CRÉDITO: LA CRUZ_2023
Subúrbio da solidão
Se tanta gente desapareceu hoje, por que ainda estou aqui?
Vinicius Neves Mariano | Edição 208, Janeiro 2024
A despeito do afago com que mamãe me acorda, desperto todos os dias como se ressuscitasse. Um resto de grito rasga a boca, e sugo um bolo de ar em tamanho desespero que minha cabeça é arremessada para trás. O coração dispara, o breu não o alivia. Estou vivo. Estou vivo.
Mamãe não se recorda quando isso começou, mas me serena sempre do mesmo jeito: faz do seu peito ninho e acaricia minhas costas três vezes antes de sussurrar que está na hora de irmos. São quatro da manhã.
Às cinco, desde que me lembro por gente, minha comunidade se reúne. Dizem que nesse horário, quando a noite finalmente abdica do breu, é que nossa pele negra fica mais reluzente. Somos da cor do céu, temos o matiz da terra. Enquanto esperamos, há quem pegue um instrumento e há sempre quem acompanhe, cantando; então a fogueira convida as sombras a dançar. Em torno do fogo, nos acolhemos.
Enquanto me arrumo para sair, apático como qualquer um que acorda da segurança de já estar morto, mamãe conta que seus velhos faziam o mesmo, e que os velhos de seus velhos também. Soma um detalhe a cada vez que conta, para justificar a necessidade de repetir a história. A cada vez que conta também finge esquecer outros pormenores, para que sempre haja o que acrescentar na próxima. É o jeito dela de tentar dar sentido ao fato de nossa comunidade se reunir todos os dias em torno da fogueira: para celebrar um costume antigo, ela reforça, para manter a tradição. Escondendo os olhos na gaveta em que finge escolher um lenço para a cabeça, insiste que não preciso ter medo, que esses mesmos velhos, e os mais velhos desses velhos, vão me proteger. Mas eu não tenho medo. Os meus pesadelos não são por isso.
Comunidade reunida, assim que o Sol nasce, 120 de nós vão desaparecer. Ninguém sabe quem serão os escolhidos da vez – é totalmente aleatório. E inevitável: quando saímos de casa, todas as madrugadas, não temos nenhuma garantia de que vamos voltar. É por isso que nossa gente se reúne nessa hora: para se despedir, para aproveitar até o último minuto da companhia de quem talvez irá sumir. Ou de quem talvez vai ficar.
Quando chego à cozinha, ela já passou o café. Duas xícaras na mesa. Se não tem pão, tem bolachinhas da minha avó, sempre à mão para essas urgências. Mamãe se serve do que for se emudecer. Também fico em silêncio. Faltam poucos minutos para sairmos. Nessa hora, é como se morássemos nos subúrbios da solidão.
Diante da porta de casa, bato as mãos nos bolsos da calça e finjo não saber onde deixei minhas chaves; me arredo. Faço isso porque sei que mamãe precisa de um momento para si. De longe eu a observo, como já fiz tantas vezes: ela segura a maçaneta como quem sela um compromisso, fecha os olhos por alguns segundos e deixa que uma reza breve contorne seus lábios.
Nem sempre fomos apenas dois. Meu pai nos deixou há quase dez anos, quando eu tinha apenas 7. Do que respingou em mim dos cafés servidos com muito açúcar e cochichos ao longo dos anos, ele e mamãe vinham falando em separação. Entenderam que um tempo longe um do outro poderia fazer bem. Algumas semanas, que fosse; um mês, no máximo; o suficiente para repensarem a relação.
Fiquei com minha avó durante aqueles dias e não consigo me lembrar de nada mais do que ter recebido, naquela única vez, a permissão de me empanturrar de bolachinhas a qualquer hora do dia. Minha avó conta que na data marcada por meus pais para se reencontrarem, mamãe passou a manhã toda no salão – e aqui minha avó coloca a xícara na frente da boca, como se não bastasse ela já estar cochichando –, mas meu pai não apareceu. Até hoje, mamãe nunca soube se foi abandonada por seu companheiro ou se meu pai foi levado em uma daquelas manhãs. Ou os dois.
Junto à comunidade, observamos a fogueira de longe e em silêncio. Hoje o Sol vai nascer às 5h17. Ainda temos alguns minutos até lá. Mamãe agarra meu braço e mesmo cabisbaixa procura manter uma postura solene. Do meu lado esquerdo, uma mulher de cabelos raspados ajeita em um menino uma jaqueta lilás muito maior que o tamanho dele. Atrás, um casal jovem se beija e promete mutuamente que, aconteça o que acontecer, não irão desistir até conquistarem o diploma; juram que, se um deles se for hoje, farão isso um pelo outro. À minha frente, do outro lado da fogueira, um grupo de mulheres mais velhas, organizadas em algum tipo de movimento, traz estampadas nas camisetas brancas as fotos dos filhos e filhas levados nessas manhãs; juntas, entoam baixinho versos de dor que se evaporam ao atravessar a fogueira e não chegam até mim. Ao lado delas, um garotinho de uns 10 anos, com uniforme da escola; seus olhos refletem as chamas da fogueira enquanto ele mira o vazio.
