ficção

OS MESMOS PÉS

Havia um mundo inteiro em caracteres chineses para desbravar
Imagem Os mesmos pés

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Passar o dia com a cabeça enfiada no travesseiro, os braços abertos, ignorando a camareira que teima em tocar a campainha para limpar o quarto. Virar de barriga para cima a cada meia hora, memorizando todas as fissuras do teto e erguendo a cabeça de vez em quando para assoar o nariz. Nem se importar de checar o relógio para ver que horas são. Lembrar daquela vez em que fui demitida por telefone ou de quando caí no colo de um desconhecido no ônibus, uns cinco anos atrás; fechar os olhos e sentir a barriga roncando porque já são provavelmente duas da tarde. Sofrer teatralmente sem hora para terminar, envolta nos lençóis acetinados de uma cama king-size.

Queria ir ao banheiro, mas a ideia de ter de me levantar da cama, caminhar, lavar o rosto, escovar os dentes e usar o telefone para pedir serviço de quarto era sufocante. Não havia a possibilidade de que um dia conseguiria fazer tudo isso. Teria de tirar o pijama e me vestir para abrir a porta ao funcionário do hotel, que iria perceber o meu rosto vermelho e inchado. Teria de interagir, aparentar normalidade e pesquisar de novo sobre a política local de gorjetas.

Eu poderia muito bem passar toda a sexta-feira naquele quarto pensando em coisas péssimas, coisas ruins e em coisas boas de repente transformadas em coisas péssimas (exemplo: “Ela elogiou o meu último curta e disse que eu tinha evoluído muito, o que significa que achou todos os anteriores medíocres”). Ou em coisas que simplesmente não existiam (“tenho certeza de que os meus gatos não gostam de mim”). Era fácil girar a roda da ansiedade com toda a força e ver o que o destino me reservaria para aquele dia: preocupações com o peso, com o desânimo, com a falta de dinheiro, com a correta utilização das preposições de tempo, com uma dor de dente, com a viagem de volta, preocupações com estar preocupada. E no meio de tudo isso lembrar que todos nós vamos morrer.

Meu curta-metragem havia sido selecionado para o Festival Internacional de Hong Kong e fora exibido pela primeira vez na quarta-feira à tarde, no Cine Moko, com outros cinco filmes. Na semana seguinte entraria em exibição no Hong Kong Arts Centre, à noite. Havia eventos para frequentar e outros 150 filmes para assistir, incluindo uma elegia a um vira-lata branco de pelo curto com manchas pretas no rosto, o que eu facilmente classificaria como imperdível, além de vários debates e coquetéis. Me deram um chip local de celular e às vezes o telefone tocava, mas eu nunca atendia. Só o que eu tinha forças para fazer era ficar dormindo até muito tarde, comer qualquer coisa do frigobar, depois passar mais algumas horas abraçada a um daqueles dezesseis travesseiros. Em certas noites eu conseguia ler um pouco.

Se era um dia menos ruim, eu saía à tarde para deixar a camareira limpar o quarto. Me aventurava por uma ou duas ruas a partir do hotel e isso às vezes me animava, mas logo eu tinha de voltar ao quarto a fim de me preparar psicologicamente e programar um passeio bem específico, tipo: subir o Victoria Peak para ver a cidade se iluminando ao anoitecer, e depois jantar ganso assado no Yung Kee. (Pelo menos esse era o plano, mas eu também levava o endereço de uma lanchonete próxima e de uma pizzaria, por via das dúvidas.) Checava sempre duas vezes como fazer para chegar lá, pegava a minha mochila e enchia de mapas, um guia, uma garrafinha de água, o Octopus Card, câmera digital, carteira, passaporte, Kindle, cartão do hotel em cantonês e lenços de papel. Muitos lenços de papel.

Naquela sexta-feira, se eu conseguisse me levantar para lavar o rosto já seria uma conquista. A camareira gritou “governança!” em inglês e tocou a campainha de novo, mas acabou indo embora.

