, o que aumentará o potencial da Represa de Paso Severino. O governo também decide zerar os impostos sobre a água mineral e começa a distribuí-la gratuitamente às populações vulneráveis.

As reservas de Paso Severino estão com menos de 5% de sua capacidade. Atualmente, há cerca de 3 milhões de m3 de água onde antes havia 63,5 milhões. A previsão do tempo é o assunto que mais me chama a atenção nos noticiários da noite.

 

22 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_“Virou um caos”, desabafa Helene Baraisi, minha vizinha e proprietária do Super Halo. Ela precisa se desdobrar para não perder a clientela, cada vez mais ávida por garrafas d’água. Eu a cumprimento pouco antes de pegar o ônibus. Helene é uma mulher cintilante, que toca o negócio familiar há 24 anos. Hoje está nitidamente preocupada.

O mercadinho mantinha um acordo de exclusividade com uma famosa produtora uruguaia de água mineral. Só comprava dela, por preços vantajosos. No entanto, para atender ao crescimento repentino da demanda, teve de recorrer a marcas rivais. O fornecedor costumeiro torceu o nariz, e o acordo se rompeu. Agora o Super Halo nem sempre consegue água suficiente. Em consequência, Helene nota uma queda expressiva na venda de café, erva-mate, chá e outros produtos. “Vejo que os clientes entram, circulam e, se não encontram galões ou engradados de água, vão para outro lugar, sem comprar nada.”

 

23 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA_“Caos” já se tornou coisa do passado. Nesta sexta-­feira, a palavra da vez é “pânico”. Ao meio-dia, numa entrevista coletiva, a prefeita de Montevidéu, Carolina Cosse, de esquerda, avisa que sua gestão entregará água engarrafada para todas as grávidas nas policlínicas municipais – e não só para os hipertensos, como ocorria até o momento. Ela começa a ler um relatório da Faculdade de Medicina da Udelar sobre eventuais prejuízos à gravidez causados pelos trialometanos. O informe menciona o risco de malformações em fetos, mas pede cautela na interpretação dessa possibilidade.

A coletiva é tachada de “lamentável” por apoiadores de Lacalle Pou (a prefeita se opõe ao presidente). Eles classificam o episódio de “terrorismo político” e rechaçam a “tentativa de alarmar” a população.

 

6 DE JULHO, QUINTA-FEIRA_A Represa de Paso Severino atingiu ontem um mínimo histórico: 1,7% de sua capacidade. À noite, no quintal de uma livraria, sob o calor de aquecedores luminosos, faço a mediação de um debate a respeito da crise com três especialistas. A conversa dura quase duas horas e atrai bom público. Os debatedores lastimam que o governo federal e a oposição estejam antecipando a campanha presidencial de 2024 e, por isso, troquem inúteis acusações sobre a responsabilidade pela situação atual – uma barafunda prevista já nos anos 1970. À época, havia a recomendação de que o Uruguai implementasse uma série de medidas para evitar o colapso hídrico, como a construção de novas represas. Desde então, nenhum líder do país levou o aviso a sério. “Todos dormimos”, sentenciou o ex-presidente José “Pepe” Mujica dois dias atrás, quando abordou o assunto.

As medidas não são complexas, argumentam os especialistas, mas exigem foco e determinação por muito tempo. “Se eu tivesse que tomar um antibiótico durante sete dias e tomasse apenas por dois, o que aconteceria? Certamente, não iria me curar”, compara Sylvia Bonilla, doutora em ciências biológicas.

 

7 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_“Beber água de galão não é a solução.” Perto de um cartaz com esses dizeres, a artista negra Chabela Ramírez toca tambores em frente à sede da OSE. Ela também é militante e figura central das tradições afro-uruguaias. Está vestida como uma mama vieja do candombe, personagem que usa turbante e saia rodada, à semelhança das ialorixás brasileiras.

 

10 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_Alívio. Choveu entre quarta-feira e sábado da semana passada, ainda que moderadamente. Aos poucos, os níveis de Paso Severino vão aumentando. A solução de sempre, vinda do céu. Trata-se, no entanto, de um falso alívio. “Os dados são categóricos. A evidência é demolidora”, insiste Sylvia Bonilla. Voltamos a conversar depois do encontro na livraria. Ela estuda questões ambientais há anos na Faculdade de Ciências da Udelar, onde é professora adjunta. “Os recursos hídricos do Uruguai estão muito comprometidos. São necessárias medidas urgentes. O problema é que tais medidas dependem de decisões políticas que, muitas vezes, estão longe das evidências científicas e da própria crise a ser resolvida. O país precisa compreender a água como um bem imprescindível para o desenvolvimento social. Precisa enxergar no longo prazo. Chega de continuarmos abraçados a velhos paradigmas, do tipo ‘no Uruguai, tem água de sobra’.”

