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ÚLTIMO DESEJO

Os funerais festivos de Porto Rico
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Quando tinha apenas 6 anos, o porto-riquenho Ángel Luis Pantojas Medina assistiu ao velório do pai e não gostou do que viu: o corpo macilento coberto por flores, sobre um esquife estofado. Decidiu então que, quando morresse, não queria parecer um defunto. Adulto, volta e meia passava pela funerária Marín, próxima a sua casa, e avisava as proprietárias: se lhe acontecesse algo, queria ser velado em pé.

Assim como o pai, Pantojas se foi cedo, aos 24 anos. Em agosto de 2008, seu corpo foi abandonado numa ponte de Santurce, o bairro mais populoso de San Juan, capital de Porto Rico, cravado por onze tiros e vestindo apenas cueca. A imprensa acabou se interessando menos pelas razões do assassinato do que pela forma como a família decidiu se despedir do rapaz: por três dias seu corpo esteve exposto em pé, ao lado de uma parede divisória entre a sala e a cozinha da casa, num complexo habitacional popular de Hato Rey, o centro financeiro da cidade.

Se não fosse pela mesa de flores a sua frente, um desavisado poderia pensar que as fotos do velório registravam Pantoja em qualquer outro dia da vida, vestindo sua roupa favorita: jeans, camiseta por cima da camisa de manga comprida, óculos escuros e um boné do New York Yankees. “Esse era seu desejo, queria estar alegre, parado – como ele era, firme”, disse Carlos, o irmão do “Muerto Parado”, como o falecido ficou famoso.

Elsie Rodríguez é quem cuida da funerária Marín, negócio familiar que administra com a irmã, Damaris, em Hato Rey. Formada em cursos técnicos de biologia e justiça criminal, Rodríguez sempre se interessou “pela ciência e pelo corpo humano” – e disse ter encontrado sua vocação ao se matricular num curso de embalsamento. Trabalhou como funcionária em algumas funerárias antes de fundar a própria empresa, em 2002. A princípio, oferecia apenas o serviço padrão: cerimônia fúnebre com as tradicionais flores decorativas ao redor do defunto, deitado no caixão.

Tudo mudou com o Muerto Parado. Para prepará-lo, Rodríguez seguiu, num primeiro momento, o procedimento de embalsamento usual, no qual todo o sangue é substituído por formalina para frear a decomposição do corpo. Ela não revela, porém, como fez para que o finado ficasse rígido o suficiente para manter-se em pé ou sentado, mas não tão duro que depois não pudesse ser desdobrado e disposto no caixão. “Ahí es donde está el secreto.”

A notícia do velório de Pantojas correu San Juan. Em pouco tempo o procedimento passou a ser adotado por outras famílias, em outras funerárias do país. Em 2010, David Morales Colón, conhecido por “El Matatán”, foi morto a tiros, aos 22 anos. Porque trabalhava como entregador, foi velado sobre sua Honda CBR600 F4. Recebeu a alcunha post mortem de “Muerto en Motora”.

No ano seguinte, Carlos Cabrera Mercado recebeu uma surra ao intervir numa discussão de bairro. Tinha 53 anos e não resistiu aos ferimentos. Como era fã de Che Guevara, vestiram-no com as roupas militares e a boina do revolucionário cubano. Cabrera era também adepto da meditação, e por isso passou o velório sentado em posição de lótus. Ganhou notoriedade como “El Muerto Sentado”.

A funerária Marín voltou a ganhar destaque na imprensa local recentemente, depois de Elsie Rodríguez ter preparado o corpo de Jomar Aguayo Collazo. Assassinado aos 23 anos durante um tiroteio num bar, Aguayo foi velado de boné e óculos escuros. Pelas fotos, parecia jogar dominó, tranquilo. Somente nos vídeos feitos pela família nota-se “El Muerto del Dominó” inerte em meio aos parentes, que se revezavam para sentar à mesa, mover uma ou outra peça do jogo e beijar-lhe as bochechas.

A violência, traço comum na morte de muitos dos embalsamados, provocou o debate sobre a possível relação entre a vida de excessos e excentricidades da cultura narco e a voga dos funerais “a caráter”. O professor José Rodríguez-Gómez, da Universidade de Porto Rico, no entanto, vê no modismo a continuidade do tradicional sincretismo religioso local, formado pelas culturas espanhola, negra e indígena. Estudioso de ritos fúnebres, Rodríguez-Gómez lembra que, já em 1893, um dos quadros mais famosos do país, El Velorio, do pintor Francisco Oller, retratava o ritual baquiné, de origem africana – no qual a tristeza dos pais se mistura a cantos, bailes, jogos e comilança para celebrar a chegada ao céu de uma criança morta.

“O que muita gente considera estranho, incomum ou até mórbido, eu entendo como uma preparação para a partida que satisfaz o último desejo do morto”, disse o professor. Ao cumprir a vontade do falecido, a família se sentiria reconfortada. “Como é pouco comum fazer festa e vestir o morto como se estivesse vivo, mais gente vai ao funeral, o que também significa mais contato social, mais apoio para a família.”

O negócio de Elsie Rodríguez cresceu tanto nos últimos anos que o sucesso de sua funerária acabou chamando a atenção do departamento de saúde de San Juan. Decidiram investigar a empresa, mas não encontraram nenhuma irregularidade na preparação dos corpos. Em 2012, a Assembleia Legislativa de Porto Rico também se manifestou sobre o modismo, ao aprovar uma lei que regulamenta as celebrações funerárias: contanto que não sejam dispostos em posições imorais, os cadáveres podem ser embalsamados segundo a vontade das famílias.

Elsie Rodríguez tem recebido mais encomendas do que nunca. Além da garantia de fama póstuma, o procedimento que ela oferece possui outro atrativo: o preço, a partir de 1 300 dólares. É que ser velado em pé e fantasiado não chega a encarecer o serviço – custoso mesmo é o ataúde usado para o enterro ou a cremação.

Acostumada a cumprir as últimas vontades de quem a contrata, a empresária já deixou instruções para a sua própria farewell party. Rodríguez quer que a vistam de preto, sua cor favorita, quando passar desta para uma melhor. Tem ainda duas preocupações: não gostaria de ser vista pelos amigos em um caixão chinfrim – e o que reservou para si é todo dourado. Além disso, apesar de aceitar o destino de sair de cena deitada, como a maioria das pessoas, já avisou a irmã: a cada meia hora de seu velório, seus sapatos devem ser trocados, até que tenha calçado todos os 300 pares que guarda no armário.

El Velorio, pintura de Francisco Oller


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É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016