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O FOTÓGRAFO

Como Ricardo Stuckert conquistou o coração de Lula

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Havia grande expectativa sobre o comício de Lula no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, num 20 de agosto típico do inverno paulistano – frio e chuvoso. Era o primeiro ato público do petista na capital desde o início da campanha, que começara quatro dias antes. Conforme a manhã passava, desembarcavam no palco figuras proeminentes do partido (como Gleisi Hoffmann e Aloizio Mercadante), nomes graúdos de siglas amigas (como Geraldo Alckmin e Márcio França, ambos do PSB) e uma série de agregados do entorno de Lula e Alckmin (como João Paulo Rodrigues, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Gabriel Chalita e os jornalistas Chico Pinheiro e Juca Kfouri). Por cautela, Lula chegaria minutos antes do início do evento, a bordo de um veículo escoltado por duas SUVs com seguranças e duas viaturas da tropa de choque da Polícia Federal. Usaria uma entrada traseira do palanque, subiria direto para o palco e sairia assim que a cerimônia acabasse. Nos minutos anteriores à chegada e à saída de Lula, ninguém poderia acessar ou deixar o palco. Ordens da segurança.

Às 11h20, a jornalista Daniella Cambauva, uma jovem alta, esguia, de cabelos longos e ruivos e maquiagem caprichada, deu um ultimato aos fotógrafos postados na entrada traseira do palco. “Todo mundo de câmera abaixada. Stuckert já ligou avisando que não quer ninguém fotografando aqui”, anunciou. Ante o olhar incrédulo dos cinegrafistas, reforçou: “Eu trabalho com ele, e ele acabou de me ligar dizendo que o presidente não quer ser fotografado. Pode só lá no palco, e de costas.” Cambauva se referia ao fotógrafo Ricardo Stuckert, de 52 anos, que há vinte fotografa e filma cada passo dado por Lula de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, em dias úteis, fins de semana ou feriados, em casa ou na rua, sozinho ou em multidão. Os fotógrafos em questão não eram da imprensa – estes estavam espremidos num cercadinho no meio da multidão, com vista para o palco. Eles eram parte da mesma coligação de Lula e estavam ali para clicar Márcio França, Fernando Haddad e outros convidados do petista.

Além de abaixarem suas câmeras, os fotógrafos e cinegrafistas foram deslocados até um canto, de onde não conseguiam sequer ver a chegada do carro do petista, que estacionou antes das 11h30 e parou no meio de um corredor feito pelas SUVs que o acompanhavam. Stuckert saltou rapidamente de dentro de um dos carros da segurança e começou a fotografar Lula a caminho do palco. Só abaixou a câmera depois das 13h40, quando o presidente já estava no veículo rumo à sua casa, no bairro Alto de Pinheiros.

No palanque, só Stuckert fotografou Lula de frente. Para isso, alternou dois modelos de Canon – a EOS R3 e a EOS R5 –, ambas penduradas no pescoço, além de usar um iPhone 13, de última geração, para fazer imagens para as redes sociais do petista. Canhoto, ele aprendeu a fotografar com a mão direita. Com a esquerda, filmava com o celular. No alto, dois drones faziam registros aéreos – todos controlados pelo fotógrafo. Havia ainda uma câmera acoplada a uma grua, operada pela equipe de Stuckert, que transmitia tudo ao vivo no canal de Lula no YouTube.

Os profissionais proibidos de levantar a câmera na chegada de Lula ficaram nas laterais do palco, sem autorização para avançar. Quando Lula se dirigia à frente do palanque para discursar, Stuckert se posicionava sozinho na sua frente, de joelhos, e disparava seus cliques. Às vezes filmava com o celular simultaneamente. Enquanto alternava esses movimentos, ainda cuidava de deixar a garrafa de água aberta para que o petista se hidratasse durante o discurso.

Naquele sábado gelado, em que os termômetros não passaram de 11 graus, Stuckert não usava seu uniforme clássico: camisa, calça e blazer pretos, que veste sob qualquer temperatura desde que ingressou no Palácio do Planalto como fotógrafo oficial de Lula, em 2003. No Anhangabaú, trocou o blazer por um casaco e colocou, por baixo, uma camisa verde-militar que cobria parcialmente o cinto da grife italiana Salvatore Ferragamo, cuja fivela prateada em forma de ferradura reluzia em contraste com o tom escuro da roupa. Seu guarda-roupa elegante não escapou à observação de quem conviveu com ele no turbilhão da campanha: de vez em quando, ele aparecia com sapatos Gucci e ternos Brunello Cucinelli e nunca – nunca – se separava de sua bolsa de alça transversal da Louis Vuitton.

Desde que foi convidado para ser o fotógrafo oficial de Lula, na eleição de 2002, Ricardo Stuckert teve uma trajetória única. Não há relatos na história da fotografia do universo político de uma relação de tamanha cumplicidade entre um fotógrafo e um fotografado. Ele esteve presente em todas – todas – as viagens nacionais e internacionais nos dois mandatos do petista. Nunca faltou ao trabalho, exceto quando se casou e saiu em lua de mel. Quase perdeu o parto de um de seus filhos porque estava viajando com o presidente. No terceiro andar do Planalto, onde Lula despachava, fotografava quase todas as agendas oficiais – relegava a tarefa a algum subordinado apenas quando tinha de fotografar algum evento com Marisa Letícia, a primeira-dama. Era convidado para passar os fins de semana jogando baralho e futebol na Granja do Torto, onde Lula morou por um tempo, embora preferisse ficar com a câmera a postos à espera de uma boa imagem. Quando Lula concluiu o segundo mandato, Dilma Rousseff convidou-o para seguir na função. Ele achou que já havia cumprido seu ciclo na Presidência e sugeriu que a petista chamasse seu irmão, Roberto Stuckert Filho, também fotógrafo. Dilma aceitou a sugestão.

Assim que Lula deixou o governo, em janeiro de 2011, Stuckert começou a planejar suas primeiras férias em oito anos. Queria descansar com a família na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Mas, antes de viajar, no oitavo dia de folga, recebeu uma ligação de Marisa:

– Oi, dona Marisa!

– Espera aí, que o Lula vai falar com você.

– Oi, presidente, tudo bem?

– Tudo bem nada. Cadê você?

– Tô me preparando para viajar.

– Se prepara, que a gente tá indo viajar e você vai junto.

Stuckert cancelou a ida para a Chapada. E nunca mais parou de fotografar Lula. Com a criação do Instituto Lula, passou a trabalhar para a entidade, aliando a agenda atribulada do ex-presidente com seus projetos pessoais, como fotografar povos indígenas na Amazônia, o que resultou no livro Povos Originários: Guerreiros do Tempo, publicado neste ano. Quando Lula teve câncer, Stuckert acompanhou a quimioterapia no hospital. Quando Marisa teve um AVC, fez plantão ao lado de Lula, clicando políticos e familiares que vinham prestar solidariedade. Quando a prisão de Lula foi decretada, dormiu num quarto improvisado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde havia uma cama para o presidente e um pequeno sofá-cama para ele. Quando Lula ficou preso, ia toda semana a Curitiba para visitá-lo e fotografar a vigília que se formou nas redondezas da carceragem da Polícia Federal. Nos 580 dias de prisão de Lula, viveu entre Curitiba e Brasília, sua cidade natal. Em 2019, passou o Ano-Novo com apoiadores de Lula na vigília.

O intervalo entre a saída de Lula do governo e seu périplo de doze anos até conquistar novamente a Presidência da República foi documentado com obsessão e exclusividade por Stuckert. Agora, com a posse em janeiro de 2023, ele é o auxiliar mais próximo do único político brasileiro a governar o país por três mandatos. Suas lentes captaram o que ninguém viu, seus ouvidos ouviram o que ninguém escutou. Todas as imagens – centenas de terabytes, a maior parte inédita – estão armazenadas pelo fotógrafo. O acervo é regido por um contrato de prestação de serviços com o PT. O documento, contudo, não esclarece a quem pertence esse vasto inventário sobre a vida da figura política mais importante do Brasil desde a redemocratização.

