questões botânicas
Robert Macfarlane Mai 2020 07h05
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De vez em quando – uma ou duas vezes na vida, se der sorte – você encontra uma ideia de implicações tão poderosas que ela chega a desestabilizar o chão em que você pisa. Na primeira vez que ouvi alguém falar de wood wide web, já há mais de uma década, estava fazendo força para não chorar. Um amigo que eu adorava estava morrendo, jovem demais, rápido demais. Eu tinha ido fazer o que supus ser uma última visita. Ele estava cansado por causa da dor e dos remédios. Ficamos os dois conversando. Meu amigo trabalhava com árvores. Elas brotavam em sua vida e em sua mente. Ele morava numa casa de madeira que ele mesmo construiu e tinha plantado milhares de árvores com as próprias mãos, e o sobrenome de seu avô era Wood (madeira, bosque, floresta, em inglês). “Corre seiva nas minhas veias”, ele escreveu uma vez.
Naquele dia, eu li em voz alta um poema que era importante para nós dois, Birches (Bétulas), de Robert Frost, em que escalar os troncos das bétulas, brancos como a neve, se transforma tanto num ato de preparação para a morte quanto numa declaração de vida. Então, ele me falou de uma pesquisa nova que tinha lido recentemente sobre as inter-relações das árvores: falava de como as árvores, quando uma delas estava adoecendo ou passando por dificuldades, compartilhavam nutrientes através de um sistema subterrâneo que unia suas raízes no subsolo, conseguindo assim fazer com que a árvore doente recobrasse a saúde. Era típico da generosidade de espírito do meu amigo – que estava tão perto da morte – conseguir falar sem inveja desse fenômeno de cura. Ele não teve naquele momento a força necessária para me contar os detalhes de como funcionava essa partilha subterrânea – como uma árvore podia se estender às cegas por dentro da terra até chegar a outra árvore. Mas não pude esquecer a imagem daquela misteriosa rede subterrânea, que transformava árvores isoladas em comunidades florestais. Ela ficou plantada em minha mente, e ali se enraizou. Com o passar dos anos, encontrei outras menções a essa mesmíssima ideia extraordinária, e gradualmente esses fragmentos separados começaram a se conectar e gerar algo que parecia uma compreensão do conceito.
No começo dos anos 1990, a jovem canadense Suzanne Simard, uma ecologista florestal que estava estudando a submata de florestas temperadas que servem para a exploração madeireira no nordeste da Columbia Britânica, observou uma curiosa correlação. Quando as mudas de certa espécie de bétula eram arrancadas de matas de pinheiros replantados, sua remoção coincidia, inicialmente, com a deterioração e, em seguida, com a morte prematura das mudas de pinheiro-do-oregon.
Os engenheiros florestais há muito supunham que essa extração fosse necessária para evitar que as jovens bétulas (consideradas o “mato”) privassem os jovens pinheiros (considerados a “plantação”) de valiosos recursos do solo. Mas Simard começou a duvidar que esse modelo tão simples de competição estivesse correto. Ela achava plausível que as bétulas estivessem de alguma maneira auxiliando, e não prejudicando os pinheiros: afinal, quando elas eram removidas, a saúde dos pinheiros declinava. Mas, se existia mesmo essa colaboração interespécies entre as árvores, qual seria sua natureza – e como uma árvore isolada podia se estender e ajudar uma outra através do espaço da floresta?
Simard decidiu investigar o mistério. Sua primeira tarefa foi estabelecer algum tipo de base estrutural para as possíveis correlações entre as árvores. Usando ferramentas genéticas e microscopia, ela e seus colegas levantaram a pele do solo da floresta e espiaram por baixo da submata, olharam a “caixa-preta” da terra – um ambiente notoriamente desafiador para os estudos biológicos. O que viram ali foram os claros e finíssimos filamentos conhecidos como “hifas” que os fungos espalham pelo solo. As hifas se interligavam e criavam uma rede de complexidade e extensão atordoantes. Uma colher de chá de terra podia conter até 10 km de hifas.
Por séculos, os fungos foram quase sempre considerados nocivos às plantas: parasitas que provocavam doenças e distúrbios. Mas quando Simard começou sua pesquisa, cada vez mais gente pensava que certos tipos de fungos comuns podiam coexistir com as plantas num delicado mutualismo. Percebeu-se que as hifas desses fungos, nas associações simbióticas chamadas “micorrizas”, não apenas penetravam o solo, mas também se trançavam em nível celular nas extremidades das raízes das plantas – criando, assim, uma interface que pode permitir a transmissão molecular. Graças a esse entrelaçamento, também as raízes de cada planta ou árvore uniam-se a outras num sistema subterrâneo de uma complexidade magnífica.
A investigação de Simard confirmou que por baixo do solo daquela floresta havia de fato o que ela chamou de “uma rede social subterrânea”, uma “agitada comunidade de espécies de fungos nas micorrizas” que conectava as mudas de árvores umas às outras. Ela descobriu também que as hifas ligavam espécies diferentes: conectavam não apenas bétula com bétula e pinheiro com pinheiro, mas também pinheiro com bétula e muito mais, formando uma rede não hierarquizada entre diversos tipos de plantas.
Simard tinha estabelecido uma conexão estrutural entre as plantas jovens. Mas as hifas forneciam apenas os meios para o mutualismo. Sua existência não explicava por que as mudas de pinheiro sofriam quando as de bétula eram removidas, nem os detalhes referentes ao tipo – se é que havia alguma coisa – que esse sistema colaborativo transmitia. Então, Simard e sua equipe elaboraram um experimento que possibilitaria o acompanhamento de eventuais movimentações nessa treliça invisível sob a terra. Eles decidiram injetar isótopos radioativos de carbono nos pinheiros. Usando espectrômetros de massa e cintiladores, conseguiram rastrear o fluxo de isótopos de carbono entre as árvores.
O que esse rastreamento revelou foi espantoso. Os isótopos de carbono não ficaram confinados à árvore em que foram injetados. Em vez disso, desceram pelo sistema vascular da árvore até a ponta das raízes, onde passaram para as hifas fúngicas que se trançavam a essas pontas. Depois de entrar nas hifas, eles percorriam a rede até as pontas das raízes de outra árvore, onde penetravam no seu sistema vascular. No caminho, os fungos extraíam e metabolizavam parte dos recursos gerados pela fotossíntese, que eram transportados pelas hifas; era o que eles ganhavam com o mutualismo.
Tratava-se da prova de que as árvores podiam transferir recursos de uma para outra, empregando a rede de micorrizas. O rastreamento dos isótopos revelou também a inesperada complexidade dessas inter-relações. Num terreno de experimento de 30 por 30 metros, todas as árvores estavam conectadas ao sistema fúngico, e algumas – as mais velhas – conectavam-se a até 47 outras. Os resultados também explicaram o mistério do mutualismo entre bétulas e pinheiros: os pinheiros-do-oregon estavam recebendo mais carbono de fotossíntese das bétulas do que transmitiam para elas. Quando as bétulas eram arrancadas, a quantidade de nutrientes que as mudas de pinheiro recebiam acabava diminuindo – ao contrário do que se poderia esperar. Portanto, sem as bétulas, os pinheiros ficavam mais fracos e morriam.
