Thomas Pynchon em 1965, fazendo o sinal de “paz e amor”, enquanto sua amiga Phyllis Gebauer segura a piñata que lhe deu de presente. O romancista adora porcos e já desenhou o rosto do animal ao lado de seu nome num autógrafo FOTO: CORTESIA DO PROGRAMA DE EXTENSÃO DE ESCRITORES DA UCLA
O falso eremita
Uma investigação sobre o escritor americano Thomas Pynchon, que nunca deu entrevista em 54 anos de carreira
Natália Portinari | Edição 128, Maio 2017
Em abril de 1963, quando o americano Thomas Pynchon lançou seu primeiro romance, V., o crítico George Plimpton tentou descrever o autor no New York Times: “Pynchon tem pouco mais de 20 anos; escreve da Cidade do México – um recluso. É difícil descobrir algo mais sobre ele.” Naquele mês, a canção Please Please Me, dos Beatles, explodia nas rádios, e Martin Luther King Jr. divulgava no Alabama a célebre “Carta de uma Prisão em Birmingham”, pregando a luta pacífica contra o racismo. Aos 26 anos, Pynchon foi comparado pelo crítico a Saul Bellow, Jack Kerouac e outros literatos de peso. “Parece que um jovem escritor com futuro arrebatador está se formando”, vaticinou Plimpton.
Em V., um marinheiro licenciado, Benny Profane, faz bicos nada glamorosos em Manhattan, como caçar crocodilos nos esgotos. Um dia, seu destino se cruza com o de Herbert Stencil, viajante que só se refere a si mesmo na terceira pessoa e está em busca de V., uma mulher chamada Victoria, ou Veronica, que talvez nem seja uma mulher, mas um conceito. O humor ácido e a vasta erudição do autor garantiram a acolhida da crítica.
Dez anos depois, em 1973, o romancista publicou seu terceiro livro, O Arco-Íris da Gravidade, que carrega o estigma de ser tão obscuro quanto o próprio Pynchon. Ilegível, empolado, excessivo e obsceno figuram entre os adjetivos que se atribuíram ao romance na época do lançamento. Seus mais de 500 personagens vivem o último ano da Segunda Guerra Mundial. O protagonista é Tyrone Slothrop, um anti-herói cínico, que costuma ter ereções em lugares da Inglaterra onde, logo depois, invariavelmente, cairá um míssil alemão V-2. Tudo ocorre sob a vigilância de um vilão nazista, o capitão Weissman, que mantém a espiã Katje como escrava sexual. Não há praticamente nenhuma outra história linear no romance. Em um trecho, o narrador passa a ser Byron, a Lâmpada, que não só consegue falar como merece uma biografia de dez páginas, em que se apresentam suas predileções políticas. Pode-se dizer que o tema de O Arco-Íris da Gravidade é a paranoia. “Se existe algo de reconfortante – religioso até – na paranoia, existe também a antiparanoia, em que nada tem ligação com nada, um estado que quase ninguém suporta por muito tempo”, lê-se numa passagem.
Hoje, uma aura de mistério ainda paira sobre Pynchon. O escritor genial – cujos livros costumam chegar às listas de best-sellers nos Estados Unidos desde a década de 90 – jamais concedeu entrevistas. Quem digitar seu nome no Google encontrará apenas seis fotos dele. Na mais recente, tirada em 1957, o autor aparece com uniforme de marujo (à época, servia na Marinha), dentes frontais salientes, cabelos escuros crespos e sobrancelhas grossas.
Li O Arco-Íris da Gravidade assim que entrei na adolescência, aos 13 anos – agora estou com 23. Fisguei-o na biblioteca de meu pai, um fiscal da Fazenda de São Paulo que se interessa bastante por filosofia, linguística, física quântica, astronomia, direito e religião, mas nem tanto por literatura. Não entendi tudo do livro, claro – o que, para mim, fazia parte da graça. A partir daí, O Arco-Íris nunca mais deixou minha cabeceira, por onde passaram os outros sete romances de Pynchon, todos já editados no Brasil. Bleeding Edge, o mais novo, de 2013, será lançado em junho pela Companhia das Letras com o título de O Último Grito.
À medida que o autor me encantava, fui descobrindo uma espécie de confraria em torno dele. Milhares de fãs se agrupam na internet com a intenção de desvendar os enigmas e subtextos de seus romances. A Pynchon Wiki, por exemplo, é uma enciclopédia colaborativa em inglês que, desde 2006, analisa cada livro do escritor, página a página, para apontar referências nem sempre explícitas à televisão, à música, ao cinema, às ciências e a outras dezenas de áreas. Há também a Pynchon-List – ou simplesmente Pynchon-L –, uma lista de e-mails que, há quase três décadas, promove discussões diárias sobre as obras. Cerca de 500 admiradores espalhados pelo mundo compõem o grupo. Não bastasse, alguns aficionados se encontram de dois em dois anos na International Pynchon Week, um congresso acadêmico que ocorre sempre numa cidade diferente: Atenas, Munique, Granada, Londres… O de 2017 acontecerá em junho, na francesa La Rochelle.
Engraçados, pornográficos, eruditos, pop e mordazes em relação a instituições e sistemas de pensamento, os romances de Pynchon não podiam ser mais adequados a uma adolescente do meu tipo, um pouco subversiva e muito arrogante. Eu ia viajar nas férias com apostilas de química ou matemática e algum livro dele, sempre acompanhada de pelo menos dois dicionários, caso o sinal do celular falhasse. À semelhança de outros fãs, cresci na intersecção entre as ciências exatas e humanas. Quanto mais indecifrável, mais a narrativa me soava como um parque de diversões. Lembro que, numa tarde de verão, meu pai me viu atrás da pilha de romances e brincou: “Isso não é literatura. É uma Olimpíada!” Encarei como um sinal de aprovação.
