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    FOTO: MINNESOTA HISTORICAL SOCIETY_CORBIS_GETTY IMAGES

poesia

O último turno

O poeta que fez de Detroit e dos operários da indústria automobilística um tema maior da lírica norte-americana

Philip Levine | Edição 145, Outubro 2018

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Tradução de Caetano Galindo

Descendente de judeus russos, o poeta Philip Levine nasceu em 1928, em Detroit, a capital mundial da indústria automobilística, apelidada de “Motor City” ou “Motown”. Vinte anos antes, ali havia sido lançado o Ford Model T, que popularizou o automóvel entre os norte-americanos e cuja fabricação, segundo os princípios do fordismo, revolucionou a organização do trabalho. Um ano depois do nascimento de Levine, a quebra da Bolsa de Nova York deu início a uma prolongada depressão econômica nos Estados Unidos.

​Seu pai morreu quando ele tinha 5 anos. Adolescente, se empregou numa fábrica de carros e começou a escrever poemas. Trabalhou para a Cadillac e a General Motors, entre outras indústrias, antes de se formar, em 1950, na Universidade Wayne, onde também obteve o mestrado em inglês, com um trabalho sobre o poeta John Keats. Seguiu carreira como professor de literatura e escrita criativa na Universidade Estadual da Califórnia e foi professor visitante em várias universidades, entre elas Princeton, Columbia e Brown. Morreu em Freso, Califórnia, em 2015, aos 87 anos.

 

Philip Levine publicou seu primeiro livro de poemas, On the Edge, tardiamente, quando tinha 35 anos. Gostava de jazz e de boxe, esporte que praticou na juventude. Era fascinado pela Guerra Civil Espanhola e pelos poetas republicanos, como García Lorca e Ferrer Guardia. Em 1995, recebeu o prêmio Pulitzer pela coletânea The Simple Truth. Foi duas vezes vencedor do National Book Awards na categoria poesia: em 1980 por Ashes: Poems New and Old, e em 1991, por What Work Is.

Um ano após a sua morte, foi publicada a coletânea de poemas inéditos The Last Shift [O Último Turno], cuja edição Levine deixou aos cuidados de seu amigo e poeta Edward Hirsch. Foi desse livro que a piauí extraiu os poemas apresentados a seguir, em tradução de Caetano Galindo. “Levine é o poeta do turno da noite, um Whitman tardio de nosso coração industrial”, escreve Hirsch no prólogo do livro. Ele ressalta que, ao fazer de Detroit um tema central, a poesia de Levine ganhou “qualidade quase lendária, agora que tudo se foi – as fábricas, as máquinas, os trabalhadores noturnos”.

“Muito de nossa poesia recente parece totalmente desprovida de povo”, comentou Levine em entrevista à Paris Review em 1988. “Exceto quem fala, não há mais ninguém nela.” Nenhum de seus livros foi publicado no Brasil.

 

 

1934

Podem te dizer que à noite em cidades

como Detroit cães selvagens ocupavam

 

as ruas. Eu vivi lá. Jamais aconteceu.

Na Europa antes da Grande Guerra,

nós éramos mascates, açougueiros,

depois os massacres conduziram a família

à Inglaterra, ao Canadá, e então pra cá.

O irmão do meu pai consertou sapatos

por um tempo na Brush Street; aprendeu

a profissão com o pai lá em Kiev.

Do lado da mãe, ferro-velho. Os homens

eram imensos, peito largo, braços longos

e imensas mãos com cicatrizes. Meu tio

Leo conseguia abarcar um barril de sucata,

soltar sua imensa risada e erguer

só por graça. Sua esposa, Rebecca,

cultivava a cabeleira dura emaranhada

e portava as mãos como martelos.

Nos domingos do fim do verão a gente ia

de carro até o campo e colhia braçadas

de milho doce, fervia com açúcar

e comia e comia até não poder mais.

Você acredita que eles deixariam

cães pegarem o que era seu, atravessariam

um oceano, um continente para deixar

alguém ou algo dar as ordens?

À noite os mesmos homens bebiam

na calçada. Os vizinhos diziam

que eles uivavam para a Lua. Outra mentira.

