questões médico-existenciais
Karl Ove Knausgård Fev 2016 18h56
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Cheguei a Tirana, na Albânia, num princípio de noite do final de agosto, em um voo proveniente de Istambul. O sol havia se posto a meio caminho e, enquanto aterrissávamos no escuro, imagens da luz evanescente ainda ocupavam meus pensamentos. O homem a meu lado, um jovem americano ruivo que usava um chapéu de palha, perguntou se eu sabia como ir do aeroporto ao Centro da cidade. Fiz que não com a cabeça, enfiei na mochila o livro que estava lendo, levantei-me, tirei minha mala do compartimento de bagagem e, de pé no corredor, aguardei que a porta na parte dianteira do avião se abrisse.
O livro havia sido a razão daquela minha viagem. Chamava-se Do No Harm (Não Faça Mal ou Não Provoque Danos), e havia sido escrito pelo neurocirurgião britânico Henry Marsh. O trabalho de Marsh consiste em cavar buracos no cérebro, a estrutura mais complexa que conhecemos no universo, aquela que contém tudo que nos faz humanos, e o contraste entre a sofisticação extrema daquela estrutura e o que há de mais primitivo – todo aquele trabalho com facas, brocas e serras – me fascinava profundamente. Eu tinha enviado um e-mail a Marsh, perguntando se podia encontrá-lo e vê-lo operar em Londres. Cordial, ele me respondera que, hoje em dia, raras vezes opera lá, mas que com certeza poderíamos combinar alguma coisa. De passagem, mencionou que tinha cirurgias agendadas na Albânia, em agosto, e no Nepal, em setembro. Hesitante, perguntei se podia me juntar a ele na Albânia.
Bem, lá estava eu.
Tenso e preocupado, deixei o avião sem nenhuma ideia do que me aguardava. Sabia tão pouco sobre a Albânia quanto sobre neurocirurgia. Senti o ar quente, estagnado, a densa escuridão. Um ônibus aguardava com o motor ligado. A maioria dos passageiros estava em silêncio, e os poucos que conversavam falavam uma língua que eu não conhecia. Ocorreu-me que, 25 anos antes, quando a Albânia estava entre os últimos países ainda comunistas da Europa, não teriam me deixado entrar ali; à época, ela estava fechada para o mundo exterior, quase tanto quanto a Coreia do Norte hoje. Agora, a funcionária da imigração mal se deu ao trabalho de olhar meu passaporte antes de carimbá-lo. Devolveu-me o documento com enfado, e eu entrei na Albânia.
No saguão das chegadas, um jovem vestindo uma camisa de um branco brilhante veio até mim.
“Bem-vindo à Albânia, senhor Knausgård. Meu nome é Geldon Fejzo. O senhor Marsh e o professor Petrela estão a sua espera no hotel. O carro está logo aí fora.”
Era uma Mercedes preta com bancos de couro e ar-condicionado. Fiquei sabendo que Fejzo havia acabado de concluir sua especialização como neurocirurgião. Tinha 31 anos de idade e havia estudado em Florença. Além disso, trabalhara alguns meses num hospital de Londres com o “senhor” Marsh, como o chamava, e como há muito tempo preferem ser chamados os cirurgiões britânicos.
“Como ele é?”, perguntei.
“O senhor Marsh?”
Assenti.
“É uma pessoa fantástica”, Fejzo respondeu.
Marsh estava em Tirana para demonstrar um procedimento cirúrgico – a craniotomia em paciente acordado – de que ele próprio era um dos pioneiros e que jamais havia sido realizado na Albânia. Trata-se de uma técnica utilizada para remover um tipo de tumor cujo aspecto se assemelha ao do próprio cérebro. Esses tumores são mais comuns em pessoas jovens, e não têm cura. Sem cirurgia, 50% dos pacientes morrem num prazo de até cinco anos; 80%, em dez anos. A operação prolonga a vida deles em algo em torno de dez a vinte anos, às vezes mais. A fim de que o cirurgião possa distinguir o tumor do tecido cerebral saudável, o paciente é mantido acordado durante toda a operação, ao longo da qual o cérebro é estimulado por intermédio de uma sonda elétrica, para que o cirurgião possa ver se e como o paciente reage. A equipe na Albânia vinha se preparando havia seis meses para realizar o procedimento, e tinha selecionado dois casos que eram particularmente apropriados à demonstração daquela técnica.
Recostei-me no banco e observei a escuridão lá fora, absoluta, como se estivéssemos no campo, e que aos poucos passou a ser interrompida pelas luzes das casas, das lojas e dos cruzamentos. Como sempre acontece quando eu chego de carro a uma cidade grande, lembrei-me de um poema do poeta sueco Tomas Tranströmer. Era uma associação que havia se tornado quase compulsiva. Os funerais vão vindo/cada vez mais e mais deles/como as sinalizações de trânsito/quando nos aproximamos de uma cidade, escreveu ele perto do fim da vida. E então pensei numa passagem do livro de Marsh, uma citação do médico francês René Leriche que começa assim: “Todo cirurgião carrega consigo um pequeno cemitério.”
Paramos num sinal vermelho. Uma grande praça se estendia a nossa frente.
“Esse é o Museu Nacional”, disse Fejzo, apontando para um edifício imponente à esquerda. “Foram os chineses que construíram, durante o período comunista. E ali, do outro lado, está a Ópera. Construída pelos soviéticos.”
Inclinei a cabeça próximo à janela do carro e olhei para cima, para um mosaico gigante de pessoas em poses heroicas. Um arrepio percorreu-me a espinha. Se há uma coisa pela qual tenho um fraco é a época comunista, sobretudo a cultura misteriosa por trás da Cortina de Ferro, com seu heroísmo operário, sua celebração do trabalho, sua arquitetura monumental, seus filmes de Tarkóvski, seus cosmonautas e times sobrenaturais de hóquei no gelo. Não sei por que me atrai, já que, na verdade, sou contra tudo o que ela representa: a veneração do coletivo, a industrialização do cotidiano, a estética monumental. Acredito na tolice humana e na provisoriedade das coisas. Mas algo na aura dessa era soviética me atrai, às vezes com uma força quase selvagem.
