No canal do porto de Vitória, o anestesista Ricardo Silva Nicoletti, que superou a dependência de opioides: “Sou um caso raro, pois consegui voltar a trabalhar em centro cirúrgico” CRÉDITO: FLAVIA VALSANI_2022
O drama dos opioides
Potentes e viciantes, as drogas se espalham entre médicos e enfermeiros – e já são traficadas até em conta do Telegram
João Batista Jr. | Edição 193, Outubro 2022
O zelador bateu na porta do apartamento uma, três, cinco vezes. Nada. Chamou um segurança e um ajudante do condomínio e, juntos, derrubaram a porta a pontapés. Entraram. Andaram pela sala, pela cozinha. Nada. Até que encontraram o farmacêutico A. L., de 32 anos, no banheiro, inerte, com uma seringa perto do braço e “três ou quatro” ampolas caídas ao redor. O zelador ligou para W. M., de 33 anos, e informou a suspeita trágica: seu namorado fora encontrado estirado no chão e estava provavelmente morto. O zelador ligou para o 190 e a polícia chegou em menos de quinze minutos. Sim, A. L. estava morto. Seu corpo foi retirado e as testemunhas seguiram para a 93ª Delegacia de Polícia, na Zona Oeste de São Paulo.
No boletim de ocorrência, registrou-se “vítima de suicídio”. Mais tarde, concluídos os exames no Instituto Médico Legal, saiu a causa do óbito: “Intoxicação exógena por agentes químicos.” Em nota enviada à piauí, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo detalha: “No sangue da vítima foi constatada a presença de opioides e sedativos.” A. L. injetara um opioide sintético poderosíssimo, cujo princípio ativo é o citrato de fentanila, usado para sedação e anestesia em procedimentos médicos. É cem vezes mais forte que a morfina, cinquenta vezes mais forte que a heroína. A. L. morrera de overdose.
“Eu sabia que era mentira”, diz W. M., relembrando as explicações que A. L. lhe deu nas vezes em que desconfiou de que o namorado estava usando uma substância suspeita. O dia da morte não lhe sai da cabeça. W. M. tivera que ir às pressas para São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, para resolver questões familiares. Por volta das 10 horas daquele 29 de outubro de 2020, ligou para o namorado para lhe dar bom-dia. Mas A. L. não atendeu ao celular. Ele voltou a ligar pouco depois, mas não houve resposta mais uma vez. Tomou café, ligou de novo, ligou nove vezes e, como já era uma da tarde, horário em que A. L. devia começar a trabalhar em regime de home office, pediu então para o zelador subir ao quinto andar e autorizou que arrombasse a porta, se preciso.
Nos meses anteriores à morte, W. M. percebeu que o comportamento do namorado estava alterado. Observou alguns pontos arroxeados nas nádegas e nas canelas. Quando perguntava o que era, A. L. despistava. Dizia que havia esbarrado em alguma coisa. Um dia, as coisas ficaram claras. “Escutei um barulho vindo do banheiro”, relembra. “Quando entrei, ele estava segurando uma medicação com uma seringa. Perguntei que remédio era aquele, ele me falou que era para ansiedade, mas eu sabia que era mentira porque os ansiolíticos comuns não são injetáveis. Então, falei: ‘Se precisar de ajuda, estou aqui…’ E falei que da próxima vez que ele usasse aquilo eu ia falar com a família dele, com o trabalho dele.”
Formado em farmácia, A. L. trabalhava em um laboratório de medicina diagnóstica desde fevereiro de 2020. Sua rotina consistia em mapear os processos de logística e garantir o abastecimento de fármacos nas diversas unidades da empresa. Entre os remédios, constava o citrato de fentanila, muito usado na realização de exames como endoscopia e colonoscopia. Em estado líquido, a fentanila é de uso exclusivo de clínicas e hospitais. Nas farmácias, a substância só é encontrada na forma transdérmica, como adesivo que se aplica sobre a pele.
Naquele dia em que flagrou o namorado se injetando no banheiro, W. M. já tinha certeza de que o remédio estava sendo retirado do laboratório. Semanas depois, encerrado o jantar no Dia dos Namorados, a cena se repetiu. “Ele me falou que não ia mais tomar. Na hora em que a pessoa está sob o efeito, ela fica com o rosto inexpressivo e morto, derrubado. Parece não estar ouvindo nada.” A. L. pediu desculpas e voltou a prometer que pararia. Morreu de overdose quatro meses depois.