Às vezes contavam histórias da vida

na Rússia, que eu levava quase a sério,

de mágicas fugas e mortes por vingança,

das ucranianas lindas que tiveram.

Uma vez destruíram o gramado lutando, até

Leo triunfar, Leo com seu terno de colete,

cinza e manchado de suor. Meu tio Josef

era diferente; alto e esguio, tinha

entrado na família depois de casar

aqui em Michigan. Sujeito pensativo e gentil,

quando vira-latas surgiam nos fundos

da sapataria ele deixava entrar, até

dava comida. Os donos, ele me disse,

mal tinham dinheiro pra comer.

O tio Josef pegava um par surrado

de sapatos de trabalho e arrancava

a sola com uma faca curva e aí,

tirando um prego da boca por vez,

martelava uma nova. Ele soltava

o taco e fazia igual. Eu era criancinha,

no máximo sete, e não cansava de ver

como ao ser lustrado o couro

ganhava cor e se punha a brilhar.

Uma vez ele fez uma faca pra mim, com

bainha e tudo, de pendurar

no cinto. O cabo preto também

era couro, de uma bota que ninguém

veio buscar. Ele martelou e deu formato

até ficar como pedra. Quando você ficar

com medo, ele me disse, só esfregue o cabo

três vezes que nada ruim pode acontecer.

 

 

1934

You might hear that after dark in towns

like Detroit packs of wild dogs took over

the streets. I was there. It never happened.

In the old country before the Great War,

my people were merchants and butchers,

and then the killings drove the family

first to England, then Canada, then here.

My father’s brother had a shoe repair shop

for a time on Brush Street; he’d learned

the trade from his father back in Kiev.

My mother’s family was in junk. The men

were huge, thick-chested, with long arms

and great scarred hands. My uncle Leo

could embrace a barrel of scrap metal,

laugh out his huge laugh, and lift it up

just for the joy. His wife, Rebecca,

let her hair grow out in great wiry tangles

and carried her little fists like hammers.

Late summer Sundays we’d drive out

to the country and pick armloads

of sweet corn, boil them in sugar,

and eat and eat until we couldn’t.

Can you believe those people would let

dogs take what was theirs, would cross

an ocean and a continent to let

anyone or anything dictate?

After dark these same men would drink

out on the front steps. The neighbors claimed

they howled at the moon. Another lie.

Sometimes they told stories of life

back in Russia, stories I half-believed,

of magic escapes and revenge killings,

of the gorgeous Ukrainian girls they had.

One night they tore up the lawn wrestling, until

Leo triumphed, Leo in his vested suit,

gray and sweat stained. My uncle Josef

was different; tall and slender, he’d

come into the family through marriage

here in Michigan. A pensive, gentle man,

when stray dogs came to the back door

of the shoe shop he’d let them in, even

feed them. Their owners, he told me,

barely had enough to feed themselves.

Uncle Josef would take a battered pair

of work shoes and cut the soles off

with a hooked cobbler’s knife and then,

drawing one nail at a time from his mouth,

pound on a new sole. He’d pry off

the heel and do the same. I was just a kid,

seven at most, and never tired of watching

how at the polishing wheel the leather

took on its color and began to glow.

Once he made a knife for me, complete

with a little scabbard that looped

around my belt. The black handle, too,

was leather, taken from a boot no one

reclaimed. He pounded and shaped it

until it felt like stone. Whenever you’re

scared, he told me, just rub the handle

three times and nothing bad can happen.

FOTO: AP PHOTO_GLOW IMAGES

 

FOLHAS

A estampagem da GM

tomada por clãs

de ratos gigantes tão hábeis

na busca da vida

que devoravam complexas

peças que se pensava

serem indigeríveis. Cinco noites

por semana você morou lá –

isso foi em 46 –; e quando

surgia uma mola

esperada nada se alterava.

Do céu você veria

fileiras e fileiras

de carros adormecidos

para a noite, podia

ter imaginado árvores

crescendo em vez deles,

olmos – milhares de olmos –

folhas grudentas brotando

como um dia brotaram

diante da janela do quarto.

