CRÉDITO: ARI HISAE_2023
Paterson
Um trecho do longo poema sobre a semelhança entre a mente do homem moderno e a cidade
William Carlos Williams (1883-1963) | Edição 203, Agosto 2023
Apresentação e tradução de Ricardo Rizzo
Publicado entre 1946 e 1958 em cinco tomos, Paterson é um dos monumentos da literatura modernista americana. Seu autor, William Carlos Williams (1883-1963) definiu a obra como “um longo poema a partir da semelhança entre a mente do homem moderno e a cidade”. A cidade escolhida pelo poeta foi Paterson, em Nova Jersey, de significativa importância para a história dos Estados Unidos e onde Williams trabalhou como médico. Nela transita o protagonista deste épico, o também médico dr. Paterson, o homem-cidade. A piauí publica a seguir o início do livro, pela primeira vez traduzido na íntegra no Brasil.
: uma atração local; primavera, verão, outono e o mar; uma confissão;
um cesto; uma coluna; uma resposta a gregos e latinos com as próprias
mãos; uma seleta; uma celebração;
em termos característicos; por multiplicação uma redução a um;
audácia; uma queda; as nuvens resolvendo-se numa barragem
de areia; uma pausa imposta;
difícil dizer; uma identificação e um plano de ação
para suplantar um plano de ação; uma correção de rumo; um espraiamento
e uma metamorfose.
Prefácio
“O rigor da beleza é o que se deve buscar. Mas como
encontrar a beleza quando ela está trancada no
pensamento, para além de toda interpelação?”
Produzir um começo,
a partir de particularidades
e torná-las gerais, integrando
a soma, por caminhos tortos –
Farejando as árvores,
só mais um cachorro
num bando de cachorros. O que
mais haveria? E o que fazer?
Os demais se foram –
atrás dos coelhos.
Apenas o manco ficou – sobre
três patas. Coça na frente e atrás.
Engana e come. Desenterra
um osso mofado.
Porque o começo é seguramente
o fim – já que não sabemos nada, pura
e simplesmente, além
de nossas próprias complexidades.
E ainda assim
não há volta: ele vem vindo de dentro do caos,
um milagre de nove meses, a cidade
o homem, uma identidade – nem poderia ser
de outra forma – uma
interpenetração, mão dupla. Vem
vindo! anverso, reverso;
o bêbado o sóbrio; o ilustre
o bruto; um só. Na ignorância
um certo conhecimento, e no conhecimento,
concentrado, seu próprio desmonte.
(A múltipla semente,
recheada de detalhes, azeda,
perde-se no fluxo e no pensamento,
distraída, sai flutuando na mesma
espuma)
Vindo, vindo carregada de
números.
É o sol ignorante
nascendo no lugar dos
ocos sóis nascidos, de modo que nunca neste
mundo um homem viverá em paz em seu corpo
senão morrendo – e sem saber-se
morrendo; entretanto, esse é
o desígnio. Renova-se a si mesmo
assim, em soma e subtração,
vagando para cima e para baixo.
e o ofício,
subvertido pelo pensamento, vem vindo, ele
que tome cuidado para não terminar apenas
autor de uns poemas mofados…
Cabeças feito camas sempre arrumadas,
(mais pedregosas que uma orla)
omissas ou incapazes.
Ao descerem rolando, de pé,
abaixo, estocam e recuam, uma imensa algazarra:
erguidas como ar, infladas, multicor, uma
lufada de mares –
da matemática aos particulares –
divididas como o orvalho,
névoa flutuante, prestes a chover e
reagrupar-se em um rio que flui
e revolteia:
conchas e animálculos
geralmente e assim chegam ao homem,
a Paterson.
O DELINEAMENTO DOS GIGANTES
Paterson fica no vale abaixo das cataratas do Passaic,
as águas derramadas formando a linha de seu dorso. Deitado
sobre seu lado direito, a cabeça perto do trovão
das águas que lhe enchem os sonhos! Eternamente adormecido,
seus sonhos percorrem a cidade onde ele persiste,
incógnito. Borboletas acampam em seu ouvido de pedra.
