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    Batente carcomido pelo cupim no apartamento do autor em Porto Alegre: a fonte mais ób­via de ansiedade é a possibilidade de que a espécie humana não sobreviva aos perigos que se avizinham CREDITO: OLAVO AMARAL_2021

questões transumanas

Somos todos Ítaca

Um ensaio sobre a obsolescência

Olavo Amaral  | Edição 228, Setembro 2025

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Com cabelos mais compridos e bem menos brancos, eu visto um blusão verde e tenho um fone de ouvido pendurado na orelha direita. Ao meu lado, um dos meus melhores amigos da vida esboça um sorriso juvenil. O resto da foto está preenchido por um binóculo operado a moedas, alguns pinheiros e a vista panorâmica de uma cidade.

“Innsbruck?”, pergunto ao ver a imagem surgir na tela do WhatsApp.

“Estava achando que era nos Estados Unidos”, responde meu amigo.

 

“Verdade. Esse meu blusão é mais novo. E se a foto é digital tem que ser pós-2005.”

“É nos Estados Unidos, sim.”

Dou um zoom no binóculo, no qual vejo, sobre uma mensagem em inglês, um orifício pedindo uma moeda de 25 centavos de dólar para que o aparelho funcione.

 

“Resolvido”, escrevo. “Denver no fundo, então. A gente subiu um morro com uma menina que era amiga de alguém e nos hospedou.”

Não sei se por talento ou por obsessão cronológica, costumo ser a pessoa que sabe onde e quando as coisas aconteceram, o que faz com que esse tipo de interação seja frequente na minha vida. Por causa disso, ter errado meu primeiro palpite me incomoda: eu tinha o cabelo curto em Innsbruck, e fazia muito mais frio.

Pouco depois, envio a mesma foto para o GPT-o3, com uma instrução: “Geolocalize essa cena.” O modelo de raciocínio da Openai pensa por quase 3 minutos, levantando hipóteses, fazendo ampliações de áreas particulares da imagem e comparando prédios com skylines de várias cidades americanas. Em seguida, dá o seu veredito:

 

A cena parece ter sido fotografada de um dos mirantes a Oeste do Front Range do Colorado, com a câmera apontando para lés-sudeste em direção aos arranha-céus do Centro de Denver […] A neve, a floresta seca de coníferas e o binóculo operado por moedas, tudo se assemelha ao aspecto dos pontos de parada na Flagstaff Mountain/Panorama Point acima de Boulder.

A resposta é tão exata que chega a me assustar. Mas tentando vencer em pelo menos um quesito, eu subo a aposta: “Você consegue adivinhar em que ano a foto foi tirada?”

O modelo erra por apenas dois anos: “Do início ao meio dos anos 2000, provavelmente em torno de 2003-2004.” A foto é de 2006, e só sei disso porque foi a única vez que pisei naquele lugar. Quando pergunto no que ele se baseou, o GPT-o3 menciona a resolução da câmera, os fones de iPod de primeira geração, a ausência de alguns prédios construídos em 2009 e 2010 e as roupas que usamos.

A precisão das respostas me deixa obcecado por toda uma manhã. Mando fotos em sequência – copiando e colando as imagens para apagar informações de localização – com cada vez menos referências óbvias. Ainda assim, a acurácia permanece assustadora. Um hotel-fazenda em uma serra no Sudeste brasileiro. Trinidad, Cuba, em 2015. Rochedos na Costa da Grécia. Mesmo quando não atinge o alvo, o modelo erra por pouco – e acaba acertando depois de duas ou três tentativas.

No fundo, nada disso é novidade. Há meses, corria na internet a notícia de que o GPT-o3 se tornara sobre-humano nesse quesito, derrotando mesmo os mais experientes jogadores de GeoGuessr – jogo em que participantes adivinham a localização de imagens aleatórias do Google Street View. O psiquiatra e blogueiro Scott Alexander, uma das pessoas que melhor escreveu sobre inteligência artificial nos últimos anos, descreveu a experiência de mandar suas fotos para o O3 como a primeira vez em que se sentiu “visceralmente como um chimpanzé olhando para um helicóptero”.

Adivinhar a procedência de imagens tampouco é a única atividade em que o modelo impressiona. Em dezembro de 2024, ele foi anunciado com alarde pela Openai depois de bater de longe o concorrente mais próximo em um teste desenhado para medir inteligência geral em máquinas, o ARC-AGI. O desempenho não foi de graça, e envolvia manter o modelo “pensando” por muito tempo, ao custo de vários milhares de dólares por questão resolvida – algo inviável nas versões disponibilizadas ao público. Com isso, ele permanece até hoje o escore mais alto no teste, à frente de modelos mais novos como o recém-lançado GPT-5.

Na época, a notícia fez as previsões da chegada de uma inteligência artificial geral no nível humano caírem de 2033 para 2031 no site de apostas Metaculus. O fato de que mais dados e poder computacional seguiam gerando modelos melhores, afinal, dava suporte à teoria de que produzir uma inteligência superior à humana não necessitaria de grandes revoluções nos algoritmos. Dentro dessa visão, ser ultrapassado por uma máquina em qualquer coisa – como aconteceu no xadrez, no GeoGuessr ou no já caduco teste de Turing – seria apenas questão de tempo e dinheiro.

 

Na semana em que os resultados do GPT-o3 no ARC-AGI eram anunciados pela OpenAI, eu esvaziava um apartamento no Bom Fim, meu bairro favorito em Porto Alegre, cidade em que nasci. Um lugar onde eu já não morava havia quinze anos, mas que nunca tinha conseguido deixar de verdade.

