CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
O Bordeaux da paz
Políticos de todos os campos se refugiam em restaurante paulistano
Ana Clara Costa | Edição 214, Julho 2024
Desde que o restaurante Piantella, em Brasília, fechou suas portas, em 2020, não havia um point gastronômico que reunisse tantos matizes partidários como o Refúgio, aberto em dezembro em São Paulo. A casa na Alameda Franca, nos Jardins, fica nos fundos da loja de vinhos Casa do Porto, onde antes funcionava um depósito. Passa quase despercebida: é preciso descer uma rampa estreita, meio escondida, para chegar ao salão com 84 lugares, dos quais 10 ficam em uma sala privada.
A clientela graúda aprecia essa discrição. O lugar já recebeu o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), o deputado federal Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o ainda presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e até seu candidato à sucessão, Elmar Nascimento (União Brasil-BA), que aprovou o menu. “Tudo muito bom”, disse à piauí.
Se comparada à dos restaurantes estrelados de São Paulo, a culinária do Refúgio parece simples: carnes, peixes e aves na brasa, servidos com mandioca cozida ou brócolis com alho frito, entre outros acompanhamentos. O vinagrete de lula com feijão-manteiguinha faz sucesso como entrada. Dentre as sobremesas, a mais requisitada é a ambrosia de leite cru e ovo caipira com sorvete de laranja confit e especiarias. O cardápio foi criado pela chef Carol Albuquerque, que já trabalhou com Helena Rizzo e Claude Troisgros. Mas, hoje, quem comanda a cozinha é Simon Gbrail.
Os pratos, que custam entre 150 e 250 reais, são harmonizados com vinhos da adega da Casa do Porto, especializada em rótulos franceses, sobretudo da região de Bordeaux. O estrelado La Tupina, que inspirou o Refúgio, também é dessa região. A casa paulista oferece uma versão do pato que fez a fama do restaurante francês.
Em São Paulo, não costumava haver restaurantes suprapartidários como o falecido Piantella em Brasília. Era cada um no seu quadrado. O francês La Tambouille e o italiano Parigi sempre foram redutos da turma de Michel Temer. O tradicional La Casserole, no Largo do Arouche, era território da velha guarda tucana. O Freddy, no Itaim, era o preferido do DEM, antes de o partido virar União Brasil. O diferencial do Refúgio é o ecumenismo, com a esquerda e a direita dividindo o espaço. Ali, a paz reina na política, celebrada com um bom vinho Bordeaux.
Em maio, quando todo o poder desembarcou em São Paulo para o casamento da filha do senador Ciro Nogueira (PP-PI), o Refúgio lotou. Na mesa mais cobiçada, Arthur Lira foi visto brindando alegremente com o petista Rui Costa e com Elmar Nascimento – uma confraternização que dificilmente se daria em Brasília.
O pacificador é Péricles Gomes, de 60 anos, dono da Casa do Porto e sócio do empresário Marcelo Magalhães no restaurante. Parte da clientela que frequenta o local já era assídua da loja de vinhos, onde Gomes oferecia almoços num pequeno bistrô, hoje desativado.
O nome Casa do Porto alude não à cidade lusitana do Porto e seu conhecido vinho licoroso, mas ao Porto de Vitória. Natural de Viçosa, em Minas Gerais, Gomes foi dono, nos anos 1990, de uma delicatéssen na capital do Espírito Santo. Lá, teve como cliente o então senador Paulo Hartung, que assumiria como governador em 2003.
Em seu primeiro ano de governo, quando recebeu o presidente Lula em visita oficial, Hartung deixou Gomes à disposição do petista para oferecer-lhe o melhor que havia em sua loja. O gosto do presidente por uísque chamou a atenção do proprietário da delicatéssen. Gomes, que nunca votara no PT (nem viria a votar), achou que Lula era mais preparado do que ele pensava. Sua loja capixaba, que também contava com um restaurante, já havia recebido os tucanos Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin (hoje no PSB). As fotos da visita estão afixadas na loja de vinhos paulistana, inaugurada em 2003.