Os fungos e as árvores tinham “forjado uma unidade a partir de sua dualidade, gerando assim uma floresta”, escreveu Simard num arrojado resumo de suas descobertas. Em vez de ver as árvores como agentes individuais que competiam por recursos entre si, Simard propunha que a floresta é um “sistema cooperativo”, em que as árvores “conversam” entre si, produzindo uma inteligência colaborativa que ela descrevia como “sabedoria florestal”; certas árvores mais velhas chegam até a “cuidar” de árvores menores que reconhecem como sendo “da família” e agem como suas “mães”. À luz da pesquisa de Simard, toda a noção de ecologia florestal se desfez e se alterou – deixando de ser um agressivo mercado livre para passar a ser algo mais próximo de uma comunidade dotada de um sistema socialista de redistribuição de recursos.
O primeiro artigo importante de Simard sobre isso foi publicado na Nature em 1997, e foi a partir dali que a rede subterrânea de mutualismo fungos-árvores ganhou seu duradouro apelido de wood wide web. Seu artigo na Nature foi uma publicação revolucionária, com efeitos tão significativos que demandaram a criação de todo um novo campo de pesquisa. Desde então, o estudo científico da ecologia subterrânea disparou. Novas tecnologias de detecção e de mapeamento iluminaram detalhes dessa “rede social” de árvores e plantas. Simard diz: “A wood wide web foi mapeada, reproduzida, monitorada e convencida a revelar as lindas estruturas e a fina adaptação das línguas empregadas pela rede da floresta.”
E entre essa nova geração de linguistas e cartógrafos da floresta está um jovem botânico chamado Merlin Sheldrake. Sim, esse é mesmo o nome dele.
Merlin e eu estamos lado a lado sobre uma faia de talhadia – nunca imaginei que veria uma tão grande, que dirá estar nela. O toco e seus brotos têm mais de 9 metros de um extremo a outro; a árvore, quem sabe, uns 400 ou 500 anos de idade.
“Eu diria que faz no mínimo meio século que ninguém faz a talhadia dessa árvore”, digo a Merlin.
Os brotos que nascem da base viraram, sem poda, troncos verticais que se projetam a partir da árvore-mãe e deixam um espaço no centro que pode acomodar com facilidade nós dois. Ficamos um tempo ali, aproveitando a sensação de estar dentro de uma árvore tão antiga, e olhando, por entre as barras de casca acinzentada da nossa jaula, para a Floresta de Epping, ali nos arredores de Londres. Dois dos galhos inferiores da bétula se fundiram um ao outro, com a casca de ambos se amoldando em uma única pele contínua, sistemas vasculares crescendo juntos, unidos. A madeira viva, se lhe derem tempo, comporta-se como um fluido que se move lentamente. Como o gelo dos glaciares – como o sal-gema que eu tinha visto em Boulby, no Norte da Inglaterra, como a calcita que vi nas Montanhas Mendip, no Sul da Inglaterra, como os vitrais das igrejas medievais que, com o passar dos séculos, gradualmente ficam mais espessos na base de cada requadro –, a madeira viva escorre se lhe derem tempo suficiente. “Já vi chamarem isso de ‘entrelaçamento’”, eu digo para Merlin, acariciando os ramos fundidos. “O artista David Nash plantou um círculo de freixos numa clareira no Norte do País de Gales, e depois foi dobrando e trançando as árvores para elas crescerem não só uma ao lado da outra, mas inclinadas para dentro da outra, uma coreográfica Ash Dome (Abóbada de freixos), feita de uma fusão de troncos e ramos.”
“Na verdade”, diz Merlin, “os botânicos têm um termo técnico para isso. A gente chama de ‘chamego’, ou se você quiser o nome todo, ‘chamego arbóreo’.” Ele sorri. “Bom, não exatamente. O termo técnico de verdade é ‘inosculação’, do latim osculare, que significa ‘beijar’. Inosculação quer dizer ‘embeijamento’. Pode acontecer entre árvores e entre espécies de árvores também.”
Eu conheço a palavra “inosculação”, mas desconhecia sua origem. Aquilo que tinha as feições de um gélido termo de especialistas ganha um calor passional e parece corresponder de verdade a esse “embeijamento” arbóreo, que dificulta que se identifique onde termina uma árvore e começa a outra. Penso na versão de Ovídio do mito de Filêmon e Báucis, em que um casal de idosos é transformado num carvalho e numa tília que se abraçam, um sustentando o outro em termos tanto estruturais quanto nutricionais, usando as raízes para buscar no solo a força que se dão – e carinhosamente dividem essa força através de seu embeijamento. “Esse tipo de fusão acontece também no subsolo”, diz Merlin. “Mas é provável que seja mais intenso entre as raízes das árvores do que entre os ramos, porque lá embaixo o espaço é mais limitado e o entrecruzamento vai ser mais denso. E acontece com uma abundância imensamente maior nas redes fúngicas, muitas vezes entre espécies bem diferentes.” Ele acompanha com um dedo o entrelaçamento dos dois ramos.
“O que originalmente eram dois filamentos de hifa de repente se transformam num só, e coisas podem começar a fluir entre eles, inclusive material genético e núcleos celulares. É por isso que fica tão difícil lidar com o conceito de espécie no que se refere aos fungos e até com a definição do que é um organismo – porque, por mais que os fungos usem o sexo, eles também têm essa transferência horizontal de material genético que é de uma promiscuidade insana e que é tão imprevisível que a gente ainda nem entendeu direito.”
Merlin Sheldrake, como diz a mais batida das piadas da micetologia, é “um cara que vai fungo”. Durante os dias em que ele, num passe de mágica, me expôs o subsolo da Floresta de Epping, acredito que fiz mais perguntas a ele do que a qualquer outra pessoa em muitos anos. O que ele me diz e me mostra naquela modesta floresta quase urbana reorganiza minha ideia de mundo de maneira que ainda não compreendo perfeitamente.
Merlin nasceu três dias depois da Grande Tempestade de 15 de outubro de 1987, quando ventos com a força de um furacão, que chegaram a rajadas de quase 200 km/h, capotaram caminhões, jogaram balsas de volta à praia e derrubaram cerca de 15 milhões de árvores – rasgando o solo florestal do Sul da Inglaterra e do Norte da França, que ficou virado para o céu, na forma de placas de terra com raízes. O primeiro dia completo da vida de Merlin foi a Segunda-Feira Negra, em que o índice Dow Jones sofreu uma queda recorde, apagando trilhões da riqueza global e detonando uma quebradeira nos mercados financeiros em escala planetária.
Não, os augúrios da chegada de Merlin Sheldrake ao mundo não foram dos melhores. Na mitologia grega, ele certamente estaria fadado a se transformar num agente de destruição e ruína. Mas recebeu um nome mágico e se tornou uma pessoa mágica. Ele é alto, magro e mantém uma postura muito ereta. Com cachos cerrados e cabelo escuro, tem olhos intensos com círculos brancos plenamente visíveis em torno da íris, e um sorriso largo e acolhedor. Há algo vagamente antiquado nele – um desinteresse por fronteiras entre as disciplinas, uma curiosidade sem limites – e algo também do caçador de plantas dos tempos heroicos. Ele me faz pensar numa mistura entre o escritor Thomas Browne e o botânico Frank Kingdon-Ward, que recolheu a Meconopsis betonicifolia, a lendária papoula-azul-do-himalaia.
