CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
O lixo e a palafita
A degradação turística das ilhas de Belém
Leandra Souza | Edição 228, Setembro 2025
As ilhas do Combu, Murutucu, Grande e Ilhinha oferecem o que se convencionou chamar de “refúgio verde” ao morador de Belém que deseja aliviar o estresse da vida urbana nos momentos de folga. Todas contam com espaços turísticos e várias opções de lazer em contato com a natureza. Também podem ser acessadas com facilidade: a viagem por barco da cidade até as ilhas dura de 15 a 30 minutos.
O grande afluxo turístico, no entanto, vem degradando a natureza das ilhas e diluindo a cultura local. Fica difícil acreditar em “encontro com a natureza” quando em todo lugar há wi-fi para facilitar publicação de imagens no Instagram e quando alguns bares e restaurantes são cercados por grama sintética. “O turismo associa vários agentes que fazem o papel de um grande motor de desenvolvimento econômico. Então, ele precisa que as coisas sejam mais homogêneas, ele precisa que a natureza seja apenas um cenário”, diz Romário Brito da Silva, de 31 anos, mestre em arquitetura e urbanismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA) que vem estudando as mudanças na paisagem e na vida social das ilhas.
A infraestrutura turística começou a tomar as ilhas em meados da década de 2000 e se intensificou nos anos 2010. Até então, a base da economia local era a produção extrativista agroflorestal. Os ilhéus colhiam palmito de açaí, o próprio açaí, cacau e semente de andiroba, entre outros produtos naturais. “Os moradores tiravam o sustento e o excedente era vendido no mercado urbano. Assim, eles também modificavam a floresta para que pudessem ter uma variedade maior de recursos naturais”, explica Brito da Silva. Essas modificações eram sustentáveis. Propiciavam, por exemplo, uma melhor distribuição das várias espécies de árvores frutíferas. A paisagem permanecia essencialmente a mesma: tudo só floresta.
Com a chegada em massa dos turistas, as coisas foram mudando. Os ilhéus acabaram deslocados de suas antigas moradas: as casas térreas de madeira que antes eram vistas na margem das ilhas cederam espaço a restaurantes de dois e até três andares.
Das quatro ilhas, Combu é a que fica mais próxima da capital paraense, a uma distância de 1,5 km. Com uma área aproximada de 15 km2, também é a mais povoada. Embora seja a única ilha declarada como Área de Proteção Ambiental (APA), é justamente a que mais foi ocupada por instalações turísticas.
Na sua dissertação de mestrado, Brito da Silva analisa a alteração no cenário local, que foi se adequando aos imperativos do comércio turístico. Estruturas arquitetônicas tipicamente amazônidas, construídas com madeira para se adaptar aos relevos planos e alagáveis da região, sofreram “processos de colonização”, como define o urbanista: “A palafita vai sofrendo alteração justamente para se adequar à realidade e ao contexto em que esses lugares se apresentam.” A saída das palafitas das margens das ilhas é parte desse processo. Residências de alvenaria, que não eram parte da cultura local, começaram a se disseminar.
A ocupação indiscriminada das áreas naturais por pousadas, bares e restaurantes constitui uma forma de turismo predatório, que vem apagando a arquitetura local. As casas de comércio ainda são construídas em madeira, mas suas dimensões suntuosas e o aparato tecnológico que elas trouxeram são estranhos à cultura da ilha. Nesse contexto, a promessa do tal refúgio verde é só publicidade. Vende-se ao turista não uma temporada, mas uma “vivência” nas ilhas. “Essa ideia da vivência ganhou forte apelo comercial”, diz Brito da Silva. Ele acredita que a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30) – que acontece em Belém, em novembro – pode ter o efeito paradoxal de reforçar essa forma de turismo, ao trazer milhares de visitantes às áreas com floresta em torno da capital.
Os veículos aquáticos mais utilizados para fazer a travessia de Belém até as ilhas são a lancha e a voadeira (um barco com o casco de alumínio, coberto por lona). Mateus Pinho, de 22 anos, é um dos barqueiros que trabalha no transporte de pessoas e carga do continente para as ilhas, e das ilhas para o continente. Vive com a família na Ilha Grande, que também está tomada por empreendimentos turísticos.
É ilustrativo considerar a mudança geracional entre Mateus e seu avô materno, João Pinho, de 83 anos. “Eu cheguei aqui há mais de cinquenta anos”, diz o homem de estatura baixa e cabelos grisalhos, orgulhoso da vida que construiu na ilha. Nesse meio século, ele se manteve à parte da atividade turística. É um representante do extrativismo da região.
Logo que chegou à Ilha Grande, João Pinho trabalhou como biscateiro. Com o tempo, aprendeu a extrair seu sustento da floresta. Sustentou os três filhos – entre eles, a mãe de Mateus – com a coleta e venda de cacau, açaí e semente de andiroba. Hoje está aposentado e vê com melancolia a degradação ambiental do lugar que o acolheu e alimentou.
João Pinho lamenta sobretudo o acúmulo de lixo que o comércio trouxe à ilha. Ele acredita que a poluição local e as mudanças do clima estão prejudicando o extrativismo. “Aquela produção de açaí que dava nos anos anteriores está diminuindo”, diz. “Quando me encontro com os veteranos, a gente fica conversando. Então a gente culpa algumas coisas, como esse lixo de hoje…” João Pinho é um dos poucos na ilha que ainda resiste à investida descontrolada do turismo predatório. Vive em uma casa de madeira – uma palafita amazônida.
