CRÉDITO: PEDRO GONÇALVES_2025
Pesados paralelepípedos
Naqueles dias, todos caíam das janelas
João Inácio Padilha | Edição 226, Julho 2025
Um dia, todo o plantel tricolor despencou do quarto andar. Uma queda no vazio. A equipe inteira hospedava-se numa caixa de charuto, e essa caixa de charuto pousava sobre o parapeito da janela. A caixa caiu. Foram-se todos os titulares e todos os reservas, inclusive alguns juvenis promissores. Um desastre horroroso. Aqui, um laudo do sinistro:
A dupla de zaga, Pinheiro e Clóvis, chegou logo depois do goleiro. Pinheiro tinha sido manufaturado a partir de duas robustas e musculosas fichas de pôquer, uma vermelha e outra branca. Nada sofreu com o desastre, a mesma sorte tocando a Clóvis, feito de material de prótese dentária, corpulento como Pinheiro, um pouco mais leve.
Edmilson foi uma baixa. Era feito de duas fichas de ônibus que se descolaram no impacto. Voltei a colar uma na outra, mas não ficou bom: a nova camada de cola elevou sua estatura em menos de 1 mm e esse quase milímetro comprometeu a maior especialidade do jogador, que era o chute potente de longa distância (ele enfiava vários gols do meio do campo, a bola viajando a meia altura e entrando no estreito vão entre o goleiro e o travessão). Edmilson terminou na reserva: ficou pesado demais, seus chutes não levantavam mais a bola: saíam rasteiros, sem perigo para o goleiro adversário.
Destino trágico foi o de Jair Marinho, inutilizado para a prática do futebol depois da catástrofe. O lateral direito tinha um abaulado na bainha que lhe permitia controlar a bola com refinamento. Usei-o muitas vezes para sair jogando depois do tiro de meta cobrado por Clóvis ou Pinheiro. Jair saía com a bola no pé driblando todo o time adversário, deslizando como cisne em todos os setores do campo, e procurava encobrir o goleiro do bico da grande área. Tanta categoria seria inutilizada quando o craque se chocou contra a quina de um degrau e partiu-se em dois pedaços, que carinhosamente juntei com esparadrapo. Jair Marinho não deixaria definitivamente o mundo do futebol: entraria para a comissão técnica do Fluminense, onde passou a me assessorar para o que desse e viesse. Obrigado, Jair.
Paulinho, também conhecido como Paulinho Ladrão, era uma vidrilha procedente de um velho e grande relógio de bolso. A vidrilha tinha sido doada por um relojoeiro, fornecedor habitual dos futebolistas de mesa do meu bairro. Seu voo do quarto andar até o térreo foi gracioso. A brisa brincava com Paulinho. Com leveza, ele foi dançando no ar e acabou caindo – acabou pousando, melhor dizendo – a alguma distância do ponto crítico onde a maioria do time tombava. Apesar do pouco peso, uma lasca fatal afastou-se do jogador no momento do impacto, o suficiente para que ele perdesse o equilíbrio quando sofria a pressão da palheta contra o corpo delgado e transparente.
Altair tinha algumas das boas características do Jair Marinho e muito mais sorte que ele. Ficou intacto depois da queda e continuou a distribuir o jogo para o ataque tricolor com a classe de sempre. Era uma ficha de pôquer da mesma origem das que formavam a estrutura do Pinheiro. A diferença estava no perfil: Altair era feito de apenas uma ficha, com uma delicada descaída na bainha produzida por minha habilidosa lixada, que ainda lhe escavou a base para torná-la côncava e aérea, propícia para deslizar com elegância sobre a mesa.
Maurinho, o ponta-direita, era uma curiosa combinação de ficha de ônibus e vidrilha de relógio, que se descolaram na queda, sem problema na recolagem. Não era exatamente um craque, mas eu tinha orgulho da originalidade daquele conceito de botão, motivo pelo qual o mantinha no time.
Telê era uma ágil e pequena vidrilha cuja bainha fazia um ângulo obtuso com seu topo. Essa peculiaridade anatômica favorecia chutes potentes da intermediária, mas sua baixa estatura permitia também a delicadeza exigida quando se tratava de encobrir o goleiro ou colocar a bola entre este e o travessão. Sua queda do quarto andar foi amortecida ao cair justamente em cima do Clóvis.
O único jogador esculpido a partir de uma casca de coco era Waldo, inquestionavelmente o artilheiro da equipe. Nada de grave lhe aconteceu, à exceção de uma lascada muito superficial que sofreu no impacto. O centroavante continuaria a brilhar em suas tabelinhas com Telê e em sua especialidade mais marcante: os gols a partir do grande círculo do campo, logo após a saída de bola. Na intermediária do adversário, era um coquinho nervoso que disputava todas as bolas, até as irremediavelmente perdidas.
Escurinho, o estimado ponta-esquerda sofreu uma contusão pequena, com mínima perda de substância plástica na extremidade da sua bainha, visível apenas com auxílio da lupa. Seu desempenho, claro, não foi comprometido. Era ágil e bem baixinho, fazia muitos gols do bico da grande área, e seu modo de encobrir o goleiro era peculiar: a bola subia muito, descrevia uma parábola e descaía caprichosamente para o interior da meta adversária.
