CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Rock in Belém
O sarcasmo da banda Eventos Extremos na COP30
Pedro Tavares | Edição 231, Dezembro 2025
“Agora pra encerrar o show, vamos cantar uma música de resistência”, brincou ao microfone o ambientalista Ricardo Baitelo. Era o encerramento do show da banda Eventos Extremos, na Festa das ONGs realizada em 15 de novembro na cop30, em Belém. Na guitarra, soaram os primeiros acordes da popularíssima canção Evidências. Porém, no lugar da declaração de amor cantada por Chitãozinho & Xororó, a letra agora dizia:
E nessa loucura
De dizer que eu sou sério
Vou negando a ciência
Disfarçando as evidências […]
Faço tipo, falo em ser líder global
Mas depois renegoooo…
“Essa é uma versão petroleira de Evidências, como se fosse o Lula cantando”, diz o jornalista Claudio Angelo, baixista da banda e coordenador do Observatório do Clima, uma rede de entidades ambientalistas. A versão da Eventos Extremos satiriza a atitude do presidente, que ora pretende liderar a transição energética para um futuro sem combustíveis fósseis, ora defende a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas – dualidade que inflamou as conversas em Belém.
O chamado “mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis” foi um dos grandes nós das negociações e acabou não entrando no texto da decisão final da COP30, que terminou no dia 22 de novembro.
A Eventos Extremos foi criada em 2015 como uma brincadeira de ambientalistas e jornalistas. Claudio Angelo se encontrou numa padaria em São Paulo com Ricardo Baitelo, que o chamou para fazer parte de uma banda com a qual pretendia se apresentar na COP21, em Paris. “Topei na hora”, lembra Angelo, de 50 anos.
A ideia inicial era tocar canções que falassem de clima e meio ambiente, mas logo os integrantes perceberam que era melhor criar suas próprias versões – em geral, paródias – a partir de clássicos do rock. “Começamos a pegar músicas que existem e fazer versões climáticas; depois, começamos a desenvolver as autorais”, conta Baitelo, de 49 anos, vocalista, guitarrista e trompetista da banda e coordenador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). Também participa do grupo Gustavo Faleiros, de 47 anos, jornalista ambiental e baterista. O trio costuma ganhar o reforço dos colegas ativistas e ambientalistas JP Amaral, Melissa Menezes e André Kishimoto.
O estímulo para a criação da Eventos Extremos veio da banda americana The Potentials, formada em 2008 por pesquisadores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Uma das fundadoras do grupo foi a cientista brasileira Suzana Kahn Ribeiro.
O show em Paris não aconteceu – e a Eventos Extremos teve que esperar oito anos para se apresentar pela primeira vez em uma COP. “Em 2023, fizemos um pocket show dentro do Pavilhão do Brasil, na COP28, em Dubai. Um acústico com dois violões e um cajón”, lembra Angelo. O cajón é um instrumento percussivo de madeira em formato de caixa, que também serve de assento para o músico. Depois de Dubai, o grupo fez shows em Brasília e em São Paulo. Foram um aquecimento para as apresentações esperadas na capital paraense.
Na primeira semana de novembro, no embalo da COP de Belém, a banda lançou o primeiro álbum autoral, Eventos Extremos 2°, com oito faixas (disponível no Spotify), como Vai dar certo (talvez não) e Vô desmatá. Mas são as versões que fazem mais sucesso nos shows (estão disponíveis no site da banda e no YouTube). Além de Evidências, o trio traz Tereza Cristina, uma versão de Lady Madonna dos Beatles que satiriza a ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e atual senadora do Progressistas:
Tereza Cristina
Quer me envenenar
Eu não sou inseto para exterminar.
Outra música, Cringe (gíria para algo brega ou constrangedor), baseada na canção Creep, da banda americana Radiohead, ironiza a discrepância entre as expectativas criadas pelas COPs e o resultado que de fato elas entregam:
A COP é cringe
A COP é mico.
Quando a banda publicou o clipe dessa versão no Youtube em 2021, um homem levou a sério demais e foi reclamar nos comentários. “Ele disse que era um desrespeito, porque ia todo ano às COPs”, conta Angelo.
Para os integrantes da banda compor sátiras e se apresentar com a Eventos Extremos é uma forma de refúgio mental e uma maneira de trazer para a música, de maneira brincalhona, temas importantes discutidos dentro das salas de negociação. “Eu acho que é um jeito de botar pra fora a frustração, mas de um jeito transformador”, afirma Angelo. “Em vez de ficar só chorando, vamos tirar um sarro dessa situação. É um jeito de a gente resistir, continuar a ação.”
Ao final da apresentação para cerca de 1,5 mil pessoas na Festa das ONGs, em Belém, os integrantes do grupo estavam exultantes. “Esse foi disparado o nosso melhor show. A gente teve tempo de ensaiar, o som estava o.k. e tinha a galera vibrando muito”, diz Angelo. Além de ambientalistas e jornalistas, compareceram na festa algumas autoridades, como a ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Social da Colômbia, Irene Vélez, e a ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sonia Guajajara.
Nos dias seguintes, a Eventos Extremos fez mais duas apresentações: num pub e na Festa para Adiar o Fim… do Mundo, na Casa Balaio, um casarão histórico recém-restaurado. “Belém foi uma virada de chave pra gente. Muitas pessoas que já nos conheciam há muito tempo agora nos associam com a banda”, conta Baitelo.
Em 20 de novembro, um estande no Pavilhão dos Países da COP30 sofreu um princípio de incêndio, sem vítimas, mas que provocou a evacuação da área e um atraso nas negociações. No dia seguinte, durante a conversa com os integrantes da banda, perguntei se o episódio serviria de inspiração para uma nova música. “Olha só, você acaba de dar uma boa ideia”, disse Baitelo. “Fogo no parquinho da cidade poderia ser o subtítulo.”
Ainda é cedo para saber como será a letra da música sobre as labaredas da COP30. Mas, em homenagem à tradição musical do Pará, Baitelo já imagina que estilo de música o grupo deve escolher: “Tem que ser um carimbó, isso é certo.”