Quando foi retirar seus pertences do apartamento onde morava com o namorado, W. M. encontrou uma caixa de dez ampolas de citrato de fentanila em uma gaveta. A caixa estava incompleta. Faltavam as ampolas que foram encontradas no chão do banheiro, ao lado do corpo de A. L.
No dia 10 de fevereiro de 2021, pouco mais de três meses depois da overdose que matou A. L., a polícia foi acionada para comparecer a uma unidade do Hospital Sancta Maggiore, da operadora de saúde Prevent Senior, também na Zona Oeste de São Paulo. A auxiliar de enfermagem Erinalva Oliveira Dantas, de 40 anos, foi encontrada sem vida no banheiro do vestiário dos funcionários. Ao lado de seu corpo, havia três ampolas – uma de morfina (usada) e duas de citrato de fentanila (uma usada, outra fechada). O boletim de ocorrência informa que Dantas consumia opioides retirados da farmácia do hospital. Sua mãe, Valdecy, diz que a filha sofria de depressão desde que se separou do marido, seis anos atrás.
Para os profissionais que estudam os opioides, a morte de Erinalva Dantas representou outra confirmação de um fenômeno pouco visível: funcionários da área da saúde – enfermeiros, farmacêuticos, médicos – estão enfrentando uma onda preocupante de consumo de substâncias como citrato de fentanila, cloridrato de petidina, codeína, oxicodona, tramadol, sulfato de morfina, metadona. São todos opioides usados para tratar a dor. Extremamente potentes e viciantes, oferecem alto risco de overdose. “Os hospitais não debatem o assunto porque têm receio de assustar os pacientes”, diz Rita de Cássia Rodrigues, presidente da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo e professora há quatro décadas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “E os médicos dependentes sofrem calados porque têm medo de perder o emprego.”
Nascido numa família de classe média alta e formado em uma universidade pública, o anestesista G. C.[1] experimentou citrato de fentanila pela primeira vez para debelar o cansaço físico e mental depois de uma série ininterrupta de plantões. Como ficava boa parte do tempo em pé, durante as cirurgias, começou a ter dores musculares que se tornaram crônicas. De início, usava dipirona, mas, com o tempo, nem vários comprimidos diários resolviam o incômodo. Então, no fim de um plantão, G. C. pegou uma ampola de citrato de fentanila da farmácia do centro cirúrgico, puxou 1 ml com uma seringa e aplicou o remédio em uma veia do seu braço esquerdo.
“Parecia que tinha tirado meu estresse com as mãos”, relembra. “E veio uma onda de bem-estar.” Os plantões continuavam. Às vezes, ele virava a madrugada sem fazer uma única anestesia. Em outras, quase não conseguia se sentar, tamanha a demanda de trabalho. “Eu descrevo o ramo da anestesia como sendo séculos de tédio intercalados por segundos de terror”, disse, durante uma conversa por videoconferência com a piauí. Ele se lembra dos plantões. “Um dia, recebemos dois irmãos em estado grave depois de uma colisão de moto. Um com traumatismo craniano, outro com traumas no abdome. Eu era o único anestesista do hospital. Tive que aplicar a anestesia e acompanhar duas operações simultâneas.” Um dos irmãos acabou falecendo. Era dia de Natal.
C. logo perdeu o controle do remédio. “Em poucas semanas, a sensação de euforia diminuiu porque o corpo vai ficando tolerante, quer mais e mais doses”, diz. “A gente vai da alegria para a irritabilidade em segundos, quando nos vemos dentro do ciclo da dependência.” Ele conta que passou a tomar citrato de fentanila a cada duas horas. Depois, de hora em hora. Em seguida, de quinze em quinze minutos. “Teve dia que apliquei mais de cem vezes”, diz. “Eu sempre fazia dosagens pequenas, entre 1 e 2 mililitros já com a substância diluída em água para não ter overdose.” Para tanto, furtava umas dez ampolas por dia dos hospitais onde trabalhava.