Podia ter evocado

clara rosa trepadeira que

juntasse pó, vidro,

fumaça de escapamento,

as manchas da neve escorrida,

para tornar no sangue

da ponta do espinho, pois o espinho

também tem que viver. Não tão longe

você se disse, podia

ouvir a música da eternidade.

Devia ser a sua própria

respiração, novata no trabalho,

se não isso o constante

subir e descer das prensas,

mais firmes que as batidas

do seu coração. As prensas,

também, tinham suas ordens,

de reformar sucata de brinquedos,

fogões abandonados, amarelos

ônibus escolares, exércitos de pás

e de enxadas, com cabos

manchados das vidas dos nossos pais.

Aquele mundo prensado em

folhas iguais mas separadas

de aço, chamadas de molas,

impulso para gerações

de carros e caminhões gm ainda

nem sonhados. A fábrica

acabou, as máquinas lá dentro,

os operários noturnos, você, eu,

até os ratos. Sobraram somente

essas poucas palavras não lidas

sem ritmo e sem fôlego

sumindo diante dos seus olhos.

 

LEAVES

The Chevy stamping plant

commandeered by clans

of enormous rats so skilled

in their pursuit of life

they devoured intricate

machine parts believed

inedible. Five nights

a week you lived there–

this was in ’46–; and when

a long awaited spring

arrived nothing changed.

From heaven you could have

looked down on rows

of parked Chevys dozing

toward afternoon, you could

have imagined trees

growing in their stead,

elms – thousands of them –

 

their sticky leaves budding

out as they once did outside

the bedroom window.

You could have conjured

a pale climbing rose that

gathered dust, glass,

automobile exhaust,

the stains of melted snow,

to transform into blood-

tipped thorns, for thorns

too need to live. Not far off,

you told yourself, you could

hear the music of eternity.

More likely it was your own

breathing, new to the job,

or if not then the constant

rise and descent of the presses,

steadier than the beating

of your heart. The presses,

too, had their assignments,

to reform scraps of old toys,

abandoned stoves, yellow

school buses, armies of picks

and shovels, their handles

stained with our fathers’ lives.

That world stamped into

separate but equal steel

leaves we called springs,

springs for the generations

of Chevy cars and trucks not

yet dreamed of. The factory

is gone, the machines with it,

the night workers, you, me,

even the rats. All that’s left

are these few unread words

without rhythm or breath

fading before your eyes.

 

HISTÓRIA

Numa fotografia antiga, você me encontra num piquete na frente da Breslin Encanamento e Chapeamento. Primavera, 12 de abril de 1951, lilases floridos no canteiro central da Outer Drive. Quando escurecer eu vou cortar um galhinho pra minha mãe. Ela adora tanto a cor quanto o aroma. Ainda mora na única casa que teve. A casa, os lilases, o perfume das flores, a alegria e a tristeza dela quando as põe no vaso de vidro lapidado que meu pai lhe deu um ano antes de morrer, nada disso está na foto que saiu no Detroit Free Press e acabou colada num álbum perdido dela. Aquela foto é parte da história. Está guardada em microfilme no arquivo de Trabalhismo & Cidade da Wayne State e neste momento deve estar virando pó, entregando seus fatos & facetas.

 

HISTORY

In an old photograph, you can find me picketing outside Breslin’s Plumbing & Plating. Spring, April 12, 1951, lilacs are in bloom on the divider strip of the Outer Drive. After dark I’ll cut a small branch to give my mother. She loves both the color and the bouquet. She still lives in the only house she ever owned. The house, the lilac bushes, the perfume of the blooms, her joy and sadness as she places them in a cut-glass vase my father gave her the year before he died, none of this is in the photograph taken from the Detroit Free Press and pasted in her lost scrapbook. That photograph is part of history. It’s filed on microfilm in the archives of Labor & Urban Affairs at Wayne State and even now must be turning into dust, giving up its facts & its faces.

