questões de cinema e de dor I
Consuelo Dieguez Dez 2024 16h11
20 min de leitura
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A atriz libanesa Wafa’a Celine Halawi, protagonista do filme Retrato de um certo Oriente, do diretor pernambucano Marcelo Gomes, olhou a chamada na tela do celular e, desculpando-se em português, pediu licença para atender. “É minha mãe”, disse. Em francês, ela iniciou um breve diálogo com a mãe, quase sussurrando. Pela sua expressão, tratava-se de um assunto tenso e triste.
A mãe se encontrava em Beirute, a mais de 10 mil km da ampla sala de estar da casa colonial em Paraty onde Halawi estava hospedada. A atriz chegara ao Brasil no começo de outubro para participar de um festival de cinema no Rio e fora em seguida para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participou de debates sobre o filme. O que, para ela, seria uma relaxante imersão na vida cultural brasileira se transformou numa temporada de ansiedade e medo. Assim que Halawi deixou seu país, bombas israelenses começaram a cair sobre várias aldeias, ao mesmo tempo que as Forças de Defesa de Israel (FDI) iniciavam um ataque por terra ao Sul do Líbano, numa ação contra o braço armado do grupo político Hezbollah.
A situação pioraria muito nos dias que se seguiram à chegada da atriz ao Brasil. Israel passou a atacar a capital Beirute, já traumatizada com as explosões de pagers de membros do Hezbollah – uma ação atribuída ao serviço secreto israelense que matou e feriu dezenas de pessoas, inclusive crianças. Com isso, a volta de Halawi para casa ficara comprometida, por razões de segurança.
Quando terminou a ligação, ela me disse que os bombardeios não haviam atingido as áreas onde vivem sua família e a maioria de seus amigos. O que não tornava a situação menos assustadora. “Nossa casa ainda é um lugar mais ou menos seguro. Mas minha mãe me disse que é possível ouvir muitas explosões”, contou. “Pessoas estão morrendo, entre elas, muitas crianças. Antes de falar em política, é preciso falar em humanidade. Isso tem que parar.”
É a terceira vez que Halawi vem ao Brasil. A primeira foi no começo de 2020, para o início das filmagens de Retrato de um certo Oriente, rodado parcialmente em Belém (que, no filme, faz as vezes de Manaus). Os trabalhos, porém, tiveram que ser interrompidos duas semanas depois, por causa da chegada da pandemia de Covid. A segunda vez foi em 2022, para a conclusão das filmagens. Agora, ela estava de volta para participar da divulgação do filme, lançado em 21 de novembro.
Em 2020, quando chegou a Belém, a atriz viveu momentos intensos. Impactada pela experiência brasileira, escreveu um diário (A cidade sem janelas, piauí_168, setembro de 2020), contando a temporada no país e a volta a Beirute. Ela narrou assim sua chegada à capital paraense, em 25 de fevereiro daquele ano:
Era noite, como acontece tantas vezes quando as coisas estão prestes a se desvelar. Ernesto [Soto], o produtor, me levou “às docas”, onde tive meu primeiro encontro com as águas que fazem parte do delta do Amazonas. Senti-me segura no Brasil.
No dia 18 de março, a leveza já lhe fora tirada. Ela escreveu:
Com o surto do coronavírus já instalado no Brasil, a filmagem foi interrompida. O Aeroporto de Beirute estava fechado. Por um momento, nossas esperanças também estão interrompidas. Se pelo menos eu soubesse, já então, que o mundo iria mudar. Que mais uma vez eu teria de esperar, adiar e sepultar dentro de mim todo o desejo de viver, e me limitar a pensar, de novo, sobre como fazer para sobreviver. Nunca me senti tão intensamente livre quanto no Brasil. Eu não era libanesa, nem muçulmana, nem uma mulher numa sociedade patriarcal. Era livre. Mas a liberdade, como a felicidade, é sempre fugidia.
A narrativa prosseguiu, contando o que ocorreu em 4 de agosto, após a explosão do porto de Beirute:
Quantos desafios temos que enfrentar, antes de encontrar nossa vontade de viver, antes de desfrutar de alguns momentos de paz sem precisar sobreviver? Quantas vezes temos a coragem de lamentar, de chorar, quando é por nós mesmos que choramos? Quantas vezes nos curamos e domamos o medo, a raiva, a tristeza, sem deixar que esses sentimentos nos dominem? Quantas vezes ousamos ter fé, ousamos crer? Quantas vezes ouvimos nossos filhos gritarem “Mamãe, não quero morrer”?