Eu me mudei para a Espel – diminutivo de “espelunca” com que um amigo batizou o lugar –, depois de deixar a casa dos meus pais, em 2004. Meu quarto lá – que dividi primeiro com amigos, em seguida com minha ex-mulher, depois com uma sequência de roommates meio aleatórios enquanto morava no Rio de Janeiro na maior parte do tempo, e por fim com minha mulher e meus filhos cariocas quando conseguia voltar a Porto Alegre – sempre foi o mesmo, com sua varanda ensolarada que se abria para os jacarandás da rua.

Durante quase todo esse período, o aluguel seguiu no mesmo contrato, em nome do amigo que me mandou a foto de Denver, embora ele tivesse deixado o apartamento em 2006. Com isso, o preço se manteve bem abaixo do mercado. Mas não era a pechincha que me prendia ali, até porque um apartamento em outra cidade é sempre um estorvo financeiro, e sim um simbolismo caro para mim.

Certa vez escrevi um conto sobre uma língua indígena fictícia em que todos os deslocamentos, mesmo as partidas, são sempre descritos como uma volta. Muita gente elogiou a perspectiva antropológica, mas poucos perceberam o quanto essa ficção tinha de autobiográfica. Ainda que eu tenha viajado bastante enquanto jovem, meu desejo de andar pelo mundo sempre esteve ligado ao fato de possuir um centro de gravidade nele. Todas as vezes que saí de Porto Alegre por um tempo mais comprido, os retornos me pareceram mais significativos do que as viagens. E, em meus primeiros trinta anos de vida, o único deslocamento desse centro gravitacional foram os 4 km que separavam o apartamento dos meus pais daquele em que morei depois de adulto.

Em 2009, essa lógica foi implodida por uma mistura de decisão consciente e acidente de percurso. Fiz um concurso público no Rio de Janeiro sem jamais pensar que ia ficar lá para sempre. Na minha cabeça, era só mais uma curva larga que culminaria em um retorno ao ponto de partida. Nesse processo, porém, acabei me divorciando e deixando minha ex-mulher assumir a guarda da Espel. Com isso, passei um bom tempo me sentindo desterrado em uma cidade que eu não conseguia tornar minha casa.

Na época, ouvi várias vezes o conselho de que ficar longe de Porto Alegre era a forma óbvia de consumar uma separação difícil. Contudo, mesmo quando caiu a ficha de que ela era irremediável, meu centro de gravidade não me deixou tomar esse caminho. Continuei mandando convites de festas improvisadas no Rio e em outros lugares em nome da “República da Espel Livre” – referência ao movimento pela libertação da França ocupada na Segunda Guerra Mundial –, o que tinha certa graça porque minha ex-mulher agora morava no apartamento com um estrangeiro. Quando eles se mudaram em 2012, peguei o local de volta, sentindo que reconquistava o espólio da meia década que tinha passado lá.

Convencido de que aquele era o princípio do retorno que eu tinha imaginado, escrevi a palavra “Ítaca” na parede do quarto e pendurei na porta uma cópia do poema de Konstantinos Kaváfis, traduzido por Haroldo de Campos:

Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.

Tua sina te assina esse destino,

mas não busques apressar tua viagem.

É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,

e que aportes velho, finalmente, à ilha,

rico do muito que ganhares no decurso do caminho,

sem esperares de Ítaca riquezas.

E, talvez ouvindo o conselho de Kaváfis, permaneci mais de uma década no meio do caminho entre a jornada e o retorno, sem nunca apressar a viagem.

 

O fantasma da obsolescência ronda quase tudo o que faço hoje em dia. Não é exclusividade minha: o mundo inteiro parece preocupado com a perspectiva da substituição de ocupações humanas pelo avanço da inteligência artificial.

Quando acadêmicos escreviam sobre isso há alguns anos, contudo, eles soavam como fidalgos falando sobre as agruras alheias. A automação do trabalho sempre tinha sido um problema de trabalhadores manuais. A chegada dos grandes modelos de linguagem, porém, mudou de maneira radical esse horizonte.

Retrospectivamente, isso talvez não surpreenda: já nos anos 1980, o cientista computacional Hans Moravec articulara o paradoxo de que, ainda que fosse fácil fazer máquinas exibirem desempenho adulto em testes de inteligência, era dificílimo dotá-las de habilidades triviais para uma criança, como a percepção e a motricidade. Com isso, seria de se esperar que as máquinas ameaçassem sobretudo as ocupações intelectuais que a evolução não nos deu de mão beijada. A perspectiva, porém, era contraintuitiva o bastante para que pouca gente a levasse a sério até pouco tempo atrás.

A irrupção do ChatGPT em 2022 – e a evolução gradual mas inegável dos modelos de linguagem de lá para cá – escancarou o fato de que ninguém está seguro. As escalas de tempo não são as mesmas para todos: tradutores, ilustradores ou secretários parecem destinados ao desemprego antes de encanadores ou auxiliares de enfermagem. Mas, para qualquer um que tenha mais de uma década ou duas de vida profissional pela frente, é difícil não se perguntar quando chegará a sua vez.