 

LINHA DE MONTAGEM

As várias santas partes

do corpo são trazidas

numa esteira toda azul

sem fim. E tudo antes

da montagem. Pulmões,

o fígado, os rins

(curioso como lembram

feijões), o céu da boca,

a nuca, seguida

por pescoço, cotovelos

sem braços, saco sem

testículos. Seria possível

ir descrevendo até entrar

nas trevas que se ocultam

no peito, mas você já

entendeu e, caso não,

vai acabar entendendo. Lembre

que aos dezoito, meu irmão, na

Cadillac, ninguém

sabia em que fazíamos

furos nem por quê, fora

claro os 2,85 dólares

por hora. Isso foi depois

da guerra quando a grana era

a resposta, e a vida era

inocente ou foi o que se disse

anos depois… Os olhos,

canelas gêmeas, talas

pras canelas, as unhas

pros dedos, os dedos

pras unhas, o estame

pra rosa, os espinhos,

botões tão enroscados

que restam totalmente cegos.

 

ASSEMBLY

The various holy parts

of the body are presented

on a blue conveyor belt

without end. All this before

assembly. The lungs,

the liver, the kidneys

(surprisingly shaped like

beans), the roof of the mouth,

the nape, followed

by the neck, the elbows

without arms, the sac without

the testicles. One could

go on naming and naming

into the darkness hiding

in the heart, but you get

the point or if you don’t

you will in time. Remember

at eighteen, brother, at Cadillac

Transmission how no one

knew what we were drilling

holes into or why except

of course for $2.85

an hour. That was after

the war when money answered

everything, and the life was

innocent or so we said

years later… The eyeballs,

the twin shins, the splints

for the shins, the nails

for the toes, the toes

for their nails, the stamen

for the rose, the thorns,

the buds curled so tightly

they can see absolutely nothing.

 

EU CASEI NO ANIVERSÁRIO DE CINQUENTA ANOS DE PABLO NERUDA

Nenhum de nós sabia como seria

crucial aquele dia na história

da poesia. Ele estava num bistrô

parisiense bebericando um Moulin-à-Vent

com sua amante, esperando que o chef

– um catalão que acompanhava desde 39 –

não decepcionasse com as mongetes amb

botifarra que ele esperou o dia todo,

 

enquanto eu estava no fórum de Boone,

Carolina do Norte, olhando um cartaz

com três acidentes de carro e uma palavra só,

“Pense!” num vermelho vivo. O juiz

que tinha me dito, “aceitas o enlace?”

– ao me ver desorientado – salvou a pátria:

“Só diga que sim, rapaz, aí a gente pode

fazer o que você está esperando.”

 

I WAS MARRIED ON THE FIFTIETH BIRTHDAY OF PABLO NERUDA

Neither of us knew how crucial a day

it would become in the history

of poetry. He was in a Paris

bistro sipping a chilled Moulin-à-Vent

with his mistress, waiting for the chef

– a Catalan he’d favored since ’39 –

to deliver on the promised mongetes amb

botifarra he’d yearned for all that lean day,

 

while I was in a courthouse in Boone,

North Carolina, staring at a poster

of three auto wrecks and the one word,

“Think!” in blazing red. The circuit judge

who’d just asked me, “Do you plight your troth?”

– seeing my befuddlement – saved the day:

“Just say yes, young fellow, and we can all

move on to what you been waiting for.”

FOTO: ALFRED T. PALMER_BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

 

O ANJO BERNARD

Fileira cinza de cabanas de metal

transidas sob a chuva.

Do outro lado o fogo arde

noite e dia por mais que invisível

sob a luz do sol. Bernard desperta

com o cheiro de leite quente

e café queimado. Depois diremos

que tinha o porte de um anjo

de olhos límpidos, testa larga,

grossos cachos de ouro. Sua mãe,

de volta do turno da noite,

prepara seu dia, ele então levanta

pra se pôr de pé no linóleo frio.

Ford Rouge, onde ela trabalha,

segue ardendo e batendo,

mas eles não percebem. É a vida.

Bobagem, você diz, como pode a vida

de um anjo incluir uma fábrica Ford

onde sob tortura a vida nova

vira coisas? Você viu a menina Maria

de vestido rosa, tímida, encurvada

diante de esplêndido Gabriel, pálidas

asas fechadas, isso numa igreja

vazia de Gênova, pintura manchada

mas cena inesquecível: Era

um anjo imerso em sua própria luz,

trazendo o dom de um Deus, presença

de outro mundo. Quando Bernard

se curva pra molhar o pão no café

a mãe pousa a mão

em sua nuca nua como se soubesse

que ele vai morrer daqui a onze anos

nas chamas de um acidente na us 24

a caminho de Dayton e deixar seus filhos

pra trás. Neste mundo o real

ocorre. Em novembro a chuva

corre rumo ao céu em jorros gélidos,

o fogo arde invisível, as casas

se acercam, separadas, assustadas.