Menos de cinco anos depois desse relato, sua vida voltou a ficar em suspenso e ganhou uma dimensão intrigante por causa da estranha simetria entre o filme que ela protagoniza e a atual situação do Líbano. Ficção e realidade, passado e presente se encontraram de forma dramática, justo no momento das primeiras exibições de Retrato de um certo Oriente.
As cenas iniciais do filme tratam, precisamente, da guerra entre Líbano e Israel. Não a de 2024, mas a de 1948. O conflito de 76 anos atrás teve início depois que a ONU autorizou a criação do Estado de Israel. As milícias armadas do novo país trataram logo de expulsar a população palestina do território em que vivia, num episódio que ficou conhecido no mundo árabe como Nakba, ou a catástrofe. Inconformados com a violência da expulsão dos palestinos e a tomada de seu território, os países da Liga Árabe, entre eles o Líbano, entraram em confronto com Israel, que, apoiado pelos Estados Unidos, venceu seus oponentes em 1949.
No filme, o horror dessa guerra é exposto pelo olhar de Emir, o jovem irmão da personagem Emilie, interpretada por Halawi. Emir – personagem do ator libanês Zakaria Kaakour – a retira à força de um convento no Norte do Líbano para escapar do confronto, buscando abrigo no Brasil. Emilie não quer deixar seu país. Mas cede aos apelos do irmão, que, ajoelhado aos seus pés, implora, apavorado: “Eu não quero morrer na guerra.”
Wafa’a Halawi é uma mulher bonita, de compleição mignon, que aparenta menos que seus 42 anos. Seus cabelos são negros, como seus olhos. Acomodada em um dos sofás do casarão de Paraty, ela comenta, num português claro, aprendido em aulas particulares no Líbano, a dura coincidência entre a história do filme e a atual situação do seu país. “O filme se passa no final dos anos 1940, mas fala das mesmas coisas que estão acontecendo agora: guerra, crise, deslocamentos, fuga do país e a busca de um lugar seguro, de um lar no mundo”, diz. “A cada vez, pensamos que não pode ser pior. Mas pode ser, sim. No intervalo entre a minha primeira vinda para cá e agora, tivemos a Covid e a explosão do porto de Beirute, que matou centenas de pessoas. Dessa vez, voltar ao Brasil é muito diferente, porque a situação lá é ainda mais terrível. É uma guerra desumana. Todo mundo tem medo do que vai acontecer.”
No dia de nossa conversa, 11 de outubro, a guerra já tinha feito dezenas de vítimas civis, sendo 127 crianças. Entre elas, dois adolescentes brasileiros. Em poucos dias, os bombardeios se espalharam por outras partes do Líbano. “Agora temos 1 milhão de pessoas deslocadas no país. Muitas fugiram ou estão tentando fugir. Muitas pessoas inocentes estão morrendo”, conta Halawi.
Guerras, perseguições religiosas e crises econômicas foram algumas das razões para os libaneses emigrarem para o Brasil, a partir do fim do século XIX. Isso fez do Brasil o país com a maior comunidade libanesa do mundo. Hoje, somando-se os imigrantes libaneses e seus descendentes, estima-se que eles sejam 8 milhões – o dobro da população do Líbano. “Eu queria acreditar que estamos em um momento em que as coisas podem mudar”, diz a atriz. “Tudo o que está acontecendo no Líbano, no mundo, tem que resultar em um choque de consciência. Um despertar. E temos que lembrar que não somos somente nós. Há a tragédia na Palestina, que já dura mais de um ano. Não é possível que a humanidade não se sensibilize com esse horror.”
Um dos encantos do filme Retrato de um certo Oriente é tratar de forma poética temas tão atuais como intolerância religiosa, disputas territoriais, deslocamentos forçados, guerra, paz, amor e luto. Se a temática já era pertinente quando o filme estava sendo rodado, tornou-se ainda mais premente agora. Tanto pelo fato de o Líbano e a Palestina terem se transformado em um campo de batalha, como por haver incorporado na história outro componente: a violência contra os indígenas brasileiros.
Em 1948, os palestinos eram 70% da população da região em que foi criado o Estado de Israel, enquanto os judeus que lá viviam não passavam de 30%. Firmou-se, porém, o mito – que remonta ao século XIX – de que “a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra” (o que é muito bem explicado no livro Dez mitos sobre Israel, do historiador israelense Ilan Pappe).