 

12 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Acordamos com a notícia de um terremoto em Atlántida, balneário a 45 km de Montevidéu. A piada do momento é: “Nunca acontecia nada no Uruguai. Agora as pragas apareceram todas juntas. Escassez de água, choque sob a ducha, malformação em fetos, gastos domésticos nas alturas e pico de infecções respiratórias em crianças pequenas por causa do frio. Só faltam os gafanhotos…” Ainda bem que o sismo de magnitude 5,2 – o maior já registrado no país – não deixou feridos.

Fim da tarde. Estou chegando do trabalho e avisto Chabela Ramírez. A artista, que se recupera de um câncer no cólon, costuma distribuir sopa na Casa da Cultura Afro-Uruguaia para pessoas em situação de rua. Ela já presidiu a instituição, que fica perto de onde moro.

Paramos e conversamos um pouco, como sempre. Chabela conta que o racismo segue a todo vapor durante a crise hídrica. “A gente começou a escutar frases do gênero: ‘Por que vocês se preocupam tanto com a água, se os negros só tomam vinho?’” Foi em razão de episódios dessa natureza que a artista e outras mamas resolveram se manifestar no dia 7. Diante da OSE, as mulheres cantavam: Não queremos vinho nem cerveja/Queremos água limpa da torneira em nossas mesas. Chabela se diz cansada de ver os negros associados pejorativamente a bebidas alcoólicas, festas e batuques. “Os tambores e os cantos das mamas remetem aos nossos ancestrais. São elementos litúrgicos e de resistência. Nós os usamos para lutar.”

 

3 DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA_As chuvas persistem, e as reservas de Paso Severino continuam subindo. A represa alcança 17% de sua capacidade. Numa pesquisa sobre “os principais problemas dos uruguaios”, realizada pela Equipos Consultores em junho e divulgada hoje, a falta d’água aparece em quarto lugar, à frente da educação, das drogas, da saúde e dos políticos. Nas três primeiras posições, estão a insegurança, a situação econômica e o desemprego. O instituto entrevistou 1 204 pessoas em todo o Uruguai, presencialmente ou por telefone.

 

11 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA_O sistema que bombeia água do Rio San José para o Santa Lucía começou a funcionar ontem. Os telejornais noturnos informam que a Represa de Paso Severino agora tem reservas para, no mínimo, dois meses, mesmo se não chover. O sódio e o cloreto que chegam às torneiras diminuem, embora as recomendações das autoridades sanitárias permaneçam: grávidas e pessoas com doença renal crônica, insuficiência cardíaca ou cirrose devem beber água mineral. O boletim diário da Presidência da República sobre a seca adverte: “Essas recomendações são dinâmicas e sujeitas às circunstâncias de cada dia.” Em outras palavras: tudo está melhor, mas pode piorar.

 

13 DE AGOSTO, DOMINGO_A professora Sylvia Bonilla diz que se sente “esgotada”. Não para de ministrar palestras, dar entrevistas e participar de discussões públicas. Ela quer ajudar o Uruguai a debater a crise hídrica com base em informações confiáveis. “Como cientista, tenho o dever de contribuir. Se as pessoas levarão minhas contribuições em conta, é outra história. Noto que a crise chacoalhou todos os setores da sociedade e trouxe vários questionamentos, mas será que fez aumentar significativamente a consciência dos uruguaios? Não sei… Creio que o assunto só vai se tornar prioritário no país quando houver mais educação geral, mais senso de cidadania, mais investimento em pesquisas e mais responsabilidade dos gestores, legisladores e governantes.” Sobre o aquecimento global, outro tema que inquieta a comunidade científica, Sylvia tampouco se mostra otimista: “Não acho que o mundo vá reagir a tempo, se é que reagirá algum dia.”

 

22 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_ As chuvas se intensificaram na última semana e a capacidade de Paso Severino subiu para 55%.

 

23 DE AGOSTO, QUARTA-FEIRA_ O presidente Lacalle Pou anuncia o fim da “emergência hídrica”. As reservas de Paso Severino beiram 58% e a salinidade da água corrente volta ao nível normal. Em dezenas de reportagens que circulam pelo Uruguai, meteorologistas afirmam que chuvas ainda mais abundantes cairão a partir de setembro. O pessoal do Super Halo e as mamas festejam. O Pedro e a Lua, nem tanto.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_204 com o título “Nunca acontece, até que acontece”.

Denise Mota
Denise Mota

É jornalista radicada em Montevidéu. Foi colaboradora de veículos brasileiros e internacionais como Repórter Brasil e BBC. Escreve sobre diversidade para a Folha de S.Paulo.

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