Fotos: Ricardo Stuckert

Ricardo Stuckert fotografou Lula pela primeira vez em 1996, quando trabalhava na revista Caras. A cobertura de uma caravana do petista pelo Rio São Francisco rendeu um pequeno registro de canto de página, já que o tema não era o foco da publicação. Chamou-lhe a atenção a desenvoltura de Lula ao lidar com o público, mas seu interesse não foi além disso. Stuckert era um fotojornalista e não tinha como meta trabalhar como fotógrafo oficial, embora fosse filho de um profissional que exerceu a função. Seu pai, Roberto Stuckert, fotografou o governo do general João Baptista Figueiredo durante seis anos.

No início dos anos 2000, Stuckert queria cobrir a Olimpíada de Sydney, na Austrália. Trabalhava para a revista Veja, mas, quando soube que não seria escalado para a viagem, aceitou uma proposta do jornalista Hélio Campos Mello, então diretor da IstoÉ. No novo emprego, não só viajou para Sydney, como ganhou certa autonomia para escolher suas pautas. Em 2002, durante a campanha eleitoral, seu caminho voltou a se cruzar com o de Lula. Ele propôs um ensaio fotográfico retratando a intimidade dos quatro presidenciáveis daquela eleição. Clicou Anthony Garotinho com o filho pequeno, José Serra deitado na cama num momento de leitura e Ciro Gomes cozinhando para sua então mulher, Patrícia Pillar, mas não conseguia convencer Lula a se deixar fotografar.

O jornalista Ricardo Kotscho, na época assessor do petista, desistira de tentar persuadir o candidato a fazer a foto, apesar da insistência diária de Stuckert. “Todos os fotógrafos queriam fazer fotos do Lula com a família, e isso é uma coisa que ele não aceitava de jeito nenhum, expor a intimidade”, relembra Kotscho. O assessor então sugeriu que o próprio fotógrafo tentasse convencer o petista.

Stuckert passou uma semana cobrindo a agenda pública de Lula sem conseguir nada exclusivo. Um dia antes do fechamento da revista, convenceu-se de que não teria a imagem que queria e, no último compromisso de Lula no dia, parou de fotografá-lo para enviar à redação as imagens que já tinha. Concluída a agenda, Lula perguntou por que ele parara de fotografá-lo. Ouviu do fotógrafo que, apesar de não ter nada especial sobre o petista, tinha prazo para mandar as fotos. Lula compadeceu-se. Pediu que ele fosse até seu apartamento em São Bernardo no dia seguinte bem cedo.

Às seis da manhã, Stuckert estava em frente ao prédio de Lula. Fez fotos dentro da casa, durante o café da manhã, mas não gostou do resultado. Frustrado, resignou-se, pois Lula tinha outro compromisso. De repente, Michelle, uma cadela fox terrier de 11 anos, começou a latir. Lula pegou-a no colo, recebendo lambidas na cara como recompensa. Stuckert sacou a câmera e fez vários cliques do candidato com o xodó da casa. Quando a reportagem saiu, com a imagem do ex-metalúrgico com a cadela estampada em página inteira, Lula pediu que o fotógrafo lhe enviasse todas as fotos feitas naquela manhã. Daquele dia em diante, Marisa sempre exibiria as imagens às visitas. A foto com Michelle arrebatou o coração da futura primeira-dama.

O convite para se tornar fotógrafo oficial veio pouco tempo depois, em 3 de outubro de 2002, dia do debate da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Segundo Kotscho, o posto era disputadíssimo entre os fotojornalistas. “Conforme chegava o final da campanha, todos os fotógrafos que estavam cobrindo aquela eleição queriam ser fotógrafos do Lula”, conta. Mas o petista já tinha um eleito. Havia gostado não só das fotos de Stuckert, mas também de seu comportamento quando estivera em São Bernardo. “Naquele dia, o Lula veio falar comigo dizendo que tinha gostado do cara. Como as chances de vitória eram grandes, eu respondi que precisaríamos contratar um fotógrafo para a Presidência. E disse que pensava em chamar o Stuckert. Ele respondeu que achava uma ótima ideia”, conta Kotscho.

Encerrado o debate na Globo, Stuckert estava na recepção do Hotel Glória enviando as imagens para a redação da IstoÉ, quando Lula passou e avisou: “Stuckinha, o Kotscho vai conversar contigo.” Como era filho de Roberto, conhecido como Stuckão, o fotógrafo ganhou o apelido de Stuckinha. Em seguida, Kotscho passou pela recepção, convidou o fotógrafo para jantar e fez a proposta, sem meias palavras. Stuckert levou um susto, mas disse que tinha intenção de aceitar. Antes, queria consultar seu pai. Lula o queria na campanha imediatamente, antes do resultado da eleição, já para fazer as fotos da esperada vitória.

Campos Mello, que dirigia a IstoÉ e foi o primeiro fotojornalista a fotografar Lula para uma reportagem durante as greves dos metalúrgicos do ABC, em 1977, recorda a conversa que teve com o subordinado. “Ele me procurou falando sobre a proposta. Disse que era pouca grana, um terço do que ele ganhava. Mas eu achava que ele tinha mesmo que ir. Disse a ele que era uma oportunidade única de testemunhar uma história importante que se desenrolaria dali para a frente”, conta o jornalista. Campos Mello sabia que Lula simpatizara com Stuckert porque, durante a campanha, elogiara o fotógrafo depois do retrato com a mascote Michelle. “Agora você me mandou um fotógrafo muito legal, não esses pentelhos que enchem o saco”, disse Lula. Stuckert aceitou o cargo, mas só começou depois da vitória de Lula.

Foto: Ricardo Stuckert

No Palácio do Planalto, uma das primeiras inovações de Stuckert nos primórdios de 2003 foi substituir as máquinas fotográficas da Presidência, a maioria analógica, por modelos digitais, e comprar computadores. Também criou uma agência de fotos da Presidência, com estrutura digital, inspirada nas que havia na Casa Branca e na Casa Rosada. Em visita a Washington, ficou maravilhado com a organização do acervo, que persistia mesmo com a alternância de poder. Sua intenção era que a produção fotográfica do Palácio chegasse às redações tão ou mais rápido que as imagens feitas pelos fotojornalistas dos veículos, o que acabou provocando certa ciumeira entre os colegas. Stuckert levou oito meses para montar o site da agência. Quando deixou o governo, em 2010, havia um acervo de mais de 30 mil imagens, embora seus registros daquele período fossem muito mais vastos. O site saiu do ar com Michel Temer. Corte de gastos.

Mesmo após vinte anos de convivência intensa com Lula, Stuckert o fotografa com o ímpeto de quem o faz pela primeira vez. Costuma dizer que Lula é “esperança”, um “ser iluminado”, uma “fênix” e, apesar de tudo isso, um “homem simples”. É com o filtro dessas convicções que ele registra a história do petista. “Eu tenho uma narrativa. A minha narrativa é como documentário. Não é ficção. É um governo. Eu contei a história de um governo que saiu com quase 90% de aprovação. E tem muita gente que não gosta disso. Você está mexendo com uma classe da sociedade que é muito preconceituosa, que acha que quem está embaixo não pode ascender”, disse Stuckert, numa entrevista para o canal TV 247, no YouTube. Para ele, o petista é uma figura heroica. “Eu fotografei o papa João Paulo II, o papa Francisco, o Putin, o Fidel, o Obama, o Mandela. Cada um tem a sua aura. São pessoas com feitos enormes. E o Lula é isso. Eu tenho o prazer de fotografar esse ser iluminado.”

Em uma das imagens que sintetizam essa “narrativa”, Lula está sendo acariciado no rosto por um garoto chamado Everton Conceição Santos, em Lauro de Freitas, na Bahia, em março de 2006. Lula está suado, cercado pelo povo. O menino, que à época tinha 7 anos, se metera no meio da multidão e se fez alçar por um adulto na intenção de tocar Lula. O olhar maravilhado do garoto ao encostar no petista foi capturado pelas lentes de Stuckert. A foto foi usada como mote da campanha de reeleição naquele ano, com o slogan “Lula de novo, com a força do povo”. Naquele instante, Stuckert fora fisgado pelo olhar de Lula, não do menino. “O Lula conversa com o olhar, é muito forte isso”, disse, na mesma entrevista.