Imortal, ele nem se move nem incita e quase nunca é
visto, embora respire e as sutilezas de suas maquinações,
extraindo sua substância do barulho do caudaloso rio,
animem mil autômatos. Que por não conhecerem
nem suas fontes nem o limiar de suas
frustrações caminham sem rumo
fora de seus corpos a maior parte do tempo,
trancados e perdidos em seus desejos – dormentes.
– Diga, nenhuma ideia fora das coisas –
nada exceto as faces neutras das casas
e árvores cilíndricas
torcidas, bifurcadas pelo preconceito e acidente –
fendas, sulcos, vincos, malhas, manchas –
segredos – dentro do corpo da luz!
De cima, mais alto que os pináculos, mais alto
ainda que as torres de escritórios, lá dos lodaçais
entregues a mantos cinzentos de relva morta,
sumagre negro, talos murchos de mato,
lama e matagais atulhados de folhas secas –
o rio vem lançando-se sobre a cidade
e se lança da beira do desfiladeiro
num coice de jatos e arco-íris –
(Que linguagem comum a desvendar?
. . penteada em linhas retas
pela viga que o rochedo traz no
lábio.)
Um homem como uma cidade e uma mulher como uma flor
– que se amam. Duas mulheres. Três mulheres.
Inumeráveis mulheres, cada uma como uma flor.
Mas
só um homem – como uma cidade.
Quanto aos poemas que deixei com você, você poderia por favor devolvê-los em meu novo endereço? E não se preocupe em comentá-los caso se sinta constrangido – porque foi a situação humana, e não a literária, que motivou meu telefonema e minha visita.
Além disso, me vejo antes como mulher do que como poeta; e me preocupo menos com as editoras de poesia do que com… viver…
Mas eles abriram uma investigação… e minhas portas estão trancadas para sempre (espero que para sempre) contra todos os assistentes sociais, benfeitores profissionais e equivalentes.
Empurrados como as águas que se aproximam
da beira, seus pensamentos
se entrelaçam, se repelem e escavam,
sobem contra as rochas e desviam
mas se estiram sempre em frente – ou batem
num torvelinho e giram, marcados por uma
folha ou espuma branca, parecendo
esquecer .
Retomam mais tarde a carreira e
dão lugar a sucessivas hordas
que avançam – elas agora se misturam
lisas como vidro em sua pressa,
acalmam-se ou parecem se acalmar quando
na chegada se atiram à conclusão e
caem, caem no ar! como se
flutuassem, aliviadas de seu peso,
divididas, em laços; atordoadas, bêbadas
com a catástrofe da descida
boiando sem apoio
para rebentar nas pedras: num trovão
como se um raio tivesse caído
Toda leveza perdida, o peso recuperado
no repique, uma fúria de
escape levando-as a repercutir
contra as que chegam depois –
mantendo ainda assim a corrente, elas
retomam o curso, o ar cheio
de tumulto e cristal
metáfora do ar igual, coevo,
enchendo o vazio
E ali, contra ele, se espreguiça a montanha baixa.
O Parque sua cabeça, esculpida, sobre as cataratas, pelo rio
quieto; cristais coloridos, o segredo daquelas rochas;
fazendas e açudes, o loureiro e o cacto selvagem temperado,
florido de amarelo . . face a ele, seu
braço apoiando-a, pelo Vale das Rochas, adormecida.
Pérolas nos tornozelos dela, seus cabelos monstruosos
salpicados de flores da macieira estão espalhados pelo
interior do campo, passeando seus sonhos – onde corre o
veado e o pato-carolino se aninha protegendo sua plumagem galante.
Em fevereiro de 1857, David Hower, um sapateiro pobre com uma numerosa família, sem dinheiro ou trabalho, catou um bocado de mexilhões em Notch Brook, perto da cidade de Paterson. Ao comê-los, percebeu várias substâncias duras. Inicialmente as jogou fora, mas logo decidiu levar algumas ao joalheiro, que lhe pagou alguma coisa entre 25 e 30 dólares pelo lote. Mais tarde descobriu outras. Uma pérola de excelente lustro foi vendida à Tiffany por 900 dólares e depois para a imperatriz Eugênia por 2 mil dólares, para então vir a ser conhecida como a “Rainha Pérola”, o mais refinado exemplar de seu tipo que há no mundo hoje.