O carro deu uma guinada para o lado e parou perto do hotel. Algumas pessoas estavam sentadas em torno de uma mesa, do lado de fora. Todas se levantaram quando passamos por elas. Reconheci Henry Marsh das fotos e de um documentário que eu tinha visto.
“Ah, chegou o famoso escritor!”, ele disse.
Era mais baixo do que eu esperava e tinha um físico que de pronto avaliei como forte e resistente; seus movimentos tinham um quê de velhice, enquanto os olhos, cuja porção superior as pálpebras encobriam, pareciam a um só tempo cheios de energia e pesar.
Seu aperto de mão era firme, e olhei de soslaio para as mãos dele, que eram vigorosas, com dedos largos, como as de um artesão.
Fejzo apresentou-me aos demais: Paolo Pellegrin, o fotógrafo que iria registrar a cirurgia, alto, de óculos, cabelos encaracolados, parecia estar beirando os 50; seu jovem assistente, Alessio Cupelli, um homem muito bonito, os longos cabelos negros encobertos por um lenço; e Mentor Petrela, que chefiava o Departamento de Neurocirurgia no hospital em Tirana. Com pouco mais de 60 anos, Petrela se vestia de maneira elegante, estava sorridente e tinha olhos calorosos.
“Reservamos uma mesa num restaurante aqui perto”, ele disse. “Você vem conosco?”
No restaurante, acomodamo-nos num terraço estreito ao ar livre, bem no momento em que soava a convocação para as orações muçulmanas. Fejzo estava falando com o garçom, Marsh e Pellegrin retomavam sua conversa anterior, eu ouvia a estranha voz do muezim, que se elevava e desaparecia na escuridão. Não entendia as palavras, mas seu som enchia o ar de tristeza e humildade. O homem é pequeno, a vida é grande – era o que eu ouvia no ecoar daquela voz.
Pellegrin tirou os óculos e esfregou os olhos. Ao pôr os óculos de novo, olhou para mim.
“Estamos falando sobre uma enfermidade que tenho nos olhos”, explicou. “Minha visão está piorando pouco a pouco.”
“Ele se pergunta se é isso que o move”, acrescentou Marsh. “O fato de saber que seus dias como fotógrafo estão contados.”
“Você é fotógrafo de guerra, não é?”, perguntei.
“Sim, também”, Pellegrin respondeu.
Voltei-me para Marsh. “E você, vê aí alguma semelhança entre a guerra e o que faz? Afinal, a neurocirurgia também é uma questão de vida ou morte, não é?”
“Não, de jeito nenhum”, ele respondeu. “Como neurocirurgião, você não está, pessoalmente, arriscando coisa nenhuma. Sou um covarde. Cheio de ansiedade, sabe como é.”
Os garçons, todos jovens e de cabelos cortados rente à cabeça, trouxeram a entrada, e logo a mesa toda branca, colorida até então apenas pelo verde-claro das garrafas transparentes de azeite de oliva, encheu-se do vermelho-escuro dos tomates, do verde da alface, do preto-azulado do polvo fatiado, que também deixava à mostra sua carne, de um branco ofuscante, do rosa dos camarões, das fatias de presunto de um marrom-avermelhado, e de pedaços bege de um pão de casca escura, quase preta.
Durante o jantar, foi Marsh quem manteve viva a conversa. Explicava o procedimento da craniotomia em paciente acordado, dizendo que, para um neurocirurgião, remover o tumor inteiro é uma tentação constante, mas que, se ele tenta ir longe demais, se remove mais do que deveria, as consequências podem ser graves. A remoção excessiva pode levar à paralisia parcial ou plena de um dos lados do corpo, a outros danos funcionais ou à alteração da personalidade. Se o paciente permanece acordado, isso permite ao cirurgião determinar, em primeiro lugar, onde fica essa linha divisória; em segundo, observar direta e imediatamente as consequências do procedimento e, portanto, parar antes de infligir qualquer dano sério.
Marsh é articulado, bem-informado e interessante. Falava sobre a situação política no Zimbábue ou sobre os livros do escritor alemão W. G. Sebald, que adorava, com a mesma facilidade com que discorria sobre as várias partes do cérebro. Ao mesmo tempo, eu tinha a sensação de que, dentro dele, se passava alguma coisa que nada tinha a ver com o assunto que estava sendo discutido. Quando alguém dizia algo, ele podia responder com um “Exatamente” e se aprofundar no tema, mas podia também ficar calado, como se tivesse partido deste mundo para dentro de si próprio. E não era lá que ele queria estar, ocorreu-me enquanto conversávamos à mesa, sob a luz forte das lâmpadas no teto, o cintilar dos copos e o brilho da toalha branca, intensificados pela escuridão densa e impenetrável para além do verde das plantas que cresciam na parede do terraço.
Antes de decidir se tornar cirurgião, Marsh havia estudado filosofia, política e economia em Oxford, onde se interessou pela União Soviética. Terminada a Guerra Fria, começou a trabalhar de graça na divisão de neurocirurgia de um hospital de Kiev, onde as condições eram primitivas e terríveis. The English Surgeon, o documentário de 2007 sobre seu trabalho ali, mostra algumas cirurgias inacreditavelmente brutais. Numa delas, uma furadeira Bosch, do tipo que se pode comprar em qualquer loja de material de construção, é utilizada para abrir um crânio; em outra, emprega-se uma serra de fio, que faz voar poeira e esguichar sangue. Marsh enviava equipamento médico aos cirurgiões; certa vez, foi até lá em seu próprio carro, lotado de instrumentos cirúrgicos.
Há sete anos, Marsh operou a futura embaixadora britânica na Albânia e fez amizade com ela, que o apresentou a Petrela.
“Ficamos amigos de imediato”, disse Petrela, enquanto Marsh contava a história. “Instantaneamente! Henry Marsh é um médico honesto. Seu livro é sobre honestidade. Sobre a verdade. A verdade é muito importante.”