A obsessão pelo autor me acompanhou durante a faculdade de direito e persistiu mesmo depois que ingressei no mercado de trabalho (em vez de advogada, virei jornalista). Curiosamente, porém, nunca gostei muito de falar sobre o escritor, talvez por preferir que ele fosse apenas meu. Qualquer um no Brasil poderia entender mais de Truman Capote, Fiódor Dostoiévski e Machado de Assis, outros romancistas que aprecio, mas não de Pynchon. Só me permito tratar dele em público se alguém puxa o assunto. Foi o que se deu em 2015, quando conheci um colega do meu marido, o repórter e editor Matthew Shirts, americano naturalizado brasileiro. Numa festa em minha casa, ele avistou os livros do autor sobre uma estante, além de uma miniatura do V-2, e passou a chamar o conjunto de “altar ao Thomas Pynchon”. Despretensiosamente, comentou que traduzira um dos romances para o português. Dividira o trabalho com um amigo, o escritor Reinaldo Moraes. Lançada em 1991 pela Companhia das Letras, a versão brasileira conservou o título original: Vineland. Para meu espanto, Shirts também mencionou que, na ocasião, a dupla de tradutores chegou a trocar cartas via fax com o romancista supostamente inacessível. “Mas, por descuido, expus ao sol quase todas as nossas correspondências. Como estavam naquele papel hipersensível dos faxes, acabaram se apagando”, contou, anticlimático.
O mero fato de conversar com Pynchon já me parecia digno de nota. Imagine, então, o que significava receber cartas do Sr. Mistério. Certa vez, o jornalista americano Nick Romeo assinou um ensaio no site Daily Beast sobre os cinco minutos de conversa que tivera com o escritor no intervalo de uma ópera em 2011. “Falamos a respeito de livros (ele estava relendo os contos de Borges) e música (ele ia a muitos shows de jazz no Carnegie Hall)”, afirma um trecho do relato.
Tempos depois da festa, como a história das correspondências ainda martelasse em minha cabeça, resolvi procurar Shirts e Moraes na esperança de aprofundar o assunto. Encontrei-os num bar do Centro paulistano. Estavam um bocado eufóricos e logo me serviram uma cerveja. Autor de Tanto Faz, sua obra de juventude, e Pornopopéia, seu grande romance, ambientado no underground de São Paulo, Moraes, hoje com 67 anos, é o tipo de intelectual que empilha tiradas rápidas e tem o sorriso permanentemente irônico. Shirts, bonachão e menos sarcástico, revela-se mais acolhedor.
“Você precisa jurar pela sua mãezinha, pela sua avó, que vai nos devolver essa porra”, me disse Moraes assim que se apresentou. Em seguida, me entregou alguns papéis, um pouco apagados, mas legíveis. Eram duas cartas remanescentes de Pynchon, ambas de 1991 – uma escrita em maio e a outra em outubro. Nelas, o romancista tirava pacientemente várias dúvidas dos tradutores sobre Vineland, fazendo piadas e se desculpando pelo que não se lembrava. Esclarecia, por exemplo, quem eram algumas das personalidades citadas no livro. Também explicava o sentido de diversas siglas relacionadas ao governo dos Estados Unidos.
Quando os brasileiros perguntaram o que é “triplo aquecedor” (triple warmer), respondeu de maneira obscura e concluiu: “Em outras palavras, se vocês descobrirem o que quer dizer, me avisem.” Mostrou-se igualmente ferino ao tentar definir a expressão white kid skates: “Eis mais um dos meus trocadilhos idiotas.” A expressão pode tanto significar “os patins do garoto branco” quanto “os patins de couro branco”. Diante de um anacronismo apontado pelos tradutores (a menção a uma lei editada um ano depois de quando ocorre a trama), Pynchon brincou: “Se vocês não contarem para ninguém, fica entre nós.” Por fim, quando se despediu, agradeceu pela oportunidade de “encarar algumas das consequências” do seu desleixo.
Publicado nos Estados Unidos em 1990, Vineland surgiu após um hiato de dezessete anos na carreira do escritor. Com uma estrutura mais acessível que a dos três romances anteriores, se passa na Califórnia recém-careta da década de 80. É tido pela crítica como um livro menor do autor. Seu protagonista, o hippie Zoyd Wheeler, sofre perseguição constante da polícia, empenhada em coibir as drogas. Já a filha dele, Prairie, envolve-se em conspirações político-religiosas, que mobilizam uma seita de ninjas e um coletivo de cineastas antifascistas. “Quando li aquela história maluca, amei de paixão”, relembrou Shirts no bar. Foi ele quem recomendou à Companhia apostar na obra. Até então, a editora brasileira nunca havia lançado nada do autor.
Apesar do vocabulário mais simples, Vineland traz centenas de referências à televisão, à música e ao cinema americanos, o que Shirts chama de “erudição pop”. Sua função era decifrar esse mundo, uma vez que nascera nos Estados Unidos e só emigrou para o Brasil em 1984, aos 25 anos. Certos detalhes, no entanto, apenas o próprio Pynchon conseguia explicar. Sua mulher e agente literária, Melanie Jackson, intermediava os contatos via fax.
Os tradutores prometeram entregar o livro em quatro meses, mas demoraram aproximadamente um ano. Enquanto se dedicava à tarefa, Shirts mantinha o emprego numa revista de videogames. Moraes, em contrapartida, trabalhava full time na tradução. “Uma hora, o dinheiro que recebi antecipadamente da Companhia terminou. Precisei vender o carro para pagar as contas.” Em razão do atraso, o editor Claudio Marcondes, que supervisionava a dupla, jogou a toalha. “Ele pediu demissão da gente”, recordou Shirts. Foi substituído por Marta Garcia. “Era uma garota bonita, interessante. Tomamos um chope para tratar do livro e acabamos casando”, resumiu Moraes. Estão juntos até hoje.
O esforço e o tempo gastos na tradução renderam bons frutos. “Fiquei muito chique aos olhos de meus amigos intelectuais”, disse Shirts. “Conversar com Thomas Pynchon estava apenas um degrau abaixo de conversar com Deus.” Mas a relação teve um fim frustrante. “A gente pensou que se tornaria brother do cara. Afinal, sacrifiquei um Fiat Uno por ele”, ironizou Moraes. “Quando concluímos a tradução, resolvemos chamá-lo para visitar o Brasil, beber, pegar mulher.” O escritor, porém, nunca respondeu ao convite. “O silêncio dele nos magoou um pouco”, admitiu Shirts, com forte sotaque de gringo. “Pynchon deixou claro que nosso relacionamento era estritamente profissional.”