As notícias da venda suscitaram tal excitação que a corrida pelas pérolas desatou por todo o país. Catavam-se os mexilhões em Notch Brook e em toda parte aos milhões, e frequentemente eles eram destruídos com pouco ou nenhum resultado. Uma enorme pérola redonda de 25 gramas, que teria sido a mais exuberante dos tempos modernos, foi arruinada por terem aberto sua concha durante a fervura.
Duas vezes por mês Paterson recebe
comunicações do Papa e de Jacques Barzun[1]
(Isócrates). A obra deles
foi escrita em francês
e português. E os funcionários
dos correios descolam os selos raros
dos pacotes e roubam-nos para os
álbuns das crianças .
Diga! Nenhuma ideia fora das coisas. O sr.
Paterson já se retirou
para descansar e escrever. Dentro do ônibus podem-se
ver seus pensamentos, que se sentam e se levantam. Seus
pensamentos acendem e se dispersam –
Quem são essas pessoas (que complicada
matemática) entre as quais me vejo
nas bem-ordenadas vidraças dos
pensamentos, cintilando ante sapatos e bicicletas?
Caminham incomunicáveis, a
equação além de toda solução, e ainda
assim o sentido é claro – que elas talvez habitem
seu pensamento consta até da Lista
Telefônica –
E por derivação, para as Grandes Cataratas,
PISS-AI! o gigante solta o mijo! a boa Muncie[2] também
Tinham sede do miraculoso!
Um cavalheiro do Exército Revolucionário,[3] depois de descrever as cataratas, assim descreve outra atração natural que então havia na comunidade: à tarde éramos convidados a visitar outra atração na vizinhança. Trata-se de um monstro em forma humana, ele tem 27 anos de idade e seu rosto, da parte de cima da testa ao final do queixo, mede 27 polegadas, e o restante da parte de cima da cabeça 21 polegadas: seus olhos e nariz são extraordinariamente grandes e proeminentes, o queixo, longo e pontudo. Suas feições são grosseiras, irregulares e repugnantes, sua voz áspera e sonora. Seu corpo tem 27 polegadas de altura, os membros são pequenos e muito disformes, e ele consegue usar apenas uma das mãos. Nunca foi capaz de sentar-se, já que não tem como suportar o enorme peso da cabeça; mas passa o tempo todo em um berço, com a cabeça apoiada em travesseiros. Muitas pessoas o visitam, e ele aprecia especialmente a companhia de clérigos, sempre perguntando por eles a seus visitantes, e mostrando grande satisfação em receber ensinamentos religiosos. O general Washington[4] fez-lhe uma visita, e perguntou “se ele se considerava liberal ou conservador”. Ele lhe respondeu que nunca havia tomado parte ativa em nenhum dos lados.
Milagre! Milagre!
Desde as dez casas que Hamilton[5] avistou quando olhou (para as cataratas!) e formou ali o seu juízo, em meados do século – as usinas haviam atraído uma população heterogênea. Havia, em 1870, 20 711 indivíduos nativos do lugar, o que incluía naturalmente crianças de 28 pais estrangeiros; e 12 868 estrangeiros, dos quais 327 eram franceses, 1 420 alemães, 3 343 ingleses – (entre eles o sr. Lambert[6] que mais tarde construiu o Castelo), 5 124 irlandeses, 879 escoceses, 1 360 holandeses e 170 suíços –
Em torno das águas em queda as Fúrias se atiram!
A violência congrega-se, gira em suas cabeças convocando-as:
O twaalft, ou robalo-riscado, era tão abundante, e mesmo o esturjão, de um tamanho desmesurado, se pescava com frequência: – No domingo, 31 de agosto de 1817, um de dois metros e vinte de comprimento e 57 quilos foi capturado pouco abaixo da bacia das cataratas. Meninos o encheram de pedradas até que ficasse exausto, quando então um deles, John Winters, entrou nas águas e escalou as costas do imenso peixe, enquanto outro o puxou pela boca e guelras até a beira do rio. O Bergen Express and Paterson Advertiser dedicou meia coluna da edição de 3 de setembro de 1817, uma quarta-feira, ao relato do incidente, sob o título “O monstro capturado”.