“Foi por causa do seu filho que você se especializou em neurocirurgia?”, perguntei, recostando-me na cadeira para dar espaço ao garçom, que me servia alface com um pegador.
Marsh apertou os olhos e, com os cantos da boca, armou uma careta, enquanto espalmava as mãos, como se dissesse que já lhe haviam feito aquela pergunta muitas vezes – podia parecer que tinha sido pelo filho, mas não fora o caso.
“Nunca se sabe, não é?”, disse. “Talvez isso tenha desempenhado um papel, sim, mas não foi consciente. Seja como for, não há dúvida que isso fez de mim um médico melhor.”
O filho de Marsh tinha poucos meses de idade quando foi submetido a uma cirurgia para remover um tumor cerebral, na época em que Marsh ainda fazia a residência médica. Em seu livro, ele descreve o terrível desespero, o desamparo que sentiu enquanto esperava o resultado, antes de saber que a operação tinha sido bem-sucedida.
“O que eu faço serve apenas para ‘manter o lobo longe da porta’”,[1] disse o médico. “Talvez essa seja a razão pela qual venho fazendo isso há tantos anos. É um modo de ‘manter o lobo longe da porta’.”
Quando o alarme do meu celular me acordou na manhã seguinte, tive uma vaga lembrança de ter entrado em pânico durante a noite, de ter me levantado de súbito, sem conseguir lembrar onde estavam as crianças. “Onde estão as crianças, onde?”, pensei comigo, e fui procurá-las no banheiro, na sacada, no chão, debaixo da cama. Nada das crianças. Onde estavam elas? Por fim, me dei conta de que caminhara dormindo, mas ainda não conseguia entender onde eu estava ou onde estavam as crianças. Eu as perdera? Foi então que me lembrei de tudo, e foi como se tivesse de repente tornado a me reunir comigo mesmo e com o lugar onde estava. Tudo voltou a fazer sentido e, aliviado, eu me deitei e tornei a dormir.
Tomei um banho rápido, me vesti e fui até a recepção, onde já estavam Marsh, Pellegrin, Cupelli e Fejzo. Dois carros aguardavam para nos levar ao hospital. Era como se atravessássemos outra cidade. O que à noite parecera escuro e misterioso, agora se apresentava banhado de luz, inteiramente desnudado de seu mistério. Seguíamos um rio emoldurado em concreto, subíamos, passando por fileiras e fileiras de casas de tijolos, muitas delas em péssimo estado, e grande número de pequenos cafés improvisados e lojinhas. As montanhas além da cidade – que só agora eu notava, erguendo-se íngremes, levemente embaçadas pela névoa, mas ainda de um verde nítido contraposto ao céu azul e sem nuvens – pareciam enquadrá-la e conferir a Tirana seu caráter distinto. Erguiam-se como testemunhas imóveis da batalha humana contra a entropia, tal como haviam feito quando essa terra pertencia ao Império Romano, no século IV, e ao Império Otomano, no século XVII.
Os carros diminuíram a velocidade, e estacionamos na frente do hospital, um prédio simples e funcionalista de concreto, cujos ângulos agudos e planos duros contrastavam com as pessoas diante dele, sentadas ou de pé, ao sol, em seus corpos macios, vestidos de estampas floridas ou camisa e calça, não muito diferentes de meus avós em seus trajes de outrora, pensei, nas décadas de 50 e 60.
Lá dentro, no setor de neurocirurgia, Petrela nos esperava com seu traje imaculado e seu sorriso amplo.
“Bem-vindos, meus amigos”, cumprimentou. “Podem deixar suas coisas no meu consultório, se quiserem. Depois, mostro a vocês a sala de operação.”
Vestimos trajes cirúrgicos, toucas e máscaras. Fomos levados ao 2º andar, passando por um pequeno labirinto de corredores, e, então, chegamos à sala de operação.
Para meu horror, uma cirurgia estava em curso.
O silêncio era total. O único foco de atenção consistia numa cabeça presa por uma braçadeira no meio da sala. A parte superior do crânio havia sido removida, e a porção exposta, recoberta de camadas e mais camadas de gaze, estava completamente encharcada de sangue, formando um funil que conduzia ao interior do crânio. Lá dentro, o cérebro pulsava suavemente. Parecia um animalzinho numa gruta. Ou a carne de um mexilhão aberto. Dois médicos debruçavam-se sobre a cabeça, cada um deles movendo instrumentos compridos e finos para a frente e para trás no interior da abertura. Uma enfermeira os auxiliava; outra aguardava a poucos metros de distância, observando. Um sorver sussurrante era o ruído que provinha de um dos instrumentos, como o som produzido por aquele aparelho que os dentistas usam para sugar a saliva da boca do paciente. Perto de nós, um monitor mostrava uma imagem ampliada do cérebro. Bem no meio, um fosso tinha sido escavado. No centro dele, havia uma substância branca no formato de um cubo. Esse cubo branco parecia constituído de material mais firme, tinha o aspecto emborrachado de carne de polvo. Percebi que devia ser o tumor.
Um dos médicos tirou os olhos de um microscópio suspenso sobre o cérebro e virou para mim. Só seus olhos eram visíveis acima da máscara. Eram finos, pareciam os de uma raposa.
“Quer dar uma olhada?”, perguntou.
Fiz que sim.
O médico se afastou para um lado, e eu me debrucei sobre o microscópio.
Meu Deus.
Uma paisagem descortinou-se a minha frente. Senti como se estivesse no topo de uma montanha e olhasse para um vale coberto de rios compridos e serpenteantes. No horizonte, mais montanhas se erguiam em meio a vales, e um dos quais estava coberto por uma enorme geleira branca. Tudo brilhava e cintilava. Era como se eu tivesse sido transportado para outro mundo, outra parte do universo. Um dos rios era violeta, os outros, de um vermelho-escuro, e a paisagem pela qual corriam estava repleta de cores estranhas e desconhecidas. Contudo, foi a geleira que contemplei por mais tempo. Ela jazia como um platô sobre um vale, de um branco forte como a neve na montanha num dia ensolarado. De repente, uma onda vermelha subiu e lavou a superfície branca. Eu nunca tinha visto nada tão bonito, e quando me endireitei e me movi para o lado, para dar lugar ao médico, por um momento lágrimas envidraçaram-me os olhos.