Depois de Vineland, a Companhia decidiu lançar O Leilão do Lote 49, que o romancista publicara em 1966. Desta vez, a tradução coube ao diplomata Jorio Dauster. Diferentemente de Moraes e Shirts, ele – que já vertera para o português alguns clássicos, como O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, e Lolita, de Vladimir Nabokov – preferiu não se comunicar com Pynchon.
Em 1997, chegou a vez de a editora paulistana enfrentar O Arco-Íris da Gravidade. “Ninguém topou traduzi-lo. Fui o último dos moicanos. Comecei a ler e achei tudo muito difícil. Tentei pedir arrego, mas insistiram”, relatou Paulo Henriques Britto em seu apartamento na Gávea, bairro da Zona Sul carioca. Ele, que também é poeta e professor da PUC, não apenas tirou dúvidas com Pynchon como recorreu a um especialista em armamentos alemães. A tradução lhe consumiu um ano.
O que veio em seguida, Mason e Dixon, exigiu de Britto uma pesquisa ainda maior. Lançado originalmente em 1997, o extenso romance retrata a amizade de dois personagens reais, os agrimensores que traçaram a linha divisória entre o que hoje são os estados americanos de Maryland e Pensilvânia. O narrador, reverendo Cherrycoke (como o refrigerante), conta a história deles para entreter a família num dia de nevasca. E acrescenta à trama inúmeros elementos fantásticos, de um cão falante a exploradores que se aventuram pelo centro oco da Terra. A narrativa muda de tom e se torna mais ou menos licenciosa, dependendo de quem está na sala com o reverendo. Extravagante, o livro é todo escrito num inglês que remete ao do século XVIII. Britto procurou fazer o mesmo e tentou empregar somente palavras que já existiam em português antes de 1800. Para tanto, consultou dicionários que indicam quando os verbetes entraram em uso. “Durante a tradução, resolvi imitar o Pynchon e lhe mandei uma carta em inglês do século XVIII”, contou o professor enquanto a empregada nos servia uma Coca-Cola – normal, não Cherry. Na correspondência, Britto solicitava que o romancista parasse de se comunicar por fax. “Expliquei que aqui, na colônia portuguesa, já utilizávamos o e-mail.” O escritor entrou na brincadeira e respondeu como no século XVIII, mas não abdicou do fax.
Pedi para ver as cartas. Britto negou enfaticamente. “Se mostrá-las, o Pynchon nunca mais vai me deixar traduzir seus livros.” O americano costuma cortar relações com as editoras e os profissionais que vazam informações sobre ele. “Posso dizer apenas que o Pynchon é muitíssimo atencioso, de longe o autor mais solícito com quem já falei”, prosseguiu o tradutor. “Ele só evita os holofotes porque não está a fim de ser celebridade. Se um escritor não toma cuidado, acaba virando o Truman Capote. O sujeito ia tanto a festas que parou de escrever.”
Mason e Dixon aportou nas livrarias brasileiras em 2004. Também graças às boas relações que estabeleceu com o romancista, Britto traduziu mais dois livros dele, Contra o Dia, lançado no país em 2012, e o novo O Último Grito.
Fã inveterado do autor, André Conti – que trabalhou na Companhia das Letras durante onze anos – editou alguns dos romances mais recentes de Pynchon, como Contra o Dia. “O cara é um craque do trocadilho, um mestre que leva a linguagem ao grau da loucura”, me falou, empolgado, em São Paulo. No começo de O Arco-Íris da Gravidade, por exemplo, o escritor descreve um amalucado café da manhã, em que há “omeletes de banana, sanduíches de banana, tortas de banana, bananas amassadas moldadas em forma de um leão rampante como o do brasão da Inglaterra, banana com ovos como massa de rabanada, esguichada de uma bisnaga de modo a escrever, sobre a trêmula e cremosa superfície de um manjar de banana, as palavras C’est magnifique, mais ce n’est pas la guerre […], galhetas altas de pálido xarope de banana para ser despejado sobre waffles de banana, um gigantesco jarro vitrificado onde rodelas de bananas estão fermentando desde o verão, misturadas com mel bruto e uvas moscatel em passa, do qual se pode agora retirar, nesta manhã de inverno, conchas de hidromel de banana… croissants de banana e kreplach de banana, aveia com banana e geleia de banana e pão de banana, e bananas flambadas no conhaque envelhecido”.
Ao longo da conversa numa cafeteria, reparei que o braço esquerdo de Conti exibe a tatuagem de um trompete com uma surdina, o mesmo desenho que trago no pulso desde os 16 anos. O instrumento simboliza um sistema clandestino de comunicação que aparece em O Leilão do Lote 49. O romance é o mais curto do autor, com 166 páginas em português. Não à toa, é também o mais lido por estudantes. “Como fã e editor, acabei imergindo no universo de Pynchon, o que não deixa de ser um privilégio maravilhoso. Mas claro que há algo de doentio nisso. Afinal, estamos diante de um escritor que não é apenas engraçado. Ele também é muito trágico”, ponderou Conti, um dos sócios da recém-lançada editora Todavia. Ele acredita que a dificuldade de leitura seja um atrativo para os admiradores do romancista. “Ler atentamente O Arco-Íris da Gravidade equivale a subir uma montanha”, comparou. “A gente se mata, mas o esforço compensa.”
De fato, a obstinação e um ligeiro masoquismo costumam caracterizar outros fãs do autor. Na Pynchon-List, o chinês Mike Jing chama a atenção por tirar dúvidas sobre O Arco-Íris quase diariamente com o resto da turma. Ele está traduzindo o livro há cinco anos – um trabalho sem remuneração, que faz por prazer, a fim de que sua mãe compreenda o romance. No meu caso, a renitência e certo apreço por sofrimentos autoinfligidos me levaram a estudar japonês. Em julho de 2016, com o intuito de aperfeiçoar o idioma, viajei para Tóquio, onde passei vinte dias. Confesso que gastei boa parte do tempo à caça de pistas sobre Pynchon.