Gomes declara-se de direita, mas garante que sua inclinação política não influi em seus empreendimentos. “Se o Zé Dirceu vier aqui na minha loja, vou tratá-lo com o maior respeito, independente do que tenha feito. No comércio, é assim que funciona”, diz o empresário. (José Dirceu, aliás, já foi visto na loja de vinhos.) Gomes não gosta de se envolver em discussões ideológicas e diz que seus clientes não brigam enquanto apreciam os pratos do Refúgio. “O filho do Lula [ele não sabe qual] vem aqui, e também o Rui Falcão [deputado federal pelo PT-SP]”, conta.
Gomes admite que manteve a loja de vinho e o bistrô em funcionamento nos períodos de isolamento social ditados pela pandemia. Recebia clientes seletos, a portas fechadas. “As pessoas vinham almoçar, passavam o dia bebendo, conversando. Ninguém que frequentou aqui naquele período morreu de Covid”, diz. O empresário conta que alguns vizinhos – “aqueles que batem panela” – ligavam para a polícia, que então fazia uma visita protocolar à Casa do Porto. “Nunca me multaram nem me mandaram fechar.” Em novembro de 2020, seu pai, Ruy Saraiva Gomes, morreu em Vitória, vítima do vírus.
O ex-comunista Aldo Rebelo, hoje no MDB, amigo de Jair Bolsonaro e secretário de Ricardo Nunes na Prefeitura de São Paulo, é outro cliente assíduo. Gomes costuma dizer aos amigos que ele “é um dos caras mais inteligentes que há”. Os figurões do bolsonarismo, porém, ainda não buscaram o Refúgio. O empresário gostaria de servir Paulo Guedes, que considera “o ministro da Fazenda mais competente” que já houve.
Não é só no meio político que a Casa do Porto conquistou clientes. Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF, Davide Marcovitch, presidente da LVMH na América Latina, e Benjamin Steinbruch, da CSN, também buscam seus vinhos lá. Durante uma das entrevistas da piauí com Gomes, um funcionário do apresentador José Luiz Datena – que pretende se candidatar a prefeito de São Paulo – chegou para buscar uma encomenda de bebida. Poucos minutos depois, saiu do Refúgio o empresário Marcelo Faria de Lima, controlador de empresas como a Metalfrio e a Restoque.
A clientela se regala nas mesas, mas os funcionários, que muitas vezes atendem os convivas ilustres em horários que extrapolam o expediente, não podem comer lá. Têm que recorrer a outros lugares nos arredores, uma prática incomum nos restaurantes sofisticados, que costumam preparar uma comida mais simples para os empregados. A fim de reduzir gastos com o vale-refeição, os donos abrirão um bar em frente à Casa do Porto que vai oferecer pratos mais simples e baratos, sobretudo por delivery, e também fará refeições para os seus funcionários.
Há vinhos para todos os gostos e bolsos na Casa do Porto. Um Château Petrus custa de 30 a 50 mil reais, dependendo da safra. Uma raridade como o vinho húngaro de sobremesa Tokaji, safra de 1999, sai a cerca de 12 mil reais. Os rótulos mais especiais ficam armazenados numa salinha reservada, chamada de Santuário. Mas Gomes diz que seu interesse está cada dia mais voltado para vinhos acessíveis: “O mundo do vinho é o vinho do dia a dia. Isso é o mais legal que tem.”
Gomes vai uma vez por ano à França para garimpar vinhos. Seleciona aqueles que, na sua avaliação, têm qualidade superior ao preço. Como ele está certo de ter feito uma boa escolha? “Lá em Minas, sabe como a gente fala? Parrrrrpite”, diz, com o sotaque mineiro arrastado. E solta uma gargalhada.