Há vezes em que não consigo nem me levantar de manhã para pendurar o cartão de “Não perturbe” do lado de fora da maçaneta. Um dia a camareira entrou enquanto eu estava deitada, foi até o meio do quarto e então eu me mexi. Achei que fosse o mais educado a fazer, pois ela poderia pensar que eu estava morta. Ela deu um grito, pediu desculpas e foi embora. Depois disso, não entraram mais. Nos dias em que eu consigo me lembrar de pendurar o aviso, que por lá fica até o entardecer, ouço as camareiras deslizando por baixo da porta um cartão oficial do hotel dizendo que a equipe passou para limpar o quarto em tais e tais horários e encontrou o sinal de “Não perturbe”. Só em um dia foram três papeizinhos.

Nas vezes em que consigo sair, quando retorno o quarto está invariavelmente impecável, cheirando a essência de capim-limão, e há sempre um presente sobre a mesa de trabalho. Às vezes é um prato de frutas – algumas delas eu não sei o que são, mas todas parecem maçãs –, outras vezes uns bombons de chocolate. Penso nisso como uma recompensa pela minha coragem, como se os bons funcionários do hotel – e as sofridas camareiras – estivessem orgulhosos por eu finalmente ter conseguido sair para ver o mundo. Ou como se estivessem felizes por eu não estar morta. Em suma.

A maioria das depressões tem dois componentes específicos que eu definitivamente não compartilho: insônia e falta de apetite. Um dia comentei com o psiquiatra que eu não me lembrava de alguma vez ter saído da cama porque havia dormido o suficiente, por estar revigorada e pronta para um novo dia – eu sempre me levantava porque já era obscenamente tarde e os bancos estavam para fechar. Em resumo, só acordava por pura vergonha. Ele sugeriu que, um dia, eu experimentasse dormir o quanto aguentasse, ou seja, que eu só me levantasse da cama quando estivesse sem sono. Eu suspirei. “Acho que então nem vou marcar o retorno dessa consulta. São grandes as chances de eu nunca mais sair da cama”, falei, e me despedi dele como se fosse a última vez. (Ultimamente nem eu mesma sei dizer quando estou ou não brincando.)

Então chegamos ao ponto fraco da minha trajetória como deprimida profissional: por mais que eu queira ficar na cama até a próxima primavera, uma hora vou ter que arrumar alguma coisa para comer. Eu tenho fome o tempo inteiro. E devoro porções enormes de comida feito um cão labrador que não vê um prato de espaguete há muito tempo, digamos, meia hora. Já que cozinhar está fora de questão por motivos de esforço sobrenatural, acabo tendo que sair em busca de alguma coisa pronta para comer no local ou levar para casa. Ou, no caso, chamar o serviço de quarto, o que também é sofrido porque envolve interação com seres humanos.

Naquela sexta-feira à tarde, pensei nos filmes de guerra em que, ao som dos clarins, o recruta deve acordar imediatamente, saltar do beliche e berrar: “Sim, senhor! Pronto, senhor!” Depois de gritar comigo mesma, em poucos segundos arremessei-me para fora da cama rumo ao luxuo­so banheiro. Pensei de repente que, com um banheiro desses, eu poderia ser uma pessoa normal em uma viagem de trabalho em Hong Kong. Pensei que podia ser uma executiva do setor aeronáutico em reuniões importantes com investidores locais. Lembrei que havia um mundo inteiro em caracteres chineses para desbravar, com estátuas de porcos gigantes apontando para o céu e o Edward Snowden escondido no hotel The Mira, digitando uma senha debaixo das cobertas. A mera possibilidade de que hoje eu ainda pudesse sair e funcionar como uma pessoa normal me fez escovar os dentes, lavar o rosto e iniciar uma conversa bastante idiota comigo mesma, em que eu comentava os acontecimentos da hora em tempo real (“Jura que você vai botar esse tanto de pasta na escova?”) e tentava me encorajar a dar mais um passo à frente.