O fotógrafo diz que esse é um de seus registros favoritos, embora a imagem tenha sido fartamente editada para ser usada na propaganda eleitoral. Conforme notou uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo na época, foram apagados elementos em segundo plano que davam um ar mais realista à cena, como uma tenda branca e a imagem do militar que até hoje cuida da segurança de Lula, o general Marcos Edson Gonçalves Dias. No lugar, inseriu-se um céu azul-turquesa, nuvens e mulheres ao redor do petista. Em lives no YouTube, Stuckert exibe a versão modificada.

Foto: Ricardo Stuckert

Mesmo tendo conquistado a família Lula da Silva retratando a intimidade, seu trabalho na Presidência se notabilizou pelas imagens públicas de Lula, sempre cercado pela multidão – zona em que o petista se sente confortável. Por esse motivo, o fotógrafo frequentemente opta pela lente grande-angular, que permite amplitude no registro da cena, em vez da teleobjetiva, fechada no personagem. (Hoje, com a radicalização política e as ameaças de bolsonaristas, esses encontros populares se tornaram mais raros e acompanhados sempre de um ostensivo aparato de segurança e coletes à prova de bala.)

A obstinação por capturar Lula “nos braços do povo” é a história que Stuckert decidiu contar. Ele alterna cenas em que o petista é objeto de adoração de multidões ávidas por tocá-lo, a exemplo do menino Everton, com outras em que aparece como líder de massas, um herói quase sempre num plano superior ao do povo. “Desde o início, ele raramente faz o Lula sozinho. Sempre foi uma preocupação para ele registrar o Lula com o povo, com o homem comum, com os anônimos”, diz Kotscho.

No início do governo, Stuckert manteve o olhar de fotojornalista, mas, com o passar dos anos, a estética se modificou. No livro Lula, 500 Dias em Fotos, sobre o primeiro ano do governo do petista, ele registra Lula trabalhando em seu gabinete no Planalto, conversando ao pé do ouvido com Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, fazendo reuniões em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), alimentando as emas do Palácio da Alvorada. Depois, trocou o Lula das cenas privadas e triviais – comendo, bebendo, reflexivo, assistindo ao Corinthians na tevê – pelo Lula das multidões. Prefere as fotos atuais às antigas. Costuma dizer que, entre o primeiro e o segundo mandatos, também houve uma transição do fotógrafo. As câmeras melhoraram e sua técnica também.

Como costuma acontecer, as opiniões sobre seu trabalho se dividem. Há quem classifique o ímpeto messiânico de algumas cenas como magnífico e se emocione com registros mostrando a grandiosidade do personagem, frequentemente retratado como sujeito de uma história épica. E há quem ache o resultado forçado, com fotos exageradamente editadas e um tratamento de imagem que abusa do contraste para dar uma dramaticidade desnecessária à cena, entregando tudo ao interlocutor, sem deixar nada velado, nada por dizer.

Nos raros momentos em que Stuckert joga uma lente humanizadora sobre Lula, quase sempre há uma razão latente. Em 2011, fotografou Marisa raspando a barba intocável do marido, assim que Lula recebeu o diagnóstico de câncer na laringe. Era um momento histórico. Quando o neto de Lula morreu, em 2019, período em que esteve preso, Stuckert fotografou o petista abatido, escoltado por uma tropa de choque para acompanhar o velório do menino. Além de retratar a dor de um avô, a imagem serviu para estampar os excessos da Operação Lava Jato, tanto pelo ruidoso processo judicial para autorizá-lo a ir ao funeral quanto pela exorbitância da escolta que o acompanhava. Os policiais portavam metralhadoras, expostas nas imagens de Stuckert. Em agosto de 2021, com a divulgação das primeiras pesquisas mostrando Lula à frente na disputa presidencial, Stuckert publicou numa rede social outra foto humanizada de Lula: treinava boxe, emulando força e vitalidade.

Diante de tanto zelo, Lula sente-se à vontade na presença de Stuckert, a ponto de levá-lo até para ocasiões em que o petista não é protagonista, oferecendo-lhe o privilégio de circular em eventos com uma liberdade que não é dada a outros profissionais. Na posse da ministra Cármen Lúcia no comando do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2016, Lula levou Stuckert a tiracolo. Em vez de ficar com os demais fotógrafos, ele teve direito a um distintivo de assessor da Corte para circular e fotografar livremente. Na posse de Alexandre de Moraes na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em agosto de 2022, a cena se repetiu. Além de Jair Bolsonaro, havia ex-presidentes no evento, mas só Lula levou fotógrafo. Stuckert teve acesso ao plenário da Corte.

Apesar dos eventuais privilégios, o foco no petista às vezes impede Stuckert de enxergar a cena. Na posse de Moraes, ao fixar sua lente em Lula, perdeu o momento em que todas as autoridades presentes – de Bolsonaro aos presidentes da Câmara e Senado – olhavam, simultaneamente, em direção a Lula, que se tornara o centro absoluto das atenções. Era a imagem do dia, feita numa câmera de celular, pelo repórter Mateus Vargas, da Folha de S.Paulo. É anedótico no mundo da fotografia o episódio ocorrido no dia em que Lula foi preso, em 2018. Na ocasião, só Stuckert tinha acesso ao pátio onde estava o petista. Então, o fotógrafo Francisco Proner resolveu subir em um andar do Sindicato dos Metalúrgicos. Lá do alto, clicou Lula no centro da multidão. O registro de Proner correu o mundo e foi parar no Le Monde. Stuckert, colado em Lula, não fez a mesma imagem. “Fotojornalismo é a busca desesperada pela síntese. Mas quando você é fotógrafo do presidente, você registra a história sem essa bússola. Você registra o cara, o cara é a bússola”, diz Campos Mello.

Uma das inspirações de Stuckert é o fotógrafo Pete Souza, que registrou a Casa Branca na gestão de Barack Obama, embora ambos tenham desenvolvido com o passar dos anos uma abordagem diferente sobre o poder. O norte-americano quis construir o mito humano. Stuckert, o mito sobre-humano. Mas os dois exercem um controle férreo sobre a imagem. Souza alimentou a imprensa e a internet com farto material sobre o governo Obama e introduziu inovações, como a criação de uma conta no Flickr, um site de hospedagem de fotos, para ampliar a divulgação das imagens. Sua equipe produzia 20 mil fotos por semana. Ocorre que, na outra ponta, a imprensa fotográfica passou a ter cada vez menos acesso às agendas oficiais do presidente. A restrição levou os profissionais a publicarem um manifesto acusando a Casa Branca de tentar “substituir fotojornalismo por press releases visuais”, segundo documentou a jornalista Dorrit Harazim[1] em seu livro O Instante Certo, em que narra os bastidores de fotos históricas.

No livro, Souza diz a Harazim que seu trabalho “tem menos a ver com fotojornalismo” e que o definiria como “foto história”, ou seja, um “material de interesse histórico sobre um presidente”. Paradoxalmente, duas das fotos mais célebres de Souza têm olhar jornalístico. Uma retrata a cúpula do governo Obama na sala de crise diante de um telão assistindo, mesmerizada, à operação que resultaria na morte do terrorista Osama bin Laden, da Al Qaeda. O clima de tensão é palpável. A outra foto é o registro do momento em que Obama se abaixa para que um garoto negro toque sua cabeça. Na ocasião, o menino disse: “Eu queria ver se o seu cabelo é como o meu.” A imagem se tornou símbolo da luta contra o racismo nos Estados Unidos.

Ao comparar as condutas de Souza e Stuckert, Harazim nota uma diferença crucial, que singulariza o exemplo do fotógrafo brasileiro. “A gigantesca e nociva diferença do Stuckinha é que ele é o protagonista. É muito difícil encontrar qualquer imagem de evento em que Lula esteja presente, e que seja feita por terceiros, em que Stuckinha não esteja em primeiro plano no palco, pretensamente arrumando a posição do Lula”, analisa a jornalista, que relata jamais ter notado comportamento similar em outros fotógrafos que estudou ao longo de sua vasta pesquisa sobre fotografia. “Ele é um assessor, um criador da imagem presidencial. Até aí, tudo bem. Agora, não se vê o Pete Souza junto com o Obama em ação. A função do Pete é projetar o chefe. A função assumida pelo Stuckinha, a meu ver, sem que isso tenha sido combinado com o chefe, é a de criar o mito popular Lula através de imagens, mas sem se omitir”.