Com os indígenas brasileiros aconteceu coisa parecida: espalhou-se ao longo do tempo a ideia de que a Amazônia era uma terra despovoada, a ponto de a ditadura militar estimular os brasileiros a ocuparem aquela “terra sem gente”. Esse mito e essa ocupação são bem detalhados no livro Arrabalde, de João Moreira Salles,[1] que escreve:
[Trata-se de] uma formulação do período que ilustra de forma certeira como o Estado fez da indiferença um princípio de conquista. A Amazônia, é claro, não era e nunca havia sido uma terra despovoada. Estima-se que no século XVI, quando da chegada dos europeus, de 8 a 10 milhões de pessoas habitavam a floresta. Nos séculos posteriores, povos originários foram dizimados por doenças e violências, mas parte deles resistiu. Nunca deixaram de estar ali.
É uma história semelhante à tragédia dos palestinos.
O filme de Marcelo Gomes se baseia no livro Relato de um certo Oriente, do escritor amazonense Milton Hatoum, lançado em 1989 e que ganhou no ano seguinte o Prêmio Jabuti de melhor romance literário. É uma obra de difícil adaptação para o cinema. Enquanto os personagens no filme são bem definidos, no romance eles se entrelaçam e se sobrepõem uns aos outros, formando um coro cujas vozes ora expressam a vivência do presente, ora falam das lembranças doloridas do passado.
No livro, quem conduz a história de forma lírica é uma narradora não nomeada pelo autor, que retorna a Manaus, a cidade de sua infância, para reencontrar Emilie, a matriarca de uma família libanesa há muito tempo ali instalada. No presente, ela se depara com uma cidade degradada, as casas abandonadas, a floresta desprezada, os indígenas humilhados, muita pobreza e o meio ambiente deteriorado. Já suas lembranças são marcadas pela mistura de sabores, cores, tecidos e tramas de duas culturas – a amazônica e a libanesa –, tão distantes uma da outra quanto o rio caudaloso e o deserto. Essas lembranças refletem ainda momentos de profunda ternura de uns personagens por outros, a saudade que os imigrantes sentem da terra natal, para onde não querem regressar, mas também a violência de uma elite arrogante e indiferente.
No filme, é a câmera que conduz a narrativa, de forma intimista, captando as trocas de olhares, os desejos, afetos, ciúmes, medos, o amor, a fé e o luto. Ao rodar Retrato de um certo Oriente em preto e branco, o diretor buscou não apenas dar mais densidade ao drama interior dos personagens, mas também fugir do exotismo que o exuberante colorido da Amazônia costuma suscitar aos olhares estrangeiros.
Talvez o leitor do romance demore um pouco para encontrar uma conexão entre o livro e o filme, e para reconhecer os personagens machucados das páginas no triângulo amoroso da tela, formado por Emir, Emilie e o homem por quem ela se apaixona, Omar – interpretado pelo ator libanês Charbel Kamel. Mas isso de forma alguma incomoda o escritor Milton Hatoum, que vê no filme a poesia que complementa o seu romance.
Milton Hatoum, de 72 anos, tem os cabelos grisalhos e os mesmos olhos escuros e profundos de Wafa’a Halawi, tão próprios dos libaneses. Ele nasceu em Manaus, descendente de uma família libanesa que imigrou para o Brasil no começo do século XX. Como o diretor Marcelo Gomes e o produtor peruano Ernesto Soto Canny, o escritor está hospedado no casarão de Paraty, alugado por Guilherme Coelho, dono da Matizar, uma das produtoras do filme.
Hatoum conta que levou seis anos para concluir Relato de um certo Oriente, seu primeiro livro. Jovem estudante perseguido pela ditadura militar, ele se mudou para a Espanha em 1979, depois de ganhar uma bolsa de estudos de uma instituição do país. Lá, iniciou a escrita de um romance contando sua experiência no movimento estudantil. Foi dissuadido por um amigo argentino, que o aconselhou que seria muito mais valioso se ele mergulhasse nos dois mundos muito antigos e fascinantes com os quais tem laços: o Oriente Médio e a Amazônia. Foi quando Hatoum teve o estalo do livro, “ouvindo as vozes” de sua infância. Por causa do filme, o romance Relato de um certo Oriente ganhou nova edição em português, está sendo traduzido para o árabe e será lançado no Líbano. “Se as condições lá permitirem e não bombardearem a editora”, diz o escritor, que não esconde sua preocupação com o destino do país.
