despedida
Luiz Chagas Jan 2024 17h32
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Nem bem 2024 raiou e Denise Assunção partiu. Sua morte em 4 de janeiro, aos 67 anos, mereceu chamada na primeira página da Folha de S.Paulo e velório no Teatro Oficina, onde a atriz, cantora, compositora e performer se apresentava desde 1984. As duas homenagens, apesar de significativas, dão somente uma tênue ideia da dimensão artística dessa mulher preta, desconhecida fora das rodas culturais alternativas.
O diretor José Celso Martinez Corrêa – fundador do Oficina, que morreu há sete meses – se referiu assim à parceira de trupe em 2012, numa entrevista ainda inédita: “A Denise é uma coisa estranhíssima. Negra, no escuro do teatro emite uma luz… Irradia, porque tem uns olhos fortes, um sorriso maravilhoso. Às vezes, fica com essa luz acesa o tempo todo.”
Em 12 de janeiro, no jornal literário Rascunho, a escritora Cidinha da Silva, também negra, definiu Denise como “Blade Runner, Grace Jones, indomável, indestrutível e feroz”. No Instagram, outra artista negra, a atriz Lena Roque, lamentou a morte da colega com um punhado de perguntas incômodas: “E se pudesse ter sido diferente? E se pudesse ter sido possível o Brasil ter conhecido a genialidade de Denise? E se Denise fosse midiática? Seria reverenciada? E se fosse possível ter domado-enquadrado-formatado Denise? Haveria mil e um posts chorando sua partida? E se Denise tivesse sido premiada, bajulada, cortejada? Seria sua passagem lamentada em rede nacional? E se fosse rica? E se não fosse ‘fora da curva’? E se não fosse ‘endoidecida’? […] E se tivesse tido filhos, propriedades, espólios, pensão, herança? E se não fosse preta, numa época em que preto não tava na moda?”
A entrevista de Zé Celso serviria para uma nova edição, nunca concluída, do livro de memórias que Denise lançou em 2006 e batizou de “Ela” (com aspas mesmo). A autobiografia, irreverente e ácida, trazia o fac-símile de uma ordem de despejo contra a própria atriz, emitida em 27 de abril de 2004, possivelmente por atraso no pagamento de aluguéis. Ao longo da obra, a autora falava de si sempre na terceira pessoa. Logo de cara, se dizia “ex-integrante do Teatro Oficina”, o que não correspondia exatamente à verdade. Ela jamais largou a companhia por completo, embora a renegasse e se afastasse dela quando as rusgas com o diretor atingiam níveis insustentáveis. Certa ocasião, num texto registrado em cartório, Denise chegou a declarar que nunca participou do grupo. Entretanto, durante o velório de Zé Celso, também no Oficina, a atriz cantou de improviso diante do caixão dele, como se a dupla estivesse reatando definitivamente.
O encenador a descobriu em 1982, no Complexo Cultural Funarte, em São Paulo, cidade onde a artista passou boa parte da vida. Ela deitava e rolava como mestre de cerimônias da banda Isca de Polícia, liderada por seu irmão, o cantor Itamar Assumpção. Zé Celso ficou fascinado ao vê-la no show e a convidou para uma leitura pública de Roda viva em 1984, no teatro paulistano Maria Della Costa. O Oficina já havia montado a peça de Chico Buarque em 1968, quando apoiadores da ditadura militar destruíram o cenário e espancaram os atores, acusando-os de subversão. Na leitura pública, Denise incorporou o personagem Capeta e usou como rabo uma vassoura, símbolo da campanha presidencial de Jânio Quadros, em 1960. Mais tarde, a intérprete atuaria em outros espetáculos marcantes da companhia, a exemplo de Hamlet, Mistérios gozosos, Bacantes, Cacilda!!!! e Os sertões.