Em uma clareira discreta, uma senhora de cadeira de rodas e olhos fechados tamborila o indicador direito na própria coxa, acompanhando as batidas mais graves de um atabaque tocado por uma adolescente de pele clara, regata branca e ombros tatuados, mais ou menos da minha idade, sob a supervisão de um senhor com guias azuis no pescoço. Então, mamãe aperta meu braço a ponto de deixar nele as marcas dos dedos. Olho no relógio. São 5h16.
Nem sempre fomos apenas três – eu, minha mãe e meu pai.
Em casa, não se fala muito sobre o tempo em que eu nasci. Minha avó contou apenas que foi tudo muito difícil, porque, em determinado momento, a barriga de minha mãe cresceu tanto que ela não podia mais pegar o ônibus para ir ao trabalho. Sem o apoio da empresa, teve que pedir demissão, o que fez com que a família apertasse o cinto logo no momento em que mais precisava de dinheiro.
Demorei a perceber que falar do aperto financeiro era pretexto para não contar sobre algo muito mais delicado. Minha mãe não estava esperando apenas eu, mas também meu irmão gêmeo. Por isso o tamanho da barriga. Minha avó contou que já tinham comprado dois berços e colocado lado a lado no quarto. O enxoval duplo também estava preparado; ela mesma havia bordado as iniciais de meu nome e do meu irmão para diferenciar nossas peças de roupa. Apesar do aperto, a casa estava pronta para nos receber.
Nascemos em uma terça-feira, por volta das 5h10 da manhã. O Sol nasceu logo depois e infelizmente levou meu irmão.
Para minha mãe e minha avó, o assunto acaba aí. Mas não para mim. Com 10, 11 anos, comecei a ter um pouco mais de consciência da crueldade a que somos submetidos nesse mundo. Ninguém suporta acordar, todos os dias, sabendo que hoje pode ser o último. Ninguém suporta sair de casa, todas as manhãs, rumo ao trabalho, à escola, sem garantia alguma de que vai voltar. O horror cotidiano sufoca. E, ainda que seja um alívio chegar em casa em segurança depois de mais um dia, dilacera receber notícias de todas as pessoas que não conseguiram fazer o mesmo.
Passei a me perguntar por que eu, a cada vez que voltava para casa. Se tanta gente desapareceu hoje, por que ainda estou aqui? Por que sigo vivo em meio a tantas pessoas iguais a mim sendo levadas? Essa culpa por estar vivo é minha forma de loucura. Mamãe não se lembra, mas foi nessa época que comecei a acordar como se ressuscitasse. Só agora, sete, oito anos depois, entendo que era natural, naquelas condições, que eu me sentisse cada vez mais atraído pelo fogo.
Nas reuniões, passei a me desvencilhar da mamãe para ficar cada vez mais perto da fogueira.
Um dia fechei os olhos e, diante das chamas, comecei a imaginar como seria desaparecer. Acho que não era um desejo, pelo menos não ainda. Mas a faísca daquele pensamento cintilou em algum lugar dentro de mim. Os primeiros raios do Sol tocando minha pele, meu eu evaporando, mamãe…
Então uma voz interrompeu esses pensamentos. Eu não saberia descrevê-la. Era afável, mas possuía a fortaleza de se fazer inquestionável. Era a voz dele, do meu irmão. Aquele que foi gerado junto comigo, a quem eu estava ligado antes mesmo de ser. Não disse seu nome, não mencionou o meu. Pediu uma única coisa: “Viva por mim.”
Às 5h17, quando o primeiro raio de Sol toca nossa pele, é como se a noite tornasse a nos cobrir com sua manta mais escura. Os escolhidos subitamente desaparecem. A vida escoa tão repentina quanto um estampido. Os instrumentos ressoam o silêncio. A fogueira faz as sombras tremerem. Os olhos refletem o fogo e ardem. O instante mudo logo é estraçalhado pela dor que pulsa nas gargantas dos que ficam. Há quem tenha forças para protestar, e há sempre quem acompanhe – a fogueira queimando dentro de nós.
Mamãe abre os olhos, sempre molhados nessa hora. Aliviada, me beija e se afasta, acolhendo os que estão mais próximos, como faz comigo depois de cada pesadelo. Gostaria de contar para ela sobre a promessa umbilical que fiz ao meu irmão, mas mamãe não precisa ser lembrada dessa perda. Sei que vou viver, por ele e por todos que já foram, e talvez por isso eu acorde, todos os dias, como se ressuscitasse.
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