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    CRÉDITO: CAIO BORGES_2023

poesia

Para todos e para ninguém

Seis poemas inéditos do paraense Age de Carvalho

Age de Carvalho | Edição 205, Outubro 2023

A+ A- A

Apresentação de Carlos Adriano

Em 1997, o poeta paraense Age de Carvalho estava vivendo em Munique e soube que Chico Buarque iria lançar na cidade o livro Der Gejagte (O caçado), a tradução feita por Karin von Schweder-­Schreiner do romance Estorvo, publicado no Brasil seis anos antes. O poeta resolveu ir ao lançamento. Ao lado de Chico Buarque, estava o missionário-mor da literatura brasileira na Alemanha, Curt Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa, Machado de Assis e Clarice Lispector, entre outros clássicos. Meyer-Clason e Carvalho trocaram telefones e endereços.

Por sugestão do poeta e tradutor André Vallias, seu amigo, Carvalho decidiu enviar a Meyer-Clason seu livro de poemas Ror (lançado no Brasil em 1990). “Era apenas uma dedicatória, expressando admiração e estendendo-lhe a mão. Eu não esperava resposta”, ele conta.

 

Poucos dias depois, porém, chegou a resposta, na forma de um pacote de cor parda. Carvalho abriu o envelope e teve uma surpresa: Meyer-Clason havia traduzido alguns poemas de Ror e, em uma carta gentil, propôs que trabalhassem juntos. Os dois travaram amizade. Em 2006, foi publicado na Alemanha Sangue-gesang, uma antologia de quarenta poemas de Carvalho traduzidos por Meyer-Clason (Gesang significa canto, em alemão).

Quem assinou o posfácio da edição alemã foi o filósofo Benedito Nunes (1929-2011), que, no texto Esse saber negativo, escreveu o seguinte sobre a poesia de Carvalho: “Em seus versos líricos, de amplitude dramática, com imagens explosivas, barrocas, a arquitetura torna-­se um edifício de escombros: a saison en enfer (temporada infernal) da Floresta Amazônica incinerada.”

A referência à Amazônia está relacionada à visão do poeta do paulatino declínio da floresta. “O Pará tem pautado o noticiário como um estado infestado de garimpos ilegais, fazendeiros grileiros próximos do bolsonarismo, assassinos políticos de aluguel, terra geral dos sem-lei – o que, infelizmente, é tudo verdade”, diz Carvalho à piauí.

 

Para ele, o Pará e Belém têm agora a chance, com a Cúpula da Amazônia (realizada em agosto) e a 30ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática (que acontece em 2025), “de aparecer sob luzes mais auspiciosas, espanando de vez o atraso que os quatro anos de desgoverno Bolsonaro trouxeram ao estado: menos Jesus, menos manipulação através de superstições, menos armas, e mais ciência, educação, saúde e terras demarcadas para os povos indígenas”. O poeta acrescenta: “Esse é o meu desejo profundo, como filho da terra que sou.”

Quando Meyer-Clason fez 90 anos, Carvalho lhe dedicou o poema As árvores de Heine, em que associa um pinheiro europeu coberto de neve com uma palmeira brasileira, recorrendo, em alemão, a versos de Heinrich Heine (1797-1856):

Aqui te revejo,
um pinheiro:
ein Fichtenbaum steht einsam
im Norden auf kahler Höh.[1]
Teu manto de neve
se arrasta
          para o Sul,

 

er träumt von einer Palme,[2]
sonha aquela,
aquela palmeira,
palmeirinha, mata brasileira, da silva […]

Meyer-Clason morreu em 2012, aos 101 anos de idade. “Curt era um homem elegante, curiosíssimo por tudo e cheio de energia”, recorda Carvalho, que vive na Europa desde 1987 e fez de Viena sua cidade, ao lado da mulher Angelika, de origem austríaca, e dos quatro filhos.