E começam!
Os aperfeiçoamentos se afiam
A flor estende suas pétalas coloridas
vastas ao sol
Mas a língua das abelhas
erra o alvo
Elas afundam novamente no barro
gritando
– pode-se dizer que é um grito
que rasteja sobre elas, um tremor
enquanto murcham e perecem:
O casamento passa a ter uma apavorante
implicação
Gritar
ou aceitar uma satisfação menor:
uns poucos vão
à costa sem proveito –
A linguagem sente saudade
e eles morrem também
incomunicados.
A linguagem, a linguagem
os abandona
Eles não conhecem as palavras
ou não têm
coragem de usá-las .
– meninas de
famílias decadentes que
fugiram para as montanhas: sem palavras.
Elas podem até enxergar o jorro no
seu pensamento
mas não o reconhecem . .
Elas olham para trás
e desmaiam – mas se recuperam!
A vida é doce
elas dizem: a linguagem!
– a linguagem
divorciada do seu pensamento,
a linguagem . . a linguagem!
Se não havia beleza, havia um estranhamento e uma ousada associação de vida selvagem e cultivada crescendo nos Ramapos:[7] duas fases.
Nas colinas, onde a truta-marrom serpenteava entre as pedras rasas, Ringwood – onde ficava a velha fazenda Ryerson – entre seus gramados aveludados, era rodeada de espécies florestais, a nogueira, o olmo, o carvalho-branco, a castanheira e a faia, as bétulas, o tupelo, o liquidâmbar, as cerejas selvagens e o almecino com seus frutos vermelhos suspensos.
Enquanto, na floresta, se amontoavam as cabanas dos ferreiros, dos carvoeiros, dos foguistas da queima de cal – escondidos da adorável Ringwood – onde o general Washington, adornando algum poema, chegando de Pomptom depois do enforcamento de traidores, podia então descansar –, e onde os elos da grande corrente sobre o Hudson, na altura de West Point, haviam sido forjados.
A violência explodiu no Tennessee, um massacre perpetrado pelos índios, enforcamentos e exílio – de pé no cadafalso, à espera, sessenta deles. Os tuscaroras,[8] forçados a deixar sua terra, haviam sido chamados pelas Seis Nações para se juntar a elas no Norte de Nova York. Os mais fortes foram logo na frente, mas algumas das mulheres e dos retardatários não passaram da fenda do vale próximo a Suffern. Decidiram partir para as montanhas, onde foram dar com hessianos[9] desertados do Exército britânico, entre os quais alguns albinos, escravos negros fugidos e mulheres, com seus pirralhos, que haviam sido deixadas em Nova York depois de os britânicos serem expulsos. Lá tinham sido mantidas em um curral – recrutadas em Liverpool e outros lugares por um tal Jackson, contratado pelo governo britânico para fornecer mulheres aos soldados na América.
O bando se meteu na floresta e adotou o nome de Brancas de Jackson. (Havia também algumas negras, misturadas, algumas das Índias Ocidentais, vindas num carregamento para ocupar o lugar das brancas perdidas quando seu navio, um de seis vindos da Inglaterra, atravessou uma tempestade no mar. Tinham que compensar as perdas de alguma forma e aquele era o meio mais rápido e barato.)
Península New Barbadoes, chamou-se a região.
Cromwell,[10] em meados do século XVII, embarcou alguns milhares de mulheres e crianças irlandesas rumo a Barbadoes para serem vendidas como escravas. Forçadas por seus donos a acasalar com os demais, essas infelizes deram origem a algumas gerações de negros e mulatos que falavam irlandês. E até hoje se diz que os nativos de Barbadoes falam com um sotaque irlandês.
Eu me lembro
da foto na Geographic, as nove mulheres
de algum chefe africano seminuas
montadas num tronco, um registro contábil,
pode-se presumir, as cabeças de lado:
Primeiro
a mais jovem e mais recente,
ereta, rainha orgulhosa, certa de seu poder,
coberta de lama, o monumental cabelo sobre
as sobrancelhas – violentamente franzidas.