Seu comportamento começou a mudar. G. C. fazia questão de pegar todos os plantões possíveis para ter acesso à droga no hospital. Trabalhava nos fins de semana, nos feriados. Vivia trancando-se no banheiro para se injetar. Com os braços cheios de marcas, nunca os deixava à mostra, mesmo nos dias mais quentes. (Outros pontos comuns para quem injeta opioides são as veias da canela e do peito do pé.) O que mais despertou a desconfiança dos colegas de trabalho é que os pacientes anestesiados por G. C. acordavam mais cedo, às vezes antes do término da cirurgia. “Eu usava menos anestésico do que o recomendado para sobrar um pouco para mim. Se a prescrição era injetar no paciente 10 ml, eu usava apenas 7”, confessa.
Um dia, seus colegas do Hospital do Servidor Público Estadual, localizado no bairro da Vila Clementino, em São Paulo, resolveram contar à direção do estabelecimento que ampolas de citrato de fentanila estavam desaparecendo e que suspeitavam de G. C. A direção do hospital ligou para a polícia e ficou combinado de tentar um flagrante. No dia 18 de junho de 2015, no momento em que rompia o lacre de segurança de um carrinho de medicamento para pegar a droga, G. C. foi preso. “No depoimento, o médico contou que fazia aquilo para atender seu vício e não tinha intenção de revender ou algo assim”, diz Gilmar Camargo Bessa, delegado de polícia que esteve à frente da investigação. Em outubro do ano seguinte, a Justiça rejeitou a denúncia contra G. C., mediante a aplicação do princípio da insignificância.
C. é um sobrevivente dos opioides. Hoje, tem 42 anos. Depois de duas internações e um tratamento contínuo, conseguiu livrar-se do vício. Está limpo há cinco anos. Nesse período, ele tem atuado como médico do trabalho, fazendo exames admissionais e demissionais, uma função que os médicos consideram menos relevante. Ele deixou a atividade de anestesista para não ter qualquer acesso a opioides. “Seria como um alcoólatra trabalhando no balcão de um bar”, compara.
O uso de opioides é especialmente disseminado entre anestesistas. Um estudo elaborado por psiquiatras da Unifesp mostra que, embora os anestesistas representem 3% da classe médica, eles respondem por 12,5% dos médicos sob tratamento de dependência. O estudo, feito com 57 anestesistas, ainda constatou que 59,6% deles faziam uso abusivo de opioides. É a droga mais frequentemente utilizada pelos profissionais da amostra. Em segundo lugar, apareceram álcool e benzodiazepínicos, ambos com 35,1%. “Entre os médicos de outras especialidades, a incidência maior é de abuso de álcool, benzodiazepínicos, cocaína e maconha. Só depois estão os opioides”, diz a professora Rita de Cássia Rodrigues, que fundou o We Care, um programa que atende especificamente anestesistas com problemas de adição. Nos últimos dois anos, os psiquiatras e psicólogos do We Care atenderam 22 anestesistas.
O capixaba Ricardo Silva Nicoletti está entre os anestesistas que caíram na rede dos opioides. No início dos anos 2000, ele atuava como um dos dois anestesistas da cidade de Aracruz, localizada a 80 km de Vitória, quando sofreu uma lesão no joelho direito jogando futebol. Rompeu o ligamento cruzado e o menisco. Com dores agudas e precisando ficar de pé para trabalhar, pediu que um colega lhe aplicasse 2 ml de cloridrato de petidina, opioide trinta vezes mais forte que a morfina. Recebeu a injeção de forma intramuscular. Em questão de segundos, a dor cedeu e veio uma sensação de bem-estar. A partir de então, nada mais seria como antes.
Formado em anestesia pela Universidade de São Paulo, casado e então com 35 anos, Nicoletti passou a se aplicar a medicação, muito ocasionalmente. Alguns meses mais tarde, no entanto, seu corpo deixou de responder do mesmo modo à petidina. Estava ficando tolerante. Ele então migrou para a fentanila. Em geral, aplicava de forma intramuscular nos braços, nas coxas e nas nádegas. Mas também fez injeções diretamente na veia, o que apressa o efeito e aumenta os riscos. Um ano depois da primeira dose de opioide, Nicoletti já estava dependente. “Eu era o que se chama de dependente funcional. Ainda conseguia trabalhar e viver minimamente, pensando que não transparecia o vício. Na verdade, as pessoas percebem que algo está acontecendo, mas preferem se afastar”, diz ele. Oito anos depois, procurou uma psicóloga que era sua amiga. No consultório, disse: “Já te liguei em quatro ocasiões para que ajudasse enfermeiros e médicos com problemas com opioide. Agora chegou a minha vez.”