Na Áustria, porém, ele é mais conhecido como designer gráfico. Trabalhou na revista Wiener, que marcou a imprensa cultural vienense entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990 e, na mesma época, compartilhou os prêmios internacionais de design dados à revista cultural .copy. Também criou várias logomarcas de estabelecimentos da capital austríaca e a identidade visual de um assentamento urbano próximo de Munique, o Freiham.

No Brasil, quando se fala o nome Age de Carvalho nos círculos literários, há sempre um sinal de reverência. Ele construiu uma sólida trajetória, que suscitou a admiração dos nomes mais díspares da literatura. “Em alguns momentos, dá a impressão de estar começando onde João Cabral parou. […] Carvalho mostra que está a ponto de se tornar um dos nomes mais representativos e destacados da poesia contemporânea brasileira”, escreveu o poeta Claudio Willer, em 1990, no Jornal do Brasil, sobre Ror, livro publicado na coleção Claro Enigma, editada pelo poeta Augusto Massi (com quem Carvalho lançou, em coautoria, Móbiles, em 1998). Em uma carta, o poeta e ensaísta Affonso Ávila saudou Caveira 41 (2003) com esta observação: “Conciso, limpo de aparas e redundâncias, pareceu-me exemplo para o que se pode fazer hoje no Brasil em matéria de renovação da linguagem poética.”

Mas os elogios vinham de bem antes. Sobre Arquitetura dos ossos, seu primeiro livro, de 1980, Carlos Drummond de Andrade escreveu – em uma carta ao autor, de 12 de outubro daquele ano – que era um “livro de intensa vibração poética”. A correspondência entre eles continuou. Em 23 de fevereiro de 1983, depois de receber a plaqueta Os incêndios, Drummond comentou com Carvalho: “Fiquei maravilhado com o seu poema Os incêndios. E honrado com a inclusão de dois versos meus como epígrafe dessa obra excelente.” As cartas de Ávila e Drummond foram reproduzidas no livro Age de Carvalho: todavida, todavia.

 

Nascido em Belém há 64 anos, Age de Carvalho começou a escrever poesia no “curso científico” (equivalente ao atual ensino médio). Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), descobriu o design gráfico. “Tornou-se a minha profissão e o meu ganha-pão”, diz ele. Também se envolveu com a imprensa cultural. Editou a página dominical literária Grápho, publicada primeiro no jornal A Província do Pará (em 1983) e depois em O Liberal (entre 1984 e 1985). Ele escrevia resenhas, notícias, traduzia e diagramava. Para Grápho, fez cerca de setenta traduções, de Georg Trakl a Paul Celan, de Dylan Thomas a John Cage.

Em abril de 1980, Carvalho, então com 21 anos, foi apresentado por Benedito Nunes ao poeta paraense Max Martins (1926-2009), que se tornaria presença nuclear em sua vida e em sua obra. Carvalho passou a frequentar o Porto Max, nome da cabana que Martins mantinha na Ilha do Mosqueiro, a cerca de 60 km de Belém – um paraíso da natureza, mas também do diálogo e do aprendizado.

Como organizador da coleção Max Martins: poesia completa, Carvalho é responsável por repor em circulação a obra do amigo, em um raro exemplo de serviço público à cultura e de generosidade intelectual. A correspondência entre os dois poetas, que durou 24 anos, está sendo organizada para publicação por Mayara Ribeiro Guimarães, professora de literatura brasileira na UFPA.

 

Carvalho conta que não participa da cena literária austríaca e europeia. E acrescenta: “Nem a daqui, nem a daí, do Brasil.” Mas não é sempre assim. Ele já fez leituras de seus poemas em Viena, Berlim, Frankfurt, Leipzig, Paris e outras cidades na Europa. O poeta diz que prefere ser “espectador sempre, nunca protagonista”, estado de espírito que se intensificou em Viena. “Aqui, levo uma vida algo retirada, mantenho certa reclusão. A cidade funciona em tudo, mas é tímida para as relações humanas.” Há vinte anos, em entrevista à Folha de S.Paulo, Carvalho descreveu os poetas como seres acossados “falando para todos e ninguém, pagando a crédito a sua entrada no Inferno (que é a linguagem)”.