No pátio do hospital, pululavam vozes, rugido de motores, o canto áspero e estridente das cigarras. As pessoas ali, de pé ou sentadas, algumas conversando animadamente, outras quietas e ensimesmadas, eram os parentes dos pacientes. Passavam seus dias no pátio para ficar perto de seus entes queridos, conforme Fejzo tinha me dito.
Ergui os olhos e contemplei o último andar daquela ala do hospital. Era difícil imaginar que a sala silente, com seu zumbido suave e suas ilhas de equipamentos de alta tecnologia, ficava a uns poucos metros do caos ali fora. Mais difícil ainda era compreender que, dentro daquela sala, havia uma abertura para outra: o cérebro humano.
Será que eu tinha mesmo olhado para dentro dele?
Senti uma súbita e aguda pontada de culpa. Aquele cérebro era parte de um ser humano dotado de uma personalidade própria. Mas eu o espiara e pensara nele como um lugar.
Voltei para o hospital e encontrei Petrela e Marsh sentados numa saleta, tomando café e conversando.
“Está pronto para conhecer o primeiro paciente?”, Marsh me perguntou.
Assenti.
Marsh sempre falava com o paciente antes e depois da operação; repetiu diversas vezes que aquela talvez fosse a parte mais difícil do trabalho. Tinha de dizer a verdade, mas, ao mesmo tempo, não podia tirar-lhe a esperança.
“Você pode falar com ele no meu consultório”, sugeriu Petrela.
Segui Marsh até a sala vizinha, onde nos sentamos em torno da mesa de Petrela. Logo bateram à porta. Juntos, entraram o paciente – um homem baixinho, atarracado, com um rosto forte e jovial – e Florian Dashi, o neurologista que falaria com ele durante a operação. O paciente sorriu. Seus movimentos pareciam confiantes, mas os olhos exibiam uma pitada de preocupação, talvez medo.
Seu nome era Ilmi Hasanaj. Tinha 33 anos e trabalhava como pedreiro em Tirana. Morava na periferia da cidade e era casado, mas não tinha filhos. Estava trabalhando no telhado de uma obra e, no meio do dia, saíra para ir buscar alguma coisa num depósito, quando seu braço esquerdo começou a tremer incontrolavelmente. A boca e o olho esquerdo moviam-se também, fora de controle. Hasanaj conseguiu se sentar numa cadeira. Alguns colegas, vendo que se tratava de coisa séria, levaram-no ao hospital.
“O que você achou que estava acontecendo?”, perguntei.
“Pensei que talvez só estivesse cansado e estressado”, ele respondeu. “Andava trabalhando muito.”
Fez-se uma pausa.
“Você tem medo da operação?”, eu quis saber.
Ele fez que sim, antes ainda que Florian Dashi traduzisse a pergunta.
“Sim.”
Marsh inclinou-se para a frente.
“Já fiz mais de 400 cirurgias como essa”, contou. “Minha experiência com pacientes ingleses me mostrou que o procedimento costuma ser muito tranquilo para eles. E desconfio que os albaneses são bem mais durões que os ingleses. Acho que vocês vão se sair muito bem.”
Hasanaj riu depois de ouvir a tradução.
“Não dói”, Marsh continuou. “A razão para fazer a operação desse jeito é que assim é mais seguro. Primeiro, vamos tocar seu cérebro com um pequeno instrumento elétrico que eu trouxe de Londres, e quando a gente encostar na área responsável pelo movimento, você vai se mexer. É assim que vamos saber onde está essa área. Depois, a segunda parte é a remoção do tumor, e, enquanto estivermos fazendo isso, vamos pedir para você mexer o pé, o joelho, o quadril, os dedos, para ver se você consegue fazer esses movimentos todos. Se, enquanto removemos o tumor, você começar a se sentir meio fraco, aí vamos saber que está na hora de parar. É bem possível que, depois da operação, você sinta alguma fraqueza do lado esquerdo, mas é quase certo que vai ficar bom. O risco de deixar você paralisado para sempre não é zero, mas é muito pequeno, menos de 1%. Espero que a gente consiga remover todo o tumor, mas pode ser que isso não seja possível, e aí você vai precisar fazer tomografias pelos próximos anos. Se não sentir fraqueza depois da operação, acredito que você vai poder voltar ao trabalho em cinco ou seis semanas.”
Quando voltei a ver Hasanaj, horas depois naquela mesma tarde, ele ainda estava sob o efeito de anestesia geral e coberto por um lençol na sala de operação – só se via o crânio, preso por uma braçadeira de metal. Sua cabeça havia sido parcialmente raspada, como preparação para a abertura inicial do crânio. A efetiva remoção do tumor só aconteceria no dia seguinte. Em geral, Marsh costumava fazer ambas as coisas no mesmo dia, mas, nesse caso, sobretudo porque se tratava de procedimento novo naquele hospital, a operação seria realizada em dois dias consecutivos. Petrela e seu cirurgião assistente, Artur Xhumari – o homem com os olhos de raposa –, debruçaram-se sobre o paciente. Petrela movia um pequeno aparelho de mapeamento pela cabeça enquanto olhava para um monitor. As imagens na tela, que mostravam o cérebro, mudavam conforme ele movia o aparelho, como as imagens de ultrassom de meus filhos na barriga da minha mulher.
