CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023
Ouro sangrento
Davi Kopenawa denuncia em Nova York o garimpo ilegal
Marcella Ramos | Edição 198, Março 2023
Dias antes do encontro de Lula com Joe Biden, no dia 10 de fevereiro em Washington, teve início na Amazônia uma operação de desmonte do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Agentes do Ibama, da Funai e da Força Nacional de Segurança Pública destruíram aeronaves e tratores usados por garimpeiros, além de apreenderem milhares de litros de combustível, freezers, geradores e antenas de internet. Diante deste cenário, Lula propôs a entrada dos Estados Unidos no Fundo Amazônia – e Biden prometeu uma contribuição de 50 milhões de dólares.
Exatamente uma semana antes da reunião dos presidentes, o líder indígena yanomami Davi Kopenawa estava no auditório da Escola de Relações Públicas e Internacionais da Universidade Columbia, em Nova York, para uma palestra associada ao lançamento da exposição The Yanomami Struggle (A luta yanomami), em cartaz até 16 de abril no The Shed, um centro de artes em Nova York. Kopenawa – que vinha de uma palestra anterior para o público universitário, em Princeton – começou denunciando o mal duradouro que o garimpo deixou no território indígena. “A doença não vai sair. A doença fica”, disse.
Naquela sexta-feira, dia 3 de fevereiro, já circulavam na imprensa as fotos de yanomamis com desnutrição extrema que despertaram a atenção pública para a catástrofe humanitária na Amazônia, mas a operação policial contra o garimpo ainda não havia começado. Kopenawa estava certo de que o governo finalmente tomaria as providências necessárias. “A retirada dos garimpeiros imediatamente é urgente, esse mês. Não é amanhã, depois de amanhã, não. É hoje”, afirmou. “Já esperei muitos anos, trinta anos, já esperei o governo brasileiro tirar. Agora o governo Lula vai cumprir a palavra dele, que ele prometeu.”
Kopenawa explicou aos universitários que a educação indígena está diretamente relacionada ao meio ambiente. “Queria que vocês, estudantes, entendessem que o meu estudo é diferente”, disse. O auditório, com duzentos lugares, estava lotado, e algumas pessoas acompanhavam a conversa do lado de fora, pela porta aberta. “Fico olhando arara passando, chuva passando, a luz clareando. Eu aprendi assim. Vocês não, vocês ficam com as janelas fechadas. Vocês aprenderam diferente.”
Para o líder yanomami, a Terra é um ser vivo. O que os brancos chamam de “mudanças climáticas”, os xamãs chamam de “vingança da Terra”, que estaria “guerreando contra homens da cidade que usam máquinas pesadas, que ficam arrancando as riquezas da terra, e a Terra não gosta”. Essas riquezas são usadas para fazer carros, celulares, computadores.
A crítica de Kopenawa avançou contra o consumismo e os Estados Unidos: “E onde começou isso? Aqui nesta região. Os americanos que inventaram de fazer isso. Vocês são filhotinhos deles.” Na plateia, algumas pessoas bateram palmas. A conversa foi em português, com tradução simultânea para o inglês, mas menos da metade dos aparelhos de tradução foram usados. O público era majoritariamente branco e brasileiro.
O líder indígena deu a palestra acompanhado pelo filho mais velho, Dário Kopenawa. Uma pessoa da plateia perguntou se eles tinham informações sobre as denúncias de que militares teriam recebido suborno para avisar garimpeiros sobre as operações da Funai. “Nossos parentes já falaram pra gente e nós já denunciamos”, respondeu Dário. “Nós temos a informação de que os pelotões do Exército na Terra Yanomami receberam propina para não coibir o garimpo, mas não temos provas. A Polícia Federal tem que fazer a investigação.”
Com uma apresentação de PowerPoint, Dário se esforçou para dar uma ideia da violência que o Território Yanomami vem sofrendo. Fotos mostravam rios mortos e enormes extensões de terras devastadas pelo garimpo. “Isso nós entregamos para todas as autoridades do governo Bolsonaro. Eu entreguei para o vice-presidente Mourão todos os documentos”, disse.
As imagens indicam que não são apenas garimpeiros pobres que destroem as terras indígenas. Há operações grandes, caras, com maquinário pesado. Em fevereiro de 2022, o Instituto Escolhas analisou mais de 40 mil registros de comercialização de ouro emitidos entre 2015 e 2020. O estudo revelou que 229 toneladas de ouro, quase a metade do total produzido e exportado pelo Brasil, tem origem incerta, com registros que não especificam a área de extração. Outro relatório do instituto, com dados de 2018 a 2020, identificou que mais da metade do ouro duvidoso vem da Amazônia, sobretudo do entorno de quatro Terras Indígenas: Areões (em Mato Grosso), Kayabi (entre Mato Grosso e o Pará), Xikrin do Cateté e Kayapó (ambas no Pará).
Também a Terra Indígena Yanomami, localizada entre Roraima e Amazonas, é uma das prejudicadas pelo garimpo ilegal, com 1 557 hectares afetados, segundo o Mapbiomas. Os dados oficiais, porém, não registram operações em Roraima de venda de ouro – o que indica que o ouro extraído da terra yanomami de maneira ilegal é possivelmente contrabandeado para outras regiões, para entrar no mercado formal.
Ao comprar ouro no Brasil, é quase impossível se certificar de que o metal não é proveniente de áreas de proteção ambiental ou terras indígenas. Não existe no país um sistema para rastrear a origem e atestar a conformidade ambiental e social do ouro, cujo comércio é feito exclusivamente por distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMS). Desde a lei 12.844, de 2013, as DTVMs são eximidas da responsabilidade pela extração ilegal. As transações podem ser feitas na “boa-fé”: se o fornecedor disser que o ouro é de área permitida, a DTVM não precisa verificar se isso é verdade.
O Instituto Escolhas defende que o ouro brasileiro seja classificado como de “alto risco” pela União Europeia. Entre os países que mais adquirem o metal brasileiro, estão Canadá, Reino Unido, Índia e Suíça. Em 2022, os Estados Unidos foi o décimo país que mais importou ouro do Brasil. “Quem usa aliança de ouro, está usando sangue de yanomami”, disse Dário Kopenawa, causando um pequeno burburinho na plateia.