Castilho, o paralelepípedo com sólido esqueleto de chumbo, foi, naturalmente, o primeiro a atingir o solo. Não foi castigado, seu reaproveitamento foi total.
Não há necessidade de estender este laudo das baixas sofridas pelo Fluminense em decorrência do sinistro. Em linhas gerais, os reservas e os aspirantes sofreram alguns ferimentos, mas somente dois ou três ficaram completamente inutilizados para o futebol. Registre-se apenas que o juvenil Carlos Alberto substituiu Jair Marinho na equipe titular, e Oldair, feito de galalite, entrou no lugar de Edmilson. O time voltaria a campo normalmente, depois do trauma.
O apartamento era de fundos. Da janela, eu passava muito tempo olhando para as antenas de televisão, cada vez mais abundantes. No azul do céu, enxergava bolinhas. Eram luazinhas que viviam se aglutinando em grupinhos. A diversão delas era fugir do foco do meu olhar: eu olhava para elas, elas se afastavam para o lado; eu as perseguia e elas fugiam sempre, até se esconderem quando os meus olhos já não miravam o céu, mas algum ponto da esquadria da janela ou da parede do quarto. Depois, se eu punha os olhos de volta no céu, as luazinhas reapareciam do mesmo jeito e eu voltava a persegui-las em vão, sem qualquer possibilidade de paralisá-las no meio do voo. À direita do meu ponto de visão, num edifício mais distante, havia um apartamento de cobertura. De vez em quando, homens e mulheres apareciam ali, ouviam música, alguns dançavam, todos bebiam. Ali deviam estar os transviados que jogaram a mulher pela janela do edifício em Copacabana. Naqueles dias, não se falava em outra coisa. O Brasil tinha sido campeão mundial, mas o grande assunto era o caso da moça espancada, currada, assassinada e lançada do 12º andar de um prédio na Avenida Atlântica. Era nela que eu pensava quando via as festas na cobertura daquele edifício. Não queria perder a cena de outra mulher sendo jogada.
Embaixo da minha janela, um pátio. Nos fundos desse pátio, uma área coberta onde cabiam quatro carros. As crianças do edifício descíamos todos os dias, cruzávamos a garagem subterrânea e chegávamos a esse pátio para jogar bola, pular corda etc. O dono da mesa de botão era o meu adversário vascaíno. A mesa foi construída pelo pai dele.
Bem na frente da minha janela havia outro edifício. Num dos apartamentos desse edifício morava um homem que gostava de espiar os garotos jogando botão no nosso pátio. Ele aparecia na janela sempre que chegávamos lá e instalávamos a mesa do jogo. Era só ouvir a gente chegando que o homem do tal edifício parava o que estava fazendo e vinha dar uma olhada. Ficava um tempão na janela. Era um homem calado, cotovelos apoiados no parapeito, fumando um cigarro, sem perder um lance e as narrações das partidas (Bola para Garrincha ultrapassa a divisória do gramado vai evoluindo pela intermediária rubro-negra aproxima-se da grande área a bola espirra tira a mão daí a bola espirra quase sai pela linha de fundo tira a mão daí pô pera aí vai Garrincha um toque sutil meus senhores Garrincha controla a pelota evita a saída pela linha de fundo penetra na área rubro-negra vê a aproximação de Quarentinha entrega para Quarentinha um toquezinho tá? prepara aí vai Quarentinha gooooool do Botafogo garoto do placar do Maracanã coloca Botafogo 2 Flamengo 0 quando eram decorridos).
Então, eu falava da grande queda da caixa de charuto, a grande queda no vazio. Na hora do despenhamento da equipe do Fluminense, eu não sabia que o observador do edifício defronte acompanhava, de binóculo, o desenrolar da tragédia. Ele certamente não estava interessado na sorte de cada um daqueles atletas. Estava interessado em mim. Viu quando pus a caixa no parapeito da janela, com todos os jogadores do time dentro dela. Viu que eu não fiz nenhum gesto abrupto, esbarrando na caixa de charuto, sem querer – um gesto involuntário, uma queda acidental. Não creio que ele tenha visto que na verdade eu fui afastando a caixa de charuto lentamente, milímetro por milímetro, em direção à borda do parapeito. Não sei se ele entendeu que eu fazia um experimento cujo objetivo era descobrir até onde a caixa poderia ir antes de encontrar o ponto exato em que a queda, a grande queda, seria inevitável. Prestava muita atenção na minha meticulosa ação, na minha cara. Ajustou o binóculo com muita precisão para não perder nenhum detalhe das minhas expressões faciais. Terá visto no meu rosto o sorriso antecipatório da tragédia. Minha mão afastava a caixa com ínfimos, imperceptíveis empurrõezinhos. O observador terá percebido, graças ao binóculo, que uma sombra me passava pelo rosto. Minha mão deixou de dar empurrõezinhos hesitantes: a caixa agora era arrastada num movimento constante, sem intermitência, mas em velocidade ainda muito lenta. Uma lenta e premeditada execução extrajudicial. O homem acompanhava tudo isso com muita apreensão e uma aflição tremenda, um desespero, uma agonia.
