CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
O sueterzinho
A dor profunda de perder um cashmere
Rogério Gentile | Edição 227, Agosto 2025
O empresário fluminense Ricardo Faria, de 50 anos, é conhecido como o Rei do Ovo. Ele construiu uma fortuna de 17,4 bilhões (segundo a Forbes) e hoje exporta ovos férteis para dezessete países por meio da empresa Granja Faria. Até pouco tempo, levava uma vida discreta. Em junho, gerou uma pequena tormenta ao dizer à Folha de S.Paulo que as pessoas não querem trabalhar porque estão “viciadas no Bolsa Família”.
Mas as preocupações de Faria não se limitavam aos pobres no Brasil. Desde junho de 2023, ele enfrentava um aperto pessoal: uma lavanderia encolhera seu suéter de cashmere da marca italiana Loro Piana – a tal ponto que a peça já não lhe cobria nem o umbigo.
Diante do desastre, Faria não pensou pequeno: entrou na Justiça contra a lavanderia 5àsec em Alphaville, na Grande São Paulo. Na ação, disse ter comprado a peça em Nova York por 2 373,48 dólares (13 mil reais, na sua conversão), pediu ressarcimento e um valor “não inferior a 5 mil reais” por “dano moral” – traduzido no processo como “a dor, a mágoa, a tristeza infligida injustamente a outrem com reflexo. perante a sociedade”. Quatro fotos foram anexadas ao processo. Mostram Faria com o suéter verde-claro, tão curto e tão apertado que parece ter sido emprestado de um boneco.
Era a comprovação material da dor e da mágoa. A peça é feita com a lã de cabras da Mongólia e um dia colocou Faria alinhado com o estilo quiet luxury (roupas que, segundo a Vogue Brasil, “sussurram um luxo mais secreto”). A Loro Piana é uma das grifes associadas a esse estilo, embora sua fama tenha sido arranhada por denúncias de abuso contra trabalhadores na sua cadeia produtiva.
Em meio à polêmica, uma funcionária de Faria avisou a uma atendente da 5àsec: “Só vou te pedir que, quando for se referir à peça, falar cashmere […]. Ele [Faria] frisou fortemente que não se trata de malha.” Como não havia nota fiscal, a lavanderia classificou o preço do suéter de “surreal”. Disse não haver provas de que a peça tenha sido danificada na lavanderia e que o cliente não a cedeu para uma perícia. “Infelizmente, o mundo não gira em torno do umbigo do requerente”, concluiu. Mesmo que o umbigo esteja à mostra, diga-se.
Em 18 de junho de 2025, a juíza Fabiana Tsuchiya mandou a lavanderia pagar o valor da peça (na época, 11 867,40 reais), mas rejeitou a indenização por dano moral. “Não vislumbro a dor ou forte abalo psíquico”, disse ela, que classificou o ocorrido como “mero aborrecimento”. A lavanderia pediu para parcelar: 30% na entrada e o restante em seis meses. A magistrada concordou. À piauí, a 5àsec ressaltou que o empresário continua seu freguês.
Quatro dias depois da sentença, o site Metrópoles revelou que Faria, apesar de sua crítica feroz aos “viciados” em Bolsa Família, fez 71 pedidos de financiamento público no BNDES, no total de 132 milhões de reais. Dá quase 200 mil bolsas-família. Ou 964 bolsas Loro Piana, em couro de jacaré. Que não encolhe