Eu não precisava necessariamente sair – não assinei nenhum contrato –, bastava pedir o café no quarto e estudar o mapa de Hong Kong para ver se algum passeio me animava. Só tomar o café era um acordo que eu poderia fazer comigo mesma. Na verdade, só escolher o que eu pediria caso tivesse coragem para chamar o serviço de quarto. Abri o cardápio e me decidi por uma omelete, um iogurte de morango, pão com geleia e manteiga. Anotei num papel. Sem me dar tempo de pensar, peguei o telefone e disquei para fazer o pedido. Já não me envergonhava mais com o fato de pedir um café da manhã às três da tarde – eu e Edward Snowden não nos importávamos com esse tipo de julgamento superficial de nosso idealístico caráter.

Enquanto mastigava um pão duro demais, tive uma ideia: de acordo com o mapa, o Zoológico e Jardim Botânico de Hong Kong ficava muito perto do hotel, a uma distância que parecia ser vencida após alguns minutos de caminhada. A entrada era gratuita e o complexo ficava aberto até escurecer. Eu poderia muito bem trocar uma tarde na cama analisando as fissuras do teto por uma tarde no jardim observando flamingos. Calçaria meus tênis e levaria dois pacotes fechados de lenços de papel. Não teria de pesquisar nenhum trajeto de ônibus. Se estivesse me sentindo muito mal, seria rápido voltar. As camareiras aprovariam a ideia, pois finalmente poderiam fazer o serviço que deveriam ter executado de manhã. O chefe devia estar pressionando. “Mas não é culpa nossa, senhor, a hóspede do 803 só pode estar lá dentro ingerindo psicodélicos, senhor.” Em todo caso, eu contaria com a segurança de estar muito perto do meu quarto, e nas proximidades do meu quarto era mais difícil que coisas ruins acontecessem.

Ou coisas esquisitas, no caso.

Eu só não previa que os mapas seriam tão confusos. Um deles me mandava ir por cima, seguindo direto pela Robinson Road, o que até para mim não soava correto, pois a Robinson era um viaduto inóspito cheio de automóveis em alta velocidade e para alcançar o parque eu precisava dar um jeito de descer, e não de seguir em frente. O outro mapa, bilíngue, não tinha nem a Robinson. Um terceiro, que parecia um velho Guia Mapograf, não exibia a maioria dos nomes dos logradouros, mas dava a entender que existia uma passagem secreta saindo pelos fundos do hotel por onde se alcançava uma rua lá embaixo que levava direto ao Jardim Botânico. Fiquei com vergonha de perguntar na recepção e decidi que, segundo o Google Maps, era possível alcançar essa mesma rua por uma escada de pedestres na própria Robinson Road. E fui em frente.

De fato havia uma escada que dava acesso à Glenealy e à Old Peak Road. Tremenda vitória do time da casa. Peguei um caminho sinuoso e me senti melhor, mais útil e bem resolvida – e foi nesse momento infeliz que não reparei no portãozinho de entrada dos fundos do Jardim Botânico e segui à esquerda pela Glenealy. Caminhava a passos firmes, pensando na minha gritante normalidade aparente e em como as pessoas deviam estar invejosas daquela jovem corada que andava na rua com tamanha segurança. Continuei margeando o parque pela Upper Albert Road, e aquela estrada comprida passou a me deixar cada vez mais ansiosa. Me vi de repente caminhando numa passagem estreita para pedestres em meio aos automóveis, caminhões e ônibus de dois andares que cruzavam para todos os lados, vindos de todas as estradas. Aquilo não podia estar certo. Meu coração começou a bater mais rápido, senti a alça da mochila encharcada de suor e a pressão caindo a cada passo. Comecei a respirar mais fundo e a soltar o ar pela boca, com mais demora. A certa altura vi que o ideal teria sido atravessar uma rua onde não havia faixa ou semáforo, rumo à Albany Road, mas o fluxo de carros não dava trégua e decidi continuar naquela estrada. Fui margeando as árvores, certa de que em algum lugar haveria um portão de entrada e minha ansiedade iria diminuir.

Quando percebi que tinha descido tudo de uma vez pela Upper Albert e que agora precisaria subir de novo para chegar ao parque lá no alto, só então tive a certeza de que tomara o caminho errado, e fiquei imaginando o quanto havia me afastado do hotel. O tempo fechou, nuvens cinza cobriram o céu e eu já estava totalmente arrependida – mas agora encontraria o Zoológico e Jardim Botânico  nem que fosse engatinhando em meio a uma crise de pânico. Visitar o parque era a única forma de me acalmar àquela altura.