É bem a cara de Merlin ter sido fascinado desde pequeno, não pela carismática megafauna do mundo, mas pelos habitantes menos decantados e menos contemplados da biosfera: liquens, musgos e fungos. Ele estudou esses seres quando era um cientista adolescente amador, contando espécies de liquens em lápides e rochas de granito, e tentando compreender a arquitetura subterrânea da vida fúngica – cogumelos que aparecem sobre a terra como corpos frutíferos que representam meras alusões a imensas estruturas do reino inferior.
“Os super-heróis da minha infância não eram personagens da Marvel”, Merlin me disse uma vez, “eram liquens e fungos. Fungos e liquens aniquilam as nossas categorias de gênero. Eles reorganizam as nossas ideias de comunidade e cooperação. Ferram com o nosso modelo hereditário de descendência evolutiva. Eles liquidam completamente as nossas noções de tempo. Os liquens conseguem fazer uma rocha virar pó usando uns ácidos terríveis. Os fungos podem exsudar enzimas poderosíssimas para fora do corpo e dissolver o solo. São os maiores organismos do mundo e estão entre os mais velhos. Eles geram e destroem mundos. Quer mais super-herói que isso?”
Numa certa manhã, Merlin e eu entramos na Floresta de Epping, vindo de uma clareira elevada, seguindo basicamente rumo Norte, mantendo o sol à nossa direita.
Epping se estende a nordeste de Londres e está muito longe de ser uma mata selvagem. Foi originalmente designada como floresta de caça para a realeza por Henrique II, no século XII, e os caçadores intrusos sofriam penalidades que incluíam encarceramento e mutilação. Hoje, é administrada pela Prefeitura de Londres e tem mais de cinquenta estatutos que regem o comportamento das pessoas dentro de seu terreno – embora as punições sejam mais fiscais do que físicas. Ela fica toda contida pela autoestrada M25, o anel rodoviário que contorna Londres. Estradas menores a atravessam, e a floresta nunca ultrapassa mais de 4 km de largura. Apesar de seu tamanho reduzido, é fácil se perder em Epping – onde caminhos se bifurcam e há mil anos os habitantes de Londres e cercanias vêm buscar abrigo, sexo, fuga, e vestígios de magia florestal.
Rugido de estradas. Zumbido de um zangão que voa baixo, revolvendo as folhas secas sobre o chão com o vento das asas. Abutre no alto, girando, miando. Velhas árvores de talhadia que não foram mais podadas, tocos de cabeça de hidra. Um tronco caído, coberto de musgo; minúsculos fungos alaranjados que brotam de fissuras úmidas em seus veios. Onde as árvores escasseiam e a luz chega ao chão, centenas de brotos verdes de faia abrem caminho entre as folhas, nenhum deles com mais de 2,5 cm de altura. Cinco cervos surgem entre os azevinhos diante de nós, a luz por entre as folhas pintando seus flancos enquanto se movem pela submata.
No linguajar de engenheiros e ecologistas florestais, a submata é o nome que se dá à vida que existe entre o solo da floresta e a copa das árvores: os fungos, musgos, liquens, arbustos e brotos que crescem e competem nessa zona intermediária. Metaforicamente, no entanto, a submata é também a soma das narrativas, histórias, ideias e palavras intricadas e em permanente desenvolvimento que se entrelaçam para dar a uma mata ou floresta sua diversificada vida na cultura.
“O que mais me interessa é a submata da submata”, diz Merlin. Ele aponta para as faias, as carpas-europeias, as castanheiras e afirma: “Essas árvores e esses arbustos todos estão interligados uns aos outros por baixo da terra de maneira que nós não só não enxergamos, mas que mal começamos a compreender.”
Quando estudava ciências da natureza em Cambridge, Merlin leu o artigo revolucionário de Simard sobre a wood wide web. Leu também o texto clássico que E. I. Newman publicou em 1988 sob o título Mycorrhizal Links between Plants: Their Functioning and Ecological Significance (Nexos de micorrizas entre plantas: funções e relevância ecológica). Ali, Newman atacava a ideia de que “as plantas são fisiologicamente separadas umas das outras”, propondo a existência de uma “rede micetoide” que podia interconectá-las. Newman escreveu: “Se esse fenômeno for comum pode ter profundas consequências para o funcionamento dos ecossistemas.”
Essas “consequências” foram de fato profundas e deixaram Merlin fascinado. Ele já adorava o reino alienígena dos fungos. Sabia que os fungos podem transformar rochas em pedrisco, mover-se com agilidade tanto por cima quanto por baixo da terra, reproduzir-se horizontalmente e digerir alimentos fora do corpo graças aos ácidos metabolicamente engenhosos que excretam. Sabia que suas toxinas podem nos matar e que seus elementos químicos psicoativos eram capazes de induzir estados alucinógenos. Mas o trabalho de Simard e de Newman lhe revelou que os fungos também podiam permitir que as plantas se comunicassem umas com as outras.
Merlin estudou na graduação com Oliver Rackham, o lendário botânico cuja pesquisa alterou completamente nossa compreensão da história cultural e botânica da paisagem inglesa. Trabalhando com Rackham, Merlin se viu intelectualmente mais atraído por lugares onde a teoria evolucionária ortodoxa parecia mais rala – e, para ele, os lugares mais ralos de todos eram aqueles onde havia mutualismos em ação. O mutualismo é um subtipo de simbiose na qual os organismos estabelecem um relacionamento prolongado, interdependente e reciprocamente benéfico.
“O que me encanta nos mutualismos é que você poderia prever, pela teoria evolucionária básica, que eles fossem superinstáveis e que logo descambassem para o parasitismo”, diz Merlin. “Mas, no fim das contas, existem mutualismos muito antigos, que se mantêm estáveis por períodos intrigantes: entre a iúca e a mariposa-da-iúca, por exemplo, ou, é claro, entre as bactérias que iluminam o farol bioluminescente da lula-de-cauda-curta e a própria lula.”
“É claro. O antigo mutualismo entre bactéria e lula reluzente”, eu respondo.
“Mas o ápice do mutualismo é o que existe entre as plantas e os fungos nas micorrizas”, retruca Merlin.
O termo “micorriza” é formado pelas palavras gregas que significam “fungo” e “raiz”. A própria palavra já é uma colaboração, ou um emaranhamento; e, como tal, um lembrete de como a linguagem tem também seu sistema subterrâneo de raízes e hifas, que permite que os sentidos sejam compartilhados e trocados.
Nas micorrizas, a relação entre os fungos e as plantas que eles conectam é antiga – tem cerca de 450 milhões de anos – e consiste em grande medida de um mutualismo. No caso do mutualismo árvores-fungos, os fungos drenam o carbono que foi produzido em forma de glicose pelas árvores durante a fotossíntese, graças à clorofila que os fungos não têm. Por sua vez, as árvores obtêm nutrientes como fósforo e nitrogênio que os fungos extraem do solo onde crescem, graças a enzimas que elas não têm.