Fotos: Ricardo Stuckert

“O Lula acha que é bom em tudo. Bom cantor, bom jogador de futebol. E havia essa foto, que ele adorava e carregava para todo lado, em que ele aparece jogando bola na Granja do Torto com a camiseta do Corinthians. Foi feita pelo Stuckinha”, diz Kotscho. “Ele é muito vaidoso, muito. Gosta da própria imagem, de ver a própria imagem retratada.” Campos Mello lembra desse traço do petista quando fotografou as greves do ABC. “Quando ele era metalúrgico e fazia aquelas vigílias em São Bernardo, e baixava a polícia porque era ditadura, ele gostava de ficar ali, posando pra gente. Ele adorava.”

Jorge Araújo, fotógrafo premiado que trabalhou por quase quarenta anos na Folha de S.Paulo e também costumava fotografá-lo na época das greves, reconhece que Lula tinha uma relação peculiar com os fotojornalistas. Como presidente, Araújo se lembra que Lula gostava de “dar a foto” aos fotógrafos, ou seja, criava situações específicas que propiciassem uma boa imagem, e os tratava com simpatia. “Ele sempre passava e dava um cascudo na nossa cabeça. Ele se dirigia até o cercadinho da imprensa e os jornalistas pensavam que ele ia falar alguma coisa, mas na verdade ele só vinha dar um cascudo na minha cabeça ou na do Antonio Milena, da Veja”, relembra o fotógrafo. “O Milena uma vez se abaixou para fazer uma foto enquanto o Lula saía do carro, e ele falou: ‘Sai daí, Mileninha’”, disse Araújo, imitando a voz do petista. “E o Milena retrucou: ‘Vou te processar por abuso de autoridade.’ Ninguém fala isso para um presidente se não tiver uma amizade”, diz.

Além da familiaridade com a fotografia, outra característica que aproxima Lula de Stuckert é seu pavor da solidão. Assim, mais do que fotógrafo, o profissional se converteu, ao longo dos anos, na companhia mais fiel do presidente, por acessar não só sua intimidade, mas também ambientes dos quais a família não participava, como viagens nacionais e internacionais, e a própria rotina de gabinete. “Ele quer estar sempre cercado de gente. Porque, além de não ficar sozinho, ele não para de falar”, diz Kotscho, ao constatar que não foi surpresa que Lula tenha ficado amigo dos carcereiros que serviram na Polícia Federal, em Curitiba, quando esteve preso.

“Nas viagens que fazíamos para a China, para a Índia, com voos de vinte horas, ele não dormia e ficava conversando o tempo todo. Se íamos para o fundo do avião para dormir, ele ia até lá nos chamar para conversar e jogar baralho. Então o Stuckinha acabou se tornando essa companhia”, diz Kotscho. Ele lembra que, numa viagem à Alemanha, não podia se afastar de Lula. “Eu não podia sair para tomar uma cerveja e ele logo vinha: ‘Onde você tava?’ Então, é uma característica do Lula que o Stuckinha chegou e preencheu. ‘Cadê o Stuckinha’ era a frase que o Lula mais falava. Ele não chamava ministro nem general. Era o Stuckinha. Ele era a pessoa mais importante em qualquer delegação. Ele tinha que estar ali. Se não estava, levava esporro.” Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula, atribui o ímpeto fotográfico do presidente não à vaidade, mas à sua obsessão por registrar a história. “Se o Stuckert está sempre junto, é uma decisão do Lula. Ele gosta, ele quer que se fotografe tudo porque ele quer que a história fique registrada. Reunião pública, privada, secreta. Tudo.”

Para Jorge Araújo, há um sólido laço de amizade entre fotógrafo e fotografado. “Nos piores momentos do Lula, Stuckinha estava lá. No mensalão, o Lula ficou isolado. E o Stuckert ia aos domingos com os filhos dele para ficar com Lula e dona Marisa”, diz. Para o advogado Marco Aurélio de Carvalho, que acompanha o trabalho do fotógrafo com Lula desde o início, é mais que uma amizade. “É uma pessoa extremamente comprometida com o projeto político do presidente Lula. É da absoluta confiança do presidente, do PT, de todo o entorno. Ele tem um cuidado pelo presidente que vai muito além da relação de fotógrafo. É algo como pai e filho, embora ambos tenham essas relações bem definidas individualmente, já que Stuckert tinha um pai muito presente na vida dele, e o presidente Lula é muito próximo dos filhos”, diz.

Desde o primeiro governo de Lula, em 2003, sempre que alguém ou um grupo visitava o Palácio do Planalto e sacava a câmera para se fotografar com o presidente, a ordem era uma só: Stuckert faz a foto e manda para o interessado depois. Com o avanço da tecnologia, criou-se um número de WhatsApp só para isso. Quem cuida desse canal é um assessor de Stuckert, Cláudio Kbene, conhecido como Claudinho. A linha funciona para correligionários, militantes, admiradores anônimos, celebridades. Ao encontrar-se com Lula, o produtor de rap Kondzilla quis fazer uma foto com seu celular, mas foi impedido. Stuckert fez o registro e aproveitou para pedir que o produtor o seguisse no Instagram. Caetano Veloso e sua mulher Paula Lavigne, depois de um jantar na casa de Lula e Rosângela Silva, a Janja, em São Paulo, não conseguiram tirar uma foto própria com o casal, mas receberam rapidamente a imagem feita por Stuckert via WhatsApp. Junto, costuma ir um aviso ao destinatário: não esquecer de dar o crédito, que consiste num ícone de uma câmera com o nome “Ricardo Stuckert”.

Em 2016, ao ser fotografado para o jornal francês Libération pelo fotógrafo Filipe Redondo, na sede do Instituto Lula, em São Paulo, o petista não se sentiu à vontade. “Stuckert foi muito solícito. Queria ajudar a montar a luz, determinou o lugar [uma sala de espera do Instituto] e queria que o resultado ficasse bom. Mas Lula parecia que não queria estar ali”, diz Redondo. Em 2017, ao fotografar Lula para o Le Monde, Gabo Morales percebeu o desconforto do presidente, mas responsabiliza a si mesmo. “Ele estava desconfortável. Mas sempre que isso acontece comigo, tendo a achar que é minha culpa, que eu não consegui deixar a pessoa à vontade.”

O misto de anacronismo tecnológico e dependência de Lula em relação a Stuckert produz situações cômicas. Quando o deputado federal André Janones (Avante-MG) renunciou à sua candidatura presidencial para apoiar Lula, recebeu a visita do petista para selar a aliança. Estridente em suas redes sociais, Janones imediatamente quis fazer uma live com o presidente para anunciar a boa-nova. Sacou o celular do bolso e, antes que iniciasse a transmissão, ouviu do petista: “Tem que ser com o seu celular? Melhor o Stuckert fazer com a máquina dele”, disse Lula, apontando para a câmera profissional do seu fotógrafo, que não transmite para as redes sociais.

Acompanhei o trabalho de Stuckert durante quase três meses de campanha, entre agosto e novembro. Tive vários contatos telefônicos com ele e alguns presenciais, no Rio ou em São Paulo. Um deles, em um hotel em São Paulo, aconteceu horas antes de sua partida para Caraíva, na Bahia, onde acompanhou Lula e Janja em viagem de descanso depois do segundo turno. Naquele dia, ele se preparava para almoçar com sua mulher, Cristina, que fora a São Paulo acompanhar a apuração. Mas, enquanto ela o esperava no restaurante do hotel, Stuckert soube que teria de partir às pressas com o casal.