Pouco depois da consulta, Nicoletti foi internado. Ficou 28 dias na UTI. Na primeira quinzena, recebeu metadona. Na segunda, o opioide foi lentamente retirado. “A crise de abstinência não é apenas psicológica, com quadro de irritabilidade aguda, mas sobretudo física. O opioide tem como função tirar a dor. Então na ausência dele, o corpo responde trazendo a sensação de dores severas em diversas regiões: dói a cabeça, o músculo, o abdome. Há crises de vômito e de diarreia. É como se não conseguíssemos ficar dentro do próprio corpo, com algo prestes a explodir”, diz Nicoletti.
Encerrada a internação, voltou a trabalhar em hospitais. No entanto, um ano e dois meses depois, sucumbiu aos opioides de novo e passou por outra internação. Na sua recuperação, a família foi fundamental. “Sem apoio de quem amamos é difícil sair de um quadro de adição. Mas há muita dor e revolta”, diz. No início, os filhos e a mulher, Claudia, com quem é casado há vinte anos, pensavam que sua sonolência decorria do excesso de trabalho. “Eu caía no sono quando estava comendo um sanduíche e depois precisava usar muitos remédios para conseguir dormir”, conta. Claudia chegou a adoecer e também precisou de tratamento e terapia. Ela fundou uma unidade do Nar-Anon, grupo de familiares de dependentes de drogas, em Aracruz.
Hoje, aos 55 anos, Nicoletti comemora dez anos sem uso de opioides. “Sou um caso raro, pois consegui voltar a trabalhar em centro cirúrgico. No começo, eu pedia para os enfermeiros abrirem a ampola. Esse ritual me despertava gatilhos. Hoje, lido com tudo numa boa, mas me considero uma pessoa em contínuo tratamento.” Nicoletti é o único médico ex-dependente – ele prefere o termo “dependente químico em contínua recuperação” – que concordou em conversar com a piauí sem pedir o anonimato. “O uso de opioide por parte de anestesistas é algo que todos na área sabemos, mas ninguém fala disso abertamente. Desde os tempos de residência médica, a gente vê casos de algum colega que está se drogando, outro que morreu de overdose”, diz. “A partir da minha experiência, em que conheci o inferno, decidi trazer esse assunto à mesa. É uma forma de ajudar a fazer com que outros profissionais não sofram o que eu sofri.”
Iluminar o assunto, de fato, faz diferença. “Quando um hospital descobre algo, corta o médico de seus quadros. O profissional então vai fazer plantão em outros lugares, às vezes em cidades diferentes. Ele segue adicto e o problema de saúde não é tratado”, diz Rodrigues, a fundadora do We Care. Como o vício se estabelece muito rapidamente – em alguns casos, bastam duas ou três aplicações de fentanila –, é importante que a ajuda não demore. “Quase sempre o primeiro sinal para amigos e parentes de que a pessoa era dependente de opioide é a notícia da morte por overdose”, completa. O anestesista Gastão Duval Neto, ex-presidente do Comitê para o Bem-estar Profissional da Federação Mundial das Sociedades de Anestesiologistas, reforça: “A pessoa se vicia em questão de dias. Se não buscar ajuda médica pode morrer de overdose. Eu perdi a conta de quantos colegas de profissão vi morrer em razão do abuso de opioide.”
Os opioides são tão potentes que o combate à dependência requer outra abordagem. “No tratamento de adição de álcool ou cocaína, o protocolo pede a interrupção imediata do uso. Com dependentes de opioides potentes, é diferente”, diz o psiquiatra André Malbergier, diretor do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas, em São Paulo. As crises de abstinência do citrato de fentanila, como evidencia o depoimento do capixaba Nicoletti, são tão ou mais pesadas que as de heroína. Por isso, o protocolo é tratar com um opioide de longa duração, como a metadona. “O ideal é o paciente receber esse opioide mais fraco até deixar o quadro de dependência”, diz Malbergier. Quando conversou com a piauí, entre seus pacientes havia seis médicos dependentes de opioides, entre anestesistas, intensivistas e endoscopistas.