No Japão, existe uma dupla de amigos que, à semelhança de Reinaldo Moraes e Mathew Shirts, adora o escritor. Motoyuki Shibata e Yoshiaki Sato se conhecem desde a faculdade e já escreveram alguns livros juntos. Professor de literatura americana na Universidade de Tóquio, Shibata tem 62 anos e 1,57 metro de altura. Entre 2000 e 2010, traduziu Mason e Dixon para um japonês que deveria soar antigo. “O livro original, você sabe, emula o inglês do século XVIII. Acontece que a língua japonesa mudou bastante no século XIX – mais precisamente, a partir de 1860. Por isso, em minha tradução, não pude usar palavras anteriores a esse período. Ninguém as entenderia. Também evitei termos derivados do inglês, que são muito recentes”, me explicou o professor, com seus pequenos óculos redondos, num café em Shibuya, o bairro jovem de Tóquio.
Quando lhe perguntei se enviara cartas para Pynchon, seus olhos se arregalaram: “O que os outros tradutores lhe contaram? Não sei se deveríamos falar disso.” Após alguma insistência de minha parte, reconheceu que havia mandado, sim, perguntas ao escritor. “Ele foi muito gracioso”, contou, antes de recomendar que eu conversasse com Yoshiaki Sato, “o verdadeiro Pynchon-man do Japão”.
Acatei a sugestão e peguei um trem-bala em Tóquio. Após uma hora de viagem, cheguei a Takasaki, onde Sato me aguardava. A cidade é conhecida por suas águas termais, o que o Pynchon-man, sempre fazendo pouco de si mesmo, disse ser bom para velhinhos aposentados de 66 anos como ele. Mais alto que o amigo, Sato ostenta um bigodinho e cabelos bagunçados, que se agitam quando dá risada. Sentamos para bater papo em seu escritório, no 3º andar de sua casa. Se minha estante é um altar a Thomas Pynchon, a de Sato é Jerusalém, com exemplares raros do autor garimpados em bibliotecas universitárias dos Estados Unidos. “Sou fã dele há quatro décadas. Como Pynchon, larguei uma faculdade de exatas, a de física, para estudar literatura”, contou, lembrando que, em 1957, quando saiu da Marinha, o americano abandonou o curso de engenharia e ingressou no de letras. Apaixonado pelos Beatles, Sato deu aulas na Universidade de Tóquio sobre a revolução contracultural dos anos 60. Deixou o emprego em 2007 para se dedicar à tradução de O Arco-Íris da Gravidade, que terminou em 2014. “Em minha cabeça, sou amigo do Pynchon há tanto tempo que sei exatamente o que ele me diria se falasse japonês.” Embora não conheça o escritor, Sato se encontrou recentemente com Melanie Jackson e o filho do casal, Jackson Pynchon. “Os dois vieram ao Japão para conversar sobre traduções. Ela é magra, elegante e tão simpática quanto o rapaz, que entende de videogames e animes [os desenhos animados nipônicos].”
Alguns dias depois, o tradutor me mandou um e-mail. “Você já comeu espetinho de frango perto da estação ferroviária de Ueno, em Tóquio, como as escravas sexuais de Vineland?”, perguntou. Decidimos, então, percorrer alguns lugares da cidade que aparecem numa passagem particularmente caricata do livro – aquela em que a personagem DL Chastain é sequestrada pela Yakuza, a máfia japonesa, e leiloada como escrava branca. Comemos os tais espetinhos e, em seguida, tiramos fotos no Imperial Hotel, para onde o comprador de Chastain a levou antes de libertá-la. Durante o passeio, avistamos inúmeras admiradoras de ópera à espera de seus ídolos na porta de um teatro. Era um ritual solene e silencioso, em que as moças exibiam uma felicidade quase infantil. “Somos como elas agora”, comentou o Pynchon-man, sorridente.
O passado de Thomas Pynchon é bem documentado, a começar por sua origem tipicamente WASP – branca, anglo-saxônica e protestante. Seu primeiro ancestral nos Estados Unidos, William Pynchon, chegou ao país em 1630, trabalhou como magistrado e ajudou a fundar a cidade de Springfield, em Massachusetts. A linhagem de “machos republicanos” continuou até seu pai, Thomas Pynchon Sr., um superintendente de estradas em Oyster Bay, município entre Nova York e Long Island. Foi justamente em Long Island que Thomas Ruggles Pynchon Jr. nasceu, em maio de 1937. Está completando, portanto, 80 anos. Sabe-se que sua família não era particularmente rica, mas tampouco passava necessidade. À semelhança de sua mãe, Katherine Frances Bennett, o futuro romancista adotou o catolicismo, primeiro desvio de sua ascendência paterna. Depois, tornaria-se simpatizante de ideias anticapitalistas e do anarquismo.
Ele fez o ensino médio na Oyster Bay High School, a alguns quarteirões de casa, e iniciou a carreira de escritor no jornal do colégio. Seus primeiros contos já traziam o sarcasmo que definiria sua trajetória. Em “Voice of the hamster” [A voz do hamster] – paródia do manuscrito medieval Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, atribuído a um certo Pearl Poet –, o jovem autor satirizava personagens próximos, como um professor de trigonometria.
Em 1957, quando voltou da Marinha e trocou o disputadíssimo curso de engenharia pelo de inglês, na Universidade Cornell, sua ambição literária coincidia com a de alguns amigos. Um deles era Richard Fariña, descrito recentemente pelo jornal britânico The Guardian como o “gênio que preencheu a lacuna entre os beats e os hippies”. De ascendência meio cubana e meio irlandesa, fazia o gênero sedutor, bonito e aventureiro. Morreu num acidente de moto em 1966, aos 29 anos, dois dias depois de ter lançado seu primeiro e único romance, Been Down So Long It Looks Like Up to Me [Estou para Baixo Há Tanto Tempo que para Mim Parece que É para Cima].