Não saberia dizer como, mas acabei chegando ao portão principal. E, para meu alívio, ainda estava aberto.

Meu objetivo naquele parque era visitar os jabutis. Por isso marchei resolutamente caminho acima, através das alamedas frescas e tranquilas, seguindo as instruções de um mapa que eu fotografara na entrada do complexo. Em vez de trânsito, ouvia uma variedade de cantos de pássaros e o som de um funcionário varrendo folhas secas. Passei pelos flamingos com suas canelas finas e ares de quem acabou de ouvir uma piada. Mais à frente, avistei um macaco que carregava uma bacia azul com o pé esquerdo enquanto se dependurava de cipó em cipó, tirando onda. Um outro logo foi persegui-lo em busca do objeto. Depois de um tanto de luta, o troféu trocou de pés. Ficaram brigando por uns minutos, até que eu me dei conta de que a minha ansiedade havia diminuído, e que era hora de seguir em frente.

E assim passei vinte minutos debruçada sobre uma grade verde, acompanhando a gratificante existência dos jabutis. Eles se movimentavam pesadamente e paravam sem motivo, como se tivessem esquecido o nome de um filme. Pareciam refletir sobre algum assunto – ou cochilar de olhos abertos. Depois de alguns minutos, continuavam. Eram grandes, tinham patas de elefante e os cascos lustrosos. Já considerava batizá-los com nomes próprios de mordomo – Leopold, por exemplo, era uma tartaruga-gigante de Madagascar que passara os últimos vinte anos sem falar com o irmão Arnold – quando um rapaz se aproximou e me deu boa-tarde em inglês. Eu respondi. Ele pediu desculpas pelo incômodo. Disse que era um estudante do Departamento de Ciência do Esporte e Educação Física da Universidade de Hong Kong e estava fazendo uma pesquisa para sua dissertação.

Imediatamente, todas as minhas células entraram em alerta para a detecção de golpes e malandragens. Passei em revista dezenas de possibilidades de mutreta envolvendo desconhecidos na rua que abordam passantes: o bilhete premiado, a venda do viaduto, o maço de dinheiro falso, o cheque caído no chão, a bebida batizada, a pulseirinha de presente, o anel encontrado na grama… Na China, o mais conhecido é o golpe das estudantes simpáticas que levam o turista a uma caríssima casa de chá ou a uma obscura exposição de arte, onde o obrigam a gastar uma quantia enorme de dinheiro.

O rapaz parecia muito tímido e dava a impressão de estar tão incomodado com aquela abordagem quanto eu. Fiquei com um pouco de pena e respondi de forma solícita, na esperança de que aquilo acabasse rápido.

Ele me contou que estava escrevendo uma dissertação sobre a biomecânica dos pés da população em geral e sua relação com os calçados. Desandou a dizer que as pessoas usam sapatos inadequados e isso gera todo tipo de lesões e alterações biomecânicas: por exemplo, o uso de sapatos de salto alto ocasiona uma mudança de pressão plantar que sobrecarrega a região do antepé, sobretudo na cabeça do quinto metatarso, além de uma pronunciada acentuação do pico angular do tornozelo – ele emendava uma frase na outra e parecia se dirigir sobretudo aos meus pés, confortavelmente abrigados em um par de tênis vermelhos.

Em suma, ele queria saber se podia tirar uma foto dos meus pés.

Fiquei subitamente orgulhosa da minha escolha de calçado para aquele passeio – não que eu tivesse muita opção, pois só havia levado aquele par, e disso me arrependeria mais tarde quando viajei para a China continental e me deparei com uma nevasca –, em todo caso, fui tomada pela necessidade imperiosa de compartilhar minha sabedoria podal com todo o Hemisfério Oriental. Respondi: “Claro”, e virei um dos pés para que ele pudesse tirar um retrato. Assim mesmo: como se estivesse exibindo um vestido de plumas no tapete vermelho do Festival de Veneza.