As possibilidades da wood wide web vão muito além desse intercâmbio básico de bens entre plantas e fungos, no entanto. Pois a rede fúngica também permite que as plantas distribuam recursos entre si. Açúcares, nitrogênio e fósforo podem ser divididos pelas árvores de uma floresta: uma árvore moribunda pode despejar seus recursos na rede em benefício da comunidade, por exemplo, ou uma árvore em dificuldades pode ser sustentada por recursos adicionais das vizinhas.
O mais impressionante é que a rede permite também que as plantas enviem compostos de sinalização imunológica entre si. Uma planta atacada por pulgões pode avisar uma planta próxima que deve fortalecer sua resposta defensiva antes que os pulgões cheguem. Já se sabe há algum tempo que as plantas se comunicam acima da terra de maneira semelhante, através de hormônios difusores. Mas esses alertas aéreos, acima da terra, têm destinos imprecisos. Nas redes fúngicas, pode-se identificar tanto o emissário quanto o destinatário dos compostos. O conhecimento crescente que temos sobre a rede florestal gera perguntas profundas sobre as linhas que separam as espécies, sobre a adequação de se imaginar a floresta como um superorganismo e sobre o que as palavras “troca”, “compartilhamento” e até “amizade” podem significar entre plantas e, no fundo, também entre humanos.
A antropóloga Anna Tsing compara o subsolo de uma floresta a “um movimentado espaço social”, onde a interação de milhões de organismos “forma um mundo subterrâneo transespécies”. Em um ensaio chamado Arte da Inclusão ou Como Amar um Cogumelo, Tsing escreve de modo memorável: “Quando você passar de novo por uma floresta, olhe para baixo. Tem uma cidade debaixo dos seus pés.”
Merlin e eu estamos caminhando há cerca de duas horas pela mata quando chegamos a um dos grandes bosques de faias aparadas da Floresta de Epping. A poda dos ramos superiores de uma árvore promove um crescimento mais denso e lhe prolonga a vida. Na verdade, pode fazer com que as árvores adentrem, como nos contos de fadas, um período quase indefinido de longevidade. Aqui no bosque, longos troncos oscilantes se estendem para o sol. Por entre suas folhas, filtra-se uma luz verde submarina. Parece que estamos nadando por uma floresta de algas.
Paramos e ficamos um tempo deitados no chão da mata, de costas, sem falar, vendo os delicados movimentos das árvores na brisa e a luz que cai rendilhada sobre nós, de uma altura de 15 metros ou mais. Onde as copas podadas se abrem para formar o dossel do bosque, percebo que posso identificar o padrão formado pelo contorno das bordas de cada árvore nesse dossel: é o lindo fenômeno chamado de “timidez da copa”, em que cada árvore da floresta respeita o espaço das outras, deixando um intervalo entre o fim das suas últimas folhas e o começo das folhas da árvore seguinte.
Deitado ali entre as árvores, apesar de uma antiga desconfiança em relação ao antropomorfismo, acho difícil não conceber essas relações arbóreas em termos de ternura, generosidade e até de amor: a respeitosa distância de suas copas tímidas, os beijos dos ramos que se fundiram em inosculação, as invisíveis conexões forjadas por raízes e hifas entre árvores aparentemente distantes. Lembro-me de algo que o romancista Louis de Bernières escreveu sobre um relacionamento que durou até a velhice: “Nós tínhamos raízes que cresciam na direção do outro sob o solo e, quando todas as flores bonitas caíram dos nossos galhos, descobrimos que éramos apenas uma árvore, e não duas.” Como alguém que tem a sorte de viver um longo amor, eu reconheço essa gradual aproximação e esse emaranhamento subterrâneo; as coisas que não precisam ser ditas entre nós; a comunicação tácita que às vezes pode se aproximar perigosamente do silêncio; e o compartilhamento tanto da felicidade quanto da dor. Acho que amor bom é o que se enraíza, e não se enraivece com o passar do tempo, e penso nas hifas que se entretecem no chão em que piso, percorrendo a terra em busca de fusões. E isso também me parece, naquele momento, uma versão do trabalho do amor.
Merlin levanta, vai até o centro do bosque como se estivesse procurando alguma coisa, então se abaixa e afasta algumas folhas e nozes de faias caídas pelo chão, para limpar um pedaço de terra do tamanho de um pratinho. Eu levanto e vou atrás dele. Ele pega uma pitada de terra e a esfrega entre os dedos. Ela mancha sua pele em vez de se esfarelar: um húmus denso e escuro, compostagem de folhas. Ele então diz: “É esse o nosso problema na hora de estudar a rede fúngica. A terra é de uma impenetrabilidade incrível para os experimentos, e as hifas fúngicas são delgadas demais para se ver a olho nu. Foi esse o motivo principal de ter demorado tanto para a gente perceber a existência da wood wide web e discernir o que ela faz.”
Rios de seiva correm pelas árvores que nos cercam. Se nós agora colocássemos um estetoscópio contra a casca de uma bétula ou de uma faia, seria possível ouvir a seiva borbulhando e estalando ao percorrer o tronco.
“Dá para instalar rizotrons no subsolo e ver o crescimento das raízes”, Merlin diz. “Mas não dá para ver os fungos de verdade, porque eles são muito fininhos. Dá para escanear o subsolo com laser, mas, de novo, é um método grosseiro demais para as redes fúngicas.”
Lembro novamente o quanto esse mundo subterrâneo resiste às nossas formas normais de ver, o quanto ele esconde de nós, mesmo nesses tempos de hipervisibilidade em que vivemos. Uns poucos centímetros de terra bastam para guardar segredos atordoantes, uma carga espantosa: um oitavo da biomassa total do mundo é composta por bactérias que vivem no subsolo, e um quarto da biomassa é de origem fúngica.
Diz Merlin: “Nós sabemos que a rede está lá, mas dá muito trabalho localizar. Aí a gente precisa procurar pistas no labirinto, encontrar uns jeitos espertos de seguir os caminhos.”
Eu me ajoelho ao lado dele. Posso ver dezenas de insetos só nessa pequena área, com nomes que em geral desconheço: aranhas reluzentes e besouros de um bronze-avermelhado lutando sobre as folhas, um tatu-bola enrodilhado, um verme verde se contorcendo em meio ao húmus.
“Isso aqui fervilha de coisas vivas”, eu digo a Merlin.
“E é só a parte visível”, diz Merlin. “Vai ter hifas crescendo na matéria em decomposição dessa folha meio podre aqui, naqueles troncos e naqueles ramos podres, e aí tem os fungos das micorrizas cujas hifas se transformam em pontos de conexão – todos eles borbulhando, se emaranhando e se fundindo, criando uma rede que conecta azevinho com azevinho, mas também com esta faia e com um broto de alguma outra coisa mais para lá, camadas e camadas e camadas – até que, bom, o poder de computação do cérebro da gente acaba!”
Enquanto Merlin fala, eu tenho uma rápida e perturbadora sensação de que o mundo está mudando para sempre à minha volta. O solo estremece sob os pés, os joelhos, a pele. Ah, se a sua mente fosse algo um pouco mais verde, nós íamos te afogar em significados.[1] Olho para baixo, tento fazer com que o solo, num passe de mágica, fique transparente para que eu possa ver sua infraestrutura oculta: milhões de meadas fúngicas suspensas entre raízes que se afunilam nas pontas, com suas prolíficas ligações formando uma rede no mínimo tão intricada quanto a dos cabos e fibras que pendem sob nossas cidades. Qual era aquela expressão arrepiante que eu ouvi alguém usar para descrever o mundo dos fungos? O reino do cinza. Ela escancara o quanto os fungos nos são estranhos – o quanto desafiam os nossos modelos normais de tempo, espaço, espécies.