Só conseguimos conversar para uma entrevista na sua primeira folga neste ano. Ele tirou três dias antes de embarcar com Lula para o Egito, onde aconteceu a 27ª edição da Conferência do Clima, a COP27. Na folga, ele viajou para São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, onde mora seu tio, Eduardo Stuckert, mais um dos fotógrafos do clã. “Meia hora de banho de cachoeira nesse lugar já me revigora, eu recupero energias, é meio místico para mim”, diz. Mas trabalhou, mesmo nos dias de descanso: editou imagens exclusivas dos bastidores da vitória para serem exibidas no Fantástico, da Globo. No domingo, 13 de novembro, pela manhã, partiu de volta para Brasília, onde vivem sua mulher e três de seus quatro filhos – dois do primeiro e dois do atual casamento. Na segunda-feira de manhã, embarcou com Lula. “A gente não tem folga, né. É que nem farmácia, funciona 24 horas.”

Na campanha, seu trabalho começava por volta das seis da manhã, às vezes antes. Organizava o material para o dia, orientava sua equipe de vinte pessoas, avalizava imagens e vídeos para as redes sociais e estava pronto para sair do hotel uma hora antes do combinado. Sempre saía junto com Lula, embora ficasse no carro dos seguranças. Depois de clicar e filmar o presidente nos eventos do dia, a rotina se estendia ainda por horas, com edição das imagens, criação de “cortes” para as redes sociais, remessas para a imprensa e seleção para inserções na tevê. “Quando as pessoas acham que o trabalho do fotógrafo terminou, é aí que ele começa. Tem que ter internet boa, bateria de celular e paciência, porque as pessoas ficam cansadas, querem ir jantar, lanchar, e fotógrafo não tem tempo para isso. Quando acaba o evento, a demanda é muito grande”, conta.

Só durante a campanha, a produção de imagens ultrapassou 20 terabytes. O material é todo descarregado em HDs à noite. Quanto está tudo arquivado, Stuckert se recolhe. Dorme de três a quatro horas por noite. Diz que, durante as viagens, ninguém gosta de dividir quarto com ele em razão de seu pouco apreço pelo descanso. Garante não ter insônia e não sentir sono no decorrer do dia. Em todas as vezes que nos encontramos, parecia atento, elétrico e sempre apressado. Tenta equilibrar o pouco sono com alimentação saudável, orgânica, sem doces nem ultraprocessados, mas é bom de garfo. “Eu como bem, como muito.”

A dedicação estoica ao trabalho é inspirada em seu pai, Roberto Stuckert, morto em agosto do ano passado. “Eu devo tudo a ele. Sou o que sou por causa dele. É minha inspiração na maneira de eu me portar, de falar, em tudo. Não uso colete de fotógrafo, estou sempre de paletó, porque meu pai sempre trabalhou de paletó. Eu aprendi vendo ele. Ele nunca bebeu nem fumou. Eu nunca bebi e nunca fumei, embora ele nunca tenha me dito que eu não pudesse fazer essas coisas”.

Sua primeira investida na carreira de fotógrafo aconteceu ainda nos tempos de estudante. Pegou a câmera Leica do pai para fotografar a arquitetura de Brasília para um trabalho de escola. Depois de um dia inteiro clicando a cidade, descobriu, ao chegar em casa, que o filme havia sido mal colocado e não rodara. Antes de contar ao pai sobre o infortúnio, repetiu as fotos no dia seguinte. “Mas é claro que não ficou nada igual. Quando contei o que tinha acontecido para o meu pai, ele me disse: ‘Na fotografia, se você errar, não tem volta.’ Imagina como eu fiquei por dentro”, recorda.

“Meu pai demorou um pouco para me soltar”, diz Stuckert, sobre sua entrada na fotografia profissional. A preocupação paterna decorria do mercado escasso e do sobrenome, que poderia atrapalhar, levando a comparações entre pai e filho. Além do pai, seu avô, bisavô e outros trinta membros da família são ou foram fotógrafos. “Ele falava muito sobre a frustração de perder a foto, que não dava para voltar atrás, e que fazer isso repetidas vezes poderia ‘queimar’ um fotógrafo. Dizia que a dedicação era imensa e que, para ser um bom fotógrafo, eu tinha que gostar.” Mas era o que o filho queria. “Aprendi muito com aquele erro inicial. Acho que aprendi mais com erros do que com os acertos.” (Anos depois de se decidir pela profissão, trabalhando no jornal O Globo, acompanhou a visita de Fernando Collor à Casa Branca e “salvou” o então colega Hélio Campos Mello, que já era um fotojornalista premiado, mas cometera erro parecido: não colocara filme na câmera. Stuckert lhe cedeu seus negativos. O episódio só não foi mais sério porque Campos Mello garantira boas fotos no dia anterior.)

A benção do pai foi fundamental para que Stuckert aceitasse o convite para trabalhar com Lula. “Ele me disse: ‘Meu filho, você toma a decisão que você quiser. Mas saiba que a sua vida vai mudar daqui para a frente. Ao trabalhar para o presidente da República, você vai trabalhar para uma instituição chamada Brasil. Olha a responsabilidade. Eu sei que você dá conta, mas saiba da responsabilidade.’ Eu respondi que entendia tudo isso, e que essa era a oportunidade de fotografar o primeiro operário chegando ao poder”, conta. O pai recomendou que ele fechasse os ouvidos, atitude fundamental para quem trabalha com governantes. Stuckert diz obedecer à risca.

Na Presidência, seu cargo jamais ficou em risco. Contava com a confiança tanto de Lula quanto de Marisa, mas ele diz que nunca esqueceu o seu lugar. “Se sou convidado para ir ao aniversário, Natal ou Ano-Novo, estou sendo convidado para trabalhar, não para me divertir.” Stuckert se refere a Lula como “presidente”. Jamais como “Lula”. “Acho que essa é a chave para eu estar ali com ele há tanto tempo. E isso eu aprendi com meu pai: em Brasília, você está muito próximo do poder e as pessoas confundem.”

No entanto, ao contrário de Stuckinha, Stuckão tinha uma relação de amizade com o general Figueiredo, o derradeiro ditador do ciclo militar. No canal Última Cortina, no YouTube, o fotógrafo fala de imagens que considera históricas e da admiração que tinha pelo chefe. A certa altura, comenta que era convidado com frequência para almoçar com Figueiredo, que aproveitava a visita do fotógrafo para pedir um menu fora da dieta prescrita por seu médico, alegando que a refeição calórica seria apenas para o fotógrafo. “Tem coisa melhor do mundo do que almoçar com o presidente?”, comentou o fotógrafo, ao lembrar-se daquele período.

Além de guardião pleno da imagem de Lula, Stuckert administra o conteúdo visual das redes sociais. Em 2016, criou a conta do petista no Instagram e orgulha-se que o canal tenha passado de 11 milhões de seguidores. Na campanha, no dia em que o petista teve uma dor nas costas, coube a Stuckert chamar os médicos. Em Curitiba, organizava e filmava a vigília de apoiadores – e mandava diariamente as imagens para Lula por meio de visitantes. Nesse período, ficou quase dois meses sem ver o petista. Nunca ficara tanto tempo distante desde 2003. Quando ganhou autorização para visitá-lo, não podia levar câmera. Durante a vigília, aproximou-se de Janja, com quem Lula iniciara uma relação quatro meses antes de ser preso. Chegou a fazer o papel de pombo-correio do casal, levando e trazendo cartas. Nos aniversários de Lula, sempre o presenteia com uma foto. A última, dada em 2021, foi uma imagem do Cristo Redentor ao nascer do sol. Está pendurada na sala da casa de Lula, em São Paulo.

Stuckert reconhece que suas funções se ampliaram, mas não se enxerga fazendo nada além da fotografia no futuro. “Eu sou fotógrafo e quero continuar sendo. Faço foto e vídeo. As coisas aqui devem caminhar no rumo do que ocorre nos Estados Unidos, em que as redes do Biden publicam mais vídeos que fotos”, diz. A autonomia nas funções que exerce é incompatível com os cargos disponíveis na Esplanada dos Ministérios, pois corresponde a várias áreas da Secretaria de Comunicação. É uma concentração de poder inédita quando apenas uma pessoa está apta a cuidar das redes do presidente, divulgar feitos de governo, fotografá-lo, filmá-lo e avalizar toda a imagem que é publicada nos canais.