A obra retrata o campus de Cornell, onde Fariña e outros alunos lutaram para mudar as regras que impediam as mulheres de chegar tarde a seus dormitórios e, consequentemente, de namorar os rapazes. Pynchon não se envolveu na briga, embora se lembre do momento como “uma antessala dos anos 60”. “Nunca fomos melhores amigos, mas nos gostávamos […]. Saíamos juntos às vezes”, escreveu o romancista numa introdução ao livro de Fariña. “Certa ocasião, fomos disfarçados a uma festa que não era à fantasia – ele como [Ernest] Hemingway, eu como [Francis] Scott Fitzgerald, cada um sabendo que o outro tinha passado por uma fase de entusiasmo pelo seu respectivo autor.”
Para encontrar os conhecidos de Pynchon dessa época, pedi ajuda por e-mail a um fã americano, Jonathan Glassow, que mora na região de Los Angeles. O securitário de 55 anos levantou todos os endereços onde o escritor viveu e o nome das pessoas com quem se relacionava em cada lugar. Glassow alimenta o arquivo desde 2009. “Eu acordava à meia-noite para pesquisar, mas minha mulher começou a se chatear. Então diminuí o ritmo. Agora estou me concentrando na família e em ler livros.”
Indaguei se ele, ciente de que Pynchon desaprova bisbilhotices, não sentia culpa por farejar os passos do autor. Eu mesma andava me perguntando quais deveriam ser os limites de minha busca. “Tom ficou muito famoso, goste disso ou não. E, numa cultura que valoriza tanto as celebridades, as pessoas querem conhecer seus ídolos”, justificou o admirador, que já contratou até um detetive para rastrear o escritor.
Crises de consciência à parte, acabei chegando ao romancista David Shetzline, que mora no estado de Oregon. Como Pynchon e Fariña, ele escrevia para a Cornell Writer, revista literária do campus. “Nós todos nos considerávamos bem inteligentes e competentes, mas Tom era genial de verdade. O cara se dedicava, fazia a lição de casa, sabe? Creio que o invejávamos secretamente”, me confessou pelo telefone. “Curiosamente, achávamos que o Dick Fariña se tornaria famoso, e não o Tom. Além de escrever bem, Dick tocava violão, cantava e compunha. Naquela época, havia duas vertentes na literatura americana. Você podia ser como o Hemingway e contar histórias de maneira bíblica, com frases curtas e perfeitamente construídas. Dick seguiu essa linha. Ou você podia fazer experimentações linguísticas, falar de sexualidade reprimida, de família, como o William Faulkner e, depois, o Tom.”
Pynchon resenhou o primeiro livro de Shetzline, DeFord, publicado em 1968: “[O autor] combina um talento incrível de observação e audição com o dom natural de um trovador, que consegue te segurar, te manter no rastro da ação, da caça, sem te soltar, até que você possa dizer sim, estou entendendo; sim, é isso mesmo.” Depois da universidade, os dois mantiveram a amizade por algum tempo, trocando cartas e visitas. “Tom não fofocava sobre ninguém. Falávamos apenas de quem a gente lia. Uma vez, na década de 60, ele me disse que estava lendo Philip K. Dick. Eu simplesmente não sabia quem diabos era o sujeito, nunca tinha ouvido nada a respeito dele. Esperava que Tom estivesse lendo Leon Tolstói ou Julio Cortázar, não ficção científica.”
A filha de Shetzline, Andrea, que hoje é enfermeira, costumava pedir a Pynchon o seu endereço. “Eu queria lhe mandar cartas. Mas ele sempre dizia: ‘Não posso passar meu endereço porque estou de mudança. Tem uma árvore prestes a cair em minha casa’”, lembrou, rindo.
Também procurei Christopher Michael Curtis, que dividia um quarto com Fariña e Pynchon nos tempos de universidade. Ex-editor da Cornell Writer, ele trabalha há mais de cinquenta anos na revista The Atlantic. “Pynchon só cuidava da própria vida. Era quieto, limpinho, bem católico e muito inteligente. Passava o dia nas aulas ou na biblioteca. Acabou chamando muita atenção da imprensa, mais do que o resto de nós. Diferentemente dele, nós desejávamos o sucesso, mas não fizemos por merecer.”
Quando terminou a faculdade, Pynchon namorava uma garota chamada Lilian Laufgraben. A família dela, judia, preferiu que a jovem se casasse com um dentista da mesma religião. De coração partido, o escritor procurou um casal amigo, Mary Ann Tharaldsen e David Seidler, que viviam em Seattle. Tharaldsen trabalhava na Boeing e arranjou um emprego na companhia para o rapaz. Nessa época, ele escreveu seu romance de estreia, V. No livro, há uma moça judia, Esther, que faz uma plástica no nariz. Mal a cirurgia teve início, a personagem, ainda consciente, “se sentiu passiva, até (um pouco?) sexualmente excitada”. Depois, “seus olhos ficaram selvagens; ela soluçou silenciosamente, obviamente começando a se arrepender da ideia”. Pynchon descreve a mutilação no rosto da garota ao longo de várias páginas, sem poupar metáforas sexuais de penetração. Muitos amigos dele interpretam o trecho como uma vingança do romancista contra Lilian Laufgraben.
Tão logo publicou V., em 1963, o autor saiu da Boeing e se mudou para a Cidade do México, onde imaginava gastar menos dinheiro. Ele detestava Seattle. “É um pesadelo. Se não houvesse pessoas aqui, seria lindo”, escreveu numa carta a um ex-colega de universidade. Num breve retorno aos Estados Unidos, iniciou um relacionamento com Mary Ann Tharaldsen, o que motivou o término do casamento dela.
Liguei para David Seidler, o ex-marido. “Thomas Pynchon? Prefiro não falar sobre isso, obrigado”, disse, num tom de sarcasmo. Hoje ele é roteirista de cinema e, em 2011, ganhou um Oscar por O Discurso do Rei. Assim como George VI, protagonista do filme, Seidler nasceu na Inglaterra e sofreu com a gagueira durante a infância.