Atrás dela, bem comprimidas
em ordem decrescente de frescor
empertigavam-se as demais
e então . .
a última, a primeira esposa,
presente! o esteio de todas as outras que dela
cresciam – de olhos preocupados
sérios, ameaçadores – mas desabridos; peitos
flácidos pelo diário uso . .
Enquanto os peitos empinados
daquela outra, tensos, cheios
de pressão acumulada .
e o renascimento que eles prometiam
era evidente.
Não que os relâmpagos
não apunhalem o mistério de um homem
nas duas pontas – e no meio, por mais
chefe que ele seja, ou mais ainda por
isso mesmo, para assim destruí-lo em sua casa .
. . Feminino, um sorriso vago,
desprendido, flutuando como um pombo
depois do longo voo para o seu pombal.
A sra. Sarah Cumming, consorte do reverendo Hooper Cumming, de Newark, era filha do finado sr. John Emmons, de Portland, no distrito do Maine . . . Ela estava casada havia dois meses e fora abençoada com o luminoso horizonte de um incomum quinhão de felicidade mundana e clareza de propósitos na esfera que a providência lhe assinara; mas, valei-me, como é incerta a duração da alegria terrena de todo dia.
Num sábado, dia 20 de junho de 1812, o reverendo Cumming rumou com a mulher até Paterson, de maneira a preencher, por indicação presbítera, já no dia seguinte, a destituída congregação daquela localidade . . . Na manhã de segunda-feira, foi com sua amada companhia mostrar-lhe as quedas d’água do Passaic, e o lindo cenário romântico e selvagem que as cercava – sem nada mais esperar do solene momento.
Tendo subido o lance de escadas (os cem degraus), o sr. e a sra. Cumming caminharam sobre o sólido rebordo até as proximidades da catarata, encantados com o maravilhoso panorama, entretidos em suas numerosas observações sobre os majestosos trabalhos da natureza ao redor. Longamente detiveram-se na beira da sólida rocha, que se projeta sobre a bacia, 6 ou 8 varas aquém das cataratas, onde tantos antes deles haviam se detido, e de onde se tem uma excelente vista das sublimes atrações do lugar. Quando já haviam contemplado a magnificência do cenário por um tempo considerável, o sr. Cumming disse: “Minha querida, creio que já é hora de procurarmos o rumo de casa”; e virou-se para mostrar o caminho. No mesmo instante ouviu um grito de agonia, olhou para trás e sua mulher havia desaparecido!
Os sentimentos que o sr. Cumming experimentara na agonia daquele momento podem, em alguma medida, ser concebidos, mas não descritos. Absorto, sem saber muito bem o que fazia, ele teria mergulhado no abismo, não fosse pela providência que ordenara naquele instante que um jovem estivesse ali perto e imediatamente o alcançasse, como um anjo da guarda, impedindo que ele desse o passo que sua razão, naquele momento, não teria conseguido evitar. O jovem o afastou do precipício e o conduziu ao patamar abaixo das escadas. O sr. Cumming livrou-se das mãos de seu protetor e correu com violência para atirar-se na fatal enxurrada. Seu jovem amigo, entretanto, apanhou-o mais uma vez . . . As buscas pelo corpo da sra. Cumming foram imediatamente iniciadas, e diligentemente prosseguiram durante todo o dia; mas sem resultados. Na manhã seguinte, o cadáver foi encontrado a 42 pés de profundidade e transportado para Newark no mesmo dia.
Uma falsa linguagem. Uma verdadeira. Uma falsa
linguagem despejando-se – uma linguagem (mal-
entendida) despejando-se (mal interpretada) sem
dignidade, sem ministro, desabando sobre um ouvido
de pedra. Ao menos dera-lhe um destino. E também a
Patch,[11] de certa forma. Ele se tornou um herói nacional
em 1828, 1829, e percorreu o país saltando de penhascos
e mastros, rochas e pontes – para provar sua
tese: Certas coisas podem ser feitas tão bem quanto outras.
A GRRRRANDE HISTÓRIA do nosso
bom Patriota de Jersey
N. F. P A T E R S O N !
(N de Noé; F de Faitoute; e P para abreviar)
“Fogos de Jersey” para os meninos.