A overdose de opioide é rápida e indolor. “O opioide em altas doses causa depressão respiratória. A droga leva comandos para o cérebro de que o organismo não precisa realizar o ato involuntário de respirar”, explica Ana Cristina Pinho, anestesista e diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer, no Rio de Janeiro. Sem respirar, a pessoa sofre uma parada cardíaca. A morte pode ser evitada se o paciente receber a tempo a injeção de um remédio antagonista ao opioide, como a naloxona. “Em questão de segundos, a pessoa volta a respirar.”
Os números sugerem que nunca se consumiu tanto opioide no Brasil, dos mais fracos aos mais potentes. Um levantamento da Anvisa, realizado a pedido da piauí, mostra que, em 2021, houve um aumento de 68% na venda de todos os tipos de opioides, em comparação com o ano anterior. Passou de 14,4 milhões para 24,4 milhões de embalagens comercializadas. O maior salto se deu em relação à codeína, opioide da mesma classe que a morfina: pulou de 824 mil unidades para 2,4 milhões, um aumento de 198%. Em seguida, aparece o cloridrato de metadona, que subiu 186%. Em seguida, vem o próprio citrato de fentanila, que pulou de 1,6 milhão para 4,2 milhões de unidades. Aumento de 170%. O tramadol, indicado para uma gama variada de dores moderadas e fortes, como crises de hérnia de disco e pedra no rim, passou de 8,7 para 12,6 milhões de unidades vendidas entre 2020 e 2021.
Com a pandemia do coronavírus, os opioides foram muito usados. O citrato de fentanila, por exemplo, é indicado para sedação de paciente que, intubado, recebe ventilação mecânica. Em abril de 2021, alguns hospitais públicos do Rio de Janeiro e de São Paulo enfrentaram a escassez de fentanila. Pacientes intubados precisaram ser amarrados para que conseguissem suportar a dor. Diante disso, é certo que uma parte do aumento do consumo está relacionada à pandemia, mas Rita de Cássia Rodrigues, do We Care, pondera: “Todos os opioides registraram aumento de consumo, inclusive os que não são prescritos para qualquer questão relacionada ao coronavírus.” Diante disso, ela conclui: “Podemos dizer, sem dúvida, que o Brasil está mostrando um uso de opioides sem precedentes e perigoso.”
Os adolescentes, por exemplo, são consumidores crescentes. Entre os jovens de classe média, se popularizou uma mistura batizada de purple drink ou lean drink, um coquetel tóxico em que se misturam antialérgicos, refrigerante e codeína, cuja coloração púrpura dá nome à bebida. “Já atendi aqui adolescentes viciados nessa mistura”, diz Malbergier, do Hospital das Clínicas, cuja sala fica no terceiro andar do Instituto de Psiquiatria. Ele explica que quem toma essa droga sente um bem-estar provisório e uma sensação de que a vida está em câmera lenta. Mas, como em toda droga, o pior vem depois. “O efeito pode ser devastador, com crises de vômito e convulsão”, completa. O psiquiatra conta que adolescentes também pedem receita para comprar os opioides. “Alguns chegam aqui dizendo que, se não dermos a receita, eles vão comprar na Praça da Sé.”
Na Praça da Sé e arredores, no coração de São Paulo, a venda é discreta, mas recorrente. Homens-placa que estão ali para comprar e vender ouro também fazem o comércio clandestino de remédios controlados. Os benzodiazepínicos são os mais procurados e as receitas variam de 50 a 100 reais. No caso dos opioides, as receitas amarelas, do tipo A, são vendidas por valores que variam de 100 a 200 reais. As receitas, já preenchidas com o nome de um medicamento ou ainda em branco, vêm com carimbo do psiquiatra e, de vez em quando, com uma assinatura.