Petrela e Xhumari discutiam em voz baixa, e imaginei que estivessem decidindo onde abrir o crânio. Então, Xhumari posicionou o bisturi 5 centímetros acima da orelha do paciente e apertou-o com força, atravessando a pele. O sangue começou a brotar do corte e escorrer pela lateral da cabeça. Xhumari descreveu um semicírculo com o bisturi ao longo da cabeça. Petrela se valeu de um aparelho de sucção para sorver o sangue que minava. Depois, com um instrumento achatado que inseriu na incisão, Xhumari começou a dobrar a pele para trás, juntamente com a carne abaixo dela e os tendões que a prendiam ao crânio. Centímetro por centímetro, o couro cabeludo se soltou do osso do crânio. Xhumari em parte cortava, em parte forçava e raspava o escalpo por baixo, ao mesmo tempo que, por cima, o empurrava para trás, como se descascasse uma fruta verde cuja casca seguia colada à polpa. Ao terminar, dobrou o escalpo e, rapidamente, recobriu-o com camadas de gaze que logo ficaram vermelhas de sangue.
O crânio, agora nu, era de um branco amarelado, com finas listras de sangue escorrendo em todas as direções. Xhumari apanhou um instrumento brilhante de metal, no formato de um bastão ou de um grande ferro de soldar, com uma broca na ponta. Pressionou a broca contra a o topo do crânio e começou a perfurar. Um zumbido duro ecoou levemente pela sala de operação. Uma pequena pilha de osso moído bem fino se formou em torno da broca, enquanto o sangue escorria sobre a superfície dura do crânio. Quando a broca atravessou o osso, Xhumari a recolheu. O orifício parecia um furo de parafuso num móvel de plástico. Xhumari fez outros dois. Depois, apanhou outro instrumento, igualmente de metal brilhante, e inseriu a ponta no primeiro orifício. Percebi que se tratava de uma serra. Também ela começou a emitir um zumbido alto e intenso, e parecia zumbir cada vez mais alto à medida que o trabalho se tornava mais árduo. Xhumari arrastou-a devagar rumo ao segundo orifício, enquanto Petrela afastava o sangue e a poeira de osso. Uma fenda fina foi surgindo pouco a pouco, como quando se abre um buraco no gelo com uma serra. Quando a serra completou a circunferência e alcançou o primeiro orifício pelo lado contrário, Petrela levantou o topo do crânio, como uma tampa, e segurou-o no ar, bem na minha frente.
“Todo neurocirurgião, em algum momento de sua carreira, acaba derrubando isto aqui no chão”, comentou, rindo.
Em seguida, entregou a tampa ensanguentada à enfermeira, que a depositou numa tigela e cobriu com uma folha de plástico verde.
Abaixo do topo aberto do crânio via-se uma membrana úmida, tingida de sangue.
“É a dura-máter”, explicou Petrela. “A meninge exterior.”
Xhumari cortou-a com uma tesoura, criando uma aba. Sua superfície inferior era branca e se assemelhava a um pedaço de pano encharcado. Com cuidado, ele puxou a aba para trás, expondo- o cérebro, que pulsava vagarosamente e parecia azulado sob a luz intensa das lâmpadas.
“Agora, a gente costura de volta”, disse Petrela. “E aí fica tudo pronto para a cirurgia de amanhã.”
Cumpriu-se todo o processo inverso. Baixaram e costuraram as meninges, e a enfermeira entregou a Xhumari a tampa do crânio. Quando ele a posicionou no lugar certo, começou a brotar sangue, como se ele houvesse tampado uma xícara transbordante de um suco espesso de frutas vermelhas. Prenderam a tampa com clipes cirúrgicos de metal e, depois, deram pontos para poder fixar o couro cabeludo.
Nem uma única vez me passou pela cabeça que era Hasanaj quem eles estavam cortando.
Petrela nos convidou a todos para jantar em seu apartamento naquela noite. Sua família era proprietária de um edifício no Centro da cidade, pouco acima da mesquita central. Seus antepassados haviam sido políticos e homens de negócios. O bisavô fora prefeito de Tirana, à época em que a cidade capitulou ante as forças do Império Austro-Húngaro, durante a Primeira Guerra Mundial. Seu avô havia sido comerciante de azeite de oliva e, rico, construíra aquele prédio em 1924. Quando os comunistas chegaram ao poder, depois da guerra, a família perdeu o imóvel, que foi confiscado, como todas as outras casas burguesas. O pai de Petrela, professor na universidade, foi obrigado a lecionar na escola primária de uma cidadezinha nas montanhas, já bem afastada de Tirana, me contou o médico no terraço que circundava a cobertura, enquanto anoitecia. Sua voz se encheu de pesar ao falar do pai.
“Ele me disse que tínhamos de vestir uma máscara antes de sair de casa”, contou, fingindo pôr uma máscara sobre o rosto e fazendo o movimento de um zíper ao longo da boca. “Depois, tirávamos a máscara, ao voltar para casa e fechar a porta. Eu tenho uma máscara pendurada na parede do hall de entrada, para me lembrar disso.”
Ele riu. Ocorreu-me que Petrela ainda era, acima de tudo, um filho; era essa a natureza do seu charme – charme de garoto, alegre, vulnerável de certo modo. Ao mesmo tempo, eu sentia que havia muita coisa ali que eu não compreendia. Tinha notado que sua palavra era lei para os demais funcionários do hospital, e também no setor de neurocirurgia, que, de resto, era pobre e sem recursos para poder atuar em nível tão alto, um nível que Marsh denominava “o estado da arte”. Por certo, era preciso algo mais que gentileza para conseguir aquilo.
De pé ali no escuro da noite, debaixo das estrelas, enquanto o ar nos trazia os sons da cidade lá embaixo, Petrela me contou uma história de seu ex-chefe: ele costumava remover certos tipos de tumor com o dedo indicador. Não usava nenhum instrumento, nada, simplesmente enfiava o dedo no cérebro do paciente e – ploft –, puxava para fora o tumor.
O próprio Petrela me fez uma demonstração. Ergueu o indicador no ar, curvou-o como um gancho e, sorrindo, fingiu arrancar alguma coisa.
Enquanto ele fazia aquilo, eu soube que me lembraria daquele gesto para o resto da vida.