 

 

THE ANGEL BERNARD

A gray row of corrugated huts

hunkering down in rain.

Across the way the fire burns

night and day though unseen

in sunlight. Bernard wakens

to the aroma of warming milk

and burned coffee. Later we’ll say

he had the bearing of an angel

with clear eyes, a wide brow,

thick golden curls. His mother,

home from the night shift,

prepares his day, so he rises

to stand on the cold linoleum.

Ford Rouge, where she works,

goes on burning and banging,

but neither notices. It’s their life.

Nonsense, you say, how can the life

of an angel include a Ford plant

where new life is tortured

into things? You saw the girl Mary

in a rose gown shyly bowing

before a dazzling Gabriel, his pale

wings furled, this in an empty

church in Genoa, the painting stained

but the scene unforgettable: That

was an angel bathed in his own light,

bearing the gift of a God, a presence

from another world. When Bernard

bows to dip bread in his coffee

his mother lays one hand down

on his bare nape as though she knows

he will die eleven years from now

in a fiery crash on US 24 on his way

to Dayton and thus leave his sons

behind. In this world the actual

occurs. In November the rain

streams skyward in cold sheets,

the fires burn unseen, the houses

bear down, separate and scared.

 

FOTO: BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO_CORBIS_VCG_GETTY IMAGES

 

UMA DÚZIA DE CANÇÕES DA AURORA, MAIS UMA

Primeiro as janelas cinzam, depois

pretas uma vez mais, mas o cinza

já vem. Williams se ilumina

e diz, “Já vem”, mas

eu não ouço por causa dos guin-

dastes. Não olho pro alto

porque não é o sol

que irrompe ao leste sobre

as montanhas e nem nuvens

de chuva pra esfriar nossa

febre nem cabos telefônicos

carregados de más novas. Lá no alto

o teto de aço chato, da meia-noite até agora.

 

*

 

8 horas e a gente bate o ponto

e deixa virem os melhores

do turno do dia, os que acham

que vão se divertir. Ainda é segunda

três mil quilômetros e cinquenta anos

depois e atrás de mim eu sempre

escuto as máquinas da gm

triturarem operários do turno

da noite como antiguidades.

 

*

 

Brisa morna de

lugar nenhum e até os ratos

farejam os primeiros perfumes do

que virá, despertos, e escorregam

invisíveis rumo ao ar mais acima

pra desafiar o mundo. Ceda

nada e nunca, seu lema,

se é que eles têm. Devem ser

sindicalizados.

 

*

 

O rio trabalha.

Ninguém aciona, ninguém

grita “Pronto! Vai!”, ninguém

redige um documento, ele só corre

ao seu bel prazer por toda

a sua via marrom-azul rumo a cinco

lagos queimados, sete mares.

 

*

 

Esperamos,

corujas do turno da noite, bafejando

nosso alento gasto no ar puro

de 1951. Um sol fraco que não

vale o esforço se ergue por detrás

das grandes chaminés de tijolos

da cervejaria. A guerra está

em tudo, mas não vamos porque

o bonde não chega.

 

*

 

 

Se tivesse

uma Via Láctea eu dividia

com os pardais que ciscam

entre as manchas de mijo

na neve, se eu fosse sério, firme

e tivesse asas ciscaria

entre as manchas de mijo

na neve, com os pardais.

 

*

 

Rotos

bandos lotam os ramos mais altos

dos olmos apenas pra deixar

seus ninhos e rodar

pelo céu que esfregaram,

limparam, indo e vindo, indo

e vindo esfregam até que

não restam nuvens nem sinais divinos.

Deve ser algum tremor que apenas eles

sentem, ranço de águia ou sinal

de humanos traiçoeiros.

 

*

 

Três falsas

laranjas não fazem pomar

mas servem por ora. A luz venta

vinda de Ontário por todo

lado, quente e fria,

até que o dono do terreno

(também dono do pomar)

chuta as cobertas e clama por

sono e por sonhos com ela, aquela

que jamais conhecerá.

