questões literárias
Alejandro Chacoff Dez 2015 18h25
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No dia 16 de novembro passado, três dias após os atentados terroristas em Paris, uma equipe de tevê do canal francês BFMTV foi até a porta da sala de concertos Bataclan, onde as pessoas depositavam flores, velas e objetos em memória dos mortos. Na calçada, repórteres começaram a interpelar os pedestres. Em meio à aglomeração estava Danielle Merian, uma velhinha parisiense de 77 anos. Quando um repórter lhe perguntou por que estava no local, ela disse: “É importante trazer flores para os mortos. É importante ver também mais vezes aqui o livro de Hemingway, Paris É uma Festa, porque nós somos uma civilização muito antiga, e nós manteremos nossos valores sagrados no lugar mais alto.” Não estava claro se Merian havia visto o livro entre os objetos de luto ou se apenas se lembrara da obra num momento de inspiração. “Nós confraternizaremos com os 5 milhões de muçulmanos que praticam a sua fé aqui, livre e gentilmente”, ela continuou, “e nós lutaremos contra os 10 mil bárbaros que matam, supostamente em nome de Alá.”
A entrevista durou 28 segundos. Nos dias seguintes, o vídeo espalhou-se pelas redes sociais, e Merian recebeu menções elogiosas em diversos jornais e programas televisivos franceses. Sua fala misturava um orgulho ocidental inequívoco com uma certa tolerância religiosa, e parecia assim articular um sentimento coletivo que ainda estava latente. Um sentimento entre muitos, por assim dizer, mas que se sobressaía por ser belo e palatável: despido de xenofobia ou autoflagelação, era condizente com um luto delicado, em que qualquer divagação intelectual ou abstração mais ambiciosa soaria precipitada, insensível. A fama repentina de Merian lhe rendeu o apelido de “vovozinha Danielle” (um apelido que ela agora, compreensivelmente, tenta rejeitar).
Nas semanas seguintes, Paris É uma Festa, o livro de memórias do escritor americano Ernest Hemingway, publicado pela primeira vez em 1964, voltou à lista de best-sellers na França. A reaparição foi abrupta e categórica. Folio, a editora francesa responsável pela tradução, costumava receber de dez a quinze pedidos diários pelo livro. Agora recebe por volta de 500. No fim de novembro, o livro alcançou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos no site francês da Amazon. A procura foi tão grande que não houve número suficiente de edições impressas para satisfazê-la – e o livro ficou temporariamente indisponível para compra. Em uma entrevista recente ao jornal inglês The Guardian, um funcionário da editora disse ter recebido um pedido de 8 500 cópias de apenas duas distribuidoras (Amazon e Fnac). É mais do que costumam vender num ano inteiro. Como sugerira Merian, cópias espalharam-se pela cidade, e tomaram conta das livrarias, misturando-se também às velas e às flores nos locais de luto.
“O que esse livro diz aos parisienses é algo mais ou menos assim: Paris é cheia de vida e de civilização; a América reconhece isso de uma forma profunda, civilizada e literária; e graças a essa evidência nós seguramente sobreviveremos a qualquer tipo de violência que aparecer. Isso pode soar um pouco banal, um pouco frívolo e até um pouco autocentrado, mas eu acho que é algo bonito também: é uma declaração feita por meio de um livro, como se livros e cultura falassem mais profundamente por nós do que discursos políticos.”