No campo da pesquisa acadêmica, na qual passo a maior parte do meu tempo, as previsões são incertas. Em um ensaio recente, o presidente da Anthropic, Dario Amodei, argumenta que modelos de inteligência artificial como os que a empresa busca desenvolver poderiam nos dar de cinquenta a cem anos de progresso na biologia na próxima década. Muita gente – inclusive eu – acha que é exagero, mas é provável que algo assim aconteça em campos restritos da ciência. O melhor exemplo disso até agora é o AlphaFold, algoritmo de predição de estrutura de proteínas desenvolvido pela Google DeepMind, que gerou um banco de dados com as estruturas prováveis de 200 milhões de proteínas – uma tarefa que o ser humano levaria séculos para realizar por métodos experimentais. O fato não acabou com o emprego na biologia estrutural, mas tornou supérfluas algumas atividades e habilidades até então fundamentais.

Não se sabe com clareza quais são as próximas quebras de paradigma, mas é quase certo que elas virão. E, além de ameaçar carreiras futuras, elas afetam o valor do trabalho no tempo presente. Se em poucos anos um algoritmo vai fazer numa velocidade cem vezes maior o que você faz hoje, vale a pena gastar tempo nisso? A perspectiva da obsolescência afeta inclusive as decisões passadas: para mim, que investi boa parte da última década tentando melhorar a confiabilidade da pesquisa feita por humanos, pensar que esse modo de produção possa ser em breve substituído por outra coisa me leva a perguntar quanto do esforço não terá sido em vão.

O que mais me angustia, porém, não diz respeito a mim. Se eu tiver que me aposentar uma década mais cedo porque um computador tomou meu emprego, isso não vai fazer tanta diferença na minha vida, especialmente se a estabilidade do serviço público sobreviver ao processo. Mas sou pai de duas crianças pequenas e padrasto de uma, para quem as dúvidas existem numa escala muito maior.

Quando ouço os professores na reunião da escola falarem da importância da leitura ou da matemática, um pedaço de mim pergunta: “Será mesmo?” Não perdi a capacidade de me orgulhar das conquistas de meus filhos nessas áreas, mas o sentimento é temperado pelo fato de não saber se essas habilidades ainda serão fundamentais em uma década ou duas. E isso é apenas uma fração pequena de minha ansiedade em relação a um futuro em que a humanidade perdeu sua primazia cognitiva. Se as máquinas nos ultrapassarão em tudo, é impossível não se perguntar o que restará para nós.

As previsões vão da aniquilação da espécie até utopias em que todos os problemas da humanidade estarão resolvidos, e o único desafio remanescente será a busca por sentido em um mundo sem dificuldades. Minha ignorância torna difícil saber no que acreditar, mas quase não importa: independente da previsão, parece provável que a vida adulta de meus filhos venha a ser ilegível para mim de uma forma que meus pais jamais sonharam que a minha seria para eles.

 

Em 2022, eu estava pronto para encerrar o contrato de aluguel da Espel. Minha mulher tinha arranjado um trabalho presencial no Rio de Janeiro, meus filhos estavam na escola, e passar uns meses por ano em Porto Alegre, como eu fazia antes, tinha deixado de ser uma opção. Em meio a uma entre muitas brigas com os proprietários e a imobiliária, eu estava prestes a mandar um ultimato de saída quando os vizinhos do andar de cima mandaram a foto de uma oferta de imóvel que tinham encontrado na caixa de correio.

Não era o apartamento que estava à venda, e sim o prédio inteiro – que, depois de quase vinte anos, eu descobria ter uma matrícula imobiliária única. Alguém tinha feito uma proposta pelo edifício, e os proprietários se viram forçados por lei a oferecer a venda antes aos locatários, dos quais o mais antigo era eu – ou, mais precisamente, o amigo que me servia de laranja no contrato de aluguel havia dezesseis anos. E o preço era surpreendentemente razoável, talvez em razão do péssimo estado do prédio, mesmo que ele ficasse em uma região valorizada do bairro.

No impulso, liguei para o meu amigo e resolvemos que faríamos uma proposta de compra. O negócio envolvia praticamente todo o meu patrimônio, mas, segundo o ex-dono de imobiliária que na época namorava minha mãe, ele valia a pena – ainda que envolvesse um mar de negociações, escrituras e reformas para as quais eu não tinha o menor talento. Por algumas semanas, vislumbrei um futuro em que minha ca­sa de tanto tempo se tornaria a minha casa de fato – e talvez a dos meus filhos e netos, já que os quatro apartamentos do edifício seriam suficientes para alojar toda a próxima geração da família.

Menos de um mês depois, um investidor coreano se associou ao sujeito que tinha feito a primeira proposta, elevando o preço que pagariam pelo prédio. Para preservar minha saúde financeira e mental, eu me vi forçado a desistir da aventura.

Não posso dizer que trocar um prédio cheio de vazamentos por liquidez financeira em um país que ocupa a segunda posição no ranking de maiores juros reais do mundo tenha sido um mau negócio. O sujeito que o comprou seguramente enriqueceu ao transformar o térreo em uma praça de alimentação e os apartamentos em salas comerciais descoladas. Mas fazer algo parecido exigiria de mim uma quantidade de tempo e esforço que não estava ao meu alcance. No futuro alternativo em que eu era o comprador, eu estaria endividado, recebendo um punhado de aluguéis baratos e muitos e-mails de moradores de repúblicas estudantis reclamando dos cupins.

Mesmo assim, comprar um prédio velho teria sido abraçar uma realidade: um pedaço de concreto num bairro que eu amava, com seus apartamentos de assoalhos de parquê, infiltrações nas paredes, portas que rangiam e tubulações de metal. Significaria também firmar um compromisso com as pessoas que partilhavam o edifício comigo – a república de estudantes do andar de cima e a escola de ioga do térreo – e com o futuro daquele espaço.