 

*

 

Metade de nós são mulheres.

Imagine só! Mulheres,

mulheres sozinhas saindo de

camas de solteiro feitas pra dormir,

mulheres aos pares, com homens,

querendo se ver livres de nós,

os homens que conheceram ontem

ou no século passado. “Me dê

liberdade ou me dê liberdade”,

é o seu hino, e é sério.

 

*

 

Um dois

três quatro segundos e Harvey

berra de novo pra Mona tirar

a bunda gorda da poltrona. Ela

não sabe que é segunda, dia útil?

O fim de semana – o último,

aquele – acabou faz tempo e Harvey

precisa do café e da

aveia e da marmita preparada

agora, agora mesmo.

 

*

 

Um dois três

quatro as botas pretas raladas

descendo a escada. “Será que aquela vaca

faz alguma coisa certo?” Pancada

da porta ao sair, enquanto em cima

a chaleira sirena a resposta…

Então silêncio, o silêncio real

de vidas públicas em locais privados.

6h30, cidade dos sonhos.

 

*

 

Havia música. Não

o som banal dos astros cegos

rodando invisíveis nem o jazz rangido

que os bondes cravavam

nas avenidas nem os hinos

mais fodas das ondas do rádio –

de John Lee, Baby Boy

e Big Maceo –, nem mesmo

o som dos imortais,

Bird, Diz, Pres, música de osso

e de peito, alento, música

jamais ouvida antes. Nem depois.

 

*

 

Rumo oeste,

por Toledo, passando Flat Rock

rumo norte. A placa sumiu. O Chevy

39 quatro portas do Leo

fazendo sua coreografia: um deslize,

uma parada, um deslize no

gelo duro que o demônio entregou

com dois pneus carecas e dois bons

recauchutados. A placa sumiu, aquela

que dizia “Paraíso à Frente” (ou era

Wyandotte?). Sol nascendo atrás de nós,

a noite de ontem desfeita na salmoura

da luz. Indo pra casa uma última

vez, isso mesmo!

 

*

 

Ah

ser jovem, forte e bobo

de novo em Michigan!

 

 

A DOZEN DAWN SONGS, PLUS ONE

First the windows gray, then

go black again, but gray is

on the way. Williams lights up

and says, “It’s on the way”, but

I can’t hear him over the over-

head cranes. I don’t look up

because up is not sunlight

breaking above the eastern

hills or even rain clouds

meant to cool our fevers or

telephone wires clogged with

bad news. Up is the flat steel

ceiling from midnight till now.

 

*

 

8 a.m. and we punch out

and leave the place to our betters,

the day-shift jokers who think

they’re in for fun. It’s still Monday

2,000 miles and fifty years

later and at my back I always

hear Chevy Gear & Axle

grinding the night-shift workers

into antiquity.

 

*

 

A warm breeze from

nowhere and even the rats scent

the first perfumes of what’s

to come, waken, and slide

invisibly into the upper air

to contest the world. Surrender

nothing and never, their motto,

if they have one. They must be

unionized.

 

*

 

The river works.

No one flips a switch, no one

shouts “Ready! Set! Go!” no one

writes a memo, it just runs

at its own sweet will its whole

blue-brown length toward five burned

lakes and seven seas.

 

*

 

We wait,

the night-shift owls, puffing out

our spent breath into the pure air

of 1951. A weak sun not

worth fighting for rises

behind the great brick stacks

of the brewery. War is

everywhere but we don’t go because

the streetcar won’t come.

 

*

If I had

a Milky Way I’d share it

with the sparrows picking

about the piss-speckled

snow, if I were reliable and hardy

and had wings I’d pick

about the piss-speckled snow

with the sparrows.

 

*

 

Ragged

flights swarm the upper branches

of the elms only to abandon

their roosts and wheel

across the sky they’ve wiped

clean, back and forth, back

and forth they wipe until

no clouds or divine signs are left.

Must be some tremor only they

can feel or hawk stink or hint

of human treachery.

