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    CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

esquina

Zirigui tã-tã-tã-tããã

Uma flautista polonesa no desfile do Salgueiro

Armando Antenore | Edição 233, Fevereiro 2026

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Não existe nada equivalente à palavra borogodó em polonês. Talvez os termos que mais se aproximem da melódica expressão sejam wdzięk (graça) e charyzma (carisma). Mesmo assim, Marta Klimczak esbanja borogodó – ou molejo, bossa, gingado. “Não exagere”, contesta a polonesa de 35 anos. “Para uma gringa, até que impressiono. Mas perto das brasileiras…”

Ela é passista do Salgueiro e, desde novembro, treina pesado no Rio de Janeiro com a intenção de “quebrar tudo” durante o Carnaval. “Ensaio 90 minutos às terças-feiras e duas horas e meia às quintas.” Também atravessa as noites e madrugadas de sábado em exibições que sacodem a quadra da tradicional escola de samba. Um domingo por mês ainda se apresenta nas feijoadas que a agremiação organiza para arrecadar fundos.

O Salgueiro, criado há sete décadas, reúne pelo menos 3 mil foliões. Uma parcela reduzida deles vem de outros países, especialmente das Américas e da Europa. Klimczak (pronuncia-se “clintchaque”) chama atenção entre os sambistas estrangeiros porque, antes de cair no ziriguidum e no telecoteco, abraçou o tum-tum de Ravel e o tã-tã-­tã-tããã de Beethoven. “Eu tocava flauta transversal em orquestras da Polônia e lecionava música clássica.” Loira de olhos azuis, a passista mede 1,70 metro. Tem o rosto ovalado, um porte vigoroso e a pele bronzeada. “Se pego Sol, não fico vermelha, não! Fico dourada”, esclarece, sem dissimular o orgulho.

 

 

Toruń, a cidade natal de Marta Klimczak, se localiza às margens do extenso Rio Vístula. Com quase 170 mil habitantes, ganhou fama pela arquitetura gótica, pelos pães de gengibre e por ser o berço do astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543). No jardim da infância, a sambista já arrastava as asas para tamborzinhos, xilofones mirins e flautas doces. Os pais notaram o interesse da filha e trataram de adquirir um punhado de CDs eruditos, que a garota ouvia junto da irmã gêmea, hoje comissária de bordo.

A passista começou o aprendizado de música clássica assim que completou 10 anos e o prolongou até finalizar o mestrado. Durante o percurso, frequentou escolas tanto na Polônia quanto na Alemanha e Suécia. “Foi dificílimo. Os professores exigiam bastante de nós. Houve fases em que estudávamos dez horas por dia. Mal sobrava tempo para aproveitar a vida”, conta Klimczak.

Quando menina, a aluna apreciava sobretudo os compositores românticos, como Tchaikovsky e Chopin. Mais tarde, descobriu o barroco e morreu de amores por Bach. Nos raros momentos de folga, curtia pop americano (Britney Spears, Christina Aguilera, Back­street Boys) e bandas polonesas de rock (Coma, Strachy Na Lachy, Happysad). “Eu adorava dançar em baladas.”

 

Depois de concluir os estudos, a musicista integrou duas orquestras respeitáveis: a Sinfônica de Toruń e a Filarmônica Báltica de Gdańsk. Em paralelo, dava aulas de flauta transversal para crianças e adolescentes. Certa ocasião, um violonista manifestou o desejo de trabalhar com a colega. Nasceu, então, o duo Os Solistas. “Tocávamos apenas canções de Tom Jobim. Nosso repertório de doze músicas incluía Chega de saudade, Desafinado e Garota de Ipanema. Eu admirava o Jobim porque já conhecia a Bossa Nova. Sabia que as composições dele soam muito bem na flauta e no violão”, recorda Klimczak. O duo se exibia em bares e restaurantes, entre um concerto e outro das orquestras que empregavam a flautista

 

Conhecer a Bossa Nova não significava conhecer o Brasil. Quando formou a dupla, a instrumentista ignorava quase tudo do país. “No colégio, só aprendi que o Brasil é abafado e gigante.” Telejornais poloneses costumavam mostrar o Sambódromo do Rio em pleno Carnaval, mas as cenas – geralmente curtas – não seduziam a futura passista. “Uma vez, numa feira de rua, minha mãe comprou um top amarelo para mim.” A frente da roupa trazia a inscrição “Brasil” em verde. Apesar de o substantivo não lhe dizer grande coisa, a menina gostou do presente. “Me apaixonei rapidinho pelas cores e não tirei mais o top.”

