CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
O amigo do velho
O homem que pautou a vida por Luiz Carlos Prestes
Felippe Aníbal | Edição 221, Fevereiro 2025
Caruaru, em Pernambuco, fervilhava sob um foguetório ensurdecedor, semanas antes das eleições de 1960. Acotovelando-se em meio à multidão que se formara na Avenida Rio Branco, o jovem estudante Laércio Souto Maior conseguiu um espaço em frente ao caminhão que serviria de palanque do comício.
Dali, o rapaz de 21 anos assistiu ao discurso inflamado de Luiz Carlos Prestes em apoio à candidatura do marechal da reserva Henrique Teixeira Lott à Presidência. Souto Maior ficou vidrado no líder comunista, então com 62 anos, a quem admirava desde que lera O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado.
Em seu pronunciamento, Prestes defendeu a reforma agrária. “Está no latifúndio e na má distribuição da propriedade territorial a principal causa da miséria e da ignorância de nosso povo”, disse. Foi o que bastou. O estudante converteu-se ao comunismo. Desde então, passou a se referir ao militante histórico apenas como “o Velho”, como se os dois mantivessem estreita relação de amizade. Talvez tenha sido um presságio, porque Souto Maior viria mesmo a se tornar, por um breve período, amigo do Velho.
Laércio Souto Maior – hoje com 85 anos – é filho de uma professora e de um pecuarista de Caruaru. A família chegou a ter três fazendas e a maior usina de leite da região. Em 1962, os negócios entraram em decadência, o que motivou o rapaz a tentar a vida longe de Pernambuco. Chegou a cogitar ir para Brasília e pedir emprego para o tio Estácio Souto Maior, político e dono de frigoríficos (e pai de Nelson Piquet, o ex-piloto de Fórmula 1, hoje fervoroso bolsonarista).
Na última hora, ouviu a recomendação de um amigo e rumou para o Norte do Paraná, que estava em expansão econômica. Desembarcou em Maringá no mesmo ano de 1962, quase sem dinheiro e sem contatos. Em um golpe de sorte, conseguiu um emprego no escritório de contabilidade do vereador Bonifácio Martins – que também era comunista.
Em 1963, tornou-se assessor do deputado federal Renato Celidônio (então no PTB), que se definia como “um socialista fabiano”, referindo-se à britânica Sociedade Fabiana, que segue a social-democracia. Vez ou outra, o político lhe apresentava certos “encantos do capitalismo”, como se quisesse pôr à prova as convicções do jovem comunista. “Ele me testava: ‘Não é bom isso aqui? Essa carne boa, essas moças bonitas?’ Ficava gozando comigo”, relembra Souto Maior.
Quando veio o golpe militar, ele criou e comandou um grupo clandestino, A Organização, que preconizava a luta armada. A facção chegou a ter um pequeno arsenal, com revólveres e carabinas Urko nacionais, e planejou treinamentos em um sítio em Mauá da Serra, no Paraná. “A gente esperava que o Brizola se levantasse. Aí, nós nos levantaríamos e tomaríamos os municípios vizinhos”, conta.
O levante não veio, mas a militância continuou. Ao longo da ditadura, foi preso três vezes. Na última, em 1975, ficou encarcerado por onze meses no Presídio do Ahú, em Curitiba, e foi torturado. Mas Souto Maior não lamenta o que sofreu: “Eu sabia onde estava me metendo.” Um advogado chegou a calcular que ele teria direito a receber em torno de 300 mil reais (em valores do início dos anos 2000) se reivindicasse reparações judiciais ao Estado brasileiro. Ele não quis abrir o processo. Seguiu o exemplo de Prestes, que abdicou de receber um salário vitalício outorgado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “Eu me considero um discípulo do Velho. Eu me espelho nele e procuro, minimamente, ser uma pessoa de acordo com o que ele tinha de paradigma.”
Advogado e jornalista, Souto Maior também exerceu cargos públicos no governo do Paraná. Em meados da década de 1980, o então prefeito da cidade paranaense de Medianeira, Adolpho Mariano da Costa, lhe sugeriu que compilasse poemas de vários autores dedicados a Prestes. “Eu comecei no mesmo dia”, relembra Souto Maior.
A pesquisa durou dezesseis anos. Ele coletou poemas do chileno Pablo Neruda, do francês Paul Éluard, de Mário de Andrade, Raul Bopp e Carlos Marighella, entre muitos outros. Há até mesmo um Canto anônimo a Luiz Carlos Prestes, escrito por Monteiro Lobato, que se aproximou dos comunistas nos anos 1940: Para o povo não existe/homem de mais confiança/do que Luiz Carlos Prestes./Cavaleiro da Esperança. O próprio advogado fez dois poemas.
Em março de 1989, um ano antes da morte do Velho, Souto Maior e sua companheira, Cidinha Arruda, bateram à porta de Prestes, na Rua das Acácias, 101, no Rio de Janeiro. De chinelo e em mangas de camisa, ele os recebeu na sala mobiliada com móveis de vime. A conversa se estendeu por mais de duas horas, e Souto Maior pediu autorização para a compilação dos poemas. Ainda hoje, a lembrança do episódio o leva às lágrimas. “Antes, eu era um stalinista ferrenho e não havia o que me fizesse chorar. A gente se emociona com o Velho”, diz, limpando os olhos. Lançado em 2006, Luiz Carlos Prestes na poesia (Travessa dos Editores) está com tiragem esgotada.
Agora, Souto Maior prepara um livro em que narra os cinco encontros que teve com o líder comunista. A obra vai incluir também uma entrevista feita por Cidinha Arruda, na qual Prestes falou sobre a Constituição de 1988. Ele já criticava o artigo 142, sobre as Forças Armadas, no qual os golpistas do governo Bolsonaro buscaram uma justificativa para a intervenção militar. Prestes achava que o artigo daria poder aos militares para acabar com a democracia. “A entrevista é atual em tudo que ele diz”, afirma o advogado, que mantém relação com filhos do Velho.
Souto Maior – que nunca foi oficialmente filiado ao PCB – vê com desalento o cenário nacional, com a ascensão da extrema direita e a falta de vigor da esquerda. Diz que o PT nunca foi um partido revolucionário e que calcou seus governos em políticas compensatórias. “Foi se tornando um partido de poder e, mais que isso, um partido do líder Luiz Inácio Lula da Silva, que não tem ideologia nenhuma. Ou melhor, tem: a burguesa”, avalia.
Ele não acredita que existam condições para implantar o comunismo no Brasil, mas ri de quem diz que essa corrente política morreu. “Se você falar isso para o Jones Manoel e para o Ivan Pinheiro, eles vão ficar em pé de guerra”, diz, rindo. Manoel é um jovem historiador comunista, muito ativo nas redes sociais. Pinheiro foi secretário-geral do PCB. “Ideia você não mata”, acrescenta.