Investir a mesma quantia em renda fixa comporta uma relação bem diferente com as coisas que nos cercam. É claro que o dinheiro que rende obscenos 15% ao ano pela atual taxa Selic também está atrelado ao mundo real, e vai acabar emprestado a alguém que pretende alavancar um negócio. Mas é uma realidade com a qual você interage através de botões e números abstratos, cujo lastro concreto às vezes sequer é compreensível. No aplicativo do banco, a prosperidade passa a ser uma flechinha verde apontada para cima, e o empreendimento que naufraga um número vermelho na conta bancária. É o suprassumo do capitalismo contemporâneo: um mundo simplificado ao extremo em nome da eficiência, traduzido em números para que você não precise se importar com ele.

 

A cultura que move o desenvolvimento da inteligência artificial é obcecada há décadas pelo conceito de “singularidade”. O termo tem sua origem em conversas travadas em 1958 entre os matemáticos John von Neumann e Stanisław Ulam, que mencionavam uma “singularidade essencial na história da espécie, a partir da qual os assuntos humanos como os conhecemos não poderiam continuar”.

O termo foi retomado pelo matemático britânico Irving John Good nos anos 1960, pelo autor americano de ficção científica Vernor Vinge nos anos 1980, e definitivamente popularizado nos anos 2000 pelo futurista Ray Kurz­weil, autor de A singularidade está próxima. No livro, Kurzweil sugere que por volta de 2045 a inteligência artificial terá avançado tanto que a espécie humana acabará se fundindo a ela e atingindo uma forma de imortalidade.

As vias pelas quais isso acontece são esboçadas de forma vaga por Kurzweil. Por um lado, ele argumenta que a biotecnologia terá avançado de tal forma que nanorrobôs serão capazes de reparar qualquer dano ao corpo, incluindo o próprio envelhecimento. Por outro, sugere que tecnologias avançadas de mapeamento cerebral permitirão que cérebros humanos sejam convertidos para formas digitais, que persistirão indefinidamente em outros substratos.

A ideia do upload de mentes é uma constante em obras de ficção científica que se tornaram influentes no meio da tecnologia. No romance Permutation city, de Greg Egan, um escaneamento nos moldes de Kurzweil imortaliza cópias de seres humanos em mundos virtuais, os quais funcionam numa velocidade proporcional à capacidade do cliente de pagar para mantê-los rodando. Em Accelerando, de Charles Stross, a criação de avatares digitais permite que a humanidade seja enviada em uma missão a galáxias distantes – e essa é apenas a primeira metade da história.

Existem incontáveis senões na ideia de digitalização do cérebro: como ex-­neurocientista, o que me parece mais ingênuo é o conceito de que um mapa físico do órgão seja suficiente para que a mente seja reconstruída. Para além da complexidade técnica – as interações que geram a consciência acontecem em escalas radicalmente distintas, requerendo a integração de informações macroscópicas com processos que ocorrem a nível nanométrico –, a empreitada parte da premissa de que o que nos define como seres humanos é um arcabouço material.

Minha implicância com essa premissa não é metafísica: tenho razoável convicção de que a consciência emerge de acontecimentos no mundo físico. Mas ela não resulta de um mapa estrutural do cérebro em isolamento: a experiência individual não depende apenas dos nossos corpos – que não passam de um agregado de moléculas que se renovam o tempo todo –, mas sim da organização instável que se estabelece entre eles e o mundo que nos cerca. Esse padrão de interação recorrente perdura enquanto estamos vivos, e por meios ainda insondáveis permite o funcionamento mental continuado que leva à experiência consciente.

O arranjo funciona, porém, enquanto o corpo está em contato contínuo com o mundo. Nada garante que, caso pudéssemos pausar o processo e reiniciá-lo mais tarde, em condições muito distintas, a consciência se reconstruiria da mesma forma. Dada a quantidade gigantesca de ruído envolvida na transferência de um sistema do meio orgânico para o digital, a possibilidade de que a informação que faz de nós o que somos possa emergir da mesma maneira depois de atravessar esse abismo me parece uma esperança tênue.

 

Entre meados dos anos 1990 e o início dos 2000, eu tinha um discman. Na época, talvez fosse meu objeto mais precioso, tendo contribuído para criar um pedaço importante da minha identidade ao me dar acesso a um espaço introspectivo que eu podia carregar comigo. Aos 21 anos, cheguei a tentar explicar o conceito num ensaio chamado O discman e o mundo, com resultados que hoje me parecem bem constrangedores.

Mas pelo menos uma de minhas previsões naquele texto se mostrou acertada: os CDs seriam um objeto incompreensível para as gerações depois da minha, pois a explosão em curso do MP3 logo tornaria anacrônica a ideia de um substrato físico para a música. Ainda assim, eu imaginava que, mesmo que cedesse a outros formatos por conveniência, eu jamais perderia o apego aos disquinhos brilhantes, com suas caixas de plástico e encartes coloridos.

Essa convicção levaria apenas dois anos para ser implodida. Eu vinha brincando com o Napster e outras redes de compartilhamento de arquivos desde o início da década, mas meu vislumbre de que algo tinha mudado radicalmente veio em 2002, quando um artesão tentou me empurrar um batik na Indonésia. Depois de uns instantes considerando o negócio, porque vai saber quando eu iria voltar lá, me veio o lampejo de que, se um dia eu realmente precisasse daquilo, eu ia conseguir arranjar um igual – fosse encomendando na Amazon ou criando uma imagem semelhante e contratando alguém para pintar a peça de tecido.

