carta da Argentina

MEMÓRIAS DE UM BURACO

O papel do promotor Alberto Nisman em um labirinto de fraudes, suborno e intriga internacional
Imagem Memórias de um buraco

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Como muitos outros, eu estive lá no dia em que aquilo aconteceu, quando tudo era confusão, escombros, cadáveres, policiais, barreiras, socorristas, e nós tentando subir em prédios vizinhos ou em postes, para ver melhor.

Com o passar dos anos, desses 21 anos, recordo com mais intensidade o que vi algumas semanas depois, quando somente um grupo de velhos jornalistas, daqueles que vão ficando de lado nas redações, apareceu para cobrir o ato realizado um mês depois do ataque.

Havia um enorme buraco, separado da rua por um tapume. Espiei pelas frestas. Era assustador, um abismo que parecia saído de um romance, como se a bomba tivesse escavado um túnel em direção ao centro da Terra.

Entre a cidade e essa boca infernal, só aquele frágil tapume.

Nos meses seguintes, taparam a cratera, ergueram um enorme edifício em cima dela e o rodearam de colunas e guaritas, câmeras e guardas.

Mas ele ainda está lá, tenho certeza – aquele fosso aterrador, aquela goela aberta para nos engolir.

Ao longo desses anos tentei não escrever sobre o assunto, evitá-lo tanto quanto possível. Foi inútil: ele também me engoliu, repetidas vezes. Eu tinha 28 anos quando aquilo aconteceu, mas já contava onze na profissão. Não queria me aproximar do caso porque sabia – como muitos deveriam saber – que não havia a menor chance de a polícia, a Justiça ou os serviços de inteligência da Argentina descobrirem o quê, como ou por que aquilo tinha acontecido, quem havia explodido o prédio da Amia, a Associação Mutual Israelita Argentina, coração da comunidade judaica nacional, matando 85 pessoas e ferindo mais de 300. Até hoje, quando a morte do promotor Alberto Nisman volta a colocar o atentado no centro da política argentina, nada foi esclarecido.

Comecei a trabalhar como jornalista em dezembro de 1983, nos últimos dias da última ditadura militar argentina – os primeiros do primeiro governo eleito em muitos anos. Já não havia campos de concentração e extermínio, já não havia sequestros nem assassinatos em massa. Mas o principal método de investigação da polícia continuava sendo a tortura. Era assim fazia décadas, e até haviam sido criados subterfúgios para fingir que ninguém via o que acontecia. A polícia estava legalmente autorizada a interrogar os suspeitos, só que os resultados desses interrogatórios, que eram incorporados aos processos judiciais, não tinham valor de prova, mas de “indícios”. Regularmente, os acusados negavam tudo o que haviam dito à polícia e denunciavam ter falado sob coação. Mas os tribunais já sabiam o que tinham feito e onde procurar as provas.

Naquele tempo, costumava me encontrar com um subdelegado que me passava informações. Quando seus relatos chegavam a esse ponto, ele soltava o eufemismo: “Depois de um ‘hábil’ interrogatório…” Ríamos cinicamente.

Não deveríamos rir. Não havia motivo para rir.

Depois esse poder foi retirado da polícia – e a Justiça perdeu seu principal recurso de investigação. Descobrimos que Sherlock Holmes era uma invenção literária ou, pelo menos, nunca tinha vivido na Argentina.

Na década de 80, uma menina de 11 anos, Jimena Hernández, apareceu morta na piscina de um colégio. Os legistas não chegaram a um consenso sobre as razões da morte. No maiô da garota havia uma mancha supostamente de sêmen. Como puseram a peça dentro de um saco de náilon, os rastros de DNA se perderam. Na falta de respostas, surgiram fantasias: havia gente do governo implicada no crime, algum poderoso estava ocultando a verdade.

Desde então, caso após caso, foi sempre a mesma coisa.

Uma mulher de classe média alta aparecia morta em sua casa em um condomínio fechado. Os legistas diziam que ela tinha uma vida sexual incrivelmente ativa, com o filho, com o sogro, com estranhos. Naquele caos erótico, vai saber com quem ela se deitava, quem a assassinara.

Não eram casos isolados. Os policiais recolhiam cera vermelha pensando que fosse sangue, danificavam ou destruíam provas por engano, alteravam as cenas dos crimes por pura inépcia. Os tribunais eram lentos, burocráticos, desmotivados, e acobertavam ilegalidades próprias ou alheias.

Havia também o expediente fácil de pagar um suborno. Mas, como na maior parte dos casos, a investigação era uma fraude, não havia a menor necessidade de subornar quem quer que fosse: era praticamente impossível acabar na prisão, se a pessoa não fosse pobre.

Esses fracassos eram disfarçados com mentiras ou fantasias da polícia, dos juízes, dos promotores, dos jornalistas.

Uma família, os Pomar, desapareceu a caminho das férias. As buscas se estenderam por 24 dias, sem resultado. Os jornais especulavam que seria uma fuga do país por causa de dívidas, ou um crime passional, com abusos sexuais, ligações com o narcotráfico, sequestro. Acabaram encontrando os corpos jogados perto da estrada, onde estavam desde o dia em que sofreram um acidente de carro. Ninguém os procurara ali.

De certo modo, muitos fizeram de conta que não viram nada quando um carro-bomba explodiu a embaixada de Israel em Buenos Aires, no dia 17 de março de 1992, matando 29 pessoas e ferindo mais de uma centena. Não era problema nosso, pensamos. Não totalmente.

Mas era preciso investigar, e todas as agências de segurança e inteligência da Argentina meteram a colher no caso. Nos primeiros cinco anos, não conseguiram se entender nem sequer sobre como o atentado havia acontecido. A Polícia Federal sustentava que a bomba chegara em uma caminhonete dirigida por um suicida. A Polícia Militar – que na Argentina é nacional, subordinada ao Ministério da Segurança – replicava que não havia provas nesse sentido. A Corte Suprema de Justiça trabalhou inicialmente com a suposição de que a bomba estava dentro da embaixada. Um relatório de inteligência insinuou que a explosão teria sido fruto de uma briga entre israelenses.

Um dos peritos, farto das besteiras que seus colegas diziam, resolveu fazer uma brincadeira para mostrar o absurdo da coisa: insinuou, em uma conversa ao telefone, que o ataque havia sido obra de um homem que saltara de asa-delta do alto do hotel Sheraton, com uma bomba na mão. Pouco depois, ele leria esse desatino num relatório confidencial dos serviços secretos, que grampeavam sua linha.

Mas não era grave, pensávamos. O ataque contra a embaixada era um evento inesperado, imprevisível, irrepetível – um acidente da história, um estilhaço desgarrado daquela remota guerra do Oriente Médio que aparecia nos jornais. Dezoito anos depois, um novo embaixador israelense em Buenos Aires, Daniel Gazit, declararia que seu país sabia “quem estava por trás do atentado, quem o organizou, quem deu as ordens e quem o executou, com nomes e tudo”. E acrescentaria: “Já cuidamos deles.”

Sempre acreditamos que o fariam. Era um problema deles, repetíamos.

Em 18 de julho de 1994, o prédio da Amia voou pelos ares, e aquilo que não ia acontecer duas vezes aconteceu duas vezes, e já não valia dizer que tecnicamente se tratava de território estrangeiro.

No dia seguinte, o embaixador argentino em Israel, José María Otegui, avisou à Chancelaria que o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, estava disposto a “coordenar uma interpretação unificada do ocorrido, que conviesse aos interesses políticos de ambos os governos”. Um dia depois, Dov Shmorak, que fora embaixador israelense na Argentina entre 1980 e 1985, viajou a Buenos Aires para acertar os ponteiros. O governo argentino autorizou um grupo de resgate israelense a cuidar da remoção dos escombros e da busca de sobreviventes. As câmeras se apaixonaram por um cachorro que acompanhava a equipe, que portava uma bandeirinha israelense. A Amia parecia território estrangeiro.

Mas dessa vez não conseguimos empurrar a tarefa para os outros. Os governos dos Estados Unidos e de Israel disseram que os dois ataques haviam sido obra do partido libanês Hezbollah, a mando do governo do Irã. O resto, a Argentina teria que descobrir sozinha.

Nem a CIA nem o Mossad queriam compartilhar com seus pares argentinos informações sobre os atentados à embaixada e à Amia. Um funcionário da Corte Suprema de Justiça me disse que, para justificar essa recusa, a CIA alegava normas internas e a necessidade de preservar suas fontes. A Corte ofereceu enviar um funcionário aos Estados Unidos para ler o material lá mesmo. A resposta foi negativa.

Como um insulto somado à injúria, em agosto de 1998, Stanley Bedlington, um analista aposentado da CIA, contou ao jornal israelense Haaretz como a agência americana e seus colegas do Mossad haviam investigado e descobriram em conjunto os autores do atentado contra a embaixada de Israel em Buenos Aires – que, presumia-se, eram mais ou menos os mesmos do ataque contra a Amia.