A piauí, numa visita à Praça da Sé, teve acesso a duas receitas. Uma de sulfato de morfina, opioide usado contra dor intensa, no pós-cirúrgico ou no caso de alguns tumores em estágio terminal, trazia o carimbo do psiquiatra Fabio Shikasho. Outra, em branco, vinha com o carimbo do psiquiatra Spartaco Angelo Vizzotto. O esquema é simples: os traficantes imprimem folhas idênticas ao receituário de substâncias controladas e mandam confeccionar carimbos idênticos aos dos psiquiatras – e, às vezes, inclusive falsificam a assinatura dos profissionais. Procurados pela piauí, Shikasho e Vizzotto informaram que não sabiam da existência de receitas falsas com seus nomes carimbados. “Que existe venda de receita e atestados, eu sabia. Mas não que o esquema incluía o meu nome”, disse Shikasho. “Cópia fajuta, meu caro”, respondeu Vizzotto.
Há opções ainda mais cômodas – e igualmente ilegais – para comprar um opioide. Chama-se Telegram. No aplicativo, há traficantes oferecendo o produto com pronta entrega em todo o território nacional, sem a exigência de receita médica. O tráfico se dá à luz do dia e das autoridades, sem que nada seja feito. Há um grupo, batizado de Venvanse-Ritalina-Concerta, que reúne 1,2 mil integrantes. Oferece um amplo cardápio de opções de remédios controlados, com múltiplas dosagens. O sulfato de morfina, por exemplo, é vendido em caixas de cinquenta comprimidos de 10 mg ou 30 mg, com preços de 230 e 280 reais. A codeína é oferecida em caixas com trinta comprimidos de 30 mg (230 reais) ou em xarope com 120 ml (220 reais), a formulação usada para o tal coquetel tóxico dos adolescentes. Abaixo desse cardápio, a conta no Telegram avisa aos interessados que tem outra vasta lista de drogas, que vai de anestésicos para cavalo à fentanila, de canabidiol a hormônios e antibióticos. A única diferença é que, nesse caso, o consumidor é alertado de que precisa “tratar no privado”. Ou seja: só em mensagem enviada diretamente ao administrador do grupo, sem que outros possam ver a conversa.
A piauí entrou em contato com o administrador do grupo Venvanse-Ritalina-Concerta no privado. Ele se apresentou como “Rômulo Vini”. Informou sobre a logística do tráfico. O citrato de fentanila, por exemplo, sai de Lages, no interior de Santa Catarina, mas o cloridrato de oxicodona sai de Salvador, na Bahia. Também mandou para a piauí a sua tabela de preços, cobrando até 150% a mais do que as farmácias. Explicou que o sistema calcula automaticamente o preço do frete, que a compra de qualquer opioide pode ser parcelada “em até doze vezes no cartão”, mas também aceita pagamento por boleto, Pix e PicPay. E informou: “Em Goiânia e Curitiba, consigo entregar por motoboy.” A cada novo negócio, quando o comprador envia foto do remédio que chegou em sua casa, o mediador do grupo posta a seguinte mensagem: “+ 1 cliente feliz.”
Ninguém faz tráfico de medicamentos sem boas conexões com farmácias e hospitais. Em outubro de 2018, a Polícia Federal foi consultada pela Drug Enforcement Administration (DEA), a agência norte-americana de combate às drogas que estava interessada numa operação conjunta. Os agentes da DEA haviam apreendido três pacotes de citrato de fentanila na Flórida, que foram despachados do Brasil. Quase um ano depois, em julho de 2019, a Operação Ampulla, que reuniu agentes da DEA e da Polícia Federal, prendeu três brasileiros em três cidades. Luciano Balbis Garcia foi preso em Miami. Lucas Miranda Ramos, em Florianópolis, e Fernando Gonçalves de Lima, em São Paulo.
Fernando Gonçalves de Lima é auxiliar de enfermagem. Trabalhava na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, de onde, segundo os investigadores, desviava opioides. Também fazia plantões no Hospital Israelita Albert Einstein, em cujas dependências foi preso. Para a piauí, a Santa Casa disse que realizou uma sindicância interna, mas não informou o resultado. O Albert Einstein, por sua vez, disse que nunca registrou sumiço na sua farmácia do medicamento traficado. Lima, de acordo com investigações, também comprava ampolas de fentanila da China, pela internet. Com a droga em mãos, ele enviava a encomenda para os outros dois envolvidos, Luciano Garcia e Lucas Ramos, que faziam as conexões com o mercado dos Estados Unidos. Para comprovar a atuação do trio, os agentes da DEA se passaram por compradores e adquiriram 2 622 ampolas de fentanila, no estacionamento de um shopping em Florianópolis. Quem repassou o material foi Lucas Ramos. Nas caixas, havia a digital de Fernando de Lima. O terceiro envolvido, Luciano Garcia, herdeiro de uma família abastada, foi preso em Miami, para onde a droga era geralmente exportada.