“Uma das grandes intuições do Marcelo Gomes foi captar o espírito do tempo, embora esta seja uma expressão em desuso”, afirma Hatoum. “Ele inseriu questões muito relevantes e atuais que não estão no romance, que tem uma dimensão intimista muito forte, relacionada aos elementos líricos da linguagem. Poeta frustrado que eu era, tentei mitigar minha frustração escrevendo de modo mais lírico. O que também move o Relato de um certo Oriente são as vozes da memória. O romance é uma sondagem memorialista do passado.”
Hatoum avalia que Gomes optou por um aspecto do romance que é muito literário: a viagem dos personagens do Líbano até Manaus. “O filme é uma viagem. E dessa viagem, que já é um tema literário em si, desdobram-se outros temas essencialmente literários, que são o amor, a morte, o incesto. Ao lado, aparecem as grandes questões atuais, como os refugiados, os deslocados, os imigrantes”, diz o escritor. “Além disso, como resultado estético, o filme é extraordinário, porque não explora o exotismo nem do Oriente nem da Amazônia, o que é um perigo e uma tentação quando você vai escrever sobre essas duas regiões e filmá-las.”
Halawi, Hatoum e eu caminhamos para a varanda da casa, com vista para o jardim, a fim de aproveitar um pouco da brisa da manhã abafada e para que o escritor pudesse fumar. Gomes e Soto se aproximam. Aproveito para fazer uma foto do quarteto, já que a atriz não sabe quando poderá voltar ao Brasil. Ela também não sabe quando poderá voltar ao Líbano. Depois de Paraty, embarcou para a França, onde participou de um festival do cinema libanês. Em seguida, foi para a Espanha e de lá para a Nigéria, onde vivem dois de seus irmãos e ela seria jurada de outro festival.
Pergunto ao diretor Marcelo Gomes o que o levou a incluir no filme tanto a guerra no Oriente Médio quanto a luta dos indígenas no Brasil. Bem-humorado, o diretor do elogiado Cinema, aspirinas e urubus (2005) conta que na primeira vez que esteve com Hatoum, os dois travaram o seguinte diálogo:
– Eu admiro muito a sua obra – disse Gomes.
– E eu admiro muito o seu cinema – respondeu Hatoum.
“Foi um bom começo”, diz Gomes, rindo. Quando ele contou a Hatoum que gostaria de adaptar o Relato para o cinema, o escritor se espantou e disse que o romance era “inadaptável”. O próprio diretor admitiu que o livro, “com seu fluxo de consciência muito complexo, realmente dificultava a passagem para o cinema”. Mas havia dois elementos importantes para o cineasta: a alteridade e a memória. “Desde o meu primeiro filme, Cinema, aspirinas e urubus, quando junto um alemão e um nordestino, já existe essa questão da alteridade. No romance, temos um casal formado por uma cristã e um muçulmano, além de um indígena e um fotógrafo, que, coincidentemente, também é alemão.”
Enquanto lia o romance, Gomes pensava com frequência no “contracampo”, termo que, no léxico do cinema, se refere ao plano feito no ângulo oposto ao da imagem precedente, mas que o diretor entendia, durante a leitura, como tudo aquilo que não estava dito no livro. “Como teria sido a chegada desses libaneses à Amazônia, qual a impressão que tiveram?”, eram perguntas que ele se fazia, já que essa história não é contada no livro. Gomes foi, então, atrás dessa outra dimensão do romance.
Sua primeira decisão foi contratar atores libaneses, para captar com mais força o choque da chegada dos imigrantes a Manaus. Na mesma linha, buscou indígenas do Alto Rio Negro para interpretar aqueles que estão ameaçados de expulsão de suas terras – entre eles, Rosa Peixoto, do povo Tucano (que faz o papel de Anastácia), e toda a família dela. Isso, diz Gomes, acrescentava ao filme um elemento que o próprio Hatoum lhe havia contado a respeito de Manaus: de que a cidade, no final dos anos 1940, era uma Babel de línguas e culturas.