Segundo sua versão, o Hezbollah optou pela Argentina por ser um objetivo fácil, acolhendo uma grande comunidade xiita em Buenos Aires e na tríplice fronteira com o Brasil e o Paraguai. Um coordenador do Hezbollah teria viajado à Argentina com documentos falsos fornecidos pela embaixada iraniana em Beirute e alugado um apartamento “no bairro xiita da capital argentina”. Depois, em não mais do que seis meses, teria constituído uma célula local com seis membros para cuidar da escolha do alvo. Por último, uma célula de três pessoas teria vindo de Beirute para realizar o ataque. Segundo Bedlington, os terroristas teriam recebido ajuda de pessoas não identificadas do Exército e da polícia argentinos, e também da embaixada do Irã em Buenos Aires.

Quando perguntei a um oficial da Secretaria de Inteligência do Estado (Side), o serviço secreto que responde à Presidência, se dispunha dessas informações, ele me disse que a CIA não lhes fornecera “nenhuma pista fundamental, porque não tem nenhuma”. E acrescentou que não sabia quem era aquele Bedlington. Alguns dias depois voltamos a conversar: bem, Bedlington existia sim, e era mesmo quem afirmava ser…

Bedlington explicou ao jornalista do Haaretz por que a CIA não colaborara com os argentinos na investigação do ataque à embaixada: “Os argentinos não estavam muito dispostos a ajudar. A história que montaram, segundo a qual o material explosivo estava dentro do prédio da embaixada e teria sido detonado em consequência da manipulação negligente de um perito em demolições israelense, foi parte de uma tentativa de encobrir seus erros em um caso no qual haviam fracassado.”

Portanto, estávamos sozinhos e tínhamos que resolver o problema por conta própria.

E foi o que fizemos. Ao nosso modo.

Carlos Menem, o então presidente argentino, declarou nos dias seguintes ao ataque à Amia que havia uma “prova semiplena” de que o Irã era o responsável. Por que “semi”?

Talvez porque nunca tenha chegado a ser “plena”. Qual era a prova? Primeiro, a advertência de um brasileiro, Wilson dos Santos, que procurara o consulado argentino em Milão poucos dias antes do ataque para avisar que ele ocorreria. Disse ter sabido disso por meio de uma prostituta iraniana, Nasrim Mokhtari, que segundo ele tinha ligações com o grupo que preparava o atentado. Anos depois, Santos acabou sendo detido e levado para depor na Argentina, onde negou ter dito o que tinha dito. Também encontraram Nasrim Mokhtari na Europa e a atraíram à Argentina com uma armadilha. Depois de interrogá-la várias vezes, juízes, promotores e policiais concluíram que ela era inocente. Acabou pobre e abandonada, prostituindo-se em troca de um café nas ruas de Buenos Aires, até ser internada em um manicômio.

Segunda prova: dias depois do ataque à Amia, apareceu em Caracas o intrigante Manoucher Moatamer, um ex-funcionário iraniano que, depois de fugir de seu país, ofereceu nomes e sobrenomes de altos membros do governo e diplomatas iranianos que, segundo ele, haviam organizado o atentado. O juiz responsável pelo caso, Juan José Galeano, viajou no avião presidencial para entrevistá-lo. Com base no que Moatamer lhe contou, preparou a acusação contra os funcionários iranianos.

Para surpresa de muitos, e sobretudo de Galeano, a Corte Suprema de Justiça – cuja maioria, na época, tinha como principal missão fazer tudo o que o governo de Menem mandasse – rejeitou a acusação por falta de provas.

O que estava acontecendo é que, passados os dias de choque, o governo começava a se dar conta de que precisaríamos nos virar sozinhos e que qualquer ação teria consequências. Como me disse um alto funcionário de Menem que participava da investigação: “Para nós, em termos de inteligência, embora não de provas, o caso está resolvido. Foram os iranianos. Mas nós não temos caças para bombardear Teerã. O que podemos fazer?” Em outros setores do governo, ia-se além: se realmente havia sido o Irã e a Argentina formalizasse a acusação, até onde poderia sustentar o confronto? E se houvesse um novo atentado?

Abandonado, Moatamer não se conformou. Reapareceu na embaixada argentina em Quito. Uma pessoa que falou com ele naqueles dias me contou uma história incrível – sua suposta fuga pelas fronteiras do Irã em lombo de burro, seu desejo de ir para os Estados Unidos. Mas os americanos não acreditavam nele: sabiam que tinha sido um funcionário de baixo escalão, sem acesso ao tipo de informação que anunciava.

Moatamer mora na Califórnia. De vez em quando, aparece falando do assunto na televisão.

No fim, Menem pagou por essas marchas e contramarchas. Em 1998, a chamada Testemunha C – um ex-funcionário da inteligência iraniana de nome Abolghasem Mesbahi, que fornecera à Justiça alemã informações úteis sobre o assassinato de opositores iranianos no restaurante Mykonos, em Berlim, e que vivia na capital alemã sob proteção – ofereceu uma versão completa sobre como o ataque havia sido planejado. Essa versão foi noticiada de diversas formas ao longo dos anos. Na penúltima delas, Mesbahi acusava Menem de ter recebido 10 milhões de dólares para acobertar os responsáveis pelo ataque. Depois se desmentiu, ou esclareceu o assunto, mas a notícia já tinha sido reproduzida por jornais do mundo inteiro.

Um alto oficial da Side explicou-me que nem eles nem os americanos acreditavam no que a Testemunha C dizia. Em 1994, quando ocorreu o ataque, Mesbahi já não tinha acesso ao nível hierárquico em que a operação teria sido decidida, nem aos funcionários iranianos que mencionava.

Os únicos elementos concretos que ligavam os dois atentados ao Hezbollah eram declarações de organizações ligadas ao partido libanês. A Jihad Islâmica reivindicou o ataque à embaixada e enviou um vídeo da fachada do prédio antes da explosão da bomba. A Ansar Allah declarou seu apoio ao ataque à Amia. Os dois grupos, pouco conhecidos na época, eram considerados fachadas do Hezbollah: permitiam-lhe colher esses “êxitos” com seus simpatizantes, e oficialmente negar qualquer participação.

Sem o apoio de quem de fato podia oferecê-lo, o caso ficou entregue à habitual combinação nativa de ineficiência e corrupção. Como o Hezbollah mantinha alianças com o Irã e com a Síria, especulou-se que talvez esta última, e não o Irã, seria o verdadeiro inimigo da Argentina. Embora não fizesse muito sentido em termos de política internacional (na época, a Síria mantinha conversações de paz com Israel), essa hipótese tinha um atrativo especial: o assunto todo podia ser reduzido às nossas questões internas.

Segundo o relato de um diplomata, Menem pedira dinheiro ao presidente sírio Hafez al-Assad para sua campanha eleitoral em 1989; em troca, teria prometido transferir à Síria a tecnologia do míssil Condor, um programa secreto que a Argentina havia desenvolvido em parceria com o Egito e o Iraque. Mas Menem traiu todas as promessas de campanha (não só as feitas à Síria) e se alinhou incondicionalmente aos Estados Unidos. A pedido do Departamento de Estado americano, destruiu o programa Condor.

Um comerciante sírio-argentino, Alberto Kanoore Edul, era o único elo real da “pista síria”. Seu nome estava ligado à pessoa que vendera a caminhonete utilizada como bomba contra a Amia. Quando a polícia o procurou, seu pai telefonou para Munir Menem, irmão do presidente, e Munir Menem telefonou para o juiz. Resultado: Edul ficou livre, e as gravações de suas ligações telefônicas desapareceram.

Sem maiores provas, essa hipótese implicaria que o regime sírio estivesse disposto a romper o diálogo com Israel e matar dezenas de civis apenas para se vingar de Menem, em vez de atacá-lo de forma mais direta. E mais: os sucessivos governos dos Estados Unidos e de Israel teriam ocultado a verdade só para prejudicar o Irã. É uma teoria defendida por quem acredita em grandes conspirações, como os jornalistas. Alguns deles inclusive afirmam que não houve nenhum carro-bomba, o que cria uma contradição, já que a principal conexão de Edul com o caso é seu telefonema ao fornecedor da caminhonete em questão, Carlos Alberto Telleldín.

A caminhonete foi a única pista concreta obtida em toda a investigação, mas, seguindo o costume padrão, fez-se todo o possível para invalidá-la. Entre os escombros estava o motor do veículo que, carregado de explosivos, subiu na calçada em frente à sede da Amia antes que o motorista acionasse o detonador. Fui o primeiro a entrevistar os técnicos da Polícia Federal logo depois de reconstituírem a explosão, baseados nos restos da caminhonete que conseguiram encontrar. (Eu trabalhava então no Página/12, um diário considerado de oposição, e por isso os técnicos falaram comigo. Temiam que seu trabalho fosse atribuído aos peritos israelenses por razões políticas, ou que fosse submetido às manipulações e disputas que ocorreram no caso da embaixada, dois anos antes.)