De certo modo, Stuckert eventualmente substitui o próprio Lula, que não tem celular e não tem qualquer interesse por redes sociais. Assim, a decisão sobre postar ou não algo começa e termina com o próprio fotógrafo. Quando Marisa morreu, em 2017, Stuckert optou por divulgar apenas uma foto do velório, em que as mãos de ambos estavam entrelaçadas, sem que aparecesse o rosto de ninguém. “Esse zelo que eu tenho com ele, eu tinha com ela. Só divulguei essa foto em respeito a ela, em primeiro lugar. Eu tinha de honrar a memória dela.”

Quando faleceu o neto de Lula, foi decisão de Stuckert publicar a imagem do presidente deixando o velório rodeado de policiais, com ar abatido, contrastando com os retratos que costumava fazer. “Foi uma falta de respeito, aquele monte policial em volta dele, fiquei com muita raiva. Me deu um negócio no coração e eu pensei: ‘O que eu posso fazer?’ Aí divulguei a foto dele no meio daqueles agentes, eram muitos. Alguém até me alertou: ‘Ah, isso pode ser ruim.’ E eu falei: ‘Não, eu vou divulgar, isso é um absurdo.’ É muita injustiça o Arthur ter falecido, era um anjinho, a situação dele preso, ele não ter sido autorizado a ir ao velório do próprio irmão, e agora aquilo, cercado de policiais como se fosse uma ameaça!”

A imagem de Lula e Janja à luz do luar, numa praia do Ceará, foi publicada por Stuckert em agosto do ano passado. Alcançou mais de 65 milhões de visualizações e tornou-se a imagem política mais vista de 2021, segundo a consultoria Quaest. “Não foi a história de amor que chamou a atenção das pessoas, mas o estado físico do ex-presidente. A maior parte dos temas comentados envolvia sua ‘coxa’, sua ‘força física’ e seu ‘bom momento de saúde’”, informou a consultoria, em seu relatório. Stuckert fez a foto e publicou nas redes sem pedir licença a ninguém. “Eu sabia que a Lua ia estar cheia, que a foto ia ficar bonita. Quando vi o resultado e vi que o cara estava bem pra caramba, publicamos e estourou”, conta.

Sobre a aprovação de Lula em relação a fotos, Stuckert diz que ele “não fala muito dessas coisas” e “confia na gente, confia em mim”. “Eu tenho total autonomia. E isso é maravilhoso. Por isso, estou com ele há vinte anos.” A decisão de publicar a foto ao luar não foi só estética. A ideia era mostrar a vitalidade do presidente num momento em que circulavam rajadas de desinformação no WhatsApp dizendo que Lula estava “doente” e inapto para assumir a Presidência da República, caso viesse a ganhar.

A reação das redes é um universo que Stuckert começou a explorar e que, não raro, vira o termômetro do sucesso do seu trabalho. A foto da mão de Lula sobre a bandeira brasileira, postada no dia da vitória, somou mais de 3,5 milhões de curtidas, recorde da conta do petista no Instagram. É a postagem mais curtida até hoje na história do Twitter no Brasil. Outra mudança trazida pela tecnologia é o tom azulado e a luz fria, presentes em muitas de suas fotos em ambientes fechados. O resultado se deve a uma função automática de sua Canon EOS R3, chamada white balance, que realça os tons brancos de uma imagem. Fotógrafos torcem o nariz para esses truques visuais, mas as redes adoram.

A maior parte das imagens feitas por Stuckert, especialmente nos bastidores, não é publicada. Em seu acervo, há cenas inéditas do casamento de Lula e Janja, do primeiro encontro com Simone Tebet e do momento em que Lula atendeu às ligações de Joe Biden e Emmanuel Macron. Quando Biden ligou depois da vitória, Lula estava no hotel InterContinental, em São Paulo, no subsolo do prédio, encaminhando-se para falar aos jornalistas estrangeiros. O sinal estava ruim e a ligação caiu. Depois de dar a entrevista, dirigiu-se a uma sala privada para retornar o telefonema. Toda a cena foi filmada – do estresse do corredor até a conversa se concretizar. Essa e a maior parte das cenas registradas durante a campanha estão em vídeo.

Com esse material, Stuckert planeja fazer um documentário sobre a reta final da campanha. A história começará em 23 de setembro, quando um evento em São Paulo reuniu personalidades da cultura em torno da candidatura do petista. A ideia, segundo ele, não é mostrar os bastidores. Almeja, sobretudo, deixar registrada a dimensão popular do chefe. “Quero algo de fora para dentro, não de dentro para fora.” O fotógrafo deve se dedicar ao plano no ano que vem, entre uma agenda oficial e outra. Não fechou contrato com nenhum canal de streaming. “É um conjunto de imagens que mostra um presidente ganhando seu terceiro mandato, eleito pelo povo. Os votos dele somados, ao longo da história, já passam de 240 milhões. É o governante mais votado na história.”

Não será sua primeira incursão no mundo cinematográfico. Em 2016, Stuckert foi procurado pela cineasta Petra Costa, que estava fazendo um documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Costa queria ter acesso a parte do material exclusivo de Stuckert e autorização para filmar os bastidores dos momentos finais de Dilma na Presidência. No início, o fotógrafo ficou com um pé atrás. Depois, ao ver o tamanho da produção, resolveu colaborar, cedeu as imagens e saiu nos créditos como “diretor de fotografia – imagens exclusivas”. “Quando ela me convidou, eu quis ver antes, para decidir se eu de fato iria participar”, conta. “Quando comecei a ver os cortes, vi que seria bacana, grande, com gente de renome, um puta projeto do caralho”, conta Stuckert. Democracia em Vertigem foi indicado ao Oscar de 2020 na categoria de melhor documentário. Stuckert foi à cerimônia, em Los Angeles: “Eu via os fotógrafos cobrindo aquilo e eu pensava, por um momento, que era lá o meu lugar, não no tapete vermelho.”

Na entrevista ao canal TV 247, no YouTube, em 2021, o fotógrafo disse que foi atraído pela “narrativa” do trabalho de Costa. “Ela foi muito feliz nesse filme”, disse. Stuckert diz que ele próprio, com suas fotos, monta uma narrativa sobre Lula, que nunca está adequadamente refletida na imprensa. “São vinte anos brigando diariamente. A narrativa do documentário foi muito gratificante para minha história, de entender que ‘pô, esse tempo todo eu estou no caminho certo’. Você liga no telejornal e só tem notícia ruim para a gente. Mesmo o que é bom eles conseguem virar”, disse o fotógrafo, ao repetir a reclamação de todos os governos. Apesar das décadas com Lula, Stuckert nunca pensou em se filiar ao PT.

Convidado a esclarecer suas declarações, ele disse que não quer polemizar, mas acredita que a cobertura jornalística foi injusta no aspecto da imagem. “Mesmo quando a notícia era boa, de que a condenação havia sido anulada, colocavam uma foto em que ele fazia careta, estava de cabeça baixa ou uma imagem negativa. Sei que isso não é culpa dos fotógrafos, mas dos editores, que são os que escolhem as fotos.” Petra Costa hoje faz um novo documentário sobre os eventos políticos no Brasil, tendo a religião como pano de fundo. Ao longo da campanha, teve acesso privilegiado ao palco e aos bastidores dos comícios, embora Stuckert nem sempre estivesse animado em garantir-lhe uma credencial. Ela foi a primeira a entrevistar Lula após a vitória e chegou a ajudar na campanha do petista, ao gravar vídeos de Simone Tebet para as redes.

“Cuidem bem do Stuckinha”, disse Lula, em uma das primeiras reuniões com sua equipe no imóvel de três andares em São Paulo, onde instalou seu Q.G. de campanha. Ali funcionavam as reuniões políticas, as gravações das peças para tevê e toda a produção de conteúdo. No piso inferior, estava a equipe de Stuckert. No andar intermediário, ficava o time do marqueteiro baiano Sidônio Palmeira, responsável pela estratégia da campanha e pelos vídeos para tevê. No último andar, a sala de Palmeira, que também servia como cenário para gravações. A monotonia do branco das paredes, escadas, do chão frio e dos vitrais de pé-direito alto era quebrada por pôsteres, quadros e totens com a figura de Lula. “Aquele prédio era um retrato perfeito da esquerda. Toda fragmentada”, diz uma integrante da equipe, que falou com a piauí sob a condição de não ter seu nome revelado para não criar atritos profissionais. A reportagem ouviu sete membros da campanha que frequentavam diariamente o Q.G. Todos pediram para falar anonimamente.