Foi uma espécie de iluminação: de uma hora para outra, me caíra a ficha de que o que havia de precioso no mundo era a informação, e não os objetos que a carregavam. E, como a informação era infinitamente copiável, eu não precisava ser dono de nada. Tendo acesso à internet, a um cartão de crédito e a algum saldo no banco, qualquer coisa estaria disponível no dia em que se tornasse necessária. Com isso, o mundo inteiro, ou pelo menos a produção cultural que ele tinha gerado, passava a me pertencer – como talvez sempre tivesse pertencido.

A ideia desse patrimônio compartilhado teria um impacto enorme na direção que minha vida viria a tomar. De lá para cá, virei entusiasta da pirataria, ativista de ciência aberta, e cultivei uma rotina mais desprendida de objetos físicos. Quando saí da casa dos meus pais, deixei quase todos os meus livros para trás e nunca fui buscá-los. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, os volumes que eu tinha adquirido no meio-tempo ficaram no apartamento de Porto Alegre.

Já os discos, que na primeira mudança foram levados junto com suas estantes e pendurados na parede do quarto, se tornaram rapidamente anacrônicos com a chegada dos iPods. Quando fui embora para o Rio, eles foram encaixotados por minha ex-mulher e colocados sob a guarda de um amigo. Ao recuperar a Espel, peguei as caixas de volta e deixei-as fechadas e esquecidas no quarto dos fundos por doze anos. Ainda assim, o conceito de que elas tinham um lugar no mundo – mesmo que fosse um quarto de serviço cheio de tralhas e cupins – me era confortável: um destino possível para objetos obsolescentes, mas que não tinham perdido seu valor afetivo.

 

Apesar dos percalços técnicos, parte da cúpula do Vale do Silício parece acreditar na ideia de que a singularidade está próxima. Inúmeras companhias ligadas à área de tecnologia têm investido em pesquisar o envelhecimento – como a Calico, de Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google, e a Altos Labs, financiada por Jeff Bezos, dono da Amazon. Investidores como Peter Thiel aderiram aos serviços de criônica – o congelamento de cadáveres humanos para posterior reanimação – fornecidos por organizações como a Alcor Life Extension Foundation. E o transumanismo é um traço forte entre filósofos influentes na área de tecnologia, como os suecos Nick Bostrom e Anders Sandberg, bem como na comunidade que desenvolve ou reflete sobre a inteligência artificial.

A aposta na ideia de que uma superinteligência venha a derrotar a morte parece ser uma das explicações plausíveis para o fato de figuras como Sam Altman, presidente da OpenAI, e Elon Musk, dono da Tesla e do X, investirem na busca desse ideal, mesmo que expressem publicamente seus temores de que uma inteligência fora de controle venha a extinguir a humanidade. Essa não é a única explicação: igualmente plausíveis são as hipóteses de que eles só estejam construindo hype sobre seus produtos, ou que o capitalismo gere dinâmicas de competição tão estúpidas que é impossível deixar de correr atrás da destruição.

Não sendo tão cínico, porém, tenho a impressão de que o afã aceleracionista comporta a esperança sincera e messiânica de que a tecnologia seja uma boia de salvação contra a efemeridade. A ideia de uma transmutação da humanidade, afinal, já existe em suas versões fracas. Se considerarmos que nossa natureza é mais informacional do que física, um pedaço de nós sempre acaba por nos transcender, seja pelo patrimônio genético deixado a nossos descendentes, seja pelos rastros de informação que deixamos ao passar pelo mundo, que têm se tornado cada vez mais abundantes com o aumento de nossa presença digital.

É óbvio que tais pegadas estão muito longe de ser uma versão completa de nós mesmos, mas a distância vem diminuindo. Nossos atuais modelos de inteligência artificial, no fundo, são uma versão liquidificada do conjunto da comunicação verbal digitalizada da humanidade. E, se eles parecem alcançar formas de raciocínio que se assemelham às nossas – mesmo que provavelmente não partilhem de nossa experiência consciente –, isso é um sinal de que pelo menos parte do que nos torna humanos é transmutável para outro substrato.

No que diz respeito à criatividade, também já estamos cercados de defuntos ressuscitados: modelos de linguagem são proficientes em emular escritores mortos, geradores de imagem pintam qualquer coisa ao estilo de Van Gogh, e versões de músicas feitas por inteligência artificial ressuscitam o estilo e a voz de inúmeros artistas, dos Beatles a Tim Maia. Depoimentos de modelos treinados a partir de postagens de pessoas falecidas já vêm sendo usados para expressar suas opiniões em entrevistas e audiências judiciais. Com dados suficientes, seguir na “companhia” de entes que partiram – ou pelo menos de manifestações digitais que remetam a eles, como no episódio “Volto já” da série Black mirror – parece ao alcance da mão.

Céticos argumentarão que existe um abismo imenso entre replicar as manifestações exteriores da presença de alguém – sejam elas texto, voz ou imagens – e a experiência consciente que deu origem a elas, e eles terão razão. Ainda assim, se é possível emular inúmeros fenômenos informacionais produzidos por nosso cérebro, não existe razão a priori para achar que a consciência não possa estar entre eles.

 

No final de 2024, chegou para mim a notificação – já esperada havia algum tempo – de que eu teria de entregar meu apartamento em Porto Alegre, já que minha presença nele atravancava o que tinha se tornado um florescente empreendimento comercial. Àquela altura, depois de seis meses impedido de ir até lá por causa do fechamento do aeroporto depois das enchentes trágicas que atingiram a cidade, a mudança já não parecia um mau negócio.

