CRÉDITO: MURAL AMANDA GORMAN_NICOLE HAYDEN_2021
A verdade em uma nação
Queremos acreditar que aquilo de que cuidamos pode durar
Amanda Gorman | Edição 211, Abril 2024
Tradução de Stephanie Borges
Aquela roupa chamativa verde fluorescente –
A bicicleta com a qual ele andava
[tranquilamente um segundo antes,
Foi parada de re pe n te
Como um DJ com a mão na picape,
O caçador deixou nele uma marca.
Marca o mundo & marca-o como posse.
Embora não tivéssemos nada a esconder,
Fingimos inocência para ele,
Uma exibição completa como um prato num bufê.
Aqui. Um banquete para os seus olhos.
Olhe.
Olhe.
Não, sério.
Apesar da lanterna na nossa cara,
Nós viemos em paz,
Ele já estava em guerra.
Afinal não estamos todos,
Sempre?
Piscamos, petrificados,
Um cervo diante do rifle.
Ele não reconheceu
Quem éramos,
Quem a gente era?
Uma garota que tenta voltar para casa a pé
& viver para contar a história.
Naquele momento, queríamos desesperadamente
Ofegar
Gritar
Sobreviver.
Temos lutado muito para ser.
Nada –
Nada mesmo –
Pode te proteger.
O silêncio menos ainda.
Fale com essa vida imensa,
Pois nunca temos certeza
De que vamos respirar de novo.
* * *
O orgulho indiferente de uma nação pode matar,
Nos asfixiar no mesmo ponto em que
[criamos a sombra.
Isso também é chamado Chauvin[ismo].
Essa dor patrulha seguindo um padrão.
É praticada, esfriada, codificada,
[familiar & des-conhecida.
Será que iríamos querer paz
Se soubéssemos o que é isso?
* * *
Nossa guerra tinha mudado.
Quem disse que nunca morremos
Num sonho obviamente
Nunca foi Negro.
Às vezes o crepúsculo inteiro nos derruba.
Às vezes no meio
Da noite dizemos nosso nome
Várias & várias & várias vezes
Até que perca todo o significado,
Até que as sílabas sejam só
Mais uma coisa morta.
Isso é uma espécie de ensaio.
Nos mantemos de pé,
Nem que seja para insistir
Que ainda
Existimos.
Encapuzados por um pesadelo
Nós nos ressuscitamos.
* * *
A união dos que não desejavam ser mártires.
A morte não é um equalizador,
A morte não iguala nada,
Faz de uma vida um zero.
Esse é o mecanismo deste país.
Conforme o habitual retomou as ruas,
A violência voltou a se espalhar,
Normal em sua anormalidade,
Totalmente explícita.
& então estávamos em des-tremor,
Nossos ombros não lembravam mais
Como se mexer
Depois de ver nossos corpos
Destruídos.
Descansem em Paz.
Devastados pela Pandemia.
Descartados sem Piedade.
Desconsiderados como Pessoas.
Parecem vivos, todos eles.
* * *
Fazer uma pergunta
É levantar sua mão
& se preparar para o fim.
A resposta é um ataque,
Pode te matar.
Posso te falar uma coisa?, perguntamos.
Pow!, dispara a resposta.
Ah, aqueles que amamos estão cercados.
Apesar de rezarmos com tanto fervor,
Qualquer um se torna presa
Quando não dá
Meia-volta & corre.
Hoje em dia, viver
É uma arte rara.
* * *
Fomos trazidos para cá
& tudo que ganhamos foi uma
[camiseta vagabunda,
Essa dor gratuita, inerte.
Sinta o gosto de nossa raiva cansada, intacta.
Nada do que testemunhamos
Ao longo dessa vida nos surpreende.
A incredulidade é um luxo
Que nunca nos pertenceu,
Uma pausa que nunca existiu.
Quantas vezes nós ofegamos
De pavor a noite inteira?
A verdade é um país na mira das armas.
* * *
Esta república é sombria desde sua criação.
Um país de armas & germes &
De terras & vidas roubadas.
Ah, diga que podemos ver
A poça de sangue sob nossos pés,
Reluzindo embaixo de nós
Como uma estrela manchada de sangue.