 

*

 

Three mock

oranges do not an orchard make

but will do for now. Light blows

in from Ontario every

which way, hot and cold,

until the owner of the vacant lot

(who also owns the orchard)

kicks off the covers and calls for

sleep and dreams of her, the one

he’ll never know.

 

*

 

Half of us are

women. Think of that! Women,

women alone rising from

single beds meant for sleeping,

women in pairs, women with men

yearning to be free of us,

the men they met last night

or last century. “Give me

liberty or give me liberty”,

their anthem, and they mean it.

 

*

 

One two three

four seconds and Harvey

yells again for Mona to get

her fat ass up. Don’t she

know it’s Monday workday.

The weekend – the last one, the

one – is long gone and Harvey’s

got to have his coffee and his

oatmeal and his lunch box packed

just right, right now.

 

*

 

One two three

four the scuffed black boots down

the stairs. “Does the bitch ever get

anything right?” Slam goes

the outside door, while upstairs

the teakettle sirens its answer…

Then quiet, the actual quiet

of public lives in private places.

6:30 a.m., the city of dreams.

 

*

 

There was music. Not

the trite tunes of the blind stars

circling unseen or the gnashed jazz

the trolleys carved

into the avenues or the bad-assed

anthems of the airwaves –

of John Lee, Baby Boy

and Big Maceo –, not even

the music of the immortals,

Bird, Diz, Pres, music of bone

and breast, and breath, music

never heard before. Or again.

 

*

 

West

through Toledo, on past Flat Rock

going north. The sign is gone. Leo’s

prewar ’39 Chevy four-door

doing its dance routine: a little slide,

a little hold, a little slide on

black ice the devil delivered along

with two bald tires and two good

retreads. The sign’s gone, the one

that said “Heaven Ahead” (or was it

Wyandotte?). Sunup behind us,

last night dissolving in the brine

of light. Coming home one

last time, yes we are!

 

*

 

Oh

to be young and strong and dumb

again in Michigan!

 

 

VÁ COM DEUS

I

Sobre a vida eu não posso falar. Em vez disso,

meio cego, ando pelos bosques enquanto

um vento oeste cresce nas árvores

amontoadas mais acima. Os pinheiros fazem

uma música sem igual, que sobe e

desce como um mar distante à noite

que acalma as trevas antes

da primeira luz. Como falta peso

às palavras quando nada resolve.

 

II

Houve tempo de caracóis, de cancros, lesmas verdes,

marmotas nunca vi, depois um breve outono

sem colheita, e as vinhas marrons que eu tentava

queimar com as folhas do ano. Passa uma vida

no piscar de um olho. Você olha pra trás e pensa,

era o paraíso, então claro que tinha que acabar.

 

III

A pomba cinza na soleira

ainda chora os ovos

partidos de ontem. Mas agora a primeira

britadeira estilhaça

a aurora com seu cântico

de progresso. O caminhão de lixo e

o varredor de rua se revezam.

E as aves do céu e os animais

do campo? Engolem seus sapos

hoje e todo dia, palavra da televisão.

 

FOTO: CORBIS_GETTY IMAGES

 

GODSPELL

I

About life I can say nothing. Instead,

half-blind, I wander the woods while

a west wind picks up in the trees

clustered above. The pines make

a music like no other, rising and

falling like a distant surf at night

that calms the darkness before

first light. How weightless

words are when nothing will do.

 

II

There was a season of snails, cankers, green slugs,

gophers I never saw, and then a short autumn

without a harvest, and the brown vines I tried

to burn with that year’s leaves. A lifetime passes

in the blink of an eye. You look back and think,

That was heaven, so of course it had to end.

 

III

The gray dove on my windowsill

is still moaning over yesterday’s

smashed eggs. But now the first

jackhammer breaks down

the dawn with its canticle

of progress. The garbage truck,

the street sweeper take their turns.

And the birds of the air and the beasts

of the field? They take their lumps

today and everyday, saith the TV.

 

 

O TURNO FINAL

Eu estava indo trabalhar como sempre

quando o trânsito engarrafou a meio quilômetro

do cruzamento dos trilhos no Grand Boulevard.

Aí vi a lua nascer sobre

as instalações da velha fábrica da Packard.

A lua às 7h30 da manhã.