O trabalho dos técnicos conduziu ao vendedor do veículo. Não sem os problemas habituais: a caminhonete original havia estado em poder de Alejandro Monjo, um vendedor com amplos contatos na Polícia Federal, então responsável pela investigação – e que, depois do desaparecimento de algumas provas, acabou afastada dela. Monjo entregara a caminhonete a Carlos Telleldín, um desmanchador de carros roubados, que trocou o motor do veículo. Telleldín pagava uma comissão regular à Polícia da Província de Buenos Aires, que também trabalhava nas investigações.

Em todo caso, Telleldín foi detido e interrogado. Disse que havia vendido a caminhonete a um desconhecido. Insistiram, chantagearam-no e pressionaram, sem resultado: era uma pista que não levava a nada.

Assim, dois anos depois do ataque, equipes da Side, da Polícia Federal e da Polícia de Buenos Aires tinham dado sua contribuição ao caso – quer dizer, tinham invalidado ou ocultado provas por ineficiência ou corrupção. E então, quando parecia que nada podia ser pior, deu-se uma daquelas epifanias argentinas, um daqueles momentos em que imaginamos que podemos superar todos os outros com nossa inteligência – essa presunção que inspirou tantas piadas na América Latina sobre o ego argentino.

A Side indicou um grupo especial, o Sala Patria, para investigar o caso. Relativamente novo, embora com membros experientes, a equipe acabara de capturar no México o guerrilheiro argentino Enrique Gorriarán Merlo, o executor do ex-ditador nicaraguense Anastasio Somoza. Para isso, combinara técnicas profissionais básicas e inteligência política: depois de fazer aos serviços de inteligência mexicanos o favor de infiltrar um agente argentino entre os zapatistas, conseguira ajuda para prender Gorriarán.

O cérebro do Sala Patria era o ex-major do Exército Alejandro Brousson. Era baixo e robusto, calvo, loiro, de olhos claros e penetrantes. Com uma voz agradável e teorias fascinantes sobre todos os casos não resolvidos da Argentina, tinha o melhor e o pior da idiossincrasia nacional – acreditava poder superar todos os outros em astúcia, e suspeitava ou temia o tempo todo que outros pretendessem fazer o mesmo com ele.

Vivíamos um tempo de fantasia, aqueles anos em que Menem nos explicava que havíamos entrado no Primeiro Mundo, em que o Congresso decretou que 1 peso argentino valia o mesmo que 1 dólar. Em 1995, Menem, acusado de corrupção e diversos abusos, foi reeleito com 49,94% dos votos; no dia seguinte à apuração, circulavam camisetas com os dizeres “Eu não votei nele”.

Se o menemismo tinha alguma virtude, era ter entendido como funcionava o mecanismo da ilusão no país. Se podíamos fingir ter entrado no mundo dos ricos, também podíamos fingir ter resolvido o enigma do maior ataque antissemita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com recursos do governo e a aprovação de Rubén Beraja, líder da Daia – a Delegação de Associações Israelitas Argentinas, que se arroga a representação da comunidade judaica do país –, o juiz Juan José Galeano ofereceu a Carlos Telleldín, em julho de 1996, 400 mil dólares para dizer que havia entregado a caminhonete que seria usada como carro-bomba a um grupo de policiais corruptos da província de Buenos Aires.

Um ano e meio depois, Alejandro Brousson, do Sala Patria, marcou um encontro comigo num café da avenida de Mayo, em Buenos Aires. Quando entrei, um estranho se aproximou e fez um sinal para que eu o seguisse. Caminhamos algumas quadras até outro café, num hotel. Ali me esperava o agente secreto, com um meio sorriso. Era nossa reconciliação: nos meses anteriores, eu tinha tentado destruir seu caso e ele havia tentado me mandar para a prisão.

Brousson me contou quase tudo, quer dizer: que não havia nada, a investigação era um grande vazio. Queixou-se do juiz Galeano. Sim, acharam que forjando aquela história perfeita dariam o caso como resolvido, pois oferecer uma resposta era uma questão de Estado. O juiz, porém, atrapalhava tudo, passando aos jornalistas tudo que faziam. Era impossível trabalhar assim. É verdade, respondi. Assim é impossível.

No fim fez a pergunta que motivara o encontro:

Quem tinha me dado aquele vídeo?

Eu tinha dedicado aqueles anos a mostrar como funcionavam – ou melhor, como não funcionavam – a lei e a ordem na Argentina.

Nos anos 90, o grande tema eram as drogas ilícitas. A forma como se dava o combate ao narcotráfico era um laboratório de todo o sistema penal.

O público ainda ignorava esse mundo que se entrevia enorme, subterrâneo, ameaçador, que se dizia controlado por cartéis todo-poderosos e no qual eram traficadas substâncias que enlouqueciam os incautos e os levavam a cometer atos impensáveis. Os narcotraficantes eram vampiros ou lobisomens que, com seus fantásticos caninos, transformavam para sempre qualquer pessoa em quem encostassem.

Essa ignorância era resultado de um salto geracional impossível de superar – a imensa maioria de quem tinha mais de 40 não fazia ideia de como se cheirava uma carreira de cocaína. Os juízes e policiais podiam inventar o que quisessem, ninguém ousava desmenti-los.

Escrevi um livro com um amigo sobre o assunto: tudo o que a mídia informava sobre as espetaculares operações contra o narcotráfico, que pareciam se multiplicar ano após ano, competindo na quantidade de drogas apreendidas, era falso. Na verdade, os policiais, muitas vezes com dinheiro da DEA, a Agência de Repressão às Drogas americana, pagavam informantes que atuavam como “agentes provocadores”, atraindo traficantes e, em alguns casos, organizando rotas inteiras para justificar as grandes operações posteriores.

Na época, eram ilegais na Argentina os dois expedientes policiais básicos para combater o tráfico de drogas – o uso de informantes e a delação premiada. Deviam, portanto, ser empregados às escondidas, e depois tudo era maquiado nos processos judiciais. Sobre essas falsidades e ilegalidades se construíam outras, que eram utilizadas como armas para atacar uma ou outra figura pública.

Lidando com as drogas, juízes e policiais descobriram que podiam construir suas carreiras explorando as fantasias populares. Escrevi meu livro seguinte sobre o mais notório desses casos, dessa vez em parceria com minha mulher, também jornalista.

Em outubro de 1996, Guillermo Cóppola, empresário de Diego Maradona, fora preso por tráfico de drogas. A acusação era falsa: o juiz Hernán Bernasconi e um grupo de policiais haviam inventado tudo. O juiz sonhava com uma carreira política; os policiais, com promoções.

A montagem era grosseira. Os acusadores eram uns provincianos, pouco sofisticados – começavam a se contradizer logo depois da segunda pergunta. Mesmo assim, grande parte dos veículos nacionais divulgava suas invencionices noite e dia. O caso Cóppola absorveu a atenção popular como nenhum outro, deu origem a um gênero específico de talk show vespertino dedicado a um submundo de prostitutas, cafetões, informantes e estrelas fracassadas de televisão, que todos os dias ofereciam novos e suculentos detalhes, reais ou inventados, e conseguiam níveis de audiência insuperáveis.

Cóppola estava em contato com grandes traficantes de drogas e armas. Organizava orgias, matava garotas de overdose e as jogava no rio. Era o vilão perfeito dos filmes B, o Satã encarnado, a serpente que sussurrava no ouvido do indefeso Maradona e o obrigava a se entupir de cocaína e arruinar sua vida e sua carreira – ninguém raciocinava que, se ele fizesse isso, atentaria contra seus próprios interesses.

Por iniciativa de um juiz federal ambicioso e de um chefe de polícia a par do assunto porque um informante lhe oferecera a mesma operação, o juiz Bernasconi e os policiais foram investigados, e Cóppola foi liberado em janeiro de 1997. Mas nem nesse momento, nem depois, em maio, quando um tribunal superior acusou formalmente o juiz e os policiais de terem forjado o caso, Cóppola conseguiu que acreditassem em sua inocência.

Essa fascinação pelo caso Cóppola, no entanto, era um vício culpado para a classe média ilustrada, um assunto muito abaixo de seus interesses. Portanto, quando o bem-sucedido advogado de Cóppola, Mariano Cúneo Libarona, assumiu a defesa do delegado Juan José Ribelli, o mais graduado policial acusado no caso Amia, espalhou-se o temor de que esse assunto sagrado fosse transformado em mais um circo para as massas.

Cúneo Libarona era jovem, loiro, de olhos claros, um personagem perfeito dos anos 90: membro da tradicional “família judiciária” (seu pai e seus irmãos trabalhavam ou tinham trabalhado na Justiça), possuía ligações com o governo por ter defendido o poderoso cunhado de Menem, Emir Yoma, acusado de tráfico de armas. Entendera como o menemismo havia transformado o aparato judicial à sua imagem e semelhança, e aprendera a operar nele.