O que poderíamos ter sido se tivéssemos tentado.
O que poderíamos nos tornar, se ao
[menos ouvíssemos.
* * *
Cicatrizes & listras.
Escolas mortas de medo,
Escolas que são locais de morte.
A verdade é a educação embaixo da mesa,
Se escondendo das balas.
Logo vem a queda brusca
Quando devemos
Perguntar onde nossos filhos
Vão viver
& como,
& se.
Quem mais deixaremos perecer.
* * *
Mais uma vez, a linguagem importa.
As crianças foram ensinadas –
América: sem ela, a democracia fracassa.
Mas a verdade é que
Sem a democracia, a América fracassa.
Pensamos que nosso país poderia queimar.
Pensamos que nosso país poderia aprender.
América,
Como cantar
Nosso nome?
Singular,
Singelo,
Sujo.
Cinzas são alcalinas, ou seja, básicas.
Uma grande verdade.
Talvez queimar seja a purificação
Mais básica que existe.
O tempo disse: Você deve se transformar
[para sobreviver.
Nós dissemos: Nem por cima do meu cadáver.
Do que podemos chamar um país que
Se destrói só porque pode?
Uma nação que prefere arder em chamas
A mudar?
Só sabemos chamar isso de
Terra natal.
* * *
Há mais do que um tom de assombração.
Queremos acreditar que
Aquilo de que cuidamos pode durar.
Queremos acreditar.
A verdade é que somos uma nação
[cheia de fantasmas.
A verdade é que somos uma nação
[imersa em trapaça.
Responda honestamente:
Algum dia seremos quem dizemos ser?
* * *
O mundo ainda nos apavora.
Nos dizem para escrever sobre
[aquilo que conhecemos.
Nós escrevemos sobre aquilo que tememos.
Só aí o amor se torna
Maior que o medo.
A cada segundo, o que sentimos
Pelo nosso povo & nosso planeta
Quase nos deixa de joelhos,
Uma compaixão tão imensa
Que quase nos destrói.
Não há amor neste ou por este mundo
Que não seja ao mesmo tempo
[luminoso & insuportável,
Algo que não se pode carregar.
* * *
Construímos este lugar,
Sabendo o que ele poderia virar,
Sabendo que ele poderia não durar,
Sabendo que ele poderia perder.
Nosso povo,
Nós o aceitamos para tê-lo & repreendê-lo,
Para amá-lo & para mudá-lo,
Na saúde & na doença,
Até que a respiração nos separe.
Como declaramos vocês
Terra & Luta?
Nossas mãos não podem
Desistir do que começaram.
* * *
Nosso país parece jovem
& claudicante, mas deslumbrante,
Como um leão aprendendo a andar.
Uma nação que tropeça.
O que não fizemos com delicadeza,
Ao menos nos deixem fazer
[decente & deliberadamente,
Pois ainda há um compromisso aqui,
Algo que prometemos a todos.
* * *
Há dias em que só
Acreditamos
Na própria crença. Mas
Isso é o suficiente para seguirmos em frente.
Acreditamos que podemos transformar
Sem guerra ou receio.
Somos teimosos, não estúpidos.
Estratégicos, como um general que vê
Que talvez não vença essa batalha.
Somos otimistas, não porque temos esperança,
Mas porque só através do otimismo a esperança
Se torna possível.
* * *
O luto depende do amor.
Tudo o que mais amamos vai nos deixar.
Mas o que mudamos pode durar,
Preservado & escolhido.
Imaginamos nós mesmos
& tudo o que faremos uns dos outros:
Nossos rostos úmidos e cintilantes
Como uma ferida aberta,
Atordoados pelo brilho
De nossos eus enfim renovados.
A verdade é um só mundo maravilhado,
Dolorido, revelado.
Que essa prece,
Esse povo,
Essa paz,
Essa promessa,
Sejam nossos
Sejam bons
& radiantes
& reais.
Este poema faz parte do livro Seremos chamados pelo que levamos, traduzido por Stephanie Borges, que será lançado em maio pela editora Intrínseca.