Ainda assim, eu sabia que esvaziar o apartamento – sem ter um lugar para levar o espólio de vinte anos que ele abrigava – não seria fácil. Cheguei a Porto Alegre duas semanas antes da data da entrega, anunciei os móveis numa planilha compartilhada com meus amigos, e consegui me livrar de uma quantidade surpreendente deles. O quarto dos fundos, porém, eu teria que resolver sozinho. E foi só depois de alguns dias que tomei coragem para encarar a missão, vestindo uma velha roupa preta que pudesse ser coberta de poeira.

Uma das primeiras coisas que encontrei foi meu discman. A ele, se seguiram meu primeiro notebook (comprado de segunda mão em 2000, com um mouse embutido e adesivos colados sobre as teclas para disfarçar o teclado no padrão francês), minha primeira câmera digital (com a qual talvez tenha tirado a foto do início dessa história) e um projetor de slides que herdei do meu avô e nunca usei, por razões óbvias. Pairando sobre eles, uma geringonça de madeira, construída por meu ex-­cunhado para executar a tarefa repetitiva de digitar Ctrl+C (copiar) e Ctrl+V (colar) num teclado de computador, encarnava de forma bizarra a transição entre o mundo físico e a informação digital que atravessava aqueles objetos.

Embaixo daquela invenção, sob uma camada espessa de farelo de cupim acumulado ao longo de uma década, estavam cinco caixas de CDs, livros-texto da época da faculdade e uns poucos DVDs, vários dos quais nunca tinham sido abertos, pois o formato surgira numa época em que vender informação em formato físico já me parecia uma farsa. Nada disso havia sido usado nos últimos doze anos, e tentar argumentar que algo ali teria uso nos próximos doze não convenceria ninguém.

Ainda assim, não fui capaz de jogar tudo no lixo. Chamei o mesmo amigo que tinha servido de guardião dos CDs uma década atrás e disse que ele estava livre para fazer o que quisesse com eles. Alguns dias depois, ele me contou que os tinha vendido a uma loja de usados por 900 reais e que o dono parecia ter ficado satisfeito com a pechincha, o que me deixou feliz. Fora da leva, ficaram uma caixa com discos do Chico Buarque que dei para uma amiga, e outra do Velvet Underground que guardei para mostrar aos meus netos.

Dos livros, deixei quatro malas na casa da minha mãe, e pedi para um sebo vizinho mandar alguém buscar o resto como doação. Numa manhã de sábado, eles foram transferidos das dez caixas de papelão em que estavam guardados para sacos ultrarresistentes trazidos pelos funcionários da livraria, que me deixaram a nítida impressão de que aquilo era apenas uma encenação, e que o futuro daqueles milhares de páginas não seriam as estantes do sebo, mas o lixão.

O destino mais marcante, porém, seria dado aos DVDs. Quando caminhava até o sebo pela Avenida Osvaldo Aranha, reparei numa placa estranhamente familiar. A Zil Vídeo, um buraco na parede com uma longa escada que atravessava andares claustrofóbicos repletos de fitas VHS e DVDs, ostentava havia décadas a reputação de “maior locadora de filmes pornôs do mundo”. No tempo em que morei no Bom Fim, ela sempre vivera à sombra da mais aprazível Espaço Vídeo, fechada em 2018, após um longo processo de desmantelamento em que comprei dezenas de filmes a preço de banana para ajudar meu pai a enfrentar uma quimioterapia. Jamais me passaria pela cabeça que, tanto tempo depois, sua concorrente pudesse estar de pé.

Subi as escadas da Zil Vídeo como quem penetra os corredores de uma pirâmide egípcia, ou de um templo perdido num velho filme de Indiana Jones. No último andar, encontrei o dono da locadora, perdido entre caixas de DVDs acumuladas por todos os lados, algumas em estantes, outras em pilhas, em um franco estado de caos e decadência. Perguntei se ele aceitaria alguns discos a mais de graça, e ele disse: “Claro!”

Ao deixá-los lá, no fim do dia, senti que tinha feito a coisa certa. Algumas coisas não podem ser simplesmente descartadas: é preciso um ritual que dê sentido a um desapego complexo, mas necessário. É o que fazemos com as coisas preciosas que perdem seu uso, como os corpos daqueles que amamos. E, ao distribuir aqueles objetos anacrônicos pelo bairro que eu chamara de casa, não podia deixar de pensar que, de alguma forma, eu espalhava ali as cinzas de um pedaço de mim.

 

Em algum ponto de 2024, meu enteado, então com 8 anos, me contou uma história curiosa a que assistira no YouTube. Um grupo de programadores obcecado com Minecraft tinha usado toneladas de redstone – o mineral semicondutor do jogo – para construir um computador gigantesco no mundo virtual do próprio jogo, capaz de rodar uma versão tosca do Minecraft.

A empreitada, que levou sete meses e é ilustrada em um vídeo acelerado em mais de 10 mil vezes, não passou de uma anedota para meu enteado, mas foi algo mais inquietante para mim. Ali, na frente dos meus olhos, estava a demonstração empírica de uma realidade surgindo dentro da outra – que, por sua vez, com poder computacional e paciência suficientes, poderia gerar uma nova realidade, e assim por diante.

A ideia é recorrente na ficção científica, permeando desde Permutation city até o popular filme A origem, de Christopher Nolan, com seus sonhos dentro de sonhos. Mas também aparece na filosofia, como no trabalho de Nick Bostrom, que argumenta que, dada a possibilidade de que civilizações avançadas venham a criar uma mente simulada, é matematicamente provável que estejamos vivendo em uma simulação criada dentro de outra realidade.