Quando Cúneo assumiu a defesa do delegado Ribelli, Rubén Beraja, o líder da comunidade judaica, os agentes da Side e os homens do governo e da Justiça lhe pediram exatamente isto: que não transformasse o caso Amia em outro caso Cóppola. E no entanto era exatamente o que eles tinham feito: haviam falsificado evidências para criar um vilão que se encaixasse na fantasia da classe média.

Os dois casos haviam sido forjados quase em uníssono. Na primeira metade de 1996, o juiz Bernasconi preparou as provas falsas contra Cóppola, e o juiz Galeano negociou o falso testemunho com Carlos Telleldín. Os policiais acusados por Telleldín foram detidos em julho, a tempo de serem exibidos como troféus no segundo aniversário do atentado à Amia. Cóppola foi preso em outubro.

Além disso, ambos os casos se ajustavam ao quadro político da época. Carlos Menem tinha sido reeleito em 1995. Seu sucessor natural era seu ex-vice-presidente, depois governador da província de Buenos Aires, Eduardo Duhalde. Teoricamente aliados, na realidade eram inimigos íntimos. Duhalde temia que Menem inventasse alguma manobra para conseguir uma segunda reeleição, proibida pela Constituição; Menem não estava disposto a ceder-lhe sua liderança.

Nesse contexto, parecia um tiro contra Duhalde o fato de o serviço secreto e a Polícia Federal, subordinados ao presidente, acusarem policiais da província de Buenos Aires de participação no ataque contra a Amia. Do mesmo modo, parecia um tiro em sentido contrário o fato de um juiz e alguns policiais da província de Buenos Aires estreitamente ligados a um membro do gabinete de Duhalde terem forjado uma denúncia contra Cóppola – que, por meio de Maradona, naqueles anos se aproximara de Menem.

Não que uma falsa acusação tivesse provocado a outra, cada uma tinha sua própria história, mas as duas correspondiam aos mesmos parâmetros políticos. E, assim como o juiz Bernasconi deixara pistas evidentes de como tinha falsificado o caso contra Cóppola, seu colega Galeano fez a mesma coisa. Ou melhor, foi além: filmou a si mesmo negociando com Telleldín o pagamento de 400 mil dólares em troca de seu testemunho.

Depois se diria que, por serem tantas as instituições implicadas (governo, Side, polícia, comunidade judaica), a filmagem havia sido pensada como uma prova de “transparência”.

O vídeo desapareceu do gabinete de Galeano e acabou nas mãos do advogado Cúneo Libarona. Com essa arma em mãos, o delegado Ribelli pediu um encontro com o juiz e lhe entregou uma cópia, sugerindo: “Assista em casa, sem sua família.” A mensagem implícita, claro, era que devia anular a denúncia contra ele.

Mas desta vez Cúneo superestimou suas forças. Saíra vitorioso no caso Cóppola porque, no fundo, o destino do acusado, do juiz Bernasconi e de seus policiais não tinha importância real. Além disso, o advogado contara com o respaldo do aparato federal de Justiça contra um obscuro juiz de província. Dessa vez ele pretendia enfrentar o Estado nacional e seus aliados, a cabeça visível da comunidade judaica e, indiretamente, os Estados Unidos e Israel, que também queriam ver o caso resolvido.

Como o juiz Galeano não cedeu, Cúneo divulgou o vídeo. Fui o primeiro a recebê-lo. Era um raro momento em que estava trabalhando como freelancer, e não consegui que ninguém se interessasse por aquela gravação. Mas, ao saber que ela estava circulando, a Side montou uma denúncia por roubo e começou a intimar todos os jornalistas que souberam de sua existência, numa tentativa vã de evitar que vazasse. Por fim, alguém mostrou as imagens na televisão.

E então aconteceu outro daqueles momentos de epifania em que a Argentina se revela tal como é: todo mundo defendeu o juiz. O governo, a classe política, outros juízes, os promotores e praticamente todos os veículos de comunicação do país. A prova estava diante dos olhos de todo mundo, mas preferiam acreditar em outra coisa.

Acusados do roubo do vídeo e de ameaçarem o juiz, Cúneo Libarona e seu sócio foram presos. Fui incluído na acusação. O Sala Patria forjou conversas telefônicas que eu não tive e enviou um de seus agentes para insinuar que eu havia feito o que não fizera. Foram me procurar em casa para me levar ao Fórum. Minha mulher me avisou por telefone – eu estava reunido num café com um informante profissional, um estelionatário que havia colaborado com vários órgãos policiais e que agora trabalhava para o Sala Patria. Ele me aconselhou a levar roupa e agasalho – dava como certo que eu acabaria na cadeia. Finalmente, fui absolvido. Naqueles dias, para minha sorte, prender um jornalista, mesmo que não contasse com o respaldo de um veículo, era demais.

Cúneo, em compensação, passou meses na cadeia, para a satisfação da maioria bem-pensante: era um novo vilão, o advogado diabólico. Meses depois, quando as forças que sustentavam o caso Amia já não se sentiam ameaçadas, outros tribunais o libertaram, aplicando uma pena de serviços comunitários.

Nesse ponto da história, quando a investigação do ataque contra a Amia já estava corrompida, adulterada, inventada aos olhos de todos, Alberto Nisman entrou em cena. Não chegou por acaso, por dever ou capricho de uma autoridade. Não: como me lembrou recentemente um dos homens que participaram do caso e que não tem grande apreço por ele, Nisman se ofereceu repetidas vezes, enviou mensagens, pediu que lhe dessem a grande oportunidade que vinha esperando havia anos.

Eu conhecera Nisman entre 1994 e 1995. Alto, atlético, moreno e cheio de energia, ele tinha então pouco mais de 30 anos e parecia um desses homens que acabaram de correr 10 quilômetros e estão prontos para se lançar à conquista do mundo. Era a fonte de informação ideal de todo jornalista iniciante: jovem, inteligente, carismático, sabia contar histórias com detalhes e precisão, e evidentemente sentia prazer em capturar nossa atenção.

Naquela ocasião falamos sobre o narcotráfico. Nisman começara sua carreira como secretário de um tribunal federal na província de Buenos Aires. Seu primeiro grande caso havia sido o ataque guerrilheiro contra o quartel militar de La Tablada, em 1989, último, agônico e fatal movimento do combatente dos anos 70 Enrique Gorriarán Merlo, que o Sala Patria viria depois a capturar no México. Os militares cuidaram da retomada do quartel. Como ficou provado depois, eles detiveram, torturaram e assassinaram alguns dos guerrilheiros. Nisman e o tribunal onde ele trabalhava ignoraram essa evidência.

Nisman foi promovido a secretário de um tribunal superior, a Câmara de Apelações e Garantias de San Martín, e depois se tornou promotor dos chamados juízos orais, um dos avanços da reforma democrática do sistema penal argentino. Antes disso, a investigação ficava a cargo de um juiz (com o “hábil” apoio da polícia); depois, o mesmo juiz impunha culpas e penas aos implicados. Com a introdução da reforma, os juízes e promotores continuavam sendo responsáveis pela investigação, mas a polícia já não podia interrogar os suspeitos, e a sorte dos acusados passou a ser decidida em um juízo oral e público presidido por uma comissão de três juízes superiores, perante os quais acusação e defesa apresentavam suas causas.

Essa mudança pôs em xeque os procedimentos ilegais tão corriqueiros até então. As comissões de juízes, cuja única função era revisar as evidências, em muitos casos não temiam anular processos inteiros que não lhes pertenciam. Sustentar e defender investigações frágeis em audiências públicas tornou-se uma especialidade. Nisman se transformou em um desses especialistas.

Em 1997, logo depois do vazamento do vídeo do suborno de Telleldín, quando foi necessário submeter a denúncia forjada contra os policiais a um juízo público, Nisman foi transferido para o caso Amia. Sua tarefa era “arrumar” o processo, tornar apresentável um conjunto de falsidades. Dedicou-se a isso durante os três anos seguintes, enquanto o país mudava de governo e mergulhava numa recessão terminal. Quando começou o julgamento oral e público do caso Amia, em 24 de setembro de 2001, a Argentina estava à beira de uma crise econômica, fiscal, política, social e moral que em dezembro derrubou o governo de Fernando de la Rúa e quatro presidentes interinos que o sucederam em duas semanas vertiginosas, antes que Duhalde, o inimigo íntimo de Menem, assumisse a condução do Estado, em janeiro de 2002.

A essa altura, metade do país estava abaixo da linha de pobreza, o desemprego passava dos 20%, as economias da classe média estavam congeladas nos bancos e as pessoas marchavam pelas ruas e cercavam o Congresso querendo linchar os políticos. Portanto, correspondia ao espírito da época que, em audiências que se arrastaram durante três anos e nas quais testemunharam até os jornalistas que cobriram o caso (eu inclusive), o julgamento se transformasse numa grande fogueira de vaidades na qual o inventado caso Amia foi esmiuçado até não restar nada.