Quando não estava na estrada, o petista dava expediente ali. Chegava com Janja, os seguranças e Stuckert pela garagem e subia para o segundo andar. Dali despachava com Gleisi Hoffmann e Aloizio Mercadante, em reuniões que quase sempre tinham a presença da mulher e do fotógrafo. Os almoços, de longa duração, também aconteciam no local, a portas fechadas, com bufê contratado e garçons servindo. A primeira impressão de calmaria e leveza escondia um indomável clima carregado.

No começo do ano, quando o PT afastou o jornalista Franklin Martins da comunicação da campanha e contratou a equipe de Sidônio Palmeira, não houve uma reunião para definir a hierarquia. Embora o PT já tivesse antecipado que não queria mais a figura do marqueteiro superpoderoso – como era com Duda Mendonça e, depois, com João Santana –, as funções de cada um só ficaram claras com o passar do tempo, num ambiente de pouco diálogo, permeado pela obsessão de jamais incomodar Lula. “Ele é tratado como um talismã”, contou uma das fontes.

Embora a autonomia de Stuckert em relação a Lula fosse conhecida, algumas surpresas apareceram. O fotógrafo avisou que ele operaria a câmera nas gravações de Lula para as inserções na tevê e passou a dar palpites ocasionais como se fosse o diretor de fotografia da campanha, cargo que nunca ocupou formalmente. Nenhum vídeo saía nas redes sociais sem a aprovação de Stuckert. Toda a captação de imagem de Lula nos comícios era feita por seus subordinados, sem ingerência do marketing político. A justificativa: a equipe de Stuckert viajava para todos os locais com Lula, enquanto o pessoal do marketing, não. De fato, não faria sentido duas equipes de filmagem se deslocando para os mesmos lugares. Ainda assim, havia críticas de que Stuckert filmava o que queria, sem levar em conta a estratégia dos marqueteiros.

Como cabia a Stuckert fotografar os comícios, muitas vezes o material para as redes ficava embargado até que o evento terminasse e ele tivesse tempo de aprovar os vídeos. O fotógrafo tinha poder de veto. Ao seu lado, estava Janja, que não palpitava nas imagens, mas mandava nas redes sociais e na relação da campanha com a classe artística.

Janja e Stuckert dividiram entre si o contato com as celebridades. Os atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank e a ativista indígena Txai Suruí eram da cota do fotógrafo. O humorista Paulo Vieira, a família Gil e as cantoras Anitta, Ludmilla e Pabllo Vittar eram da alçada de Janja. Em meio à guerra fria entre a equipe de Sidônio Palmeira e a dupla Janja-Stuckert, o PT optava pela inércia. “É difícil dizer se Lula fechava os olhos propositalmente ou não percebia o que acontecia”, diz um dos integrantes da campanha. Outro conclui que, embora houvesse divergências, todos estavam focados no mesmo objetivo – a vitória. “Um dia o Sidônio e o Stuckert conversaram e as coisas foram relativamente esclarecidas. Claro que a desarticulação atrapalha, mas tudo deu certo no final porque Lula ganhou.”

O descompasso entre as equipes repercutiu na estratégia de campanha. Antes do primeiro turno, a equipe de Palmeira queria atacar Bolsonaro de forma mais contundente para ampliar a vantagem de Lula. Houve atraso para colocar a ideia em prática em razão de discordâncias com Janja e Stuckert. A equipe de roteiro da campanha propôs um vídeo mostrando como eram as 24 horas na vida de Lula para humanizar a imagem do petista. “Era tudo muito institucional. Queríamos botar o Lula para ser um cara de verdade”, contou uma das fontes. Janja e Stuckert não autorizaram.

No Sete de Setembro, a tensão chegou ao limite no prédio de três andares. A equipe da campanha estava a postos para produzir conteúdo sobre a manifestação bolsonarista – o dia do “imbrochável” –, mas foi ignorada. Sem combinar com o marqueteiro, Stuckert filmou e divulgou um vídeo em que Lula comentava o comportamento de Bolsonaro naquele dia. “Eram várias coisas pequenas que ficavam enormes. Ele ia minando as pessoas e as relações. Era centralizador, não dava acesso, não tínhamos uma imagem melhor porque não podíamos subir no palco, o presidente passava falando com todos e ninguém podia levantar um celular para tirar foto de longe sem que ele viesse reclamar. Era uma redoma estranha que se criava”, diz um dos integrantes do Q.G. “Muitas pessoas do PT criticavam pelas costas, mas, no fim, todo mundo tolerava.”

No final da campanha, a equipe do marqueteiro nem sabia quais eram os projetos tocados por Janja e Stuckert. A turma de Palmeira só soube da gravação do clipe Sem Medo de Ser Feliz, que reuniu duzentas pessoas no Teatro Casa Grande, no Leblon, um dia antes do evento. Lula chegou ao teatro com três horas de atraso, vindo de Porto Alegre e acompanhado de Janja e Stuckert. O fotógrafo dirigiu a montagem. No final, uma frustração: não conseguiu impedir que muitos dos presentes tirassem fotos com Lula. Cerca de um mês depois, na  ida de Lula à Conferência do Clima no Egito, de novo uma multidão se aproximou do petista com celulares na mão. Ao fotógrafo, só restou resignar-se.

No dia da vitória, tensões e conflitos se evaporaram em lágrimas. Na sala em que todos acompanhavam a apuração, com Lula já quase 2 milhões de votos à frente de Bolsonaro, mas ainda antes do anúncio oficial pelo TSE, houve um momento catártico. Estavam todos: a família de Lula, a cúpula petista, Simone Tebet, André Janones e artistas como Daniela Mercury e Paulo Vieira. Cristina, mulher de Stuckert, chegou à sala e pulou nos braços do marido gritando: “A gente conseguiu, você conseguiu!” O fotógrafo chorou copiosamente. “Se tem alguém que sabe o que custou tudo isso é a mulher dele, que praticamente não convive com ele e aceita essa dedicação integral ao Lula”, diz um dos integrantes da campanha que observou a cena. Em lágrimas, Stuckert abraçou o presidente eleito e Dilma Rousseff, que também chorava. Nesse momento, ele disse à petista: “Eu nunca vi a senhora chorar.” Mais controlado do que o fotógrafo naquele momento, Lula disparou: “Aí, Stuckinha, faz uma foto aqui!”, disse o presidente, insinuando que ele parasse de chorar e voltasse ao batente.

A dedicação de Stuckert e o controle que exerce sobre a imagem de Lula exasperam os demais fotógrafos, que se sentem cerceados. Ísis Medeiros, fotógrafa do PT em Minas Gerais, conta ter vivido situações traumáticas. A primeira ocorreu em 2018, quando organizava uma foto de Dilma, Manuela D’Ávila e outros políticos locais num evento do PT em Belo Horizonte. Medeiros conta que viu Stuckert vindo de longe, numa corrida desabalada, cabelos esvoaçantes, para impedi-la de fotografar a cena que ela elaborara. “Ele veio correndo, entrou na minha frente e não me deixou fotografar. Eu pensei: ‘Meu Deus, que doideira, de onde esse cara brotou?’ Fiquei sem reação porque não entendia a razão de ele ter me impedido. E havia um monte de autoridades ali, eu não sabia como reagir”, diz a fotógrafa. Na época, ela  decidiu não reclamar ao partido sobre a conduta de Stuckert. “Eu não sabia que ele era assim. Só depois desse dia é que fui apurar com outros colegas e descobri que era comum esse tipo de comportamento.”

Medeiros relata que, enquanto fotografava para o PT mineiro as eleições de 2018, foi alvo de várias agressões. Recebeu cotovelada, foi tirada de palco. Embora tivesse sido escalada pelo PCdoB, aliado do PT, para acompanhar D’Ávila, que era vice de Fernando Haddad, ela não podia acessar locais em que Stuckert estava fotografando o petista. Em 2022, piorou. Numa visita a Juiz de Fora (MG), Lula dividiria o palco com um deputado mineiro para quem Medeiros fotografava. Claudinho, o auxiliar de Stuckert, disse que ela não podia fazer foto de Lula. Medeiros ignorou e continuou fotografando o evento, incluindo o presidente. Minutos depois, Stuckert apareceu, colérico, reafirmando a proibição. “Ele tirou meu direito de fazer o meu trabalho. Todo o tempo que eu fiquei ali fotografando, ficava me sentindo como se estivesse cometendo um crime, fazendo algo errado.”