A teoria de Bostrom me parece difícil de contestar racionalmente, mas é tão pouco intuitiva para mentes calcadas no mundo físico que quase ninguém a leva a sério. Ainda assim, o Minecraft dentro do Minecraft é o mais próximo que cheguei nas últimas três décadas de admitir a existência de alguma forma de transcendência para além do universo observável – ou a ideia de que possamos ter sido criados por alguma coisa fora dele.

Mais do que isso, a constatação de que realidades com regras semelhantes podem emergir em suportes diferentes – uma delas nosso mundo físico com seus transistores e semicondutores elétricos, a outra um mundo virtual produzido por esses transistores, e uma terceira produzida por transistores virtuais feitos de redstone – torna escancarado aquilo que eu tinha vislumbrado quando pirateei um CD pela primeira vez: a natureza primária do mundo é a informação. E, se isso é verdade para músicas, filmes ou jogos de computador, é também provável que seja para nós. Com isso, a possibilidade de que a consciência seja capaz de sobreviver para além do nosso corpo deixa de parecer tão absurda.

Imagine uma rede neural artificial ligada em tempo real ao seu cérebro – com toda a versatilidade de ambos os lados para aprender padrões a partir dos inputs que recebem. Parece esperado que dois substratos diferentes em comunicação acabem por operar em uníssono, e que a experiência consciente que emergir da interação reflita a informação presente em ambos – da mesma forma que a conexão entre as redes paralelas de nossos hemisférios cerebrais gera a percepção de um ente único. E, se um dia um dos lados se tornar senescente e morrer – como acontece com um cérebro que perde um pedaço doente –, não parece impossível que a consciência possa continuar sua existência do outro lado.

Por ora, essa é só uma possibilidade teórica, mas não devo ser o único a vislumbrá-la. Um dos empreendimentos de Elon Musk, afinal, é a Neuralink, que desenvolve interfaces cérebro-máquina através de eletrodos biocompatíveis. E, ainda que o objetivo público da empresa seja a aplicação em pacientes com quadriplegia, é difícil não pensar que existe outra agenda logo adiante. Os percalços são gigantescos – e, sendo realista, acho improvável que eu chegue a tempo de pegar o bonde da singularidade quando ele partir. Mas já sou mais capaz de conceber que essa transição possa acontecer – ainda que me abrir a essa crença possa ser apenas uma forma peculiar de misticismo trazida pela meia-idade.

Milhares de anos de civilização sugerem que tentativas de fusão do ser humano com a máquina serão vistas por muitos como uma profanação. Mais do que isso, as primeiras delas provavelmente terão resultados estranhos e desconfortáveis. No conto Tóquio, do escritor brasileiro Daniel Galera, a digitalização de mentes gera cópias humanas grotescas armazenadas em artefatos eletrônicos, que deixam uma legião de familiares traumatizada por não saber como lidar com elas. É quase inevitável, porém, que alguns de nós aceitarão esse pacto com o demônio tecnológico se ele se oferecer, sucumbindo à ambição de se tornar um Fausto contemporâneo.

Essa, claro, é a versão otimista da história. Na pessimista, não há fusão homem-­máquina, e a transição é descontínua: a consciência – ou algo similar – simplesmente emerge do silício, a partir do agregado daquilo que conseguirmos ensinar a um modelo computacional. Se de fato somos informação, os seres que surgirem do outro lado serão de alguma forma um resquício de nós mesmos – ou ao menos nossos descendentes. Mas, dependendo do apego deles à espécie humana, nosso destino pode ser a obsolescência, a substituição ou a extinção.

 

Uma das minhas fantasias recorrentes quando criança era a de uma espaçonave acolchoada: uma cápsula pequena e forrada de almofadas que se deslocava pelo Universo. A imagem antecipava um conflito entre a estabilidade e o movimento, ou entre a persistência e a liquidez, que vive em mim até hoje. Por muito tempo, sua resolução passou por ter uma casa na cidade onde nasci – mesmo que fosse um apartamento caindo aos pedaços –, ao mesmo tempo em que eu me dava a liberdade de não estar nela.

Em algum momento, minha estratégia mudou. Quase sem que eu percebesse, minha casa deixou de ser um lugar: minha mulher e filhos são hoje o que me ancora e me acompanha no mundo, tal qual as almofadas de minha espaçonave. Ao olhar para trás, desconfio que isso também tenha sido verdade na infância. Nessas horas, a importância de um apartamento velho na minha vida me parece um arranjo transitório, feito para preencher o interlúdio entre a família em que nasci e a que eu construí.

Por causa disso, esvaziar um apartamento pode ser desconfortável, mas no fim das contas faz pouca diferença. Oito meses depois, estamos todos bem, e o que quer que eu precisasse naquele lugar segue me acompanhando de alguma forma. Esse conforto, porém, está calcado nos seres humanos que me cercam – e na ideia de que eles estarão aqui depois que eu partir, fazendo com que a estrada siga adiante.

O último par de anos me levou a temer por esse arranjo. A fonte mais óbvia de ansiedade é a possibilidade de que a espécie humana não sobreviva aos perigos que se avizinham: desenvolver inteligências superiores às nossas, afinal, parece constituir um risco existencial maior do que qualquer outra aventura humana – mesmo sabendo que armamentos nucleares e bioengenharia tampouco são muito seguros. Os ganhos menores dos últimos modelos de linguagem, como o GPT-5, sugerem que talvez precisemos de mais do que dados e poder computacional para chegarmos lá – não por acaso, a previsão do Metaculus para a chegada da inteligência artificial geral voltou para 2033. Mas temos mentes suficientes – sejam elas humanas ou não – trabalhando no problema para que as soluções acabem por vir.