“Você olha para a rede e aí ela começa a olhar para você também”, diz Merlin.
No subsolo das florestas de madeira de lei das Montanhas Azuis do Oregon existe um fungo, o Armillaria solidipes, que em seu ponto mais amplo tem 4 km de extensão, e cobre uma área total de quase 10 km2. A baleia azul está para este fungo como uma formiga está para nós. Trata-se de um organismo imerso em mistério: é o maior que conhecemos no mundo e um dos mais antigos. O melhor palpite que o Serviço Florestal dos Estados Unidos pôde oferecer para a idade deste fungo fica entre 1 900 e 8 650 anos. O fungo se manifesta na superfície como cogumelos com estipes manchados de branco que se abrem em chapéus bordôs, enfeitados com babados. Embaixo da terra, onde sua verdadeira extensão se encontra, o Armillaria solidipes se move sob a forma de rizomorfas que se assemelham a cadarços pretos, de onde se estendem os dedos das hifas de seu micélio, em busca tanto de novos anfitriões que eles podem matar, quanto dos micélios de outras partes da colônia com os quais eles podem se fundir.
Todas as classificações desmoronam, mas os fungos deixam muitas de nossas categorias fundamentais em ruínas. Eles frustram nossas noções regulares de parte e todo, do que define um organismo e do que significam descendência e herança genética. Eles fazem coisas estranhas com o tempo porque não é fácil dizer onde um fungo começa ou termina, quando nasce ou quando morre. Para os fungos, o nosso mundo de luz e ar é seu subterrâneo, para o qual ascendem timidamente, aqui e ali, vez por outra.
Os fungos estiveram entre os primeiros organismos que voltaram à zona destruída de Hiroshima, o ponto de onde se erguera o cogumelo atômico. Depois de Hiroshima, essas imagens do cogumelo começaram a aparecer por toda parte, na mídia e na cultura – corpos frutíferos de uma nova angústia global. Cientistas que trabalhavam em Chernobil depois do desastre nuclear ficaram surpresos ao descobrir delgados fios de fungos melanizados decorando o concreto tensionado do próprio reator, onde os níveis de radiação eram quinhentas vezes mais altos do que no ambiente normal. Ficaram ainda mais surpresos ao entender que os fungos estavam ganhando com os altos níveis de radiação ionizante: eles tiravam vantagem desses ventos que são normalmente letais, aumentando sua biomassa ao processar de alguma maneira esse elemento. Ecologistas dos Estados Unidos que estão estudando como as árvores norte-americanas vão reagir ao desgaste imposto pela mudança climática começaram a se concentrar na presença de fungos no solo como indicador-chave das chances de sobrevivência das futuras florestas. Estudos recentes sugerem que redes fúngicas bem desenvolvidas vão permitir que as florestas se adaptem mais rápido e em escala mais ampla às condições alteradas do Antropoceno.
“Aprender a enxergar musgos é mais parecido com ouvir do que com ver”, escreve a etnobotânica Robin Wall Kimmerer. “Os musgos […] são um convite para você passar um tempo bem nos limites da percepção normal.” Aprender a enxergar os fungos parece ainda mais difícil, pois exige sentidos e tecnologias que ainda precisamos desenvolver. É difícil até pensar como os fungos são valiosos, pois nos atraem para formas de vida que, de modo aliás muito instrutivo, ficam além da nossa compreensão. Sem dúvida, concepções ortodoxas e “ocidentais” da natureza parecem inadequadas para os mundos que os fungos criam. Na mesma medida em que nossas narrativas históricas de progresso passaram a ser questionadas, a própria noção de história foi remodelada. Não parece mais possível representar a história como a flecha que voa para a frente, ou como uma espiral que se intercepta. É melhor, talvez, vê-la como uma rede que se abre e se funde em diversas direções. Também parece ser cada vez mais adequado compreender a própria natureza em termos fúngicos: não como um pico nevado, isolado e reluzente, ou como um rio caudaloso em que podemos encontrar redenção, nem como um diorama que deploramos ou adoramos a distância – mas, sim, como uma colagem de emaranhamentos, da qual participamos de maneira desordenada. Estamos passando a compreender nossos corpos como o hábitat de centenas de espécies, das quais o Homo sapiens é apenas uma. Nosso intestino é como uma selva de flora bacteriana. Nossa pele é como uma superfície fantasticamente florida de fungos.
Sim, estamos começando a nos descobrir – nem sempre de maneira confortável ou agradável – como seres multiespécies que já participam de escalas de tempo que são fabulosamente mais complexas que a versão teleologista da história que muitos de nós ainda imaginamos habitar. A obra da bióloga radical Lynn Margulis e de outros pesquisadores mostrou que os humanos não são seres solitários, mas o que Margulis estupendamente chamou de “holobiontes” – organismos compostos e colaborativos, unidades ecológicas “formadas por trilhões de bactérias, vírus e fungos que coordenam a tarefa de viver juntos e dividir uma vida comum”, segundo a expressão do filósofo Glenn Albrecht.
No entanto, pouco desse raciocínio é novo, quando se considera a perspectiva das tradições animistas dos povos indígenas. A floresta fúngica que a ciência revelou a Merlin e que Merlin estava revelando a mim – uma floresta de conexões arbóreas e de uma abundante intercomunicação – parecia apenas oferecer evidências concretas para o que as culturas dos povos da floresta sabem há milhares de anos. Em inúmeras sociedades desse tipo, a floresta ou a vegetação são vistas como entidades conscientes, conjuntas e capazes de conversar. “Para os habitantes da floresta, quase todas as espécies de árvore têm sua voz própria, além de suas características peculiares”, escreveu Thomas Hardy em Under the Greenwood Tree. O antropólogo Richard Nelson descreve como o povo Koyukon, do interior florestal do que hoje chamamos de Alasca, “vive num mundo que os observa, numa floresta de olhos. Uma pessoa que passe pela paisagem – por mais selvagem e remota que seja […] jamais está sozinha de fato. O ambiente tem consciência, tem sentidos, é personificado. Ele sente”. Num ambiente eletrizado como este, a solidão vai presa na solitária.
Ali no bosque, com Merlin, eu me lembro de Kimmerer, Hardy e Nelson, e sinto uma repentina e enfurecida irritação com a ciência moderna, por apresentar como uma revelação o que as sociedades indígenas consideram óbvio. Lembro-me do raivoso romance político de Ursula Le Guin, ambientado num planeta-floresta em que seres das matas conhecidos como athsheanos conseguem transmitir mensagens a distância, de um para o outro, sinalizando por meio das árvores. Em Athshe – até a chegada de colonizadores decididos a explorar o planeta –, o reino da mente se integra à comunidade das árvores e “a palavra que significa mundo é floresta”.