Num jantar que o ex-prefeito de Belo Horizonte e candidato ao governo de Minas, Alexandre Kalil (PSD), ofereceu em homenagem a Lula em agosto, Medeiros foi convidada a comparecer pelo seu chefe, o deputado federal petista Reginaldo Lopes, mas não como fotógrafa. Ao chegar, ela conta que foi barrada na porta por Stuckert, que lhe avisou que só entraria se deixasse sua câmera para trás. Ela se negou, e o fotógrafo então ordenou que Claudinho a fiscalizasse durante todo o jantar. Claudinho cumpriu a ordem. Ela pediu que ele se afastasse. Ele afirmou que cumpria ordens do chefe. “Eu comecei a chorar muito na frente de todo mundo. Não conseguia parar. Falei para o meu chefe que eu não estava ali para ser humilhada e constrangida daquele jeito.” Naquela noite, diante do tumulto, embora ninguém tenha pedido explicações a Stuckert sobre sua conduta, ele negou que tivesse cometido assédio moral contra a colega e disse se tratar de um mal-entendido. Ficou por isso mesmo. Medeiros conta que não foi mais escalada pelo PT para cobrir a campanha presidencial em Minas e saiu do episódio com a impressão de que a culparam pelas atitudes do fotógrafo.

A fotógrafa mineira Elza Cohen viveu situação semelhante. Em encontro organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Rio de Janeiro em 2017, ela circulava livremente pelo evento, com credencial, porque trabalhava para a entidade. Como Lula discursaria no encontro, Stuckert a abordou no palco. “Você não pode ficar aqui, você tem que sair”, disse ele, segundo a fotógrafa. Cohen ignorou e continuou fotografando. Ele chamou os seguranças de Lula e pediu que a retirassem, ordem que foi cumprida de imediato. “Os seguranças me puxaram com toda a força, com violência. Eu fiquei tão mal com a forma como ele chegou e me abordou”, conta Cohen, que, já fora do palco, viu que outros fotógrafos se mantiveram no local sem serem incomodados.

A jornalista Mariana Vitarelli, que filmava o documentário Lula, De Fora Para Dentro, lançado em 2021, conta que, durante as filmagens, embora Stuckert tenha permitido seu acesso a alguns palanques, ele frequentemente interferia em seu trabalho. “Se eu estava filmando num lugar bom, ele me mudava de lugar. Sempre querendo controlar demais, centralizar muito a situação.” A fotógrafa Andrea Nestrea diz ter entrado em um corpo a corpo com Stuckert num evento eleitoral na favela da Rocinha, em 2018. Ela fora contratada pelo PT para fotografar a então candidata ao governo do Rio, Marcia Tiburi, enquanto Stuckert fotografava Haddad. “Ele me dava cotovelada dizendo que eu estava saindo na foto dele. Mas o lugar era estreito, lotado, não tinha como fazer uma foto ‘limpa’, não tinha como tirar os fotógrafos dali. E ele também estava saindo na minha foto, mas era do jogo”, conta Nestrea, que diz admirar o trabalho de Stuckert, mas ter se decepcionado com sua atitude.

No jantar de Lula com empresários do grupo Esfera Brasil, no final de setembro, em São Paulo, Stuckert proibiu o cinegrafista contratado pelo evento de gravar as falas do presidente. O dono da Esfera, o empresário João Carlos Camargo, aceitou. Quando Lula terminou de falar, Stuckert exigiu que o cinegrafista lhe entregasse o cartão de memória de sua máquina, para se certificar que não havia imagem de Lula. O rapaz não cedeu à exigência. Stuckert reagiu: “Se você gravou qualquer coisa hoje, você vai ver.” Como o clima esquentou, pessoas da Esfera chegaram para intervir. O episódio foi relatado à piauí por duas pessoas que testemunharam a cena.

Ao contrário dos colegas, Beth Santos, que há treze anos trabalha como fotógrafa de Eduardo Paes, prefeito do Rio, diz ter apenas boas experiências com Stuckert. Quando Lula foi ao Complexo do Alemão, em outubro, havia um carro só para os fotógrafos. Stuckert estava nele, num ponto privilegiado para fotografar Lula de frente. Ao seu lado, apenas Santos. Os demais fotógrafos e cinegrafistas se revezavam na parte traseira da carroceria. “Eu respeito o trabalho dele. Eu respeito hierarquia. Quando o Lula era presidente e eu precisava fazer uma foto do meu chefe num ângulo melhor, eu pedia que ele me deixasse bem posicionada. Se ele dizia não, era não. Eu não sou aquela pessoa que fica insistindo, tentando burlar. Quando ele dizia ‘pode vir’, eu ia. Então eu sempre respeitei o trabalho dele”, diz.

Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula e um dos poucos conselheiros do presidente, reconhece a importância de Stuckert para o legado do petista, mas também acha que seu caráter exclusivista impõe danos. “Ele é um fotógrafo singular. Está há muitos anos com Lula, cuida da imagem dele, é muito cioso, é um assessor permanente e faz muitos sacrifícios pessoais em nome dessa missão. Tudo isso é muito bom e traz muita confiança ao Lula. E o trabalho dele talvez tenha feito do Lula uma das pessoas mais fotografadas da história. Mas há um problema que a história também vai registrar: poucos tiveram a condição de fazer um trabalho de fotógrafo independente sobre o Lula porque havia um cerceamento da imagem dele. Então isso também cria um prejuízo histórico, porque há poucas fotos do Lula feitas por outros olhares.”

Stuckert sabe que seu trabalho desperta amores e horrores, e não gosta de responder as acusações. Seu amigo de longa data, Jorge Araújo, diz que o fotógrafo não faz por mal, tem muita responsabilidade e precisa ter um olhar muito maior para a imagem do que os demais colegas. Um parceiro de trabalho, que conhece bem a rotina de Stuckert, acredita que ele está tão “mergulhado na missão” que não enxerga nada além disso, “inclusive as restrições que ele acaba impondo”. Em janeiro de 2011, Stuckert outra vez contaminou o registro dos fatos. Posicionou-se atrás de Lula e Dilma no momento em que o petista passava a faixa presidencial à sucessora. Como resultado, o fotógrafo aparece em todas as imagens feitas na hora da transmissão da faixa. Por sua posição privilegiada, Stuckert capturou uma cena única: Lula e Dilma de costas, diante de uma Esplanada repleta pela multidão. “Fotojornalismo é isso. Você precisa achar a foto. Sempre vai ter alguém atrapalhando. Se não é o Stuckert, pode ser qualquer outro”, diz Araújo.

O controle de imagem está em todos os governos, incluindo os democráticos, mas os exemplos da ditadura são especialmente pedagógicos. Quando, em 1984, o general Figueiredo proibiu jornalistas e fotógrafos de subirem ao gabinete presidencial para registrar agendas públicas, os profissionais que cobriam o Palácio do Planalto fizeram greve. Como só estavam autorizados a clicar o general subindo ou descendo a rampa, os fotógrafos não o faziam. Deixavam as máquinas no chão em sinal de protesto. Figueiredo passava, e as câmeras seguiam no chão. Stuckert pai, o fotógrafo oficial, chegou a enviar fotos feitas por ele para as redações, a pedido de Figueiredo, mas os jornalistas rasgavam as imagens. No canal Última Cortina, no YouTube, fotógrafos relatam que Figueiredo disse, irritado, que passaria pela rampa e chutaria as câmeras. Não o fez. Deixava claro que o registro por múltiplas lentes pode incomodar – mas ainda é muito melhor do que a indiferença.

Foto: William Martins Conceição

[1] Dorrit Harazim é membro do Conselho Editorial do Instituto Artigo 220, entidade que apoia a piauí.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

é coordenadora de narrativas visuais na piauí.