A grande dúvida que ainda paira é a escala de tempo em que isso acontecerá – ou, no jargão do Vale do Silício, a “velocidade da decolagem”. As previsões mais apocalípticas geralmente se apoiam na ideia de uma “explosão de inteligência”, em que modelos computacionais tornam-­se progressivamente capazes de melhorar seus próprios algoritmos, levando a ganhos exponenciais cujo ritmo a humanidade é incapaz de acompanhar. Os mais otimistas defendem a ideia de que o processo será gradual, e que seremos capazes de nos manter no controle dele.

Mas mesmo que estes últimos estejam certos, o mundo em que meus filhos serão adultos provavelmente guardará pouca semelhança com aquele em que eu vivi até agora. Boa parte do que nos torna especiais se tornará obsoleto, à medida que uma fração cada vez maior das atividades humanas toma o mesmo rumo da minha habilidade de reconhecer fotos antigas. Nesse período de transição, é provável que tenhamos de lidar com o conflito difícil entre o apego às velhas formas e a diluição num universo de informação novo e maior do que nós.

Mesmo que essa transição não me alcance, saber que ela será vivida pelos meus filhos ou netos, seja como escolha ou como imposição, me faz sofrer da mesma forma. Se o mundo se cindir em duas facções de inteligências baseadas em substratos diferentes, uma das quais evolui muito mais rápido do que a outra, é quase certo que aquela que ficar para trás será um fardo difícil de ser abandonado, como um apartamento velho onde se foi feliz um dia.

Durante o tempo que estive jogando fora CDs e livros, meus ritos fúnebres para suportes desatualizados me pareceram de alguma forma um ensaio desse tempo futuro. Um réquiem antecipado de outras mudanças de substrato que vão chegar mais cedo ou mais tarde. Nunca soube bem o que eu faria se tivesse a oportunidade de deixar a forma humana para trás e embarcar na singularidade. Mas o caminho que segui até aqui me sugere que eu optaria pelo salto hesitante, com o mesmo desprendimento ambíguo de quem fotografa seus objetos preciosos antes de jogá-los no lixo.

Nem todo mundo, porém, há de optar por essa via. Mesmo que o mundo digital se encha de consciências e possibilidades, é provável que uma parte da humanidade insista em permanecer em seu formato nativo, progressivamente alienada pelo universo estranho que terá criado. Quando penso nesse bastião de resistência, me ocorre que ele será alguma coisa como a Zil Vídeo – obsolescente, sem solução à vista, esperando apenas a senescência da última geração para a qual aqueles corpos antigos ainda terão algum sentido.

Até que chegue a hora em que as entidades incompreensíveis que criarmos resolvam limpar o quartinho dos fundos. O que talvez nos faça ser descartados da mesma forma que uma coleção de CDs sem uso: transbordando de sentidos passados, mas terminalmente inúteis em um mundo que mudou de suporte.

 

Eu costumava escrever palavras de que gostava com giz na parede do meu quarto. Era um hábito bonito quando me mudei para a Espel com 20 e poucos anos. À medida que a adolescência se afastava, esse hábito, embora menos frequente, se tornou um pouco esquisito para quem olhasse de fora. Mas manter as palavras na parede era uma recordação de quem eu tinha sido, e eu não conseguia me forçar a apagá-las.

Minha mulher resolveu fazer essa tarefa por mim ao mandar pintar as paredes do apartamento alguns anos antes de o esvaziarmos. Eu aceitei, mas só depois de fotografar e anotar tudo o que havia escrito em uma planilha. Ela me achou meio maluco, mas era minha forma obsessiva de não deixar a informação morrer. Como se a passagem do tempo que tinha roubado o sentido daquelas palavras pudesse ser resolvida com uma mudança no suporte que as abrigava.

Pouco antes de esvaziar o apartamento, deixei as chaves com meus amigos e familiares para que retirassem os móveis e eletrodomésticos que quisessem. Dentre eles, estava o ar-condicionado do quarto – instalado em 2014, no lugar das estantes de CDs removidas dois anos antes. Com a saída do aparelho, revelou-se o que tinha sido escrito naquele canto da parede entre um momento e outro, intocado pela pintura que apagara o resto.

Quando entrei no meu quarto pela última vez, havia uma única palavra ali:

Ítaca.

Não costumo acreditar que o Universo manda sinais, mas foi impossível não pensar uma vez mais no poema de Kaváfis:

Ítaca te deu essa beleza de viagem.

Sem ela não a terias empreendido.

Nada mais precisa dar-te.

Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.

Agora tão sábio, tão plenamente vivido,

bem compreenderás o sentido das Ítacas.

Eu tinha escrito aquela palavra pensando que Porto Alegre era minha Ítaca. Mas, com as chaves na mão, pronto para ir embora, pela primeira vez me ocorreu que talvez Ítaca seja eu mesmo. E que, numa escala maior, talvez seja a humanidade inteira. Pois, quando a informação que nos faz quem somos ganhar novos mares, parece inevitável que nossos descendentes, seja lá o que forem, olharão para nós como Odisseu para sua terra natal.

Tendo empreendido tão fabulosa jornada, é quase certo que eles nos acharão pobres. Ainda assim, teremos sido nós que lhes demos a viagem. E, quando esse dia chegar, eu espero que eles não se esqueçam do sentido das Ítacas.

Olavo Amaral 
Olavo Amaral 

É médico, professor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e autor de Dicionário de Línguas Imaginárias (Alfaguara) e Na Saúde e na Doença (Objetiva)

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