Tharaldsen, que tem 80 anos e mora em Chapel Hill, na Carolina do Norte, me contou alguns detalhes do namoro. “Pynchon era bem introspectivo. Não queria se comunicar com ninguém, exceto comigo.” Ela aceitou viver no México quando os dois começaram a se relacionar. “Eu não gostava muito de lá…” A introspecção do escritor também a desagradava. “Pynchon não se fazia muito presente. Foi difícil para mim. Eu pretendia ter filhos, mas ele não desejava nada disso. Queria se concentrar em escrever.” Depois de um tempo, o casal trocou o México pelo Texas, onde passou a morar em casas separadas. O romancista trabalhava a noite inteira e dormia de dia. “Não rolava ter uma relação assim”, recordou Tharaldsen, dando risada.
À época, o catolicismo de Pynchon se manifestava principalmente em seus hábitos rigorosos. Nos cinco anos de relacionamento, Tharaldsen nunca viu o parceiro fumar maconha (existem relatos de que, mais tarde, ele aderiu à erva). Certa vez, o autor se irritou com a namorada por ela manifestar a vontade de beber durante o dia. “Não vou tolerar álcool neste horário”, esbravejou.
Há quem garanta que Tharaldsen serviu de inspiração para Oedipa Maas, protagonista de O Leilão do Lote 49. A dona de casa abandona seu marido, o radialista Mucho Maas, e se aventura na Califórnia atrás de pistas sobre uma organização secreta. Quanto mais se enreda na busca, mais é atiçada por sua paranoia. Inúmeros críticos afirmam que Pynchon compõe personagens unidimensionais e excessivamente caricatos. Com certeza, não é o caso de Oedipa Maas.
O romancista e Tharaldsen se separaram definitivamente no fim dos anos 60, período em que o escritor se dedicou a terminar O Arco-Íris da Gravidade numa casa ao lado da praia, em Manhattan Beach, cidade próxima a Los Angeles. O militar aposentado Jim Hall, vizinho de Pynchon na ocasião, namorava uma moça que o literato também conhecia. “Quando o encontrei pela primeira vez, bebemos vinho na casa dele. Pynchon estava estudando muita termodinâmica e tinha pilhas da revista Scientific American. Minha namorada me disse que ele evitava ler outros autores enquanto escrevia, porque temia copiá-los involuntariamente. Como eu acabara de lutar no Vietnã, Pynchon me fez várias perguntas a respeito do assunto.” Parte da crítica defende que, apesar de se desenrolar na Segunda Guerra, O Arco-Íris da Gravidade é um livro sobre como os americanos percebiam o conflito no Vietnã. Perguntei a Hall se o romancista exibia traços de paranoia naquele tempo. “Um pouco”, respondeu. “Mas, considerando o que sabemos hoje sobre as ações clandestinas do governo no período, ele estava certo de ser assim.”
O militar acabou perdendo contato com o escritor. Uma vez, porém, o avistou na rua. “Eu saía de um restaurante mexicano e o vi caminhando em minha direção. Ele ia comer no mesmo lugar e fez uma cara de ‘estou te reconhecendo’. Era um dia de inverno, chuvoso, e tinha um telefone público na rua, daqueles antigos. Quando eu disse ‘Oi, Tom’, o telefone começou a tocar. Juro! Pynchon olhou para mim, olhou para o telefone, deu meia-volta e saiu correndo. Fui lá e atendi o aparelho, mas não havia ninguém na linha.”
Em 1969, o romancista namorou novamente a parceira de um amigo, a artista plástica Chrissie Wexler, casada com o jornalista Jules Siegel. O fato de Pynchon se trancar por muito tempo em sua residência para escrever talvez explique esse padrão. Ficava mais simples se relacionar com mulheres que já conhecia. Ressentido, Siegel – que também estudou em Cornell – redigiu um artigo para a revista Playboy em 1977: “Quem é Thomas Pynchon… E por que ele fugiu com a minha esposa?” “[Na faculdade] era quieto e limpinho. Fazia sua lição de casa com assiduidade. Ia à missa e confessava, mas o que tinha para confessar era um mistério. Dispunha de 25 dólares por semana e administrava os gastos perfeitamente. Não matava aula e sempre tirava notas boas. […] Era alto – pelo menos 1,85 metro – e magro, mas não frangote. Exibia um rosto pálido, olhos claros e um nariz anglo-saxão, longo e pontudo. Morria de vergonha dos dentes. Por isso, não sorria muito.” No texto, descobrimos ainda que o escritor colecionava cofres de porquinho, seu animal favorito, e fazia piadas bobas.
Já Chrissie Wexler aparece como uma mulher que “usa a beleza para fugir de questionamentos”. “Parece fácil subestimar a inteligência dela, mas se trata de um erro. Segundo o senso comum, Chrissie é bonita demais para ser levada a sério.” Siegel afirmava que gostaria de ter lidado com a traição “de maneira calma e nobre”, já que também não primava pela fidelidade. No entanto, não foi isso que aconteceu. O jornalista encerrou o artigo revelando, “em prol do registro histórico”, que Pynchon era “sensível e rápido” na cama.
“O Jules ficou com ciúmes e exagerou, como se estivesse escrevendo numa revista de fofocas. Minha vida não é a caricatura que ele pinta. Sou uma pessoa séria”, desabafou Wexler ao telefone, com voz aguda e expressiva. Siegel morreu em 2012. Os dois reataram o casamento, que não durou muito mais. Juntos, lançaram Lineland, livro com perguntas e respostas sobre Pynchon.
Quando fala do ex-namorado, Wexler não poupa elogios. “Era maravilhoso, bastante charmoso, um tipo meio Romeu. Parecia um amante italiano, muito, muito sexy, e gentil. Jamais ofendia ninguém nem se importava com dinheiro. Tinha um senso de humor que combinava com o meu. Nunca me magoou.” Ela acredita que, no final dos anos 60, o romancista tentou ser hippie. “Mas não deu certo. Ele gostava demais de trabalhar.”