Depois de cinco anos sem vir ao Brasil, ele fez uma visita ao país em setembro, com o objetivo de rever parentes e amigos e fazer leituras de seus poemas em eventos em Belém. “O ar está limpo de novo, há esperança à frente, volta-se a respirar”, diz, sobre o país. Ele conta que ficou aliviado com a derrota de Jair Bolsonaro, que define como uma “figura esdrúxula de mau gosto que arrota porras a rodo diante dos microfones”.

Seu último livro lançado no Brasil, em 2018, foi Age de Carvalho: todavida, todavia, uma antologia de trabalhos em poesia, jornalismo e design gráfico, organizada por ele e Ribeiro Guimarães. Um livro inédito, De-estar, entrestrelas, com cerca de noventa poemas, aguarda publicação. É dele que a piauí publica seis poemas na página ao lado – uma amostra da poesia exigente e sem concessões de Carvalho, em que a arquitetura rigorosa se faz por um laconismo misterioso, tensionando os versos na rarefação vocabular e no pleno potencial do vazio.

 

“Vem comigo” —

e cruzamos a cidade atrelada ao pedal
alado sob estrelas
até o centro do Anel,
até as portas difusas do Hawelka e Alt-Wien
à hora erma,
até a redoma com a Árvore Cravejada
posta-em-ferros,
depostos
2 nomes e o segredo
de sermos um e par sob o brilho da uva nova,
lua, que bebi da tua boca.

 

“Vem comigo” —
Graben–Ring–Naschmarkt–Heurige
na volta,
mais alta Vênus nua entre-nuvens,

 

e vinhas.

 

 

W.B. liberto

Um campo, dialético, aqui
interfere: ontens no hoje
consubstanciados,
a imagem
enfim deixa-se ler,
começa a andar —

 

era final de verão
agora,
foi presente é passado
agora,
o espaço no tempo
neste quarto de-horas
onde a mala se reafivela, voltas
a ferver em febre,
voltas, vivo de novo,
podes respirar.

 

À tua memória,
desarquivada, à tua uni-
estrelada noite em viagem
salvemos:

 

a fronteira livre agora,
podes passar.

 

 

EU, CONTIGO
nesse bífido-bilíngue, anglo-
saxão pro-
nome, de pé, ereto: I,

Daniel B.,

por ti ergo o braço
tatuado, digo presente,
a serpente te enlaçando no escuro:
a ti saúdo, tantos-muitos, na hora de tua queda
e do último abraço.

 

 

Ao sol,

um ramo de oliveira

Hymen o Hymenaee,

à beira
do oceano-piscina,
onde deusinhas espreitavam
à sombra, atrás da costela exposta
do magro,
eterno last-minute
de tua juventude

Hymen ades o Hymenaee!

indo, vindo
no vento.

 

 

AGORA, LIVRE,

teu passo apagado do mundo —

da vala comum admiras,
sem mim, o sem-fim te emendando
às estrelas.

Sobre a minha cabeça, o Inevitável: todo
o céu se adrasteia.

 

 

TOCOU-SE TRÊS VEZES,

olor colante nos dedos,
o mento baixo, mirando-se transmudada
em si-mesma, agachada
no toalete:

a inclinada estrela
sobre o dorso moreno, Matelda
colhendo o jacinto e o ciclâmen
no Y em-flor
dos pequenos lábios.

Ela, dona
de artes sumo e deleite.

Ela, lei —
se dilatando, musa e suma dei-
dade, régia agora
sobre

e le mie luci, ancor poco sicure*[3]

o cosmo.


[1] “Solitário, na montanha,/Um pinheiro do Hemisfério Norte/dorme sob a manta/Branca de gelo e de neve” (na tradução de André Vallias, em Heine Hein?).

[2] “Ele sonha com a palmeira.”

[3]* “e meus olhos, ainda pouco seguros”, Canto XXXI, v. 79, do Purgatório, de A divina comédia, de Dante Alighieri. (N. R.)

Age de Carvalho

É poeta e tradutor, autor de Ainda: em viagem (editora da UFPA), entre outros

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