A comida foi servida na sala de jantar, dois pisos abaixo, mobiliada como deve ter sido na década de 20. O teto e o chão eram de madeira escura, e as paredes estavam recobertas de quadros; uma comprida pistola antiga jazia sobre um baú rústico e, pendurado num canto, um vestido branco – igual ao que sua avó usara ao se casar, contou-me Petrela. Era uma sala profundamente romântica.
Somente depois que nos sentamos à mesa, coberta com uma toalha branca, cerimoniosa e formal, mas bonita também, com suas porcelanas e cristais, foi que pensei no que tinha visto poucas horas antes: na broca penetrando o crânio de Hasanaj milímetro por milímetro, a tampa que Petrela então removera. Hasanaj deve estar acordado agora, pensei. Estava deitado em sua cama no hospital, sentindo dores estranhas na cabeça e consciente de que, no dia seguinte, permaneceria acordado enquanto dois médicos – sentados aqui agora, comendo, bebendo, conversando e rindo – abririam seu cérebro.
De novo, Marsh dominou a conversa, a sua maneira tipicamente inglesa, com muito charme e graça. Minha impressão, depois de ter passado um dia e uma noite em sua companhia, era de que ele era uma pessoa que gostava de ter as mãos ocupadas. Ia de bicicleta a toda parte, fazia todo tipo de trabalho em madeira e criava abelhas em seu jardim londrino. Contou-nos que havia acabado de comprar uma casinha à beira do rio, em Oxford, de um guarda de comporta. O proprietário anterior havia morrido miseravelmente, em meio a todo tipo de tralha, lixo e solidão, e Marsh contou que ele próprio iria reformar a casa. Ao que tudo indicava, seu jeito de viver era seguir se mexendo, enchendo os dias de coisas para fazer, da mesma forma como preenchia o jantar de coisas para dizer.
Havia algo de reconfortante em sua companhia, porque ele cuidava da conversa de modo muito agradável. Ao mesmo tempo, porém, aflorava um toque de insegurança: dentro da ampla gama de assuntos que Marsh dominava, surgiam vez por outra traços de autoafirmação, bem camuflados, mas não a ponto de eu não notar que para ele era importante comunicar que sua esposa era bonita e inteligente, que seu livro tinha sido muito bem recebido, que David Cameron, por exemplo, o havia lido e, ao que parece, ido às lágrimas ao fazê-lo. Quando falamos sobre carros, a história que ele escolheu para contar foi a de seu Saab, que ele pretendia dirigir até morrer, e que uma vez o levara para conhecer a rainha, e como seu aspecto era surrado e maltrapilho perto dos outros carros. Era o tipo de coisa que eu poderia dizer e, se dissesse, depois me envergonharia por meses. Esse era um grande problema que eu tinha, a necessidade de fazer incidir sobre mim uma luz lisonjeira mediante a menção, como se de passagem, de acontecimentos que me eram favoráveis, de modo que os outros entendessem que eu não era apenas um norueguês aborrecido e calado. Era uma coisa quase compulsiva.
Será que essa necessidade constante de chamar a atenção para si próprio também poderia afetar um neurocirurgião brilhante como Marsh? Suas qualidades extraordinárias, tão óbvias a todos a sua volta, não estavam fixadas com segurança na imagem que ele tinha de si próprio?
Pensei no que ele havia dito na noite anterior sobre “manter o lobo longe da porta”. Eu tinha imaginado que ele se referia a algo grande. Mas será que, ao contrário, não era algo bem menor?
Olhei para ele, sentado à cabeceira da mesa, no lugar de honra, seus dedos fortes segurando distraidamente a haste da taça de vinho enquanto ele falava, os óculos redondos em seu rosto redondo, sulcado, e os olhos vívidos que, assim que ele acabava de falar, pareciam tristes.
Na manhã seguinte, tão quente e radiante quanto o dia anterior, Marsh, reclinado no sofá preto do saguão contíguo à sala de operação, já de avental cirúrgico azul e máscara pendendo abaixo do queixo, deu um breve sorriso ao me ver chegar.
“Você fica nervoso antes de operações como essa?”, perguntei.
Ele fez que sim com a cabeça.
“Sempre. Mas a cirurgia de hoje é relativamente simples. O principal é saber quando parar.”
Entrei na sala de operações. Hasanaj já estava lá, deitado na mesma posição da véspera, semiereto, com um braço apoiado num descanso e a cabeça presa por uma braçadeira. Dessa vez, porém, estava acordado. Olhava para a frente. Um médico passava-lhe uma substância marrom na cabeça. Quando terminou de fazê-lo, enfiou uma seringa no couro cabeludo do paciente; Hasanaj permanecia imóvel. Um plástico verde – o campo cirúrgico – foi estirado até a altura dos olhos, de modo que seu rosto ficou envolto por uma espécie de tenda, ao passo que o crânio permaneceu exposto. Dashi sentou-se numa cadeira ao lado dele. Marsh entrou na sala e pôs-se a estudar um monitor que exibia a última tomografia do cérebro.
“Ali está o tumor”, disse. “Portanto, acho que sei o que esperar. Mas a gente nunca sabe ao certo, até ver com os próprios olhos.”
Xhumari começou a tirar os pontos e dobrou o couro cabeludo para trás, a fim de expor o crânio. De pronto, a superfície inferior molhada do escalpo foi coberta de camadas de gaze, que circundavam a cabeça como uma cratera vermelha e branca. Com cuidado, Xhumari e Petrela soltaram os clipes de metal e removeram a tampa. Os dois estavam imóveis, suas cabeças curvadas num ângulo de quase 90 graus, o mesmo dos braços, que mantinham junto do corpo, como asas de pássaros; por longos períodos de tempo, as mãos eram as únicas partes de seus corpos que se moviam. Tampouco falavam, e o silvo da sucção tomou conta da sala.
Marsh caminhava de um lado para o outro. Notei que parecia um ator prestes a entrar em cena; irradiava a mesma energia agitada, concentrada, levemente ansiosa.
Veio até mim.