Quatro horas depois do começo da nossa caminhada, Epping já está pregando as peças que as florestas sempre pregam: desorientação, ecos, uma recusa em se repetir. Muitas vezes penso que estou voltando por um caminho que já trilhamos, quando então nos vemos num trecho diferente do brejo, num bosque ou num matagal desconhecidos. Nossos passos levantam esporos invisíveis que os fungos do outono passado espalharam, fazendo com que penetrem nossos pulmões. Seguimos tão ao Norte que a floresta acaba, quicamos na M25, saltamos uma cerca de arame farpado e vamos descansar num campo que parece ser propriedade privada.
Não estamos exatamente perdidos, mas queremos saber onde a floresta se alarga de novo. Por isso uso meu celular para invocar a rede de satélites e abro um mapa híbrido da floresta. Dentro do meu aparelho, interagem nada menos que 63 elementos químicos diferentes, inclusive minerais e metais de terras raras extraídos quase sempre da China. Um ponto azul de lantânio pulsa para indicar nossa localização. Belisco e abro a tela para ajustar a escala. O mapa mostra que a floresta se abre num verde brilhante a sudoeste. Então é para lá que vamos – atravessando uma estrada movimentada e, depois, mergulhando mais fundo entre as árvores, até mal podermos ouvir o barulho dos carros.
Numa parte seca da floresta, num trecho de solo mais elevado, com pinheiros antigos, faias e uma submata de azevinho, paramos para comer e beber, sentados em meio a enroscadas raízes de pinheiro. Merlin comenta: “Os fungos estão sempre em busca da região mais rica em recursos, ou mais benéfica, indo mais fundo onde pressentem uma vantagem. Eles se abrem em leque e, caso encontrem um veio decente num lugar, vão minguando nas áreas pobres e concentrando os esforços em outro ponto.” Ele pega meu caderno e minha caneta e desenha um diagrama da clássica estrutura de hifas: um leque ramificado em que é difícil falar de um caule principal ou original, são apenas ramos e mais ramos.
No segundo ano de seu doutorado, Merlin foi realizar seu trabalho de campo nas florestas da América Central – na Ilha Barro Colorado, localizada no lago artificial de Gatún, no Canal do Panamá.
“Eu estava mais do que pronto para trocar o laboratório pela floresta”, ele diz. “Num laboratório de biologia molecular você tem controle quase total sobre esses mundinhos; você é o marionetista gigante que faz o seu objeto de estudo dançar conforme a música. Mas no campo você está dentro do objeto de estudo e a relação de poder é completamente diferente.”
Na ilha, Merlin se juntou a uma comunidade de biólogos de campo, todos eles dançando conforme a música da floresta. Trabalhou sob o olhar atento de um biólogo evolucionista chamado Egbert Giles Leigh Jr., que morava na própria base e recebia os recém-chegados em um escritório forrado de livros, onde tocava Beethoven no gramofone e bebia uísque-sem-gelo-sem-nada. Esse benévolo Kurtz era o arquivo e o zelador da ilha.
Parte dos experimentos que aconteciam na ilha era de alto risco, em termos de metodologia. Havia uma jovem cientista americana pesquisando o que Merlin chamou de “hipótese do macaco bêbado”. O plano era coletar urina de macaco depois que os animais tivessem se refestelado com frutos fermentados e avaliar os níveis de substâncias intoxicantes na urina. O problema era que os macacos tendiam a urinar lá de cima das árvores. Então, ela desenvolveu um funil de boca larga para pegar o líquido que caía.
“Só para deixar bem claro, ela estava fazendo macacos bêbados mijarem num funil lá do alto do dossel?”, perguntei.
“Exato – e dava um trabalho danado. Ela também parecia, digamos assim, uma candidata improvável para esse tipo de pesquisa em particular.”
Havia ainda um sujeito apelidado de Carinha das Abelhas, que prendia abelhas e grudava rádios rastreadores na barriga dos insetos para poder mapear seus padrões de movimento na hora da alimentação e da polinização.
“Mas o adesivo que ele usava não grudava direito porque as abelhas eram peludas e o ar estava úmido” explica Merlin. “Então ele tinha que capturar as abelhas e raspar um pedacinho do pelo do abdome para conseguir grudar com mais firmeza os rastreadores.”
Havia também o Cara dos Relâmpagos, que estudava os efeitos dos relâmpagos nos ecossistemas subterrâneos e tentava fazer os raios caírem em pontos específicos. Para isso, usava uma balestra para disparar uma série de dardos contra as nuvens de tempestade. Os dardos se projetavam amarrados a uma linha de cobre.
“Parece que era um circo”, eu digo.
“Basicamente, o que você descobria rapidinho é que se o seu experimento não estivesse à altura, a selva ia acabar com ele.”
Durante a segunda temporada na ilha, Merlin ficou interessado num tipo de plantas chamadas de “mico-heterotróficas” – “mico-hets”, como ele dizia, para resumir. As mico-hets são plantas que não têm clorofila e, portanto, não são capazes de realizar fotossíntese. Por isso, dependem completamente da rede fúngica para obter seu suprimento de carbono. Algumas são brancas. Outras são tingidas de lilás ou violeta.
“Esses fantasminhas se conectam à rede fúngica”, explica Merlin. “E de algum jeito tiram tudo dali sem pagar nada de volta, pelo menos não na moeda de sempre. Elas não respeitam as regras normais da simbiose, mas a gente não consegue provar que elas são parasitas. Dá para pensar nelas como se fossem os hackers da wood wide web.”
Merlin se concentrou num gênero de mico-hets chamado Voyria, um grupo de gencianas conhecidas como “plantas fantasmas”, cujas flores se espalhavam como estrelas roxas pelo solo da floresta da Ilha Barro Colorado. Trabalhando com moradores do local, ele realizou um minucioso censo do solo numa série de terrenos, recolhendo exemplares e sequenciando o DNA de centenas de amostras de raízes extraídas de plantas verdes e das Voyria. O censo lhe permitiu determinar quais espécies de fungos se conectavam a quais plantas – e assim elaborar um mapa da rede social da floresta com um grau inédito de detalhe.
“Foi só por acidente que eu tropecei na importância das Voyria”, diz ele. “Eu estava um dia andando à toa, procurando outra coisa, quando percebi que elas tinham praticamente desaparecido de um terreno onde eu aumentara a dosagem de fósforo. Foi assim que começou a minha sacada. A ciência está cheia dessas coisas: cheia de acasos, de tropeços e de gente trêbada e alucinada no campo ou no laboratório. Para mim é tão esquisito que a ciência sempre apresente o seu conhecimento como algo limpo.”
Um pica-pau-verde gargalha ao longe.
“Eu tenho um plano”, anuncia Merlin. “Para cada artigo científico formal que eu publicar na vida, vou escrever o seu gêmeo do mal, sua cópia no mundo subterrâneo – a verdadeira história de como foram realmente obtidos os dados para aquele artigo bacana e organizadinho tipo hipótese-dados-prova. Eu quero escrever sobre o acaso, as abelhas depiladas, os macacos mijões, as conversas de bêbado e as cagadas que na verdade fazem a ciência acontecer. É essa a rede borbulhante e enlouquecida que embasa e interconecta todo o conhecimento científico – mas da qual a gente quase nunca fala.”
No fim do dia, chegamos a um lago na floresta, onde um barranco leva à água rasa.
Peixes se alimentam à sombra. Galinhas-d’água resmungam. O lago arrota bolhas de gás. Merlin e eu nos sentamos de frente para o pôr do sol, curtindo seu calor.