Até ali tudo tinha ido bem. As roldanas e cordas foram firmemente amarradas em cada lado do desfiladeiro, e tudo posto em ordem para erguer a desengonçada ponte até o seu lugar. Tratava-se de uma estrutura de madeira tapada dos dois lados, e um teto. Era perto de duas horas da tarde, e uma grande multidão havia se reunido – uma grande multidão para os padrões da época, já que a cidade tinha cerca de 4 mil habitantes – para assistir ao posicionamento da ponte.
Aquele era um grande dia para a velha Paterson. Por ser sábado, as fábricas estavam paradas, de forma a dar ao povo uma chance de celebrar. Entre os que tinham vindo tomar parte na celebração estava Sam Patch, naquela época um morador de Paterson, que era supervisor de fiandeiras de algodão em uma das fábricas. Ele era meu supervisor, e várias vezes me esbofeteou as orelhas.
Bem, nesse dia a polícia andava à procura de Patch, porque supunham que ele iria farrear e arrumaria problemas. Patch já havia declarado tantas vezes sua intenção de pular das rochas que acabara preso em várias ocasiões. Uma vez, ficara preso no porão de um banco com um terrível episódio de delirium tremens, mas no dia em que a ponte foi erguida sobre o desfiladeiro ele já estava solto. Alguns achavam que ele era louco. E não estavam completamente enganados.
Mas o sujeito mais feliz na cidade naquele dia era Timothy B. Crane, o responsável pela ponte. Tim Crane era gerente de hotel e dono de uma taverna na margem do rio em que ficava Manchester. O lugar era um pouso habitual para artistas de circo. Artistas famosos daquele tempo, como Dan Rice e James Cooke, o grande cavaleiro, o visitavam.
Tim Crane construiu a ponte porque seu rival, Fyfield, que tinha uma taverna do outro lado do rio, se beneficiava da “escada de Jacó”, como era às vezes chamada – os “cem degraus”, uma longa escada rústica e sinuosa no desfiladeiro que levava à outra margem –, e tornava mais fácil o acesso ao seu estabelecimento . . . Crane era um sujeito robusto, de mais de um metro e oitenta. Usava costeletas. Era bem conhecido dos cidadãos como um homem enérgico e nada inábil. À sua maneira, fazia lembrar a estatura ampla e angulosa de Sam Patch. Quando o comando fora dado para rebocar a ponte sobre o desfiladeiro, a multidão encheu o ar com saudações. Mas quando a ponte estava na metade do percurso, uma roldana se soltou das cordas e foi parar na água lá embaixo. Enquanto todos imaginavam que veriam a desengonçada ponte tombar e se arrebentar no abismo, um vulto pulou do ponto mais alto, rápido como um raio, mergulhou nas águas turvas, nadou até a peça de madeira e levou-a até a margem. Assim começava a carreira de Sam Patch como famoso saltador. Eu vi tudo, disse o velho com satisfação, e não acredito que haja mais ninguém hoje na cidade que tenha testemunhado a cena. Estas foram as palavras de Sam Patch: “Então o velho Tim Crane acha que fez alguma coisa importante; mas eu sou melhor do que ele.” Tão logo o disse, deu o salto.
Sam Patch não falha!
A água jorrando ainda
da beira das rochas, enchendo
os ouvidos dele de som, difícil interpretar.
Um milagre!
Depois desse começo ele percorreu o Oeste, seus únicos companheiros uma raposa e um urso que ele capturou em suas andanças.
Saltou de uma saliência rochosa em Goat Island para o Rio Niágara. Então anunciou que, antes de seguir para os Jerseys, ele ainda queria mostrar ao Oeste um último feito. Saltaria os 40 metros das cataratas do Rio Genesee no dia
13 de novembro de 1829. Caravanas de lugares distantes dos Estados Unidos
e mesmo do Canadá foram ver o prodígio.
Uma plataforma foi construída na beira das cataratas. Ele não poupou esforços para certificar-se da profundidade das águas lá embaixo. Até efetuou com sucesso um salto-teste.