Em 1994, recebeu um dos raros prêmios de sua carreira. Foi considerada melhor atriz de curta-metragem no Festival de Cinema de Gramado por Lumpet, de Ricardo Elias. Onze anos depois, fez Hoje é dia de Maria, minissérie de Luiz Fernando Carvalho, na TV Globo. Pouco antes da pandemia, entre novembro de 2019 e janeiro de 2020, interpretou um anjo em Pretoperitamar: o caminho que vai dar aqui, musical sobre Itamar Assumpção. Aos diretores com os quais trabalhava, Denise alertava: “Quando estou criando, não gosto de intervenções nem de moralismo frouxo.” Ela dificilmente ensaiava. “Não ensaio. Confiem!”, repetia.
Como cantora, gravou dois álbuns: A maior bandeira brasileira (1990) e Estátua da paciência (1997), que reunia canções de Noel Rosa. Em 2021, dirigida pelo ator Alexandre Borges, protagonizou o show Pantera. Por não ter formação musical, preferia o acompanhamento de instrumentistas exímios. “Se vocês não tocarem sempre igual, vou errar”, avisava para os músicos. “Não posso me dar ao luxo de improvisar. Não sei.”
Recentemente, num camarim, lhe perguntaram o que é arte. Ela se levantou da cadeira, cruzou os braços, aprumou a cabeça e respondeu, um tanto agitada: “Arte é a minha comida, o sangue que escorre da minha cabeça até os dedinhos dos pés. É um dom, é a minha fé, é aquilo que transforma.”
Denise Aparecida Januária de Assunção nasceu no dia 5 de dezembro de 1956, em Tietê, município do interior de São Paulo, onde também nasceram seus dois irmãos, Itamar (1949-2003) e o primogênito, Narciso Júlio (1948-2001). O sobrenome dela era o único da família sem o “m” e o “p” mudo. Na infância, a futura atriz se mudou com os pais para Arapongas, no Norte do Paraná. Ali Narciso viraria locutor de rádio, se iniciaria na carreira de ator e conheceria a diretora de teatro Nitis Jacon, criadora do Festival Internacional de Londrina, o Filo. Ela logo percebeu o talento dos três irmãos e os incentivou. Em 1969, quando dirigiu uma montagem paranaense do musical Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, escalou Denise como percussionista e membro do coro. A menina tinha apenas 12 anos. Narciso representava Zumbi.
Na década de 1970, a atriz se transferiu para Curitiba e integrou diversas produções do Teatro Guaíra. O cineasta e ator Amácio Mazzaropi a viu numa dessas apresentações e a colocou na comédia Jeca e seu filho preto, de 1978, que atraiu quase 2,9 milhões de espectadores. No ano seguinte, Denise participou de outro sucesso estrelado por Mazzaropi, A banda das velhas virgens. O filme vendeu 2,3 milhões de ingressos.
Enquanto a atriz e Itamar ascendiam no meio artístico, Narciso se consolidava como repórter de televisão. Apesar do reconhecimento profissional, o trio nunca usufruiu de estabilidade financeira. Denise atribuía os percalços econômicos da família à discriminação racial.
As pressões do racismo acabaram conduzindo a atriz para uma situação de delírio constante. Ela passou os últimos anos vivendo com Cornélio, seu gato, em hotéis baratos. Sofria de esquizofrenia paranoide e se julgava perseguida. Escutava vozes que a ameaçavam e a xingavam de escrava. Seus espetáculos, porém, continuavam irrepreensíveis.
Nessas fases conturbadas, Denise contou com a solidariedade de amigos e da sobrinha, a cantora Anelis Assumpção, filha de Itamar. Embora amargasse transtornos psiquiátricos, a atriz já havia se livrado do álcool e da cocaína. Ela deixou de usá-los após se converter ao neopentecostalismo. Ultimamente, cursava uma faculdade de teologia.
Seu último show, Relembrança, ocorreu no Sesc Guarulhos em 25 de novembro. Naquela tarde, Denise mal conseguiu subir no palco, de tão magra. Estava doente, mas não contava para ninguém. Uns dias depois, entregou os pontos. Foi internada no Hospital das Clínicas com um câncer intestinal avançado, mesma doença que matou Itamar.
Em homenagem à atriz, companheiros do Oficina plantaram uma aroeira na parte externa do teatro. A árvore medicinal oferece um fruto muito bonito, de sabor tão picante quanto adocicado. O povo o chama de pimenta-rosa.