Ele sugeriu que eu apoiasse os pés em um banco vizinho. Eu acatei.

Enquanto isso, algumas pessoas passavam conversando baixinho e o funcionário do parque varria ao longe. Então o rapaz deu uma tossida discreta e perguntou se eu poderia tirar o tênis. Ele queria fotografar os meus pés descalços.

Na hora, não havia quase ninguém ao nosso redor. O céu já estava cinza-­chumbo. Eu pensei nas coisas mais bizarras possíveis – nos crimes sem solução das séries do Discovery e nos meus pés cadastrados em sites de fetiche –, mas a verdade é que nada iria me impedir de tirar o tênis, a meia e de consentir com as fotos, que aconteceram em vários ângulos. Localizei o varredor ao longe. Voltei a suar na alça da mochila.

Uma vez um amigo me convenceu a experimentar o bungee jumping, e eu só pulei porque contaram até três. Mandaram e eu pulei. É um péssimo motivo para fazer alguma coisa, eu sei. Mas, em certos casos, a hipótese de declinar gentilmente de um convite soa bem mais custosa do que pular em direção à morte ou permitir que um desconhecido tire fotos dos meus pés descalços em um parque vazio, ao anoitecer.

O processo todo durou entre cinco e cinquenta minutos, não tenho como dizer. Então ele agradeceu e eu calcei meu tênis de volta, diante de um ou outro olhar intrigado dos passantes. Saí o mais rápido possível do parque – guiada pela adrenalina, devo ter inclusive encontrado o portão da Glenealy e quebrado algum recorde ao percorrer a distância entre o cercado dos jabutis e o lobby do hotel em 6,4 minutos. O Jardim Botânico era mesmo escandalosamente próximo.

Quando voltei, o quarto estava limpo, cheiroso e havia quatro supostas maçãs com cara de pera em cima da minha mesa de trabalho.

Passei mais uma semana na cidade. Não consegui assistir ao filme do vira-lata, mas participei de dois debates longos demais, fugi de um coquetel de confraternização e até fiz um amigo – um cineasta mexicano que acreditava que o melhor exercício para o corpo e a mente era correr de costas. (Anos depois, ele ganhou o Pardino d’Oro no Festival de Locarno.) Juntos assistimos à sinfonia de luzes dos prédios na Tsim Sha Tsui Promenade, enquanto dividíamos uma garrafa de vinho amarelo de arroz. Atendi ao celular uma vez e fingi que a ligação estava ruim. Descobri uma respeitável casa de massagens a poucas quadras do hotel. Comi três das quatro maçãs misteriosas da minha mesa de trabalho.

No penúltimo dia, arrumei forças para sair de novo. Tomei chuva em um ônibus turístico e atravessei o Victoria Harbour rumo à Península de Kowloon. Eu estava aliviada com o término do festival e dos compromissos oficiais, e, por isso, me sentia mais confiante de explorar lugares distantes do hotel. No Museu Espacial de Hong Kong, comprei ingresso para uma sessão de cúpula sobre lixo espacial. Não havia quase ninguém na sala de projeção. Por algum motivo, foi ótimo acompanhar os pedaços quebrados de satélite voando diante do meu nariz; queria que tivesse durado mais tempo. Infelizmente era a última sessão do dia e já nem havia mais visitantes quando fui embora. Decidi de repente que não voltaria diretamente ao hotel, mas passaria antes no Yung Kee para comer ganso assado, e talvez até uma sobremesa. Maçãs carameladas. Duas de uma vez!

Na saída do planetário, um rapaz tímido me abordou. Ele pediu desculpas pelo incômodo. Disse que era estudante do Departamento de Ciência do Esporte e Educação Física da Universidade de Hong Kong e que estava fazendo uma pesqui…

– Os mesmos pés! – eu disse, apontando para o tênis vermelho. – Os mesmos pés! Viu?

Ele pareceu espantado e não disse nada. Seguimos, às pressas, em direções opostas.


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Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times e da New York Review of Books. Publicou o romance Noites de Alface (Alfaguara) e Mamãe Está Cansada (Companhia das Letrinhas). ). É autora do periódico digital A Hortaliça na plataforma Substack.