As supostas testemunhas negaram ter testemunhado o que quer que fosse. Os agentes da Side, liberados do segredo, contaram como Telleldín havia sido subornado com verba secreta do Estado. Se ainda faltava alguma prova do fiasco, em agosto de 2003 a polícia britânica deteve em Londres, a pedido da Argentina, o ex-embaixador iraniano em Buenos Aires Hadi Soleimanpour, acusado de ser um dos organizadores do ataque de 1994. Mas, em novembro, a Justiça inglesa declarou que os argentinos careciam de provas e soltou Soleimanpour.

Era o fim. Em dezembro, um tribunal superior afastou do caso o juiz Galeano e designou um de seus colegas, Rodolfo Canicoba Corral, para substituí-lo. Havia um novo clima e um novo governo, presidido por Néstor Kirchner, peronista como Menem, mas eleito com a promessa de fazer a política oposta. A Argentina passaria de uma crise terminal a dez anos de prosperidade e crescimento a taxas chinesas, o peso valeria muito menos que o dólar e o país venderia infindáveis toneladas de soja à China.

Em setembro de 2004, dez anos depois de a Amia voar pelos ares, o Tribunal Oral Federal 3 declarou nula toda a investigação do caso e absolveu os acusados. Como resultado, nos anos seguintes, foram acusados de acobertamento o presidente Menem, chefes e agentes da Side, um chefe da Polícia Federal, o juiz Galeano, os promotores Eamon Mullen e José Barbaccia, além do ex-líder da comunidade judaica Rubén Beraja. Nisman, incrivelmente, sobreviveu; recebeu críticas, mas não foi acusado de nada. Ao contrário, acabou incriminando ex-colegas, outros investigadores com os quais trabalhara e o próprio presidente Menem. No fundo, do que ele podia ser acusado? De ter ignorado provas flagrantes? Mas não se podia dizer o mesmo de toda a classe política, do aparato judicial, dos jornalistas e de boa parte da opinião pública, que haviam visto a filmagem do suborno e fingiram que não mostrava o que mostrava?

Nisman foi nomeado promotor especial para o caso Amia por Néstor Kirchner, sob protestos de parentes das vítimas, que depois voltariam a pedir que fosse removido da investigação. Por outro lado, nomear àquela altura alguém que não estivesse familiarizado com um processo já labiríntico teria sido pouco prático.

caso voltou à estaca zero. Por um momento, cogitou-se retomar a pista síria, que Menem evitara, mas por fim Nisman centrou as investigações de novo no Irã, acusando num longo despacho, em 2006, vários funcionários iranianos, sem nenhuma nova evidência – exceto por novos depoimentos de opositores do regime de Teerã. A Argentina pediu a captura internacional do ex-ministro da Segurança Ali Fallhijan; de Mohsen Rezai, ex-comandante da Guarda Revolucionária e membro do conselho assessor do aiatolá Ali Khamenei; do ex-chefe da Guarda Revolucionária e posteriormente ministro da Defesa, Ahmad Vahidi; do ex-adido cultural na embaixada iraniana em Buenos Aires e principal suspeito de ter respaldado os atacantes, Mohsen Rabbani; e de Ahmad Reza Asghari, ex-terceiro secretário na mesma embaixada.

Nisman não se furtou a usar alguns truques de seus antecessores. No ano anterior, anunciara ter identificado o motorista do carro-bomba lançado contra o prédio da Amia: Ibrahim Hussein Berro, militante do Hezbollah. Disse que sua identidade fora confirmada pelos próprios irmãos do acusado, interrogados nos Estados Unidos, e pela única testemunha argentina que naquela manhã havia visto a caminhonete e seu motorista. Pouco depois, soube-se que não era verdade: os irmãos declararam que Ibrahim Hussein Berro não participara do atentado contra a Amia, que havia morrido em um ataque israelense no Líbano dois meses depois, e a testemunha negou perante o juiz ter reconhecido o motorista da caminhonete na foto de Berro que lhe mostraram.

O único elemento novo e atraente da acusação de Nisman contra o Irã era sua teoria sobre o motivo do ataque, que finalmente estava à altura dos nossos sonhos de grandeza. Antes disso, já se especulara que a embaixada israelense teria sido destruída em represália contra a morte do líder do Hezbollah, Abbas al-Musawi, sua mulher e seu filho de 5 anos, um mês antes, em fevereiro de 1992; que esse ataque e o que atingiu a Amia seriam represálias ao que se considerava uma traição de Menem ao mundo árabe e muçulmano; que seriam, na verdade, represálias à decisão de Menem de enviar dois navios argentinos à coalizão liderada pelos Estados Unidos contra o regime iraquiano em 1991; que seria um ataque contra uma das maiores comunidades judaicas fora de Israel.

Mas nenhuma dessas teorias parecia encaixar por completo. A represália contra o assassinato de Musawi podia fazer sentido em 1992, mas não em 1994; Menem parecia um traidor aos olhos da comunidade árabe argentina, mas nem tanto para os países árabes, vários dos quais se aliaram aos Estados Unidos e participaram da coalizão contra Saddam Hussein. E, como me disse um ex-oficial da inteligência israelense que conhecia bem a Argentina: “Nesses casos não se trata da quantidade de judeus, mas da quantidade de árabes; quando veem que há boas possibilidades, que podem formar células locais, eles o fazem. É um movimento contínuo, esses atentados são preparados o tempo todo. É como quando Israel mata algum dos seus inimigos, e aí dizem que é por causa das eleições. Na verdade há uma lista de pessoas a serem mortas, e, quando surge a oportunidade, isso é feito.”

Nisman substituiu essas hipóteses vagas por uma história que tornava o caso atual, apaixonante – que o colocava no centro das tensões internacionais daquele ano. O Irã, disse, castigou a Argentina porque esta se negara a continuar cooperando com seu programa nuclear, o mesmo que acabara de ser denunciado como perigoso perante o Conselho de Segurança da ONU.

A história era autêntica, mas talvez não o raciocínio. Nos anos 60, o então xá do Irã Reza Pahlevi criou a Organização de Energia Atômica do Irã. Planejava desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos, com o apoio dos Estados Unidos. Concomitantemente, uma das recorrentes ditaduras militares do século XX na Argentina cedeu lugar a um breve governo democrático que, em um rompante justiceiro, demitiu muitos dos funcionários herdados, incluindo na área nuclear. Assim, sete cientistas argentinos desempregados encontraram trabalho em Teerã. Todos deixariam seus postos antes da revolução xiita que, em dezembro de 1979, levou o aiatolá Ruhollah Khomeini ao poder.

Em 1987, com as águas já mais calmas, o novo regime iraniano contratou a empresa argentina Invap, por 5,5 milhões de dólares, para reformar o reator de seu Centro de Pesquisas Nucleares, que havia sido vendido pelos americanos ao xá, a fim de que pudesse funcionar com urânio enriquecido a uma porcentagem mais baixa. A Argentina também forneceria combustível nuclear (que compraria do ainda existente bloco soviético) e treinaria técnicos locais.

O acordo contava com o beneplácito do governo argentino do presidente Raúl Alfonsín, que consultara os Estados Unidos e não encontrara objeções, desde que o governo iraniano se comprometesse a não utilizar a tecnologia com fins militares. Em abril de 1989, os argentinos concluíram a reforma do reator. Posteriormente, e cumprindo o contrato firmado, efetuaram as remessas de combustível nuclear, a última das quais ocorreu em outubro de 1993, um ano depois do ataque contra a embaixada israelense em Buenos Aires.

Em compensação, dois outros contratos – para construir no Irã uma usina-piloto de conversão e purificação de óxido de urânio e outra para a fabricação de combustível nuclear com urânio natural – nunca foram cumpridos. Em novembro de 1991, a situação tinha mudado, na Argentina e no mundo. O governo de George Bush (pai) pediu a Carlos Menem, eleito dois anos antes, que interrompesse a colaboração nuclear com o Irã. A Argentina obedeceu, os iranianos protestaram, houve negociações que se estenderam até o início de 1994. O ataque contra a Amia acabou com elas.

A teoria de Nisman era de que o regime xiita teria explodido a bomba como represália contra a quebra desses contratos. Se isso fosse verdade, o tiro teria saído pela culatra: a Argentina nunca mais voltou a colaborar com o programa nuclear iraniano. Especialistas no tema apontaram que outros países negaram tecnologia nuclear ao Irã e não sofreram ataque algum.

O Irã, por seu turno, nunca perdeu o interesse em manter relações comerciais – e algo mais – com a Argentina. Não parecia ter grandes chances, até que em 2008 suas compras da Argentina saltaram, em um ano, de 300 milhões de dólares a mais de 1 bilhão. Era o primeiro governo de Cristina Kirchner, e por isso muitos artigos da imprensa estrangeira difundiram a ideia de que ela, diferentemente do marido, promovia uma abertura ao Irã. Na verdade, a Argentina só seguia uma tendência regional, liderada por Venezuela, Brasil e Bolívia. O Irã queria commodities e pagava por elas.