E o rádio foi tocando

os mesmos violinos, mesmas vozes que eu não

ouvia toda manhã. Lá no beco

os caras com sujas jaquetas de lã preta

se aqueciam junto a uma fogueirinha

de paus de cerca e portas de garagem

e jogavam garrafas de vinho vazias

na rua onde estilhaçavam

nas capotas geladas dos carros e pulverizavam

como gelo. Uma viatura dormia

do outro lado da rua, motor ligado.

Dava pra ver os dois comendo

donuts com a delicadeza de duas

velhotas e bebendo seu café

em copinhos de isopor. Logo os meninos

iam descer dessas casas sem luz,

com luvas, cachecóis, indo pra escola

com lancheiras, sanduíches e biscoitos.

Iam escorregar no gelo e roubar

os gorros bobos dos outros e rir

enquanto podiam, a respiração

abrindo caminho no ar da manhã

em pequenos clarins de vapor. Fiquei

pensando se alguém sairia da casa

sem cara, dois andares, ao meu lado, com todos

os cômodos dilacerados à mostra, sem conexões

e encanamento, sem mobília,

piso arrancado e transformado em lenha.

À frente dava pra ouvir que

o trem tinha parado, sinos ainda tocando

por um minuto, os braços piscantes de luz

indo do rubro ao nada. À minha volta

os motores começaram a morrer, e então

também o meu. Ficou estranhamente calmo,

outra cidade, ou quem sabe outro mundo.

Dava pra sentir um frio profundo vindo lento

pelas pernas, que não se mexiam, meus olhos

começaram a coçar e a piscar num escuro

que eu nunca tinha visto. Eu sabia

que aqueles minúsculos quadros luzidios – capota,

meu velocímetro, o volante,

o para-brisas embaçando – eram os últimos

que veria na vida. Aqueles lugares onde tinha vivido

todos os meus dias perdiam agora

o domínio sobre mim e já não era sem tempo.

FOTO: FOX PHOTOS_GETTY IMAGES

 

THE LAST SHIFT

I had been on my way to work as usual

when the traffic stalled a quarter mile

from the railroad crossing on Grand Blvd.

Then I saw the moon rise above

the packing sheds of the old Packard plant.

The moon at 7:30 in the morning.

And the radio went on playing

the same violins and voices I didn’t

listen to each morning. Back in the alley

the guys in greasy, dark wool jackets

were keeping warm by a little fire

made from fence posts and garage doors

and tossing their empty wine bottles

into the street where they shattered

on the frosted roofs of cars and scattered

like chunks of ice. A police car dozed

across the street, its motor running.

I could see the two of them eating

sugar doughnuts as delicately as two

elderly women and drinking their coffee

from little Styrofoam cups. Soon the kids

would descend from these lightless houses,

gloved and scarved, on their way to school

with tin boxes of sandwiches and cookies.

They would slide on the ice and steal

each other’s foolish hats and laugh

while they still could, their breath

pushing out into the morning air

in little trumpets of steam. I wondered

if anyone would step from the faceless

two-storied house beside me, all of its

rooms torn into view, its connections

and tubing gone, the furniture gone,

the floors ripped up for firewood.

Up ahead I could hear that the train

had stopped, the bells went on ringing

for a minute, the blinking arms of light

went from red to nothing. Around me

the engines began to die, and then

my own went. It was strangely quiet,

another town or maybe another world.

I could feel a deep cold slowly climbing

my legs, which wouldn’t move, my eyes

began to itch and blink on a darkness

I had never seen before. I knew

these tiny glazed pictures – a car hood,

my own speedometer, the steering wheel,

the windshield fogging over – were the last

I’d ever see. These places where I had lived

all the days of my life were giving up

their hold on me and not a moment too soon.

 


Poemas do livro The Last Shift, de Philip Levine. Copyright
©2016_Propriedade de Philip Levine. A tradução tem permissão do selo Alfred A. Knopf, integrante do Grupo Knopf Doubleday, uma divisão da Penguim Random House, LLC. Todos os direitos reservados.

Tradução: Caetano Galindo

Philip Levine

Philip Levine foi um poeta norte-americano. Os poemas integram o livro The Last Shift, da editora Knopf, inédito no Brasil

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