No dia, as plateias se concentraram de todos os lados. Ele surgiu e fez um discurso breve, como costumava fazer. Um discurso! Que fala precisaria tão desesperadamente daquele salto para fazer sentido? E pulou na correnteza abaixo. Mas ao invés de cair em linha reta como um bólido, seu corpo oscilou no ar – o Discurso o traíra. Ele estava confuso. A palavra havia sido drenada de seu significado. Sam Patch não falha. Atingiu a água de lado e desapareceu.
Um grande silêncio tomou conta da multidão estupefata.
Seu corpo só foi encontrado na primavera seguinte, congelado.
Uma vez, ele chegou a atirar seu urso de estimação de um penhasco sobre as corredeiras do Niágara e depois o resgatou, rio abaixo.
Trecho do livro Paterson, a ser lançado em setembro na coleção Círculo de Poemas, publicada pelas editoras Luna Parque e Fósforo.
[1] Jacques Barzun (1907-2012), historiador franco-americano, professor da Universidade Columbia. Seu livro Teacher in America, lançado em 1945, um ano antes do início da publicação de Paterson, exerceu forte influência na formação dos professores no pós-Segunda Guerra Mundial. É autor de dezenas de livros, entre eles Da Alvorada à Decadência: A História da Cultura Ocidental de 1500 aos Nossos Dias. Todas as notas são da piauí.
[2] Muncie, cidade do estado de Indiana. Foi objeto de um estudo do casal de sociólogos Robert Staughton Lynd (com quem William Carlos Williams se correspondeu) e Helen Merrell Lynd, publicado no livro Middletown: a Study in American Culture, de 1929.
[3] Ou Continental Army, o Exército das treze colônias americanas que lutou a partir de 1775 na Guerra de Independência dos Estados Unidos (também chamada de American Revolutionary War).
[4] George Washington (1732-99), um dos líderes da independência dos Estados Unidos, comandante do Continental Army e primeiro presidente do país. Ele esteve em Paterson durante a guerra, junto com Alexander Hamilton (1757-1804), citado mais abaixo no poema, e do marquês de La Fayette (1757-1834), nobre francês que aderiu à causa americana.
[5] Em seu “Posfácio” a Paterson, o tradutor Ricardo Rizzo diz que Alexander Hamilton “é o ‘pai fundador’ de Paterson, que viu nas cataratas do Passaic o potencial para o florescimento econômico de uma ‘cidade federal’”, propiciando assim o elo entre a história local e “os primórdios dos Estados Unidos”.
[6] O milionário Catholina Lambert (1834-1923), dono de uma fábrica de seda em Paterson. A mansão construída em 1892 e que ele chamou de Belle Vista ganhou posteriormente o nome Castelo Lambert. Foi vendida em 1923 para a cidade de Paterson. Em 1910, D. W. Griffith filmou no local The Call to Arms, com Mary Pickford. Hoje, a construção abriga um museu e uma biblioteca.
[7] A cadeia de montanhas Ramapo, parte dos Apalaches, no nordeste de Nova Jersey.
[8] Povo originário da região americana que fez parte da Confederação Iroquesa, também chamada Liga das Seis Nações, junto com os povos Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga e Seneca.
[9] “Hessianos” foi o nome dados aos soldados alemães contratados pelo Exército britânico para lutarem ao seu lado contra os americanos na Guerra de Independência. A maioria dos hessianos provinha dos estados de Hesse-Kassel e Hesse-Hanau.
[10] Oliver Cromwell (1599-1658), militar e político inglês, um dos líderes da Guerra Civil Inglesa (ocorrida entre 1642 e 1651), que derrubou a monarquia. Com a decapitação do rei Carlos I, a Inglaterra transformou-se então em uma república, que Cromwell passou a liderar, com o título de Lorde Protetor. Dois anos depois de sua morte, a monarquia foi restabelecida – e o cadáver dele foi desenterrado e também decapitado.
[11] Sam Patch (1799-1829), aventureiro americano, foi o primeiro a saltar de uma plataforma no Rio Niágara, perto da base das cataratas, em 1829, pulando de uma altura de cerca de 24 metros. Dois anos antes ele havia saltado de 21 metros de altura nas cataratas do Rio Passaic, em Paterson, onde trabalhou em uma fábrica.