Lenta e inexoravelmente, como um condenado a andar na prancha, passo a passo, até o salto final para o fundo do oceano, a caixa foi chegando no ponto crítico. Só precisou de milímetros além da borda do parapeito da janela para despencar no vazio. Acompanhei toda a queda. Quando a caixa chegou ao chão, fiquei olhando lá de cima. Para ter a melhor visão possível, tive que me debruçar na janela, e me debruçava tanto que os meus pés já não alcançavam mais o chão. O peito roçava a borda do parapeito e minha cabeça estava toda do lado de fora. Lá estava, intacto, o tijolo de chumbo, do tamanho exato de uma caixa de fósforos. Sozinho, o grande goleiro era mais pesado do que a caixa de charuto com todo o resto do time dentro dela.
Naqueles dias, minha mãe costumava teorizar que a cabeça é mais pesada que o corpo, a tal ponto que o seu peso podia ceder, a cabeça levando todo o resto do corpo numa queda livre de quatro andares até o chão do pátio da garagem. Era nisso que eu pensava quando pensava no peso desproporcional do goleiro carregando todo o resto da equipe precipício abaixo. No momento em que esses pensamentos transitavam pela minha pesada cabeça, quem é que me abre a porta e me vê debruçado na janela, os pés despregados do chão e a cabeça lá do lado de fora, solta no ar, integrada no vazio? Minha mãe deu um grito tão esganiçado que eu bem podia ter tido um sobressalto e caído de susto lá embaixo. Correu para me salvar. Nem precisou, porque fui saindo daquela posição sem problema, até os meus pés reencontrarem o chão. Quando ia tirando a cabeça da janela, olhei para a frente e só então me dei conta de que estava sendo observado pelo binóculo do observador. Ele tinha visto tudo.
Minha mãe não sabia. Na cabeça dela, eu era um quase suicida. Assassino, jamais. Gritava, e não sabia se me abraçava, como se tivesse acabado de me salvar a vida, ou se me dava uns tabefes. Me deu um tapa no braço. Foi difícil, no meio de tanto drama, encontrar espaço para explicar a ela que tinha havido um acidente, que meu braço tinha esbarrado acidentalmente na caixa de charuto num movimento desastrado, e a caixa tinha despencado do quarto andar com todos os meus botões. Consegui dizer tudo isso num jato. Para calar inteiramente a bronca, fiquei mesmo desesperado. Vocalizei o desespero em tão elevados decibéis que o observador, lá longe, no outro edifício, pode ter ouvido claramente o que eu dizia. Os meus botões! Os meus botões! Minha mãe chegou junto da janela para averiguar se tudo o que eu dizia era verdade. Quando ia olhar para baixo, notou que eu, ao lado dela, me insinuava para fazer o mesmo. Ela me empurrou, achando que dessa vez eu ia de vez. Olhou e confirmou: lá estava a caixa de charuto, o goleiro e os pequenos discos que eu chamava de botões.
O observador estava perplexo; mais que perplexo, fascinado. Enquanto isso, minha mãe: Os botões! Oh meu filho, meu filho! Ela me abraçou, e quando me abraçou olhei, por cima do ombro dela, para o observador. Pus os olhos nele.
Minha mãe, cabreira: naqueles dias, todos caíam das janelas – a moça de Copacabana, o time de botões, enfim, todo mundo. Havia uma epidemia de defenestrações na cidade do Rio de Janeiro.
E por falar em defenestrações, quase me esqueci de acrescentar que, uns dias antes da queda do elenco tricolor, um primo meu foi lá em casa. Lá pelas tantas, como não tinha adulto olhando, ele se sentou no parapeito da janela, primeiro com os pés para dentro. Depois girou o corpo, passou as pernas por cima do parapeito e pôs os pés para o lado de fora. Ficou balançando os pés. Virou-se para mim, me convidou, eu disse que não. Ele ria, e rindo curvou o corpo para abaixar a cabeça o máximo que podia. Olhou para baixo, sentiu a brisa no rosto, fascinou-se com o vazio imenso entre a janela do quarto andar e o chão do pátio. Depois ergueu o dorso e esticou o corpo todo como se estivesse se espreguiçando, afastando a bunda o máximo que podia, até o limite do parapeito, com as coxas descoladas da superfície, as pernas estiradas e enrijecidas como duas vigas que saíam da janela do apartamento. Eu berrava lá de dentro, pulava de pânico, dava corridinhas pelo quarto, quase chorava de tanto desespero. Ele foi recolhendo o corpo devagar e aos poucos veio saindo da janela. Virou-se para mim às gargalhadas, escarneceu de mim, me chamou de medroso, de acrófobo histérico e outras coisas.
Este conto faz parte do livro Chineses que se evaporam, a ser publicado pela 7Letras.
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