“Não é só o Relato que está no filme, mas uma série de experiências que vivi com o Milton, e vivi no Líbano e no Brasil”, conta Gomes. “Quando começamos o projeto, nós fomos conhecer a Manaus e a Belém do Milton Hatoum, junto dele.” A decisão de filmar em Belém teve a ver com a arquitetura da cidade, que, mais do que Manaus, preservou muitas construções do início do século XX. Em seguida, os dois foram ao Líbano, onde tiveram contato com um historiador que os levou para conhecer vários lugares do país. “O artista é uma pessoa do seu tempo: vai fazer um filme na Amazônia, num momento em que as terras indígenas não estão devidamente demarcadas, e fazer um filme sobre imigrantes do Líbano, depois de conhecer a situação do Líbano”, diz Gomes. Ele não imaginou, porém, que as coisas “chegariam nesse ponto”, com a violência da guerra atual e o aumento dos ataques aos indígenas. “Aí foi o deus acaso jogando com a obra de arte. E a gente não sabe mais se a vida imita a arte, ou se a arte imita a vida”, afirma o diretor. “Fato é que a história se repete em ciclos. Com seus erros ocorrendo em uma escala cada vez maior.”
Hatoum intervém e traz a discussão da guerra para a atualidade. “Em 1946, o Líbano saiu do mandato francês e tornou-se um país independente. Mas o colonialismo está presente até hoje”, diz. Gomes acrescenta: “O ator Zakaria Kaakour, de 28 anos, personagem que no filme grita que não quer morrer na guerra, neste exato momento está em Beirute e me mandou uma mensagem dizendo que uma bomba explodiu a 1 km de onde ele mora, obrigando-o a se mudar para a casa dos irmãos.”
Um dado curioso é que os dois atores libaneses que interpretam os irmãos Emilie e Emir são muçulmanos na vida real e cristãos na trama. Já o ator que interpreta o mercador enamorado de Emilie é cristão, embora no filme faça um muçulmano. “Isso foi muito interessante, porque nos obrigou a entender a religião uns dos outros. Eu tive que aprender a rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria”, conta Halawi. Já Charbel Kamel teve que rezar o Corão, que aprendeu com um imã, no Líbano.
Esse cuidado minucioso, responsável pelo realismo das cenas, está presente não só nos detalhes, mas em belas passagens do filme, fotografado pelo brasileiro Pierre de Kerchove. Nas cenas iniciais, os emigrantes que partem de navio do porto de Beirute são libaneses, judeus e outros desvalidos, buscando um futuro melhor nessa terra tão distante que é o Brasil. Eles alimentam também a esperança de uma coexistência pacífica entre cristãos, muçulmanos e judeus, ansiando que a compreensão mútua possa curar suas feridas. A eles se junta, no barco que os leva a Manaus, a indígena Anastácia, cuja tribo está sendo expulsa de suas terras, além do fotógrafo alemão. O resultado desse encontro é profundamente tocante.
Como o filme descreve uma viagem transoceânica e pela Amazônia, boa parte das cenas transcorrem no mar, no rio ou na floresta – o que dificultou muito as filmagens. O produtor Ernesto Soto brinca que, na verdade, foram feitos dois filmes, e não apenas um, dado que as filmagens tiveram que ser interrompidas em 2020, por causa da pandemia. “Nessa época, chegamos a morar dois meses em Belém, escolhendo locações, reservando e pagando adiantado hotéis, alimentação, entre outras necessidades. Além disso, houve ensaios em inglês, durante cinco semanas, com os atores libaneses”, conta. “O trabalho foi todo meio épico. Tivemos nove produtores, entre eles Guilherme Coelho e Mariana Ferraz, que estavam neste projeto desde o início, há doze anos.”
Com a pandemia, todo o trabalho ficou suspenso durante dois anos, com uma enorme perda financeira. Então, veio a segunda etapa, em 2022. Era preciso filmar a partida dos personagens do Líbano. Complicado foi arrumar um navio. “Conseguimos um da Marinha brasileira que estava ancorado em Belém e o recriamos nos moldes dos transatlânticos da época.” Mas então apareceu um grave problema: o porto de Beirute, onde seriam gravadas várias cenas, havia sido destruído em agosto de 2020 por uma explosão gigantesca que deixou mais de duzentos mortos e 7 mil feridos. Foi preciso encontrar uma nova locação. “Conseguimos alugar um espaço abandonado no porto de Nápoles, na Itália, e recriamos ali o porto de Beirute nos anos 1950”, recorda Soto.
A partida do porto, com personagens de várias partes do mundo contando suas histórias de vida e suas expectativas, reflete a situação atual de cerca 120 milhões de deslocados e refugiados (metade deles formada por crianças) em todo o mundo, segundo a Acnur, a agência da ONU para refugiados. É um número recorde na história, superando até mesmo a grande diáspora ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial.