Assim respondeu Antonin Baudry, em uma carta aberta escrita a Lorin Stein, editor da prestigiosa revista literária nova-iorquina The Paris Review, quando este lhe questionou sobre a surpreendente ascensão de Paris É uma Festa no ranking dos livros mais vendidos. Baudry é um ex-adido cultural do governo francês – além de ter sido redator de discursos políticos do ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin – que foi recentemente nomeado editor correspondente da revista em Paris. Sua declaração elabora em um tom vagamente sentimental o consenso que se cristalizou em torno do ressurgimento de Hemingway na França. Adam Biles, um gerente da famosa livraria parisiense Shakespeare and Company, apresentou um discurso parecido numa entrevista recente à National Public Radio, uma emissora de rádio americana. Ele disse que Paris É uma Festa é um “símbolo do otimismo”, um símbolo da cultura dos cafés e da cultura artística, e em certo sentido um símbolo de “tudo que foi atacado” no dia 13 de novembro. Valérie Caffier, dona de uma livraria chamada Le Divan, reforçou o coro em entrevista a uma outra emissora, dizendo que o livro se tornou uma forma de resistência dos parisienses ao que ocorreu nos atentados.
Paris É uma Festa conta a história dos primeiros anos de Hemingway como escritor na Paris dos anos 20, quando ele ainda era pobre e iniciante ou, como ele próprio diz no livro, quando ainda era “muito pobre e muito feliz”. É de fato um livro nostálgico e celebratório, como memórias publicadas postumamente costumam ser. Entre descrições líricas do clima e da paisagem, Hemingway bebe, escreve seus primeiros contos, come e discute com amigos e conhecidos, muitos deles também artistas e escritores. F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Ford Madox Ford e Gertrude Stein são alguns dos retratados. A Paris evocada é vívida, e o gosto de Hemingway pelo uso constante de substantivos é tamanho que por vezes ele parece estar parodiando o próprio estilo. É uma tendência que se nota sobretudo quando se trata de comida: se bota algo na boca, Hemingway é sempre específico. Ele bebe vermouth e eau-de-vie, come goujon e steak tartare. Nunca toma simplesmente algo, e nunca come simplesmente alguma coisa. Não vai a um restaurante apenas, mas sim a La Pêche Miraculeuse; não vai a uma praça qualquer, mas sim à place du Vert-Galant.
Esse bombardeio de substantivos tem um efeito ambíguo. Por um lado, ele ressalta a cidade e a torna imensamente atraente para o leitor. O Louvre; os jovens Picasso e Ezra Pound; a vida andarilha às margens do Sena; o café crème e o goujon envolto em pedaços de jornal (“uma delícia quando se come frito e inteiro”): só um niilista muito convicto se negaria a admirar uma cidade assim. Por outro lado, Hemingway – um escritor notoriamente irregular, talvez o mais irregular do cânone do século XX – às vezes exagera no uso de substantivos, e assim os torna opressivos. Em Paris É uma Festa, a linguagem carregada de nomes próprios por vezes ganha ares de um dialeto pseudoturístico, um guia um pouco mais sofisticado, para literatos. Há descrições de comidas, bebidas e restaurantes que poderiam estar em uma edição deluxe do guia Lonely Planet. É uma linguagem que em alguns momentos descarta as ambivalências próprias da literatura e se aproxima perigosamente da propaganda.
Em seus contos e romances, Hemingway usava a sua famosa teoria do iceberg: a ideia de que, quando se escreve, a parte mais importante do todo está submersa. O que não se menciona na página às vezes é o mais importante – o que está escrito é só a ponta do iceberg. A velhinha Merian, Antonin Baudry e todos os livreiros de Paris estão certos em suas análises: o livro de Hemingway é celebratório, nostálgico, simbólico e otimista. Mas para entender por que o povo francês escolheu voltar a lê-lo – ou ao menos a comprá-lo vorazmente –, não basta entender o que ele tem. Talvez também seja necessário pensar no que lhe falta, no que não está lá.
Em seu romance Paris Nunca Se Acaba, uma revisão irônica das memórias de Hemingway, o escritor catalão Enrique Vila-Matas escreve que, um pouco como o americano, que foi “muito pobre e muito feliz” naquela cidade no início de sua carreira, ele também foi “muito pobre e muito infeliz” ali.