Mas havia algo mais. Em um memorando de janeiro de 2009 dirigido a 24 embaixadas americanas na América Latina e no Caribe, a então secretária de Estado Hillary Clinton advertia, como se soube pelos vazamentos do WikiLeaks: “Analistas de Washington avaliam que Teerã está estendendo a mão aos países latino-americanos para reduzir seu isolamento diplomático e reforçar os laços com governos esquerdistas da região, que, na percepção de Teerã, podem compartilhar sua agenda antiamericana. O presidente Mahmoud Ahmadinejad parece ser o promotor dessa política.”

Em maio, um relatório sobre a “penetração iraniana” na América Latina preparado pela Chancelaria israelense foi vazado por um site de Israel. Em julho, o chanceler Avigdor Lieberman realizou uma viagem de dez dias pela América Latina, quatro dos quais passou na Argentina, onde afirmou: “O Irã é o maior financiador de organizações terroristas como o Hamas, a Jihad Islâmica e o Hezbollah.” Em novembro, seria a vez de o presidente Shimon Peres visitar a Argentina. Quatro meses depois, Hillary Clinton alterou o roteiro de sua viagem pela América Latina para se encontrar com Cristina Kirchner.

Essa sensação de urgência parecia responder a um temor que, em novembro de 2009, a declaração do representante iraniano na Agência Internacional de Energia Atômica, a IAEA, viria a confirmar: “Temos interesse em comprar [combustível nuclear] de qualquer país que possa fornecê-lo, inclusive da Argentina.”

Tanto o Irã como seus inimigos acreditavam que isso era possível. Kaveh L. Afrasiabi, um acadêmico iraniano-americano que assessorara a equipe negociadora do Irã para assuntos nucleares, escreveu no jornal Asia Times: “Uma razão que poderia levar a Argentina a responder afirmativamente é a solidariedade que o Irã vem recebendo de várias nações e governos latino-americanos, como Venezuela, Brasil e Bolívia. Esses países poderiam servir como intermediários […] Em outras palavras, pode ser o momento de o presidente Mahmoud Ahmadinejad colher a ‘abertura estratégica para a América Latina’.” Afrasiabi concluía com a advertência: “Mas há um porém: Israel. Temendo a conexão nuclear Irã–Argentina, Israel certamente exercerá toda a pressão possível sobre Buenos Aires para que não aceite os pedidos iranianos.”

Na realidade, o governo argentino não vinha fazendo outra coisa senão denunciar o Irã e pedir à Interpol que mantivesse o “alerta vermelho” para a prisão dos iranianos implicados no caso Amia. Em 2006, a Argentina votou a favor da resolução do Conselho de Segurança da ONU que exigia que o Irã suspendesse seu programa nuclear. Néstor Kirchner se negou a receber Ahmadinejad durante a viagem pela América Latina que este realizou em 2007. Chegou até a cancelar seu plano de assistir à posse do presidente do Equador, Rafael Correa, para não encontrar Ahmadinejad, que anunciou que iria.

Em setembro de 2008, o mesmo ano em que George Bush (filho), então presidente dos Estados Unidos, não descartou destruir as instalações nucleares iranianas com uma bomba atômica, a Argentina exigiu que o Irã extraditasse cinco ex-funcionários para ser interrogados pelo juiz do caso Amia. Em 2009, o ano crítico em que Israel e Estados Unidos clamavam contra a presença iraniana na América Latina, Cristina Kirchner denunciou o Irã perante a Assembleia Geral da ONU. Em agosto de 2009, o governo argentino também protestou contra a nomeação de Ahmad Vahidi, um dos suspeitos, como ministro da Defesa iraniano.

Os temores, porém, não cediam. Em 26 de março de 2011, José “Pepe” Eliaschev, um jornalista argentino com contatos tanto nos Estados Unidos como em Israel e declarado opositor dos Kirchner, denunciou no também opositor jornal Perfil que o governo estava negociando secretamente com o Irã a suspensão das acusações. Apoiava-se em um suposto documento interno da Chancelaria iraniana que informava os resultados de conversas com o chanceler argentino Héctor Timerman na Síria.

Timerman de fato viajara a Aleppo, em 23 e 24 de janeiro de 2011, para se reunir com o presidente Bashar al-Assad e o chanceler sírio. Lá, segundo a denúncia de Eliaschev, se encontrou com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi. Este, em relatório posterior que o jornalista afirmava ter lido, indicava que “a Argentina já não tem interesse em esclarecer aqueles dois atentados; em troca, prefere melhorar suas relações econômicas com o Irã”.

O chanceler argentino negou a existência do acordo. Quando editores do jornal Perfil lhe mostraram o artigo, antes de publicá-lo, Nisman opinou, segundo o jornal revelaria mais tarde: “O fato e a notícia me parecem absolutamente descabelados, absurdos e, além disso, impossíveis de serem cumpridos. Fazia tempo que eu não lia uma coisa tão disparatada. Tudo surge de uma mensagem da Chancelaria iraniana, e eu tenho lido e conheço suas respostas no processo, tanto que, por sua postura, não merecem crédito em nada do que fazem e muito menos do que dizem. É tudo muito pouco sério. […] O documento pode até existir, porque eles pensam que tudo faz parte de uma negociação política, já me insinuaram isso várias vezes, inclusive com outros governos argentinos: bastaria uma ordem do presidente do Irã e outra do nosso.”

Nisman intimou Eliaschev a prestar depoimento três vezes, até que este, por fim, compareceu e admitiu que não tinha visto o suposto relatório iraniano, mas apenas uma cópia em inglês.

Adenúncia caiu no esquecimento até que, de repente, em 27 de janeiro de 2013, a presidente Cristina Kirchner anunciou pelo Twitter que seu governo havia acertado com o Irã um memorando de entendimento para avançar nas investigações do ataque à Amia. Em essência, o acordo consistia na declarada vontade de ambas as partes de formar uma comissão de respeitados juristas internacionais à qual encaminhariam toda a informação de que dispunham sobre o caso; depois a comissão emitiria uma série de recomendações que os dois lados levariam em conta em suas ações futuras. Em seu artigo-chave, o memorando estabelecia que a comissão acompanharia as autoridades judiciais argentinas (neste caso, o juiz Canicoba Corral e o promotor Nisman) a Teerã para interrogar os acusados iranianos do caso Amia.

O que o governo argentino queria era que os suspeitos fossem interrogados pelo juiz e, cumprida essa etapa processual (na qual, presumivelmente, os imputados negariam tudo), o juiz poderia, por fim, acusá-los formalmente; depois disso, o caso passaria a um juízo oral e público, a ser realizado em data incerta (na Argentina não é possível o julgamento in absentia).

Na iminência do vigésimo aniversário do atentado, algum avanço poderia, enfim, ser apresentado: a Justiça teria acusado o Irã e provado que seu governo havia ordenado o ataque, e os responsáveis seriam formalmente processados. Mas o memorando disparou os alarmes do sistema de poder internacional e provocou uma virulenta reação das principais organizações judaicas argentinas (embora familiares das vítimas do ataque o apoiassem), da oposição política (cujo método essencial de trabalho é opor-se a tudo o que o governo diga ou faça), de Israel e dos Estados Unidos.

O acordo não diferia muito, porém, de uma proposta mencionada anteriormente em conversas reservadas com os americanos. Um telegrama confidencial da embaixada americana em Buenos Aires, de 20 de março de 2008, vazado pelo WikiLeaks, revelou que funcionários da Chancelaria argentina tinham consultado o diretor-assistente do FBI, Tom Fuentes, então de visita em Buenos Aires, sobre essa alternativa. Os argentinos mostraram a Fuentes “uma mensagem confidencial do encarregado de negócios iraniano em que este propunha um memorando de entendimento para resolver o caso mediante o estabelecimento de um grupo de trabalho multijudicial (e bilateral), mas não oferecia cooperação alguma para submeter os acusados a julgamento”.

Fuentes não rejeitou a ideia, mas observou que o FBI acreditava que “um possível caminho para o governo do Irã seria sugerir que o caso fosse julgado em um país neutro, como havia sido feito com os acusados do atentado contra o voo Pan Am 103 [que explodiu sobre a Escócia em 1988]”. Segundo o telegrama, os funcionários argentinos reagiram favoravelmente à ideia.

O memorando foi aprovado pelo Congresso argentino, onde o governo contava com maioria, mas acabou declarado inconstitucional por um tribunal. O Parlamento iraniano nunca o ratificou. O Irã perdeu o interesse quando entendeu que a Argentina manteria ativos os alertas vermelhos da Interpol, e que seu ministro da Defesa também seria interrogado.

Nisman, que anteriormente havia sido um aliado do governo, também se opôs ao memorando. Para que ficasse claro de que lado estava, apresentou, no final de maio de 2013, um informe em que denunciava a infiltração iraniana na América Latina e acusava o Irã de ter estabelecido “estações de inteligência” no “Brasil, Paraguai, Uruguai, Chile, Colômbia, Guiana, Trinidad e Tobago e Suriname”. O atentado contra a Amia, para o promotor, seria parte desse processo. O texto coincidia em grande parte com uma resolução do Congresso americano, de dezembro de 2012, que pedia informações ao Departamento de Estado sobre essa “infiltração”.