A conversa na casa em Paraty foi interrompida para que os quatro fossem assistir à sessão de Retrato no Cinema da Praça, no centro histórico da cidade litorânea. Enquanto caminhávamos rumo ao cinema, falamos de outra epopeia que se dava, naqueles dias, no Líbano: o resgate de brasileiros que vivem lá e querem voltar ao Brasil por causa da guerra. O governo havia mobilizado funcionários do Itamaraty e aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para a tarefa. Mas algumas das pessoas não conseguiram sair a tempo do país, como o pai e o filho que morreram na explosão causada por um drone israelense.
Muitos brasileiros vivem hoje no Vale do Bekaa, que tem sido alvo de frequentes bombardeios porque é dali que o comando armado do Hezbollah dispara mísseis contra Israel. O Itamaraty chegou a solicitar ao governo israelense que permitisse a saída de brasileiros da região, em comboio, para facilitar o agrupamento deles no aeroporto em Beirute. Como Israel não deu garantias de segurança, foi estabelecido que as famílias viajariam por conta própria. Durante aqueles dias em que estávamos em Paraty, cerca de oito aviões da FAB já haviam trazido para o Brasil em torno de 1,1 mil pessoas.
Antes do ataque, os libaneses estavam começando a sair da crise que praticamente destruiu sua economia nos últimos anos. Viviam também um momento pacífico, sem guerra civil e sem confrontos com os vizinhos. Tudo isso se perdeu no começo de outubro, depois do início do combate entre as forças israelenses e as do Hezbollah. Como me disse um diplomata brasileiro, “o Líbano é um belo país, mas, o que tem de beleza, tem de tragédia”.
O Hezbollah é a milícia armada que defende o território do Líbano contra as incursões israelenses, uma vez que as forças armadas do país são ainda muito incipientes. É também uma força política importante, com seus políticos ocupando cadeiras no Parlamento e postos no governo. A relação dos libaneses com o Hezbollah é ambígua. Por um lado, são gratos à ação do grupo contra as tentativas de invasão de Israel. Por outro, questionam se o relacionamento com os israelenses não seria mais fácil caso o Hezbollah não existisse.
Organização que segue o credo xiita, o Hezbollah (palavra que, em árabe, significa Partido de Alá) surgiu no final dos anos 1970 com o objetivo de lutar contra a invasão israelense no Sul do Líbano. Na época, o objetivo de Israel era eliminar os guerrilheiros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que haviam se entrincheirado no Líbano, depois de serem atacados na Palestina. Logo em seguida, o Líbano viveria uma guerra civil entre cristãos e muçulmanos, insuflada por Israel, que desejava enfraquecer a presença islâmica no país. Com os seguidos ataques israelenses ao Líbano, o Hezbollah ampliou sua força, com a adesão de muitos libaneses às suas fileiras. O Irã, também de maioria xiita, acabou financiando o grupo, fornecendo armas e treinamento aos combatentes – o que explica as relações bélicas entre Israel e o governo iraniano. No dia 27 de novembro passado, entrou em vigor um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah. Mas o que virá a seguir é imprevisível.
Em Paraty, no Cinema da Praça, o público aguardava o início da sessão de Retrato. Antes da projeção, Halawi leu um manifesto, escrito por ela em conjunto com Hatoum, Gomes e Soto. Em português (para a surpresa da plateia), a atriz disse:
Retrato de um certo Oriente fala da viagem de Emir e Emilie ao Brasil, nos anos 1940. É uma história de amor, que envolve problemas importantes e muito atuais: preconceito, intolerância religiosa, refugiados e deslocados. Nessa história, Emir e Emilie tiveram que abandonar o Líbano e foram acolhidos no Brasil, como vem ocorrendo com refugiados no mundo todo. Durante a viagem, eles fazem amizade com uma indígena tucana, que também está sendo expulsa de seu território. Como a gente se sente, sem ter para onde voltar? Sem ter um lugar para chamar de seu? Essa é a pergunta que faço a mim mesma.
E continuou:
Este filme nos convida a pensar nas relações humanas fundamentadas na solidariedade e no respeito às diferenças. É um filme que fala de amor e humanidade. É disso que devemos nos lembrar hoje.
Depois, trocando o português para o árabe, concluiu:
Precisamos nos juntar às vozes que hoje exigem um cessar-fogo no Líbano, em Gaza e em todas as partes do mundo que têm guerra.
O público respondeu no idioma universal do aplauso.
[1] É o fundador da revista piauí.