“O meu cliente fez um acordo com o governo norte-americano e retornou ao Brasil no ano passado”, diz Douglas Stofela, advogado de Garcia. “Agora ele é um homem livre e sem nenhuma pendência relacionada ao caso.” O auxiliar de enfermagem obteve uma liminar e hoje responde ao processo em liberdade porque, segundo o advogado Roberto Crunfli Mendes, seu cliente é réu primário e tem bons antecedentes. Lucas Ramos ficou detido por dez meses e agora também responde em liberdade. O procurador Marcos Aurélio Dutra Aydos, de Florianópolis, que liderou as investigações, diz que nunca tinha atuado antes num caso de tráfico internacional de opioides.
Papaver somniferuum é o nome científico da papoula, uma bela planta originária do Sudeste Asiático, que se caracteriza pela folha solitária e fruto capsulado, que, ao se abrir, exibe tons de roxo, vermelho, lilás e branco. Da papoula, extrai-se o ópio, de onde foram extraídos os primeiros opioides de origem natural, como a morfina e a codeína.
O efeito do ópio remonta à Antiguidade. Em uma tumba egípcia do século xv antes de Cristo, pesquisadores descobriram resquícios de ópio. Escavações arqueológicas na ilha grega de Samos encontraram esculturas de barro e marfim com a forma da papoula. Em Creta, outra ilha grega, uma estátua de figura feminina foi batizada de Deusa da Papoula: ela tem sua cabeça adornada por uma tiara de onde saem três plantas de poderes sedativos.
No início do século xix, cientistas descobriram que grande parte do poder anestésico do ópio vinha de uma substância que eles batizaram de morfina, em referência ao deus grego dos sonhos, Morfeu. Isolada e transformada em fármaco, era cerca de 10 vezes mais potente que o ópio. Seu uso começou a ser difundido meio século depois, em 1853, com o advento de uma estrutura pequena que mudaria para sempre a história da medicina: a seringa com agulha oca. Logo se tornou um problema de saúde pública: na virada do século, estima-se que havia 300 mil dependentes de morfina nos Estados Unidos, muitos dos quais eram veteranos da Guerra Civil (1861-65). O desafio científico, na época, era descobrir um anestésico poderoso que, no entanto, não criasse dependência química.
A resposta parecia ter chegado em 1898, quando a Bayer, companhia farmacêutica da Alemanha, desenvolveu um substituto da morfina, que tinha efeito similar e não viciava: a heroína. Sintetizada a partir da própria morfina, portanto também derivada da papoula, a heroína ficava a meio caminho de uma substância natural e uma substância sintética. Ao chegar ao mercado, passou a ser usada para combater dores crônicas, alcoolismo, até crise de tosse em crianças. O efeito foi devastador, pois a heroína, descobriu-se logo depois, era ainda mais viciante que a morfina. Em 1924, os Estados Unidos proibiram a produção de heroína.
As pesquisas continuaram até que, sobretudo a partir dos anos 1990, os laboratórios passaram a produzir uma série de substâncias inteiramente sintéticas, que podem ser usadas até em casa, desde que tenham intensidade inferior às de uso hospitalar. Mas nunca se encontrou um opioide que possa ser usado sem risco de criar dependência. “Todo opioide causa vício, independentemente de sua potência. Quem toma nunca está livre da adição”, diz Rodrigues, do We Care. Com aplicação controlada, os opioides são uma das grandes maravilhas da medicina moderna. Usados indevidamente, abrem as portas do inferno.