“Na Inglaterra, a esta altura, todo mundo estaria animado, conversando sem parar. A distração é um ótimo analgésico”, disse, e olhou para mim. “Aqui, é outra cultura. É mais vertical. Em Londres, é horizontal. Ah, esse silêncio de igreja!”
Foi até Dashi.
“Como está o paciente?”
Dashi debruçou-se quase para dentro da tenda. Ouvi Hasanaj dizer alguma coisa em albanês. Dashi ergueu os olhos para Marsh.
“Ele está bem”, informou.
“Ótimo!”, disse Marsh.
Xhumari levantou o topo do crânio, com sua superfície inferior coberta de sangue coagulado, e o entregou à enfermeira, que o depositou na tigela e cobriu. Depois, começou a tirar os pontos nas meninges, e eu pude olhar diretamente para o cérebro de Hasanaj, ao mesmo tempo que, deitado, ele olhava fixamente para a frente.
O cérebro rebrilhava, coberto de vasos sanguíneos que se entrelaçavam como minhocas vermelhas numa superfície cintilante de um cinza-amarelado.
Petrela regou-a com uma seringa.
Xhumari deu alguns passos para trás, para abrir caminho para Marsh, que se inclinou para a frente.
“É o tumor ali, não é? Interessante.”
Ele olhou para mim.
“Você está vendo?”
Fiz que não. Parecia tudo igual.
“Está ali, uma área um pouquinho mais rosada.”
Ele endireitou o corpo, e eu me afastei, percebendo que a cirurgia estava prestes a começar. Marsh recebeu um instrumento parecido com um diapasão comprido e fino, ligado por um fio a uma caixa do outro lado, debaixo de um monitor. Ali, uma enfermeira estava a postos para seguir suas instruções.
“Isto aqui deve ser o córtex sensorial. Se eu estiver errado, vai haver movimento.”
Marsh pediu à enfermeira que ajustasse a potência para o nível 3 e tocou o cérebro com sua forquilha. Produziu-se um zumbido, um som elétrico. Eu me posicionei de modo a poder ver Hasanaj.
“Dashi?”
“Nada.”
“Ponha no nível 4.”
A enfermeira aumentou a potência. Marsh voltou a tocar o cérebro. Dashi se dirigiu a Hasanaj, que disse alguma coisa.
“Está sentindo”, informou Dashi.
“Sentindo aqui, o rosto é aqui”, Marsh comentou como se para si mesmo. “Aumente para 5.”
Dashi tornou a falar com Hasanaj.
“Braço esquerdo, rosto, língua”, disse.
Marsh tocou o cérebro de novo. Dessa vez, Hasanaj ergueu rapidamente o braço esquerdo, como se um marionetista tivesse puxado um fio. O braço tremeu por uns poucos segundos e voltou a sua posição original.
Eu não podia acreditar no que via. Era como se tivessem ligado um robô.
“Braço esquerdo, movimento”, avisou Dashi.
Marsh moveu o instrumento. O olho de Hasanaj piscou algumas vezes.
“Olho esquerdo, movimento”, disse Dashi.
“Já podemos trazer o microscópio”, Marsh solicitou.
Enquanto posicionavam o microscópio, que estava preso por um suporte móvel a uma grande máquina conectada a um monitor, eu me agachei de frente para Hasanaj.
“Como está se sentindo?”, perguntei.
Ele deu um pequeno sorriso e disse alguma coisa em albanês.
“Está tudo bem”, traduziu Dashi.
“Dói?”
“Só um pouco, disse ele, no ouvido.”
Toda a agitação de Marsh desapareceu no momento em que ele se curvou em direção ao microscópio e começou a operar. Era como se tivesse subido num pódio onde vigoravam outras leis. Inclinando-se para a frente, ele falou com Hasanaj.
“O tumor está numa posição boa. Daqui a pouco, vou pedir para você mexer algumas partes do corpo, principalmente o rosto.”
Num monitor, eu podia ver que Marsh cavava um pequeno buraco no tumor, que, para mim, tinha aspecto idêntico ao do restante do cérebro. Na mão esquerda, ele segurava um instrumento que empregava para fazer o sangue coagular; com a direita, empunhava um crepitante aparelho de sucção, que, com imenso cuidado, usava para pulverizar e remover pedacinhos minúsculos de tecido, fragmento por fragmento. Eles desapareciam dentro do tubo, juntamente com o sangue e a água; desciam rodopiando pelo tubo de plástico e sumiam. Ao lado dele, Petrela irrigava a superfície.
Com Dashi como intérprete, Marsh pediu que Hasanaj movesse a boca, os olhos.
O buraco no tumor crescia aos poucos.
Marsh tornou a recorrer ao estimulador. Dessa vez, a potência chegou a 8 antes que houvesse alguma reação, e Dashi informou: “Rosto.”
Marsh fez sinal para que eu me aproximasse.
“Está vendo isto? Esta areazinha aqui? É o centro que controla o movimento facial. Precisamos deixar esse ponto em paz.”
Então todas as expressões que o rosto humano era capaz de produzir originavam-se naquele lugarzinho? Toda a alegria, toda a tristeza, toda a luz e a escuridão que preenchiam um rosto no curso de toda uma vida remontavam àquele pontinho? O tremor no lábio inferior antes de as lágrimas começarem a cair, os olhos se estreitando de raiva, o súbito espocar de uma gargalhada?
Marsh seguiu operando os dois instrumentos. Com o de sucção, intrometia-se, forçava e empurrava sem cessar; entre uma coisa e outra, valia-se do outro instrumento também, sem nenhuma hesitação, sem parar e, ao que parecia, sem pensar também.
De novo, retornou ao estimulador. Agora, empurrou-o em direção ao fundo do buraco.
“Isto aqui deve ser o rosto de novo”, disse.
“Nada”, Dashi falou.
“Nada?”
Dashi confirmou, balançando a cabeça, e Marsh prosseguiu.
“É que, aqui, o tumor é igualzinho ao cérebro, esse é o problema”, comentou. “Quer ver?”
