CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Princesa do Carnaval
Pinah volta a reinar na Marquês de Sapucaí
João Batista Jr. | Edição 210, Março 2024
Com 1,80 metro de altura, belas e longas pernas, uma pele invejável e dentes alvíssimos, Pinah costumava participar dos espetáculos promovidos no Brasil e no exterior pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. O objetivo dos shows era arrecadar verba para o desfile de Carnaval. Ao longo dos anos 1970, ela viajou com um grupo de passistas e sambistas para os Estados Unidos, a França, o Marrocos e a Itália, entre outros países.
Foi, porém, durante uma apresentação no Rio de Janeiro que os holofotes da mídia se voltaram todos para Pinah.
Em 1978, o prefeito Marcos Tamoyo se reuniu com o carnavalesco Joãosinho Trinta, que naquele ano tinha levado a Beija-Flor ao campeonato pela terceira vez consecutiva, e encomendou um show para um convidado muito especial. Primeiro prefeito do Rio depois da fusão da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro, Tamoyo queria impressionar o então príncipe Charles, de 29 anos, que faria sua primeira visita ao Brasil (três anos depois ele se casaria com Diana). Charles veria a apresentação da Beija-Flor da varanda da sede da Prefeitura do Rio, o Palácio da Cidade, construído entre 1947 e 1950 para abrigar a Embaixada do Reino Unido, que vendeu o imóvel ao município quando a capital do país foi transferida para Brasília.
Durante o show no palácio, o príncipe não se conteve: deixou a varanda e se aproximou dos sambistas e passistas que se apresentavam no jardim. Foi além: arriscou uns passos desajeitados de samba ao lado da radiante Pinah, com cabelos raspados, vestindo top e saia prateados. “Eu não entendi nada logo de cara, apenas sambei com aquele homem dançando passos de charleston”, recorda a passista.
No dia seguinte, uma leva de fotógrafos e jornalistas amanheceu à porta de sua casa em Nova Iguaçu. Eles queriam saber em detalhes quem era a mulher que encantara Charles. Foi quando Pinah se deu conta de que o homem desengonçado era o herdeiro do trono britânico. Como a imprensa não resiste a um epíteto, ela passou a ser chamada de “Cinderela Negra”.
Filha de um empreiteiro e uma dona de casa, Pinah se mudou da cidade mineira de Barão de Monte Alto, na Zona da Mata, para o Rio de Janeiro aos 2 anos de idade. Formou-se em contabilidade e teve aulas de passarela com o cantor e produtor Almir Saint-Clair. Quando fazia um curso de modelo no Senac, o estilista Luis Carlos Ribeiro a convidou para participar de um concurso de fantasias no Hotel Nacional.
Ribeiro propôs uma mudança radical no look da jovem. “Que tal raspar a cabeça?”, perguntou. Pinah esbugalhou os olhos, pois amava os cachos que batiam nos ombros, mas embarcou na ideia. Depois do desfile, foi convidada a ser destaque da escola de samba Em Cima da Hora. A jovem pegou gosto pela avenida e pelo novo visual, migrou para o Salgueiro e, em 1976, para a Beija-Flor, onde firmou seu reinado.
O príncipe encantado da Cinderela Negra não foi o futuro rei do Reino Unido, mas um imigrante vindo das Arábias: o libanês Elias Emile Ayoub, que vivia no Brasil e era dono do Palácio das Plumas, uma rede de lojas com adereços para fantasias. Durante uma visita a uma das lojas em São Paulo, Pinah conheceu Ayoub – e os dois começaram a namorar. Com o casamento, ela se mudou para São Paulo e foi trabalhar na empresa do marido, que tinha filiais em outros pontos da capital paulista, no Rio e em Belo Horizonte (hoje mantém apenas a loja paulistana). O casal teve uma única filha.
Embora em São Paulo, Pinah nunca abandonou o Carnaval do Rio. “Eu participo da escolha de enredo, dos ensaios, de tudo”, diz ela. “Uma das coisas mais emocionantes é o desfile que fazemos na Avenida Mirandela, em Nilópolis, o mesmíssimo da Sapucaí, mas para a população da cidade.” Também manteve as velhas amizades cariocas. “Rodamos o mundo em apresentações e até hoje nos falamos”, conta Eloína dos Leopardos, primeira rainha de bateria do Brasil, pela Beija-Flor.
Do alto de seus “alguns vinte e poucos” anos, como hoje ela conta sua idade, Maria da Penha Ferreira Ayoub retornou ao Rio neste ano para viver um Carnaval inesquecível – na condição de mito.
“Ter quase cinco décadas de Sapucaí é uma baita legado”, diz a jornalista e influenciadora Luiza Brasil. Ela escolheu Pinah como tema de sua caracterização no Baile da Vogue, festa à fantasia que a revista faz todo ano na época do Carnaval. A jornalista, que tem cabelos cacheados e volumosos, passou doze horas com dois cabeleireiros para deixar suas madeixas rentes ao couro cabeludo, coberto depois por um tecido da cor da pele, dando a impressão de estar realmente careca. A caracterização foi um dos destaques da festa no Copacabana Palace.
Na Marquês de Sapucaí, Pinah foi escolhida como musa do camarote da Arara e sua concentração de celebridades. Ali, viu uma fila de artistas se formar para fazerem uma selfie com ela, entre eles Lázaro Ramos e Regina Casé. Emissoras de tevê, jornais e sites a procuraram para entrevistas. Além disso, uma foto sua foi parar no New York Times, em uma matéria sobre imagens antigas do Carnaval carioca compradas em feiras pelo pesquisador e jornalista Rafael Cosme. “Posso dizer uma coisa? Fiquei muito lisonjeada de ser homenageada em vida. De poder sentir o carinho e a valorização das pessoas enquanto estou na ativa”, diz Pinah.
Ela recebeu com pesar a notícia de que o agora rei Charles foi diagnosticado com um câncer (envolto em mistério, já que mais nada foi informado sobre a doença). Pinah diz que está torcendo muito por ele e conta que, trinta anos atrás, também enfrentou um câncer. Embora não tivesse nenhuma dor lancinante ou sangramento, como se sentisse indisposta, insistiu com o médico para realizar um check-up – e foi descoberto um tumor no intestino. Ela fez uma cirurgia e duas sessões de quimioterapia apenas, porque não quis seguir com esse tratamento. Resolveu confiar no aviso de seu anjo da guarda e de seus orixás de que já estava recuperada. “Mas o meu oncologista não me deu alta até hoje”, diz, rindo. Assim que acabou o Carnaval, Pinah retornou a São Paulo e ao seu ofício predileto: cuidar do neto de 3 anos de idade, seu principezinho.