Nisman tinha encontrado outros aliados, mais poderosos. Seu interlocutor no governo, o chefe de gabinete Alberto Fernández, havia sido demitido depois da chamada “crise do campo” de 2008, quando Cristina Kirchner enfrentou uma aliança entre produtores rurais e classes médias urbanas contra o aumento do imposto sobre a exportação de soja. O conflito dividiu o país e o mergulhou em uma polarização ainda vigente, reeditando a antiga cisão peronismo/antiperonismo dos anos 40 e 50, que se julgava esquecida.

Na época, Nisman já mantinha a embaixada americana em Buenos Aires informada sobre cada um de seus passos e pedia pontualmente sua aprovação. O jornalista Santiago O’Donnell, divulgador das mensagens vazadas pelo WikiLeaks sobre a Argentina, escreveu em seu livro Argenleaks: “Descobri que as mensagens diziam que Nisman recebia ordens diretas da embaixada americana para não investigar a pista síria e a conexão local, e para dar como certa a culpa dos iranianos, embora nenhum julgamento tivesse sido realizado. Que Nisman comunicava à embaixada, com vários dias de antecedência, seus pareceres e as decisões do juiz Canicoba Corral. Que uma vez Nisman levou à embaixada um despacho de duas páginas e que a embaixada mandou que o corrigisse; Nisman voltou alguns dias depois com um despacho de nove páginas que, este sim, foi aprovado pela embaixada e só então anexado ao processo. E que, em outra ocasião, Nisman pediu desculpas tantas vezes por não ter avisado que pediria a prisão de Menem que os diplomatas tiveram que escrever três mensagens diferentes para dar conta de suas sucessivas explicações e de suas promessas de que isso não voltaria a acontecer.”

Em maio de 2008, quando o promotor acusou Menem de acobertamento de provas no caso Amia, a embaixada, que não endossava a ideia, temia, como revelava em suas mensagens, que “Nisman pudesse ainda estar procurando o favor da Casa Rosada com vistas a uma possível nomeação judicial no futuro […]. No passado, Nisman nos disse em privado, e ex-colegas o confirmaram, que aspira a um juizado federal”.

Quando finalmente escolheu alinhar-se aos Estados Unidos e não ao governo, Nisman tomou uma decisão que parecia acertada para suas ambições de longo prazo, mas que apresentava imediatos e insuperáveis problemas táticos: o governo argentino não perdoa seus adversários – muito menos os que considera traidores da sua causa. Longe de se aproximar do seu ambicionado cargo de juiz, parecia que a carreira de Nisman poderia ter um fim súbito.

Em dezembro de 2014, Cristina Kirchner se preparava para entrar em seu último ano no poder, sem possibilidade de extensão: não podia se candidatar a uma segunda reeleição e não tinha um sucessor confiável. Assim como ocorreu com Menem em seu segundo mandato, o único candidato governista com chances de vitória é seu inimigo íntimo Daniel Scioli, o governador da província de Buenos Aires, um aliado que se transformará em adversário se conseguir chegar ao cargo – o que não é certo.

Nesse contexto, a Justiça Federal (que cuida das denúncias contra funcionários) e a Side – que agora se chamava Secretaria de Inteligência, SI – se tornaram um problema para o governo, como ocorre em toda transição. São duas áreas ocupadas por experimentados operadores que atuam com um agudo senso de oportunidade: iniciam investigações de alta repercussão sobre corrupção justamente quando um governo está para sair e outro se prepara para entrar – quer dizer, quando seus cargos estão em risco. O governo dos Kirchner explorou esse sistema no passado, mas não queria ser vítima dele. Por seu turno, o governo iniciara uma reforma do Código do Processo Penal que incluía a substituição de muitos dos promotores federais.

No caso da SI, instrumento político do governo de turno, seus agentes transformaram em método a acumulação de dados comprometedores sobre seus chefes passados, presentes e futuros, a fim de garantir certa estabilidade em seus cargos e a impunidade para seus diversos negócios privados. Se algo tem caracterizado o kirchnerismo, porém, é responder às intimidações dobrando a aposta no confronto.

E assim, em dezembro último, a presidente demitiu alguns dos funcionários históricos da SI e se preparou para fazer a mesma coisa no Judiciário. Entre os demitidos se encontrava o agente Antonio Stiuso, que havia sobrevivido durante décadas e prosperado até se tornar diretor de área. Segundo ex-chefes e colegas, sua especialidade – que lhe valeu o apelido de “o engenheiro” – consistia na espionagem eletrônica de tudo e de todos. Por suas competências e estabilidade, era o contato privilegiado dos serviços de inteligência estrangeiros, especialmente da CIA.

E era, também, o último aliado de Nisman no Executivo. O promotor contara com ele durante a década em que os dois trabalharam juntos sobre as ruínas da Amia, e agora o perdia. Parecia claro que os dias de Nisman em seu cargo estavam contados.

Conforme havia combinado com sua ex-mulher, a juíza Sandra Arroyo, Nisman viajou para a Europa no início de janeiro último, para comemorar o 15º aniversário de uma de suas duas filhas. Disse à família que ficaria até o dia 23. Mas, segundo a investigação judicial posterior, ele comprou em 31 de dezembro uma passagem de volta para o dia 12 de janeiro, sem avisar a ex-mulher – que também estava na Europa com a outra filha e pretendia encontrar o ex-marido no dia 19. Quando Nisman anunciou que já ia voltar para a Argentina, Sandra Arroyo o fustigou pelo WhatsApp: “Está claro que minhas prioridades não contam. Para você, o mais importante é a luta pelo poder e aparecer nos jornais, nas revistas e na TV.”

Em Buenos Aires, Nisman enviou aos amigos sua própria mensagem por WhatsApp, para se justificar: “Tive que suspender intempestivamente minha viagem de 15 anos à Europa com minha filha e voltar. Vocês podem imaginar o que isso significa. Mas na vida às vezes não escolhemos os momentos. As coisas simplesmente acontecem. E isso tem uma razão. O que vou fazer agora ia acontecer de qualquer maneira. Já estava decidido. Faz tempo que venho me preparando para isso, mas não imaginava que fosse acontecer tão depressa. Seria longo explicar agora. Como vocês já sabem, as coisas acontecem, e ponto. Assim é a vida. O resto é alegórico. Alguns de vocês já sabem do que estou falando, outros vão imaginar alguma coisa e outros não terão nem ideia… Até logo mais. Estou arriscando muito nisso. Tudo, eu diria. Mas sempre tomei decisões. E hoje não vai ser exceção. E faço isso com convicção. Sei que não vai ser fácil, muito pelo contrário. Mas cedo ou tarde a verdade vence. E tenho muita confiança. Farei tudo o que estiver ao meu alcance, e mais até, não importa quem eu tenha que enfrentar. Obrigado a todos. A justiça será feita. Ah! Por via das dúvidas, esclareço que não enlouqueci nem nada parecido. Apesar de tudo, estou melhor do que nunca. Hahahá :).”

O Judiciário estava em recesso. Nisman apresentou, no único juizado federal de plantão, uma denúncia contra o governo que, na essência, era uma versão ampliada em centenas de páginas da acusação feita pelo jornalista Eliaschev em 2011; de fato, citava-a como um de seus fundamentos. Depois esclareceria ao jornal Perfil, o mesmo para o qual dissera em 2011 que a denúncia de Eliaschev não procedia: “Hoje, obviamente, me arrependo. Às vezes a gente se engana.”

A tese de Nisman era de que o governo havia combinado com o Irã, em segredo, forjar uma versão alternativa do caso Amia, acusando algum grupo de fascistas locais, em troca de vantagens econômicas. O Irã entregaria petróleo, em um momento em que a Argentina tinha grandes necessidades energéticas; em contrapartida, ganharia a impunidade de seus funcionários e receberia grãos argentinos.

Como prova, Nisman oferecia uma série de conversas telefônicas entre um suposto agente pró-Irã, Jorge Alejandro “Yussuf” Khalil; dois personagens periféricos do governismo – Luis D’Elía, ex-líder de um grupo de desempregados, e Fernando Esteche, líder do grupo de choque Quebracho –, que diziam obedecer “à chefe”; e um suposto agente da SI, Ramón Allan Héctor Bogado (depois se desmentiu que fosse ou tivesse sido agente). E afirmava que o chanceler Timerman tinha tentado suspender os alertas vermelhos da Interpol contra os- suspeitos iranianos.