Outro que guarda rancor de Pynchon é o escritor Kirkpatrick Sale, ex-colega de universidade. Em Cornell, ambos conceberam uma peça inacabada sobre um futuro distópico, em que a IBM dominaria o mundo. Mais tarde, Sale ganhou certa notoriedade por defender o ludismo, corrente de pensamento que se opõe à industrialização e às novas tecnologias. O tema não só permeia os livros de Pynchon como, em 1984, suscitou um artigo dele no New York Times: “É Ok Ser Ludista?” Para o autor, a resposta é sim.
No recente O Último Grito, o romancista retoma o assunto. “Ninguém controla a internet”, diz a personagem principal para seu pai, que contra-argumenta: “É sério? Creia nisso enquanto puder, querida. Sabe de onde vem esse seu paraíso online? Começou na Guerra Fria.” O pai, então, assume ares de sábio e faz um discurso sobre as origens da web. “A internet é uma invenção deles, essa conveniência mágica que se alastra como um cheiro pelos pequenos detalhes de nossas vidas, as compras, a lição de casa, os impostos, absorvendo nossa energia, consumindo nosso precioso tempo. Não há inocência. Em lugar nenhum. Nunca houve. A internet nasceu em pecado, o pior possível.”
Sale aceitou conversar comigo por e-mail, demonstrando que talvez seja menos ludista do que Pynchon e seu fax. “Uns dez anos depois de me formar em Cornell, eu e minha mulher demos uma entrevista para uma revista obscura. Às tantas, mencionamos que sempre recebíamos Pynchon em casa. Por causa dessa ‘invasão de privacidade’, ele nunca mais falou comigo e parou de responder minhas cartas.” O ex-colega achou a reação pouco razoável. “Eu o ajudei a publicar um artigo na New York Times Magazine e fui o primeiro a ler O Arco-Íris da Gravidade. Pensei que tivéssemos uma boa amizade, embora ele nunca revelasse muito de si mesmo. Foi um golpe baixo me cortar assim. Nunca vou perdoar a estupidez dele.”
O período que sucedeu a publicação de O Arco-Íris, em 1973, é mais misterioso. Pynchon mudou bastante de endereço, deixando rastros principalmente na Califórnia, de acordo com o mapa de Jonathan Glassow. Nessa fase de nomadismo, que durou uns cinco anos, surgiram questionamentos sobre a real identidade do escritor. Alguns sustentavam que ele não passava de um pseudônimo de J.D. Salinger. Outros juravam que o autor era, na verdade, uma organização secreta ou mesmo o terrorista Unabomber.
No começo da década de 80, Pynchon se uniu a Melanie Jackson, funcionária de sua agente literária e bisneta do ex-presidente Theodore Roosevelt. O casal resolveu viver na cidade de Nova York, onde está até hoje. Em 1981, Jackson rompeu com a chefe e virou, ela própria, a agente do romancista.
Dezesseis anos depois, em 1997, quando Mason e Dixon chegou às livrarias, a jornalista Nancy Jo Sales, da New York Magazine, fez plantão em frente ao apartamento de Pynchon, no Upper West Side. “Demorou uns quinze minutos para ele sair do prédio”, me contou por e-mail. “Saltei do carro e o segui, mas não o abordei. É um dos meus poucos arrependimentos profissionais. Como repórter, devia tê-lo abordado. Só que meu editor me pediu para não o incomodar. O culto a Pynchon era forte assim, a gente ficava com medo de ir até ele e lhe perguntar qualquer coisa.” O perfil publicado na revista descreve o cotidiano de um típico nova-iorquino. O escritor cuida do filho, intera-se de assuntos do bairro e anda muito a pé.
Nem todos, porém, se mostraram tão respeitosos quanto Jo Sales. Em 1997, o correspondente britânico do Times londrino, James Bone, repetiu o percurso da repórter com uma câmera na mão. A Sunday London Times Magazine, revista dominical do jornal, divulgou, assim, a primeira imagem do autor em quatro décadas – um senhor alto, de bigode grisalho e óculos, protegido pelo capuz de um casaco, que dá a mão para o filho de 6 anos. Nenhum meio de comunicação reproduziu a foto desde então, e os arquivos do Times não a disponibilizam.
“Quando notou que eu o fotografava, Pynchon se cobriu com o capuz e atravessou a rua”, relembrou Bone. “Do outro lado, começou a conversar com uma mulher. Fui até lá e estendi a mão para cumprimentá-lo.” A resposta do escritor não soou nada amigável: “Tire a porra desta mão de perto de mim!”
Também em 1997, o repórter Charles Feldman, da CNN, rastreou o literato. “Ele tinha a fama de ermitão, mas caminhava a céu aberto por Manhattan e frequentava eventos com amigos. Existia uma contradição ali, entende?”, me explicou o jornalista. “Eu queria saber se Pynchon apenas explorava a imagem de recluso para ganhar dinheiro ou se havia um fundo de convicção naquilo.” As câmeras da CNN o gravaram andando pela rua, junto de outros pedestres. O escritor percebeu que o espionavam e ligou para o canal. Feldman o atendeu. Pynchon, lógico, pediu que a emissora não exibisse as cenas. No meio da conversa, disparou: “Acredito que ‘recluso’ seja uma palavra em código, gerada por jornalistas, e que signifique ‘não gosta de falar com repórteres’.” Feldman fez questão de enfatizar que o telefonema não continha nada de ameaçador. “Foi um papo agradável.”
No fim das contas, a CNN mostrou as imagens, mas sem identificar o romancista. Um locutor limitou-se a dizer que Pynchon estava misturado aos transeuntes. “Fui contra essa decisão e ainda sou”, frisou o repórter, que hoje trabalha numa rádio.