O comentário é feito com a rapidez satírica típica de Vila-Matas, mas tem implicações profundas. Em Paris É uma Festa, a pobreza é constantemente romantizada. Hemingway gaba-se a todo momento de viver bem com “apenas 5 dólares ao dia” – o maior problema durante a primavera, ele diz, é simplesmente encontrar o melhor lugar para ser feliz. Sua amiga Gertrude Stein teoriza que, para se ter belas obras de arte em casa, basta abrir mão de comprar algumas roupas caras. A certa altura Hemingway descreve como, em suas andanças pela cidade, ele escolhia caminhos em que pudesse evitar as padarias, por causa do cheiro delicioso dos pães (o cheiro era muito intenso para alguém que passava fome). O autor narra a cena não em tom sombrio, mas alegremente, tratando a fome como um fator benéfico para o delírio e a percepção artística. “Todas as pinturas se tornavam mais intensas, e mais claras e mais belas quando a pança estava vazia.”
É bem mais fácil encontrar beleza na miséria quando temos a certeza de que tudo terminará bem. O leitor sabe que no fim das contas Hemingway alcançará a fama e o dinheiro, e assim pode ler sobre a pobreza sem angústia. Mas é impossível não pensar na Paris atual enquanto se folheia o livro: a Paris das banlieues, e dos preços imobiliários que, por fim, varreram os artistas pobres das ruas. A primeira coisa fundamental que falta em Paris É uma Festa – e não poderia ser de outra forma, mais de meio século depois de ser lançado – é atualidade. Aspirantes a escritores que vivem bem com 5 dólares ao dia, vagando por cafés e restaurantes sem maiores preocupações na vida: para um filho de imigrante de classe média-baixa ou um refugiado que vive hoje na periferia de Paris, tal retrato soaria obsceno.
As melhores partes de Paris É uma Festa não são as descrições de Paris (as quais muitas vezes caem num lirismo vazio), nem as festas (que parecem todas iguais, como festas costumam ser), mas sim as histórias das vidas privadas dos personagens. O início da amizade entre Hemingway e Scott Fitzgerald, que se dá em uma viagem que os dois fazem a Lyon para buscar um carro, é particularmente bem escrito e comovente. É interessante ver Hemingway, um escritor que viria a se tornar famoso por sua arrogância viril, mostrar-se tão vulnerável diante do talento de Fitzgerald, a quem ele enxergava como um escritor “mais velho”. Outros pontos fortes são os encontros do narrador com o autor inglês Ford Madox Ford – uma cena descrita quase inteira em diálogo, uma técnica que Hemingway dominava como poucos – e as visões, sempre furtivas e nebulosas, de James Joyce andando pela cidade.
A Paris de Hemingway não é só a Paris dos anos 20 – é um microcosmo da Paris dos anos 20. As melhores partes do livro envolvem as vidas privadas de escritores e artistas porque essas partes são, enfim, o que mais interessa ao autor. Os personagens vivem em um plano desligado da realidade cotidiana do país. Preocupações econômicas só existem como propulsoras de voos líricos, como desculpas para se fazer literatura; não há sequer uma menção a um político ou governante da época. A falta de contexto social ou político chega a um plano quase onírico, como se o grupinho de artistas e escritores retratado fosse imune à força gravitacional dos acontecimentos históricos (àquela altura, o fascismo começava a gestar-se na Europa). Nenhum romance tem a obrigação de elaborar um contexto social, econômico ou político, e não há dúvida de que muitas obras-primas foram escritas sem essa preocupação. Mas num país de tradição literária riquíssima, repleto de escritores ácidos e críticos da hipocrisia burguesa – no país de Flaubert, Balzac, Maupassant, Gide, Camus –, é sugestivo que se escolha, como uma espécie de romance nacional logo após os ataques terroristas, um livro a-histórico, apolítico, datado e completamente autocentrado escrito por um expatriado americano.
