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    CRÉDITO: PEDRO FRANZ_2021

poesia

O cortejo do excapitão de braços com devotos do eclipse final

João Bandeira | Edição 184, Janeiro 2022

A+ A- A

Por qual via, se é que sim, agora transita
aquele Cadillac branco conversível
visto na incerta manhã por olho grande a
deslizar bacana pela Avenida Maracanã?

O que foi feito do Fusquinha 68
do namorado animado da prima linda
com o adesivo enorme de uma margarida
mensagem paz e amor de viés na tampa do motor?

E o Vauxhall preto conseguido de segunda
mão, que o pai remediado numa noite e tanto
trouxe para casa e fomos todos à rua
em grande estreia da família de automóvel
(mas babau, that’s all, porque na primeira esquina
motorista ansioso avançou seu nariz e o
do carrinho, que um baita Sáenz Peña-Usina amarfanhou)?

 

Também tinha o jipe sem capota do Bill
um Candango peidando no vento até a Barra
ele, eu, minha irmã, um violão, cena de praia
mas hoje não me vem qual música cantávamos
seria a última do Roberto, a de acabar comigo?

Existiu mesmo o Landau do Dino, será
possível ter sofás de Onassis como bancos?
Verdade que um menino girava o volante
com o toque de um só dedo, como alguém que sonhando ande?

Para que tantos carros vindos de tão longe
buzinando em coro uníssono na lembrança
pousada no meio-fio da Adalberto Aranha?
É que enquanto bate un martello aquela Rita
na porta entreaberta do meu entendimento
voltando no tempo poucos passos adiante
alguém vai ser apanhado no impecável quartel da Barão de Mesquita

 

***

Se você está com algum
problema de difícil
solução e precisa
de ajuda urgente
peça a Santo Expedito
o Santo dos Negócios
de pronta solução
cuja invocação nunca
é tardia
Em agradecimento
mandei publicar
e logo distribuí
um milheiro dessa
oração
Mande você
também publicá-la
propagando os benefícios
imediatamente após
o pedido
Trinta e oito reais o milheiro
ligue grátis
entregamos em
qualquer lugar
do Brasil

 

Mais de cem anos corridos do que se disse
a descoberta da terra de uma santa cruz
indígenas foram então imaginados
como seres terríveis em gravuras
que insinuavam ser comum, diário e ralo
o rito especial chamado antropofágico

 

Foram talhadas por artistas d’além-mar
que jamais os viram e nem sequer bem leram
o que havia sido escrito por quem de fato
passou por estas terras ou aqui ficou

Também se gravaram montagens de figuras
herdeiras dos bestiários medievais
como encarnações do diabo entre
os ex-edênicos tornados novos bárbaros

O presidente, parece que foi ontem
fez outra laive com borrados descendentes
daqueles povos tantas vezes mal representados

***

Acorreram à minha porta carteiros
amoladores, pedintes
caixeiros de todas as cores
o vendedor de banana empurrando
seu carrinho de mão e que aceita cartão
a engenheira do nhoque de mandioquinha
o sujeito que grita – É ovos é ovos
o marido da vizinha, os filhos do pipoqueiro
o cortejo do excapitão de braços com devotos do eclipse afinal

E livros aquém do uso, jornais acesos pela manhã
cravejadas iguarias via uberesfolados entregadores
propostas tantalizantes, modestos assaltos de ocasião
dívidas sempre adiadas, faltas com amigos
conselhos de família, oficiais de justiça
Ajax e outros apregoados heróis higienistas
as mais gasosas melodias de ondes insabidos
das velhas namoradas esquecidas
cobrando sonhos e acertos de colchão

Nenhum, nenhumas trazendo
por quatrocentos dias mais trinta dinheiros
o bem que alguém me quereria e mal sabia eu

(REPRODUÇÃO PROIBIDA)

João Bandeira

É poeta, artista visual e crítico de arte. Organizou 40 Escritos, de Arnaldo Antunes (Iluminuras), e publicou Rente (Ateliê Editorial) e Quem Quando Queira (Cosac Naify), entre outras publicações

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