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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024

esquina

Que venham as abelhas

Os tikmũ’ũns querem a volta de bichos e plantas às suas terras

Bernardo Esteves | Edição 214, Julho 2024

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Os cantos tradicionais dos tikmũ’ũns, indígenas que vivem no Leste de Minas Gerais, guardam o registro de plantas e bichos que muitos deles jamais viram. Eles formam um inventário das frutas, árvores, peixes, aves e animais de todo tipo que um dia viveram com seus ancestrais. “É uma verdadeira enciclopédia da Mata Atlântica”, definiu a musicóloga Rosângela de Tugny, pesquisadora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) que há mais de duas décadas estuda os cantos tikmũ’ũns.

Tome-se o caso do Papa-mel: “Quero o mel da jataí hui hui/quero o mel da iraí hui hui/quero o mel da mombuca hui hui.” No total, os versos enfileiram o nome de 21 abelhas, mas os tikmũ’ũns contemporâneos não conhecem nem a metade. “Sobraram apenas duas espécies de abelhas nas terras deles”, disse Tugny.

Também conhecidos como maxakalis, os tikmũ’ũns vivem num território muito pequeno, de cerca de 6,4 mil hectares – noventa vezes menor do que a área de Brasília. As terras estão divididas em quatro áreas nos municípios de Bertópolis, Santa Helena de Minas, Ladainha e Teófilo Otoni. Se não há mais abelhas ou outros bichos evocados nos cantos, é porque praticamente não sobrou vegetação nativa: o território está coberto por antigas pastagens que foram tomadas pelo capim-­colonião. “Tem aldeia em que não há uma única árvore”, disse o antropólogo Roberto Romero, que estudou os tikmũ’ũns em seu mestrado e doutorado.

 

 

Desde o começo do século XIX, desmatar aquele território foi uma política de Estado deliberada, para acabar com os povos indígenas que ocupavam a região. A ideia era expulsá-los de suas habitações e derrubar as matas onde se escondiam. O plano deu certo: quando visitou os tikmũ’ũns em 1939, o etnólogo Curt Nimuendaju estimou que sua população fosse de apenas 120 indivíduos. Mas a população se recuperou e ho­je conta cerca de 2 850 indivíduos. Muitos deles falam o maxakali, a última língua ainda viva da família de idiomas de mesmo nome.

No ano 2000, Rosângela de Tugny conheceu os cantos dos tikmũ’ũns quando os convidou para se apresentarem num evento que organizou na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde era professora. Capturada pelo que ouviu, decidiu que iria mergulhar naquele universo. “Foi como um chamado pelo som”, contou. A musicóloga passou a trabalhar em colaboração com os tikmũ’ũns para registrar, repertoriar e traduzir seus cantos, pesquisa que já rendeu dois livros, além de artigos acadêmicos.

Tugny aprendeu um pouco da língua maxakali e passou várias temporadas em seu território para gravar os rituais, que depois eram transcritos e vertidos para o português por pajés e indígenas, com a colaboração da musicóloga. Se os cantos já lhe pareciam musicalmente muito sofisticados, o texto não fazia por menos. “É impressionante o tamanho, a variedade e a precisão do repertório”, disse.

 

A pesquisadora também recebeu grupos de tikmũ’ũns em Belo Horizonte. Visitou com eles o Laboratório de Ecologia e Comportamento de Insetos da UFMG, onde uma conversa com biólogos os ajudou a identificar muitas das 33 espécies de abelhas silvestres que aparecem nos versos. “Eles sempre me pediam para levá-los ao zoológico para ver os bichos que só conheciam através dos cantos”, lembrou Tugny.

 

Desde o ano passado, a musicóloga está envolvida também num projeto que pretende reflorestar o território ocupado pelos tikmũ’ũns. O objetivo é formar agentes agroflorestais indígenas treinados para recuperar a mata e produzir alimentos saudáveis para consumo próprio. A soberania alimentar dos tikmũ’ũns é uma preocupação. Por causa do estado degradado do solo, nada é cultivado em seu território. “A região não produz nenhum alimento, nem ovo caipira a gente acha”, disse Tugny. “Até a banana vem da Ceasa da Grande Belo Horizonte.”

Grandes viveiros foram estabelecidos para o cultivo das mudas de árvores nativas da Mata Atlântica a serem espalhadas pelo território. O plantio começou em outubro do ano passado. “O que a gente plantou até agora chega a aproximadamente 85 hectares, incluindo áreas agroflorestais e de reflorestamento”, afirmou o pesquisador Breno Terra, que trabalha na implementação do projeto.

 

Romero, um dos coordenadores da iniciativa, se surpreendeu com a adesão a um mutirão organizado para o plantio de mudas. “De repente tinha mais de quinhentas pessoas vindas de todas as aldeias”, disse. O antropólogo contou ainda que as crianças incorporaram o cuidado com os cultivos à sua rotina. “Vi uma menina de uns 6 ou 7 anos que ensinava à própria mãe o nome das mudas, porque as conhecia melhor que ela.”

Isael Maxakali, professor, artista e cineasta tikmũ’ũn, disse à piauí que a mata precisa crescer de novo para que seu povo volte a praticar seus rituais e caçar na floresta, e para que tenha comida sem agrotóxicos. “Precisamos curar a nossa terra, que está doente e precisando de socorro.” Quando isso acontecer, acredita ele, os pajés voltarão a colher ervas medicinais na mata. E quem sabe os tikmũ’ũns conheçam a biodiversidade registrada em seus cantos. “Se a mata voltar, voltam os pássaros e as abelhas, vai ter muita caça e muita pesca”, disse Isael. “Esse é nosso sonho, e vamos realizá-lo.”

Os recursos para a realização do projeto vêm de pagamentos feitos por empresas que cometeram crimes ambientais e firmaram termos de ajustamento de conduta ambiental com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que destina os valores arrecadados para ações de proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas. A iniciativa já recebeu 3,7 milhões de reais na primeira fase e pode receber outros 2 milhões. “Esse é um projeto incrível, que parte da capacitação dos próprios indígenas para recuperar sua área e produzir sua subsistência”, disse à piauí o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente do MPMG. “A gente espera que possa ser replicado em outros estados.”

De quebra, o reflorestamento deve atenuar os impactos do aquecimento global na região. A proteção chegará em boa hora: nas imediações das terras dos tikmũ’ũns, concentra-se a maior parte dos municípios que mais sofreram com o calor extremo em 2023, de acordo com um levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Em 2023, um ano de fenômeno El Niño, o território indígena sofreu com o fogo, que atingiu uma área com mais de mil hectares e atrasou o início do plantio. “O episódio mostrou que o combate aos incêndios é tão importante quanto o reflorestamento”, disse Romero.

O calor extremo e a falta de chuva não impediram que os tikmũ’ũns colhessem os primeiros frutos de seu trabalho. “Já teve banana, abóbora, feijão”, enumerou Isael Maxakali. Com o tempo, virão mais árvores e leguminosas – o plano prevê uma sucessão de espécies que devem mudar aquela paisagem. Isael sabe que vai demorar até que as abelhas voltem e que seu sonho se realize. “Tem que ter paciência”, disse. “Vamos esperar cuidando.”

Bernardo Esteves
Bernardo Esteves

Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)

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