Em julho de 2019, com ajuda da irmã, Marta Klimczak conseguiu uma passagem aérea barata para o Chile, onde ficou alguns dias. Como ainda tinha umas semanas de férias, decidiu esticar a viagem por terra. Foi à Bolívia e depois explorou o Sul do Peru. Em Cusco, um grupo de turistas propôs: “Visite o Brasil. Está perto daqui e é tão bonito…”

 

Lembrando-se de Tom Jobim e do top amarelo, a viajante atendeu à sugestão. Rumou para o Acre também por terra e, de lá, voou até o Rio. Baixou num hostel da Lapa, deixou as bagagens e saiu andando pela vizinhança. “Era de manhã. Caminhei um pouquinho e me roubaram, acredita?” Indignada, jurou que permaneceria o resto da temporada carioca dentro do hostel. O clamor da noite, porém, a fez mudar de ideia. Num bar dos arredores, a polonesa se engraçou com um mineiro que não apenas falava inglês como demonstrou ser um exímio dançarino.

À época, Klimczak sentia falta de movimentar mais o corpo. “Repare que músicos eruditos quase não se mexem. Tocar em orquestras requer gestos muito precisos, muito sutis. Por isso, depois de iniciar minha carreira, busquei praticar crossfit, salsa e high heels dance para aliviar as tensões.” As atividades, entretanto, não a satisfaziam plenamente. “Acabei largando todas.”

No Rio, a viajante acompanhou o mineiro em festas onde o samba e o forró corriam soltos. Os ritmos frenéticos a enfeitiçaram. “Impossível descrever a alegria que tomou conta de mim.” Não por acaso, logo que regressou à Europa, Klimczak entrou em depressão. “A informalidade e a energia do Rio me abriram os horizontes. Percebi que meu cotidiano na Polônia havia perdido o sentido.” Ela queria chutar o balde, mas ainda não dispunha de coragem nem de recursos para tanto.

Em março de 2020, a pandemia do coronavírus eclodiu. Com mais tempo livre, devido às restrições sociais, Klim­czak resolveu fazer as oficinas online de Katarzyna Stocka-Dapiaggi, a Kashira, concorrida professora polonesa de “samba no pé”. A principiante se revelou uma bailarina tão hábil que dobrou a aposta e procurou coreógrafos brasileiros. Primeiro, encontrou Liani Devito. Depois, Alex Coutinho. Ambos também ofereciam aulas pela internet.

Os cursos pavimentaram a trilha para Klimczak desfilar nos carnavais de 2022 e 2023 por escolas de Niterói (Acadêmicos do Cubango) e do Rio (Em Cima da Hora, Paraíso do Tuiuti e Império da Tijuca). Graças à experiência, a passista – que está solteira e não tem filhos – arriscou um salto ainda maior. Tirou uma licença profissional e morou dezoito meses na capital fluminense (entre outubro de 2023 e abril de 2025). Pôde, assim, se aprimorar como sambista e aprender português.

Quando retornou do sabático, virou finalmente a mesa. Abdicou dos empregos e imigrou: trocou a Polônia por Ayia Napa, cidade do Chipre onde protagoniza shows de samba em hotéis. Agora, enquanto treina sob a batuta do Mestre Carlinhos para sair no Salgueiro pela primeira vez, garante que não voltará à música clássica. “Sambar é tudo de que meu corpo e minha alma precisam.”

Armando Antenore
Armando Antenore

Editor da piauí, é autor de Júlia e Coió, Rita Distraída e Sorri, Lia! (Edições SM)

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