CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023
Terceira margem
Um indígena desaparece na beira de um rio
Tiago Coelho | Edição 197, Fevereiro 2023
Vai fazer um ano que Elizete Ukba Rikbaktsa não tem qualquer notícia sobre o paradeiro de seu filho primogênito. O indígena Savio Hatsabuik Rikbakta tinha 18 anos, era casado e vivia na Aldeia Boa Esperança, em Juína, no Noroeste de Mato Grosso. No dia 6 de fevereiro do ano passado, ele desapareceu. A última vez que o jovem indígena foi visto estava na margem do Rio Juruena. “Eu não consigo entender o que aconteceu com esse menino”, diz Elizete. “Antes de eu viajar para Cuiabá para fazer uma cirurgia, achei ele muito estranho, totalmente diferente, eu não sabia o que estava acontecendo. Tentei conversar, mas ele não me falava nada.”
Meses antes do desaparecimento, em outubro de 2021, o irmão de 2 anos de Savio morreu afogado. “Com a morte do irmãozinho, ele começou a sentir uma tristeza”, conta a mãe. “Senti que ele não era mais a mesma pessoa. Disse que estava sem vontade de viver. Pedi para ele não se sentir assim. Eu ia para Cuiabá, mas quando eu voltasse a gente conversaria.”
O rapaz ligou, chorando, para Elizete quando ela estava em Cuiabá. Falou que sentia a falta dela e lamentou não ter diálogo com o pai – os dois brigavam muito. O pai reclamava das saídas do filho para beber com os amigos no distrito de Fontanillas. Na época, os pais de Savio estavam se separando. “Ele era um filho bom para mim. Mas, quando fez 15 anos, ficou diferente, não era mais o menino tranquilo e caseiro que costumava ser. Ficava muito agressivo quando bebia. O problema dele era a bebida”, diz Elizete. “O pai precisa ser amigo do filho, instruir. O Savio queria isso. Carinho e atenção. Eu tinha que ser pai e mãe desse menino.”
O rapaz também não estava se entendendo com o sogro, na casa de quem morava com a mulher grávida e um bebê que ela tivera de outra relação, por quem Savio nutria muito afeto. “Na casa do sogro ele precisava trabalhar para manter a família, mas estava sem trabalho. A vida estava difícil para ele na questão de dinheiro. Ter uma família sem ter uma renda é uma coisa dura”, continua Elizete. Entre novembro e abril, trabalhadores do povo Rikbaktsa, como Savio, participam da colheita da castanha, mas a renda obtida com esse trabalho é insuficiente para cobrir as despesas de muitos meses.
A pedido de sua mãe, Savio chegou a buscar auxílio psicológico para tratar do alcoolismo. Esse é um problema sério em aldeias indígenas, como apontam as psicólogas Liliana Guimarães e Sonia Grubits no estudo Alcoolismo e Violência em Etnias Indígenas: Uma Visão Crítica da Situação Brasileira, publicado na revista Psicologia & Sociedade, em 2007. As autoras dizem que a expansão de empregos precários nas aldeias – como o trabalho assalariado temporário e frentes de extrativismo – ameaça “a integridade do ambiente em que vivem as etnias indígenas”. Com o sistema tradicional fragilizado, os indígenas estão mais vulneráveis à bebida alcoólica e a transtornos mentais – e mais propensos ao suicídio e à violência. O caso de Savio cabe bem nesse quadro geral.
“A falta de emprego faz os rapazes saírem para a cidade e eles bebem por lá. Trazem cachaça pras aldeias. Ficam sem futuro”, afirma Elizete. O cacique Nilo Amuã, da Aldeia Primavera (vizinha da Aldeia Boa Esperança), viu Savio crescer e testemunhou muitos jovens indígenas como ele se perderem no álcool. “A gente vivia do artesanato com penas. Matava as aves, comia a carne e usava as penas. Mas o Ibama proibiu”, diz ele. “Era muito importante ter aqui um projeto de marcenaria, ou alguma outra coisa para que os jovens pudessem aprender uma profissão, para trabalhar e ganhar dinheiro. Eles saem da aldeia para buscar emprego e se perdem na bebida.”
No dia em que desapareceu, Savio foi visitar o pai e ficou na casa dele até por volta das quatro da tarde. Ao sair, disse que iria comprar fraldas e ver a mulher na Casa de Saúde Indígena de Juína. Deixou as fraldas em sua casa, mas não foi visitar a mulher. No caminho, encontrou amigos e foi beber com eles em uma mercearia. “Sabe como é o jovem de hoje. O sogro estava no meio. Depois, Savio não voltou mais para casa”, diz Elizete. Ela inquiriu os conhecidos do filho na aldeia, mas não conseguiu informações úteis. Soube apenas que havia dois carros estacionados à beira do Rio Juruena, onde Savio foi visto pela última vez.
Oficiais da 14ª Companhia Independente Bombeiro Militar fizeram buscas. O soldado Jeferson Calazans de Souza participou desse esforço. Percorreu 20 km, de barco, margeando o Juruena. Moradores disseram ter sentido um cheiro forte, talvez de um corpo em decomposição, nas proximidades do cais de Fontanillas, a cerca de uma hora de Juína. A pedido dos familiares de Savio, o soldado mergulhou nessa área, mas nada encontrou. Se um corpo não está preso no fundo do rio, espera-se que suba à superfície em 24 horas, diz Calazans de Souza. Ele conta que já atendeu ocorrências de afogamento nas quais a vítima estava alcoolizada. “Dois meses antes, recebemos um chamado noturno e fizemos o resgate do corpo de um indígena que caiu na água embriagado.” Mesmo depois do afogamento, o corpo ainda cheirava a álcool.
Os bombeiros também procuraram por Savio na mata. Depois de três dias, as buscas foram encerradas. A Polícia Judiciária Civil do Estado de Mato Grosso até hoje não conseguiu dar alguma resposta para a família. Também não respondeu ao pedido de entrevista feito pela piauí.
Em 2021, um relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) apontou 355 casos de violência contra indígenas, catalogados em dezenove categorias, como homicídio, tentativa de homicídio, estupro, lesões corporais e ataques racistas. Foi o maior número de ocorrências desde 2013, quando o estudo começou a ser feito. Em 2020, foram registrados 182 assassinatos de indígenas; no ano seguinte, 176. Também em 2021, houve 148 suicídios de indígenas – de novo, o maior número registrado desde 2013.
Elizete tem esperança de que seu filho não fará parte dessas estatísticas. Ela não acredita na hipótese de suicídio. “Chamei um pajé de outra localidade para me dar notícia. Ele disse que Savio está vivo. Muito longe. Na mão de um branco”, conta a mãe. “Desde que meu filho sumiu, sempre senti dentro de mim a presença dele como de uma pessoa viva.”