Jorge Luis Borges, assim como Vila-Matas, gostava de piadinhas profundas, e costumava dizer que países sempre elegem livros e escritores nacionais que acabam por representar o oposto de certo caráter nacional. Shakespeare, com suas metáforas bombásticas, hipérboles e verborragia, é o oposto do inglês frio, educado e reticente. Cervantes, um sujeito bem-humorado e alegre, representa o oposto da Espanha da Inquisição, o país do catolicismo fanático que queima seus hereges na fogueira. E Goethe, um poeta tolerante – um homem que cumprimentou Napoleão quando este invadiu seu país, segundo Borges –, em nada evoca o orgulho militar associado à Alemanha de sua época. Não é preciso dizer que a analogia pode ser estendida ao Brasil: a ironia ácida, o fatalismo e a incessante crítica social contida em Machado de Assis representam a exata antítese da imagem que o brasileiro tem de si mesmo e busca promover pelo mundo. Borges mesmo foi um aristocrata convicto, um antiperonista ferrenho em um país de peronistas.
É como se os países procurassem antídotos. Mas se os escritores nacionais servem a tal propósito, o que dizer dos émigrés, dos escritores expatriados que se instalam em um país visitante? O escritor émigré ou está fugindo de um regime político que o persegue, ou está em busca de inspiração artística, e em ambos os casos a tendência é que ele veja seu país adotivo com alguma dose de gratidão. O expatriado, em sua visão rósea e descomplicada da sociedade que o recebe, serve para projetar uma imagem positiva: ele representa o país como este gostaria de ser. Assim temos o austríaco Stefan Zweig, que apesar de cometer suicídio em Petrópolis escreveu o livro Brasil, País do Futuro (um título sem ironia); e assim temos Vladimir Nabokov, que transformou as highways entediantes e as lojinhas de conveniência americanas em poesia. O expatriado exotiza, cria imagens afáveis. Hemingway, em suas memórias, entrega um retrato sentimental de Paris.
O escritor francês mais relevante hoje se chama Michel Houellebecq. Seus personagens são misóginos, reclusos e obcecados por sexo. Eles acordam e vão a um emprego insosso, em um prédio de arquitetura anódina; e quando voltam para casa compram uma refeição de micro-ondas na cadeia de supermercados Monoprix. Antes de dormir, masturbam-se assistindo a filmes pornográficos. O mercado domina o tecido mais íntimo de suas vidas (em seu romance mais recente, Submissão, o narrador de Houellebecq escreve que a literatura vem desde sempre acompanhada de uma conotação positiva na indústria de luxo – uma afirmação que remete ao retrato kitsch que Hemingway faz da pobreza, um retrato para rico ler). Houellebecq é um escritor reacionário, um defensor do patriarcado (críticos sem estômago insistem em separá-lo excessivamente de seus narradores); mas ele entende bem o que é contemporâneo.
O luto coletivo é um processo complicado. Faz pouco tempo que os terroristas islâmicos mataram 130 civis que se divertiam inocentemente nas ruas de Paris. Mas há no ar agora um anti-intelectualismo corrosivo e infantil – uma crença de que o único discurso possível após os ataques seja o de uma celebração da cultura ocidental, ainda que essa cultura se mostre hoje nebulosa e indefinível. Seja lá o que essa cultura for, ela não é a Paris de Hemingway. No país que produziu Roland Barthes e Michel Foucault – intelectuais que não deixavam uma mosca voar pela sala sem transformá-la em uma teoria de semiótica ou em uma parábola para o exercício do poder moderno –, a escolha de Hemingway como patrono temporário da França não é inocente. Reflete um ímpeto coletivo maior, um ímpeto simplificador, que pode ser bem resumido no que o próprio Hemingway diz a certa altura de seu livro, agora celebrado, sobre a amiga e escritora Gertrude Stein: “Ela queria sempre saber a parte alegre de como o mundo andava; nunca a parte real, nunca a parte ruim.”