Descobrir o autor na matéria da CNN se tornou um jogo perfeito para fãs obcecados. O leitor Richard Lane destrinchou o vídeo e expôs suas conclusões num depoimento para o documentário Thomas Pynchon: A Journey into the Mind of P. [Thomas Pynchon: Uma Viagem pela Cabeça de P.], dos irmãos suíços Fosco e Donatello Dubini. Lane defende que, na reportagem da emissora, o escritor é um homem de boné vermelho. “Desde os anos 60, Pynchon usa cores frias. Como vocês podem perceber, esse padrão permanece”, teoriza o admirador, referindo-se ao casaco bege do pedestre. “Em seu bolso, tem uma caneta. É uma boa notícia. Significa que, provavelmente, ele ainda está escrevendo. No casaco, nota-se um relevo, que pode ser um óculos ou um maço de cigarros. Diante de nós, vemos um homem se escondendo da sociedade, mas na sua cabeça há uma bandeira vermelha, flamulando. O símbolo no boné é grande. O que representa? Um time de futebol? Algo fictício? Seria bom se fosse o porquinho da Looney Tunes.”
“Não acho que você deva escrever sobre mim. A triste realidade é que você está me superestimando.” Numa carta sem data, enviada a um acadêmico, o romancista expôs o que pensa de quem o investiga obsessivamente e teima em incensá-lo. O destinatário da correspondência, que não quis se identificar para esta reportagem, costumava publicar ensaios na Pynchon Notes, revista que circulou entre 1979 e 2009. “Minha pesquisa [a que Pynchon faz antes de redigir seus próprios livros] não é nem de longe tão profunda ou consciente quanto a sua. Na verdade, é a mais superficial possível, porque não escrevo ‘romances de ideias’. O enredo e os personagens vêm antes de tudo […], e aí esses pensamentos profundos, […] essas merdas só estão ali para alavancar a ação, criar as cenas, dar significado aos personagens e tudo o mais. Quanto menos tenho de me preocupar com as ‘ideias’, melhor para mim, porque sou preguiçoso. Desculpe lhe dizer isso.” O autor se despede sarcasticamente do acadêmico: “Claro que todo silêncio é difícil de interpretar. Se não fosse, chamariam de ‘inglês’ ou algo do tipo.”
Num artigo de 1993, publicado no New York Times, Pynchon voltou a falar do pecado capital que mais o fascina. “Escritores são, claro, considerados mestres da preguiça. […] Mas é justamente nesses episódios de viagens mentais que os vemos fazendo bons trabalhos, os melhores, aliás, resolvendo problemas formais, recebendo conselhos do além, vivendo aventuras em alucinações soníferas que, com sorte, podem ser recuperadas mais tarde. Sonhos preguiçosos são muitas vezes a essência do que nós fazemos. Vendemos nossos sonhos.” Paradoxalmente, em outro trecho, o romancista admitia figurar entre os que sentem “culpa e depressão” por se julgarem preguiçosos. Ele também condenava a mercantilização do tempo no capitalismo, que enquadra a preguiça como um pecado contra a produtividade.
Certamente, o relato autobiográfico mais impiedoso de Pynchon veio à tona em 1984 e serve de introdução a Slow Learner [O Aprendiz Lento], coletânea dos contos que o autor produziu no início da carreira. “Você talvez já saiba que é um golpe no ego ler qualquer coisa que você escreveu há vinte anos, até o rascunho do talão de cheques. Minha primeira reação ao rever essas histórias foi um meu Deus do céu, acompanhado de sintomas físicos, sobre os quais não vou me deter.” Enquanto comenta cada texto, ele pesa a mão nas críticas. Classifica os contos de pueris, cansativos, delinquentes, pretensiosos, bobos, imprudentes ou constrangedores. Diz que criou personagens escapistas em The Small Rain [A Chuva Pequena] e que Low-Lands [Terras Baixas] contém “uma quantidade inaceitável de discurso racista, machista e protofascista”. Não bastasse, reconhece que sofria influência da Geração Beat, de Philip Roth, de Saul Bellow e de Norman Mailer, mas afirma que empregou mal tudo isso.
Em 2004, o romancista zombou novamente de si quando topou aparecer em dois episódios do desenho Os Simpsons. Ele próprio dublou seu avatar. Num dos episódios, Marge lança um livro sobre um caçador de baleias e pede a opinião do escritor, que mantém a cabeça coberta por um saco de papel. “Tome aqui uma aspa: ‘Thomas Pynchon amou o seu livro quase tanto quanto gosta de câmeras’”, lhe diz pelo telefone. Depois de desligar, pendura no pescoço um cartaz com seu nome e grita para os carros que passam na rua: “Ei! Aqui! Tire uma foto com um autor recluso!” Já na segunda aparição, o literato deveria xingar Homer de “bundão”. Ele, porém, eliminou a piada do roteiro. “Desculpe, pessoal. O Homer é uma inspiração para mim. Não posso falar mal do cara”, justificou numa carta enviada à produção por fax.
Em O Último Grito, a trama se passa no Upper West Side, justamente o bairro de Manhattan onde Pynchon mora. Logo de cara, o romancista lança mão da ironia e chama a área de Yupper West Side, uma alusão aos yuppies. A protagonista, Maxine, é casada com um sujeito que gasta tempo demais em frente à televisão e não dispõe de uma inteligência emocional afiada. Ela pega os filhos a pé na escola, como o escritor fez por anos. Quem quiser saber a opinião de Pynchon sobre política americana, o 11 de Setembro e seus vizinhos de apartamento pode simplesmente ler o romance. Assim como outros livros do autor, o mais recente abriga situações e personagens que remetem à sua vida.
Se o romancista dá pistas a respeito de si mesmo em sua ficção, se conversa com tradutores, se já escreveu artigos biográficos e apresentações para obras de amigos, se tem uma rotina banal, então qual o mistério por trás dele? Desde que aquele jovem dentuço de 26 anos despontou, a mídia e boa parte dos fãs o qualificam de recluso, como se o fato de Pynchon não conceder entrevistas nem se deixar fotografar evidenciasse uma neurose. Eu própria acreditei nessa bobagem. Mas agora prefiro tirar do caminho a ideia de reclusão. Enquanto escarafunchava a trajetória do escritor, percebi que saber mais ou menos sobre ele não altera o que sinto quando devoro seus livros. Sinceramente, e nisso passei a concordar com o autor, Thomas Pynchon não é tão importante assim para entender Thomas Pynchon.
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