Desde a sua apresentação, a denúncia foi desqualificada várias vezes. Dois juízes a rejeitaram porque carecia de provas. Os líderes das organizações judaicas não quiseram respaldar Nisman (depois mudariam de posição) e lhe fizeram o mesmo pedido: ver as provas. Três importantes juristas argentinos (embora próximos ao governo), entre eles o ex-juiz da Corte Suprema de Justiça Raúl Zaffaroni, opinaram que os fatos expostos na denúncia não implicavam crime algum: um acordo entre Estados não é passível de julgamento, e o suposto acobertamento do crime nunca ocorreu. O mesmo parecer foi dado, do exterior, pelo ex-procurador do Tribunal Penal Internacional, o argentino Luis Moreno Ocampo, que disse tratar-se de uma denúncia com a qual talvez se pudesse começar uma investigação, mas nada além disso.

Porta-vozes do governo e próximos a ele desautorizaram D’Elía e Esteche. O ministro da Economia, Axel Kicillof, explicou que o acordo descrito por Nisman “no plano econômico é uma estupidez”: a Argentina não tem capacidade para refinar o petróleo iraniano, muito pesado, e por isso não está interessada nele; e o governo não tem o poder de decidir se serão enviados grãos ao Irã, já que toda sua exportação está nas mãos de empresas privadas.

O ex-secretário-geral da Interpol, o americano Ronald Noble, desmentiu que Timerman alguma vez tivesse tentado cancelar os alertas vermelhos contra os iranianos: pelo contrário, disse, Timerman tinha insistido em que fossem mantidos, o que era motivo de queixa do suposto agente iraniano Khalil em uma das conversas gravadas: “Esse judeu de merda [Timerman] aprontou alguma”, lamenta-se a D’Elía. Quanto ao plano de achar culpados “alternativos” pelo ataque à Amia, criando uma nova “conexão local”, tal como sugeria Esteche nas conversas telefônicas, nunca se realizou. De fato, essa maquinação só tivera lugar mais de uma década atrás, e fora o próprio Nisman quem defendera a tese em um julgamento público.

Apesar de tudo, Nisman se preparou para comparecer perante o Congresso argentino na segunda-feira 19 de janeiro deste ano, convidado e festejado pela oposição. No sábado, trancou-se em seu apartamento, em uma torre luxuosa de Puerto Madero, em Buenos Aires. Ali recebeu sua secretária, que lhe levou documentos, e falou ao telefone com várias pessoas, entre elas o ex-agente Stiuso. Um membro de sua promotoria diria depois que ele estava esperando umas gravações telefônicas que envolviam diretamente a presidente, mas que nunca apareceram.

Um de seus guarda-costas relataria depois que Nisman lhe pedira que o ajudasse a conseguir uma arma. Segundo seu testemunho, o segurança não o fez. Na tarde de sábado, Nisman falou com um colaborador peculiar de sua promotoria, Diego Lagomarsino, responsável pela manutenção dos computadores, que recebia para isso a quantia de 3 400 dólares mensais – valor sem igual em serviços semelhantes –, e lhe pediu que fosse vê-lo. Assim que Lagomarsino chegou ao apartamento de Nisman, este lhe pediu emprestada sua pistola Bersa calibre .22. Ou pelo menos foi isso que Lagomarsino contaria mais tarde; segundo sua versão, Nisman lhe disse que queria a arma para levá-la no carro, por temer que alguma coisa acontecesse com suas filhas.

Lagomarsino voltou para casa, do outro lado da cidade. Atrasou-se porque havia visitas, e Nisman lhe telefonou para insistir que levasse a arma. Lagomarsino atravessou de novo a cidade para atender o pedido. Ao não encontrar os seguranças em seu posto, perguntou por eles a Nisman, e este lhe explicou que os enviara a outro lugar para fazer um trâmite. Como depois se saberia, Nisman impusera a seus dez guarda-costas um regime particular: não podiam se reportar a seus chefes da polícia, mas exclusivamente a ele; tampouco podiam lhe telefonar ou entrar em sua casa. Tinha viajado sem escolta e deixado sua filha sozinha no aeroporto de Madri, à espera da mãe, durante horas. Para alguém que temia um ataque do Estado iraniano, comportava-se de forma muito despreocupada.

Diego Lagomarsino deixou sua arma com ele. Na manhã seguinte, os seguranças se preocuparam porque Nisman não aparecia. Às onze da manhã, subiram até a porta de serviço do apartamento e descobriram que os jornais ainda estavam do lado de fora. Pediram a uma das secretárias que telefonasse para ele. Como ninguém respondia, a secretária recorreu a outra, que tampouco obteve resposta.

Foi a vez de os seguranças atravessarem a cidade para procurar a mãe de Nisman, que possuía outro jogo de chaves. A mãe voltou com eles e subiram pelo elevador de serviço. Ela abriu com sua chave a fechadura superior, mas não pôde abrir a inferior porque havia uma chave colocada por dentro. Decidiram subir pelo elevador social, para o qual precisavam de um código. Atravessaram de novo a cidade para procurar o código na casa da mãe de Nisman, e voltaram outra vez ao apartamento. Utilizaram o código, mas não funcionou. Recorreram então, mais simplesmente, aos empregados do edifício, que acionaram o elevador, mas ao chegar ao andar de Nisman a porta principal não se abriu: estava travada por dentro. No fim, depois de mais algumas idas e vindas, recorreram novamente aos zeladores, que chamaram um chaveiro. Era mais de meia-noite quando o chaveiro abriu facilmente a porta de serviço.

O apartamento estava às escuras, arrumado e limpo. Por baixo da porta do banheiro escorria sangue. Tiveram que empurrar com força para entrar: o corpo sem vida de Nisman, com a pistola de Lagomarsino na mão, travava a porta.

Ainvestigação formal sobre a morte de Nisman, iniciada em meio a um furor social, inclinou-se desde o início para a teoria de um suicídio. Não havia indícios de que ninguém mais tivesse estado ali, nem de resistência ou luta alguma do promotor com um possível agressor. O tiro fora disparado à queima-roupa, poucos centímetros acima da orelha, de uma pistola que ele mesmo pedira horas antes.

Mas na Argentina, certamente por efeito de traumáticas e repetidas experiências, ninguém mais acredita na palavra pública, venha ela do governo, da oposição, da Justiça ou da imprensa. Esse vazio é ocupado, como sempre, pela fantasia, e a ela nos entregamos todos. A presidente foi a primeira. De sua conta no Facebook, como uma fanática de série policial, elaborou teorias: primeiro, que foi suicídio; no segundo capítulo, inclinou-se pelo assassinato. O governo dirigiu suas suspeitas a Lagomarsino, notório opositor que já insultara a presidente pelo Twitter; depois, ao ex-agente do serviço secreto Antonio Stiuso, um vilão sob medida para as circunstâncias.

Diante da falta de evidências de um assassinato, muitos falam de um suicídio “induzido”, embora ninguém possa explicar como poderiam ter convencido Nisman a se matar. Então são fabuladas teorias com base em dados isolados ou distorcidos. O chaveiro declarou que a porta de serviço estava aberta! (Mas esquecem que havia sido aberta pela mãe de Nisman.) Havia um rascunho da denúncia em que Nisman pedia a prisão de Cristina Kirchner! (Mas esquecem que o próprio Nisman o descartou.)
A promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman, desmentiu que existisse o rascunho! O chefe de gabinete de Cristina, Jorge Capitanich, rasgou diante das câmeras os jornais que continham essa notícia! A promotora Viviana Fein se corrige e pede desculpas: sim, existe o rascunho! (O chefe de gabinete não pede desculpas.)

A imprensa internacional usa os mais atraentes argumentos da imprensa opositora local e, talvez acreditando que o musical Evita, de Andrew Lloyd Webber, seja um relato histórico, escreve sua continuação: uma mulher delirante e vaidosa herda o poder do marido e, do alto de seu poder, mata um valente promotor que tenta expor suas escusas transações com o terrorismo internacional.

Na Argentina, a verdade não importa mais. Os juízes federais que temem por sua própria sorte aproveitam a ocasião e convocam uma marcha silenciosa em homenagem a Nisman, que se transforma em uma prova de força contra o governo. Um dos principais organizadores é um ex-funcionário de Menem, que entregou um documento argentino ao traficante de armas sírio Monzer al-Kassar e que foi acusado pelos parentes das vítimas da Amia de obstruir a investigação do ataque de 1994. Um dia antes da marcha, surge do nada uma testemunha da ação da polícia no apartamento de Nisman e diz que foi um desastre, que adulteraram a cena do crime, que apagaram provas. A promotora Fein se enfurece e vocifera que quer provas. A testemunha volta atrás.

Travamos uma batalha na nossa imaginação, a dura batalha para impor um ou outro vilão: Cristina, Stiuso, Lagomarsino, a CIA, os iranianos. É mais fácil imaginar grandes conspirações do que admitir a soma das nossas pequenas misérias.

Já não importa como a investigação vai terminar: Nisman ficará condenado ao enigma, como tantos outros, pelo sistema do qual esperava tão altas recompensas. Nós continuaremos escorregando por esse buraco aberto há 21 anos. Ainda está lá, tenho certeza, bem debaixo de nossos pés.


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Gabriel Pasquini é jornalista e escritor argentino radicado em Nova York.