CRÉDITO: VALENTINA FRAIZ_2022
Quatro pitangas
Faço sacrifícios pra que a vida continue azeda, picante e vermelha
Alberto Martins | Edição 196, Janeiro 2023
DANÇAR AS PITANGAS
Na rua de casa, uma roda de pitangas.
O chão de pedra manchado
por um sangue leve, divertido.
É bom pisar descalço nas pitangas.
Esmagadas, elas produzem um cheiro acidulado
e um caldo que lembra molho à bolonhesa.
Com os pés descubro seus caroços.
Pálidos e pelados, completamente bêbados
doidos pra germinar.
PODA DE VERÃO
1.
A pitangueira lança os galhos acima do telhado.
O temporal arranca as folhas, entope a calha
e chove dentro do nosso quarto.
A pitangueira não sabe que os humanos
detestam colchão molhado.
2.
Os galhos da pitangueira caem
em grandes ramadas no corredor de casa.
De tempos em tempos interrompo o serviço
pra provar uma pitanga.
A poda não machuca a pitangueira.
Pelo menos, não a fere de morte.
Eu também – todo verão – faço sacrifícios
pra que a vida continue azeda, picante
vermelha.
NA VOLTA DA PADARIA
1.
a neve cai da pitangueira
desenha uma roda clara
na calçada
a caminho da padaria
passo a seu lado
e saúdo –
brava pitangueira
bela como as manhãs
de setembro
mas ainda estamos
em agosto, penso
nem acabou o inverno
que idade terá?
por que tamanha pressa
de florir?
2.
ela não é como eu –
passada a puberdade
não mudou de bairro
nem de amigos
só inventou raízes largas
que fincou cada vez
mais fundo
num estreito pedaço
de chão e cresceu
até se tornar
nesta manhã de agosto
a esplêndida arca de ouro
das abelhas
3.
na volta da padaria, penso –
se tudo correr bem
esta não será tua última florada
FALSO POEMA CHINÊS
em maio elas retornam
cintilando acima da minha cabeça
pequenas abóboras vermelhas
as pitangas
quase uma utopia na ponta do galho
ao alcance das mãos
vontade de chamar os amigos e celebrar
ao redor da pitangueira minha dança
de aniversário
mas o inimigo cruzou a fronteira norte
agora as abóboras
apodrecem pelos caminhos
que fazer no meio de tanto desejo desencontrado
celebrar as pitangas
enfrentar o inimigo
sussurra Du Fu num poema do século VIII
que ainda está por ser escrito
