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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

Resgate solitário

Um lar para cães abandonados

Consuelo Dieguez | Edição 114, Março 2016

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O velho Fusca cor de laranja corta a estradinha de terra que serpenteia os morros cobertos de verde no município de Cordeiro, na zona rural fluminense. O banco de trás do carro está tomado por um galão de quase 100 litros de água fresca, um saco de 15 quilos de ração, uma maleta recheada de remédios, seringas e vacinas, além de mantas, tigelas e desinfetante – material que chega até o teto do veículo e tampa a visão do vidro traseiro. Na direção, o engenheiro Sérgio Monnerat desvia com destreza dos buracos que tomam conta do caminho íngreme e empoeirado.

Já no alto da colina, ele avista seu destino, um sítio semiabandonado. E abre um sorriso assim que inicia a descida com as mãos agarradas firmemente ao volante, que vibra com o impacto do carro nos sulcos abertos no caminho. “Lá vêm eles”, avisa. “Já ouviram o barulho do motor.” Logo, uma alegre e barulhenta matilha se embola na frente da porteira do sítio, a sua espera.

Assim que Monnerat abre o portão, parte da bicharada pula sobre ele, enquanto a outra invade, sem cerimônia, o carro já entupido, ocupando o que resta de espaço. O Fusca avança por um caminho ainda mais tortuoso, acompanhado de perto pelo bando bagunceiro. Dentro do carro, o motorista se esforça para escapar das lambidas e mordiscadas dos novos ocupantes.

 

Depois de estacionar sobre um platô, Monnerat começa o trabalho. Alimentar, dar água e tratar dos 35 cachorros que dependem unicamente dele para sobreviver. Todos foram recolhidos da rua ou retirados dos antigos donos, para se verem livres de maus-tratos. A tarefa é árdua. Monnerat começa despejando água e comida em várias bacias espalhadas pelo chão. Enquanto a turma se diverte e se alimenta, ele se encarrega de limpar o canil, construído para abrigar os bichos durante a noite. Esfrega o chão com uma vassoura, espalhando desinfetante.

De vez em quando interrompe o trabalho para secar o suor que escorre pelo rosto e contar a história de cada um dos cachorros. Tigrão, um vira-lata rajado de pouco mais de 20 centímetros, ele encontrou recentemente quase afogado numa poça d’água. Mãe e seus dois irmãos estavam abandonados numa casa, praticamente mortos de fome. Quando foi recolhê-los, a cadela se colocou na frente dos irmãos para protegê-los, e por isso ganhou o nome maternal. Feliz e Felícia, dois filhotes de pelo negro e patas brancas, foram confiscados do dono que os espancava. Feliz, que junto com os outros se entretinha rasgando uma camiseta velha, tem uma cicatriz na barriga provocada pelos chutes que levava.

Enquanto Monnerat trabalha, Francisca, uma vira-lata marrom, retirada da rua com ferimentos pelo corpo, amamenta outros dois filhotes que também haviam sido largados ao relento. Logo que os pequenos chegaram ao sítio, a cadela os adotou. E passou a produzir leite para amamentá-los, como se fosse mãe deles. Sorriso, uma cadela malhada, tinha bicheira até no céu da boca e gemia de dor ao ser resgatada. Agora, a mucosa do palato está recuperada. “Os bichos chegam aqui muito machucados”, diz o engenheiro, voltando a esfregar o canil. “Não consigo entender como é possível o ser humano fazer tanta maldade com eles.”

 

 

Sérgio Monnerat é um homem pequeno de olhos claros e cabelos ralos. Tem 57 anos. Engenheiro do estado, trabalhou por algum tempo com obras, mas depois preferiu assessorar políticos da região, tanto no Congresso quanto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, faltando pouco para se aposentar, admite que praticamente não se dedica mais ao trabalho. Passa a maior parte do tempo enfurnado em sua Cordeiro natal, cuidando dos bichos. Na pequena cidade, viveu uma juventude agitada, com muita farra e muita bebida. Hoje quer sossego. O cuidado com a cachorrada o deixou mais sereno.

Disse que sempre gostou de bichos, desde pequeno. Mas foi por acaso que decidiu cuidar dos abandonados. Há dois anos, um vizinho o chamou para resgatar uma ninhada. Logo, outras pessoas passaram a lhe dar informações sobre cães largados em situação degradante. Sem ter como acolher a bicharada em casa, onde vive com a mãe, dois filhos, a irmã e a sobrinha, decidiu buscar um local maior para abrigá-los. Arrendou parte do sítio de um conhecido. Batizou o lugar de Cantinho da Ritinha, em homenagem a uma vira-lata que recolheu e que foi morta por um cão de um sítio vizinho.

Com o tempo, outros animais lhe foram entregues, o que virou motivo de preocupação. “As pessoas passaram a abandoná-los por aqui para que eu os abrigasse”, disse. “Só que não tenho condições de acolher muito mais do que os que tenho agora.” Ele faz todo o trabalho sozinho. No começo, também bancava todas as despesas. Agora conta com a ajuda de amigos e conhecidos para comprar remédios e ração. No ano passado, decidiu criar uma ONG, mas ainda espera a papelada andar. Sonha em criar em Cordeiro, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes, um centro de assistência para animais de rua, que também oferecerá apoio aos donos que não tenham condições de bancar gastos com veterinário e outros cuidados, como vacinação.

 

“Pouca gente se dispõe a adotar esses animaizinhos”, lamentou. “As pessoas querem cachorros de raça, embora não saibam a barbaridade que acontece em muitos desses canis, onde as cadelas são obrigadas a reproduzir seguidamente para que suas crias sejam comercializadas. É uma violência.” Se o projeto vingar, ele pretende atender também a outras espécies de bichos, vítimas de abandono e maus-tratos. Já abriga, no Cantinho da Ritinha, um cavalo que teve a pata ferida e, por não servir mais para o trabalho, foi largado na estrada para morrer.

Enquanto acarinhava uma labradora que encontrou abandonada, Monnerat fez uma confissão. “Já aprontei demais nessa vida. Este trabalho é uma forma de me redimir.” Católico, com formação em colégio jesuíta, ele apontou para o céu avermelhado daquele cair de tarde. “Acho que todos temos que ter alguma coisa boa pra mostrar para Aquele lá de cima.”

Consuelo Dieguez
Consuelo Dieguez

Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)

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