Essas substâncias se conectam a neurotransmissores do sistema nervoso central chamados, justamente, de “receptores opioides”, por serem responsáveis pela regulação da sensação de dor. Um paciente que chega ao centro cirúrgico com a perna quebrada, por exemplo, consegue livrar-se da dor em minutos e sorrir de alívio após a administração de remédios opioides. “O vício se instala porque os opioides se ligam no mesmo receptor da endorfina de uma forma muito potente. Então o cérebro gera uma cascata de prazer e elimina a sensação de dor por mais forte que seja”, explica Julio de Carvalho Ponce, mestre em fisiopatologia experimental pela USP e diretor do Núcleo de Exames de Entorpecentes da Polícia Técnico-Científica de São Paulo. Para Ponce, a crise dos opioides no Brasil só não é pior porque essa classe de fármacos tem preços elevados e, portanto, não viraram mistura de drogas como a cocaína.
Nenhum lugar do mundo sofre mais do que os Estados Unidos com a epidemia de opioides. De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, órgão do governo norte-americano, 107 622 pessoas morreram de overdose de drogas em geral no país em 2021. Foi o recorde histórico, com um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Do total de mortes, a grande maioria, 71 238, decorreu de overdose por citrato de fentanila. O abuso de opioides está disseminado entre jovens, adultos e idosos de todas as classes sociais. Já vitimou famosos, como o cantor Prince, os atores Philip Seymour Hoffman e Heath Ledger e, mais recentemente, Taylor Hawkins, o baterista do Foo Fighters.
Nos Estados Unidos, a onda de opioides começou com o abuso de oxicodona, princípio ativo do OxyContin, remédio fabricado pelo laboratório Purdue Pharma. Criada em 1996, a droga foi amplamente disseminada no país. A Purdue Pharma, poderosa e tradicional marca da indústria farmacêutica, conseguiu obter junto a Food and Drug Administration (FDA), a Anvisa norte-americana, um selo informando que a droga era “segura”. Um enorme trabalho de lobby e marketing patrocinado pela empresa sugeria aos médicos que prescrevessem o OxyContin para o tratamento de dores fracas e moderadas. Dizia que o efeito do comprimido durava doze horas e não causava picos de euforia, reduzindo as chances de adição. (Era lorota. Testes científicos comprovaram mais tarde que os picos de concentração eram liberados no corpo entre 3 e 5 horas depois da ingestão do remédio, o que provocava a dependência.)
Além da estratégia criminosa da Purdue Pharma, há outro fator que explica o alto consumo da droga. “Nos Estados Unidos, a classe médica trabalha sob o risco constante de sofrer processo por parte do paciente. Por isso, é comum um especialista prescrever exatamente o remédio de dor que o paciente pede com receio de ser contestado na Justiça”, diz o anestesista Bruno Lami, que coordena equipes de anestesistas em dois hospitais privados no Rio de Janeiro. “Nesses casos, o paciente pode alegar na Justiça que seu relato de intensidade de dor não foi levado em conta pelo médico.” A Purdue sofreu mais de 3 mil processos de indenização e declarou-se culpada por seu marketing agressivo. Pediu falência em 2019. No começo deste ano, a família Sackler, dona da empresa, se comprometeu a pagar 6 bilhões de dólares de indenização e vender sua participação no negócio.
Logo depois de enterrar seu namorado morto por overdose, W. M. teve que lidar com outro drama – dessa vez público. Como A. L. era voluntário nos testes da CoronaVac, sua morte levou à suspensão dos experimentos pela Anvisa. O presidente Jair Bolsonaro, que boicotava a vacina porque era uma iniciativa do então governador paulista João Doria, comemorou a tragédia.
Em sua conta no Twitter, Bolsonaro escreveu que a CoronaVac podia causar “morte, invalidez, anomalia” e, torcendo para que a morte de A. L. fosse mesmo decorrência da vacina, encerrou seu tuíte em tom celebratório: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.” Até hoje, W. M. não superou a indignação com a exploração política – e caluniosa – da morte do seu companheiro. “Ele morreu duas vezes”, diz. Os testes da CoronaVac só foram retomados dois dias depois, quando a verdade veio à tona. Bolsonaro nunca se desculpou com os familiares de A. L.
[1] A pedido do entrevistado, que não quis ser identificado nem por meio das iniciais de seu nome, a piauí usa as consoantes G. C. São letras aleatórias, que não correspondem às iniciais de seu nome verdadeiro.