Duas pessoas se aproximam, com seus cachorros, rostos cheios de esperança. “Vocês sabem onde é que fica o Centro de Apoio ao Visitante? A gente se perdeu.”
“Não, a gente também está perdido”, eu digo, contente.
Trocamos palpites, dividimos informações, e eles seguem em frente.
Sentado calmamente sob o sol, junto ao lago, fico pensando em como buscamos compreender a wood wide web. Os dois principais modelos de interpretação de que Merlin me falou – o modelo “socialista” e o do “mercado livre” – injetam uma política demasiadamente humana numa ciência mais que humana. Segundo o modelo do “mercado livre”, a floresta interconectada deve ser compreendida como um sistema competitivo, no qual todos os participantes agem por interesse próprio, calculando o custo-benefício e regulando uns aos outros através de sistemas de “sanção e recompensa”. Segundo o modelo “socialista”, por outro lado, as árvores cuidam umas das outras, dividindo recursos por meio da rede fúngica numa troca em que as que estão em melhores condições sustentam as que estão mais necessitadas.
Pergunto a Merlin sobre essa questão de como a política parece pesar de maneira especial nos estudos das micorrizas. Ao que me parece, não estão em jogo apenas as relações da natureza, mas também a natureza das relações.
“Você tem toda razão. No meu campo, as escolhas discursivas têm muita força para determinar a direção da pesquisa. ‘Sanção e recompensa’, por exemplo, é um conceito técnico central nos estudos de micorrizas, não só um ornamento discursivo. A metáfora conduz o trabalho. Eu vivo lendo artigos com uns títulos tipo ‘Bens desiguais compartilhados sob termos comuns de troca’.”
“Parece alguma coisa encomendada pelo Instituto Ayn Rand”, eu digo.
“Verdade. Um horror. Politicamente, é claro que eu me inclino a recusar a linguagem do mercado livre biológico, bem mais do que a versão socialista”, diz Merlin. “Por que a gente devia esperar que fungos e plantas se comportem como os humanos passaram a se comportar economicamente no século XVIII, com a emergência das sociedades de responsabilidade limitada? Eu acho tão bizarro. É um dos motivos de eu adorar as Voyria. Elas exigem imediatamente que você vá além da análise de custo-benefício quando pensa na vida vegetal. Mas eu também tenho certo ceticismo quanto ao sonho socialista dos fungos generosos e atenciosos, uma visão cor-de-rosa que enxerga as árvores como enfermeiras, cada uma cuidando de todas as outras, com ‘árvores-mães’ reconhecendo e conversando com sua prole, e ‘árvores feridas’ que de modo abnegado transmitem seu legado às vizinhas antes de morrer.”
“Eu estou cansado dessas duas histórias”, Merlin me diz quando deixamos o lago. “A floresta é sempre mais complexa do que nós sequer podemos imaginar. As árvores geram sentidos, além de oxigênio. Para mim, caminhar por uma mata é como representar um papel insignificante numa peça misteriosa que se desenrola em várias escalas temporais.”
“Talvez, então, o que a gente precisa ter para compreender os subterrâneos da floresta seja uma linguagem completamente nova”, eu digo. “Uma linguagem que não converta a vegetação aos nossos valores de um modo automático. A nossa gramática atual milita contra a vida animada; nossas metáforas, por hábito e por reflexo, subordinam e antropomorfizam o mundo mais que humano. Talvez a gente precise de um sistema linguístico absolutamente novo para falar dos fungos… Precisamos falar com esporos.”
“Isso”, concorda Merlin, com uma veemência que me deixa surpreso, batendo o punho contra a palma da mão. “É exatamente o que a gente precisa fazer – e isso é tarefa para você”, ele diz. “Essa é a tarefa de escritores, artistas, poetas e de vocês todos.”
O potawatomi, uma língua nativa americana da região das Grandes Planícies, conta com a palavra puhpowee, que pode ser traduzida como “a força que faz com que os cogumelos surjam da terra da noite para o dia”. Robin Wall Kimmerer registra que em “todo o seu vocabulário técnico, a ciência ocidental não tem um termo assim, não tem uma palavra que abarque esse mistério”.
A própria Kimmerer faz parte da Nação dos Cidadãos Potawatomi. Falante do que chama de “botânica fluente”, ela toma muito cuidado para distinguir o que considera “a língua das plantas” – ou seja, a língua que as plantas falam – em oposição à língua que é usada para se falar das plantas. Kimmerer não desdenha da precisão do léxico botânico, que “lustra o dom da visão”, mas também acha que se trata de um léxico de objetificação e distanciamento, e que algo lhe falta sob sua superfície finamente lapidada. E o que falta é o reconhecimento da vida no mundo mais que humano, uma indiferença que está impregnada na língua não apenas no nível das palavras isoladas, mas no nível mais profundo da gramática e da sintaxe.
Já em potawatomi quase todas as palavras informam se aquilo a que se referem é animado ou inanimado. A língua é predisposta a reconhecer vida na alteridade e também a estender o alcance dessa categoria chamada “vida” muito além dos limites familiares ao mundo ocidental. Em potawatomi, não apenas os humanos, animais e árvores estão vivos, mas também as montanhas, os rochedos, os ventos e o fogo. Histórias, canções e ritmos também são animados: eles são, eles estão. O potawatomi é uma língua cheia de verbos: 70% de seus vocábulos são verbos, contra 30% do inglês. Wiikwegamaa, por exemplo, significa “ser uma baía”. Kimmerer escreve: “Uma baía é um substantivo somente se a água estiver morta, presa entre as margens e contida pela palavra. Mas o verbo […] libera a água dessa servidão e permite que viva. ‘Ser uma baía’ contém o espanto diante do fato de que, por enquanto, a água viva tenha decidido se abrigar entre essas margens, em contato com raízes de cedros e um bando de mergulhões bebês.”
Como Kimmerer, eu gostaria de dispor de uma língua que reconheça e estimule o lado animado do mundo, “a vida que vibra em pinheiros, pica-paus e cogumelos […] que inunda o nosso entorno”. Como Kimmerer, eu me deleito com os aspectos da nossa fala que estendem a existência e a senciência, com respeito e flexibilidade, para além dos portadores convencionais dessas qualidades. Como Kimmerer, acredito que precisamos, agora, de uma “gramática da animação”. Na “linguagem mamífera”, termo criado pelo poeta Jeremy Prynne, existe uma disposição moderna a considerar a animação como anomalia. Ao falar em “linguagem mamífera”, Prynne se referia à linguagem usada pelos humanos, que codifica intenção, atitude e força muscular num nível profundo de sua gramática.
Os verdadeiros subterrâneos da linguagem não são as raízes de palavras isoladas, mas sim o solo fértil da gramática e da sintaxe, onde hábitos discursivos – e, portanto, também hábitos mentais – se acomodam e interagem durante longos períodos de tempo. A gramática e a sintaxe exercem uma poderosa influência nos procedimentos da linguagem e de seus usuários. Palavras criam mundos – e a linguagem é uma das grandes forças geológicas do Antropoceno.
Recentemente, surgiram em todos os lugares projetos que buscam adquirir nem que seja o mais básico vocabulário para as experiências de vida e morte no Antropoceno. Essas vagas tentativas de dizer o que estamos fazendo acabaram gerando feios neologismos para uma época feia: “geotraumatismo”, “disforia planetária”, “culpa-clímax”. Essas palavras parecem formas inúteis de nominalismo, uma hiperatividade desesperada para apontar, para nomear. Elas ficam atravessadas na garganta de duas maneiras: são difíceis de pronunciar e duras de engolir.
Só uma dessas criações vocabulares recentes me toca: “solidão da espécie”, para designar o intenso isolamento que estamos forjando para nós mesmos na medida em que arrancamos da terra o restante da vida de que fazemos parte. Se existe um sentido humano a ser derivado da expressão wood wide web, trata-se seguramente da ideia de que a colaboração é a única coisa que nos oferece uma chance de salvação enquanto caminhamos rumo aos séculos incertos e instáveis que nos aguardam. É o mutualismo, a simbiose, o inclusivo trabalho humano da tomada coletiva de decisões, estendido às comunidades mais que humanas.
Você olha para a rede, e aí ela começa a olhar para você também…
Escrevendo sobre fungos das micorrizas, Glenn Albrecht propõe que se rebatize o Antropoceno, que passaria a ser chamado de Simbioceno – um período caracterizado, em termos de organização social, “pela inteligência humana, que é capaz de replicar as formas e os processos simbióticos e mutuamente sustentáveis de reprodução da vida que podemos encontrar em sistemas vivos […] tais como a wood wide web”.
A palavra que significa mundo é floresta.
Naquela noite, bem no meio da floresta, longe de qualquer estrada, perto de um aterro da Idade do Ferro e de um antigo bosque de faias aparadas, numa elevação apelidada de Morro da Amizade, Merlin e eu nos preparamos para passar a noite. Cavamos um buraco raso para a fogueira, arrastamos troncos mortos de bétula para usar como bancos e acendemos o fogo usando folhas e ramos secos, coisa proibida pelos estatutos da Floresta de Epping, enquanto murmuramos pedidos de desculpas à Prefeitura de Londres.
Merlin abre a mochila e tira um pequeno frasco que contém um líquido escuro, verde-musgo. Ele sacode o frasco.
“Extrato de coca. Feito em casa. O estimulante perfeito depois de um dia entre as folhas.”
Ele mexe de novo na mochila e tira outro frasco. “Hidromel feito em casa”, diz ele.
Mexe outra vez, tira um terceiro. “Cidra feita em casa.”
O vidro marrom da garrafa tem apenas um rótulo branco, em que está escrita a palavra “Gravidade”.
“Eu fiz com umas maçãs que caíram da macieira de Newton em Cambridge. É bem difícil chegar até a árvore. Fica no Trinity College. A segurança é bem estrita. A gente teve que passar a mão nas frutas na calada da noite. Queria mesmo era ter trazido o primeiro lote que a gente fez, com umas maçãs roubadas do pomar de Darwin, em Down House. Você provavelmente imagina o nome desse primeiro lote.”
“Evolução.”
“Bingo.”
Algumas pessoas começam a emergir das sombras das árvores, sozinhas e aos pares: amigos meus e amigos de Merlin, amigos de nossos amigos, convidados pelas redes sociais, por mensagem de texto, por telefone, que convergiram à nossa localização exata por GPS. Um traz uma gaita, dois vêm com violões, e o irmão de Merlin traz dois pares de ossos percussivos e um tambor.
Mariposas dançam em torno das chamas. Satélites cintilam acima de nós. O vermelho das luzes de aterrissagem dos aviões, visível pelas frestas da timidez do dossel, traça trilhas entre as folhas. Tenho uma vigorosa sensação de que a floresta espreita à nossa volta, acima e abaixo de nós.
Bebo o extrato que Merlin trouxe, sinto que minha mente fica imediatamente aguçada. A fogueira cumpre seu efeito mágico de gerar histórias e produzir um sentimento de hospitalidade. As pessoas conversam, restabelecem conexões antigas, criam novas, dão origem a uma comunidade temporária naquele espaço florestal sustentado pelo fogo. Merlin e eu contamos algumas das narrativas subterrâneas do nosso dia. Merlin fala, recorrendo a Anna Tsing, do solo da floresta como uma cidade, uma cidade sob os nossos pés, em que inumeráveis espécies e tipos de matéria estão em constante interação.
Um rapaz, cujo apelido é Coruja de Mão, toca bluegrass usando apenas a concha das mãos, piando e gritando. Surgem canções tradicionais – Nine-Pound Hammer, Seven Drunken Nights, Brown Trout Blues –, e as pessoas se alternam em estribilhos e versos. Merlin toca os ossos, batendo um ritmo novo para cada canção. A noite traz o frio, e o fogo dá calor.
Tambores, canções, histórias. As árvores se movendo, falando, atarefadas na produção de sentidos que não consigo ouvir. Fungos se contorcendo nos troncos de bétula, embaixo da terra.
Estou encostado num tronco caído de bétula, com os pés estendidos para a fogueira, ao lado de Tara. Tara é alta, fala com delicadeza, é grega. Ela é cantora. Cresceu numa pequena ilha do Mediterrâneo. Aprendeu a canção e aquela impostação de voz com uma emigrante russa que as marés da história jogaram na sua ilha natal. Ela me conta as consequências da crise dos refugiados para a ilha: as redes de apoio que foram estabelecidas para os refugiados, mas também a resistência dos ilhéus que viram na chegada deles uma ameaça ao seu modo de vida.
“A coisa chega a um ponto, quando você vê outros seres humanos se afogando, ou jogados na areia sem mais nada, em que a única possibilidade é ajudar de todo o coração”, diz Tara. “Não é bondade, exatamente – porque nesse ato existe menos escolha do que as pessoas pensam, e por isso mesmo é menos nobre.”
Mais tarde, Tara canta uma triste canção de sua ilha, e meu coração se parte um pouco. As chamas se reduzem ao ronronar de poucas brasas.
Estou cansado demais para ficar até que o fogo apague, então entro a esmo na floresta em busca de um lugar para dormir. Ao olhar para trás, vejo apenas o brilho alaranjado, sombras projetadas nos troncos do entorno – e então a luz do fogo diminui até se perder nas trevas da floresta.
Eu me vejo num bosque de faias aparadas sobre um aterro pré-histórico. Embaixo de uma delas, crianças fizeram uma cabaninha de galhos que apoiaram contra um ramo baixo, de modo a formar uma barraca torta de madeira, comprida o bastante para eu poder dormir ali. É um convite. Não posso recusar, então entro e me deito, olhando para cima, pelas fendas, vendo galhos, estrelas, satélites. Eu me sinto repentina e vivamente cercado de seres que se relacionam uns com os outros de maneira vaga mas claramente perceptível, como que vistos através de uma gaze espessa. A sensação gera ao mesmo tempo conforto e solidão.
Pio de coruja. Latido de cão. Lá na clareira o fogo baixa, os cantos se calam. O dossel de faias se estende sobre mim, sussurrando com a brisa noturna. Tem uma coisa que você precisa ouvir… Procurando o sono, minha mente segue de folha a ramo, de ramo a tronco, de tronco a raiz, e dali desce pelas hifas que entretecem o fundo da terra.
[1] Citação do romance The Overstory, do escritor norte-americano Richard Powers.