Ele se afastou, e eu tornei a me debruçar sobre o microscópio. Dessa vez, a visão era bem diferente. Era como se eu estivesse olhando para uma gruta enorme, no fundo da qual havia uma poça cheia de um líquido vermelho. Às vezes, a água jorrava, proveniente da direita, como se de uma mangueira gigantesca. Nunca tinha visto nada parecido, porque era óbvio que as paredes da gruta tinham vida, eram feitas de tecido vivo. Ao longo das bordas da poça, acima da superfície vermelha, as paredes eram irregulares. Atrás da parede mais ao fundo, que parecia expandir-se de leve para a frente, como um balão prestes a explodir, divisei algo roxo.
Quando tornei a me afastar para dar lugar a Marsh, precisei lutar para unir os dois pontos de vista; era como se eu estivesse em dois níveis de realidade ao mesmo tempo, como quando caminhava dormindo: sonho e realidade disputavam a primazia. Eu havia olhado para um cômodo diferente de todos os outros, e, quando ergui os olhos, aquele cômodo estava dentro do cérebro de Hasanaj, que, sob o campo cirúrgico, permanecia olhando fixo para a frente naquela sala mais ampla, cheia de médicos, enfermeiras, máquinas e equipamentos; e, além daquela sala, havia um aposento ainda maior, quente e empoeirado, feito de asfalto e concreto, sob uma cadeia de montanhas verdes e de um céu azul.
Todos aqueles aposentos se juntavam em meu próprio cérebro, que tinha exatamente a mesma aparência do cérebro de Hasanaj, uma massa molhada, brilhante, semelhante a uma noz e composta de 100 bilhões de neurônios tão minúsculos e tão incontáveis que só podiam ser comparados às estrelas de uma galáxia. E, no entanto, o que juntos eles formavam era carne, e os processos que abrigavam eram simples e primitivos, regulados por diversas substâncias químicas e movidos a eletricidade. Como podia conter aquelas imagens do mundo? Como os pensamentos podiam surgir de dentro daquele naco de carne?
Marsh parou para apanhar o estimulador, que tornou a enfiar no buraco.
Dashi disse alguma coisa a Hasanaj, que lhe deu uma resposta breve.
“Nada”, informou Dashi.
Marsh tornou a estimular o fundo do buraco.
“Nada.”
“Nada.”
“Braço esquerdo, rosto.”
“Braço esquerdo e rosto?”
“Sim.”
“Então vamos parar por aqui.”
Marsh deu alguns passos para trás, e o microscópio foi retirado. Seus olhos, a única parte do rosto dele que eu podia ver, pareciam felizes.
Xhumari e Petrela assumiram o comando, e Marsh, depois de dizer a Hasanaj que a cirurgia havia sido bem-sucedida, deixou a sala de operações.
Fui até Hasanaj e me agachei. Ele parecia cansado, os olhos estreitos, o rosto sem expressão.
“Como está se sentindo?”, perguntei.
Ele sorriu e ergueu o polegar.
Dashi riu. Suas costas estavam encharcadas de suor.
Depois da operação, que durou quase três horas, fomos almoçar num parque pouco além do Centro da cidade, onde havia um restaurante rústico, de madeira escura, com garçons vestindo trajes tradicionais. Fazia 35 graus, as cigarras cantavam, e todo o verde que nos circundava era iluminado pelos raios dourados do sol forte. Estavam todos de bom humor, sobretudo Marsh. Havia nele uma leveza que era nova, e ele parecia mais aberto. Não que antes parecesse fechado, mas a sombra que eu pressentira nele havia desaparecido.
Eu também estava feliz. A vista das montanhas por trás da cidade, tão verdes e altivas, alegrou-me o espírito, e a visão do cérebro, seu aspecto fisiológico – as bordas irregulares do crânio dentro do qual ele pulsara, o sangue vermelho fluindo –, era uma bela lembrança, porque as cores vivas de seu interior criavam um elo entre a paisagem cerebral e a grama que crescia sob a varanda na qual estávamos e ao leve farfalhar das árvores, quase inaudível naquela brisa; e o que o cérebro continha, todas aquelas imagens e pensamentos, ainda que jamais pudessem ser apartados de seu estado material, por certo o ligavam à cidade lá embaixo, tão cheia de sonhos, anseios, esperanças e fantasias.
Que aquela mesma cidade estava também repleta de doenças e carências, de tragédia e morte, era algo em que não parei para pensar, assim como tampouco pensei na condição enferma dos cérebros que eu vira. A cirurgia fora bem-sucedida, a tensão se dissipara. Tudo que eu via eram a vida e os vivos.
Na manhã seguinte, fomos em excursão ao porto de Durrës e a Berat, uma cidade nas montanhas. Embora tivéssemos passado apenas três dias juntos, parecia que nos conhecíamos havia anos. Marsh explicou-me a arquitetura do cérebro e como ele funcionava. Explicou-me como se alcançavam tumores alojados em áreas profundas do cérebro, que – dizendo-o muito livremente –, amarrotado como uma folha de papel, possui muitas dobras e erosões que podem ser empurradas para o lado e atravessadas. Há também as chamadas áreas silentes, que se podem cortar sem nenhum prejuízo para qualquer das funções cerebrais. E contou-me de ocasiões em que as coisas tinham dado errado e o paciente morrera na mesa de operação, bem diante dele.
“Já matei gente”, disse.
Mas também me falou das operações difíceis que haviam dado certo e da euforia que elas geravam. Disse-me que 50% do trabalho das cirurgias eram visuais – o que você via – e os outros 50%, táteis – o que podia tocar. Neurocirurgia era um ofício, uma habilidade, ele disse. Para se tornar bom nisso, era preciso praticar e, algumas vezes, cometer erros, e isso numa profissão em que os erros são fatais e inadmissíveis. Se seu filho tem um tumor no cérebro, você vai querer o melhor cirurgião. Contudo, para se tornar o melhor – o que é mera questão de experiência –, você precisa, antes, operar crianças sem ter experiência nenhuma, e o que vai dizer aos pais, então? Que o filho deles é importante para o futuro de um neurocirurgião jovem e ainda inexperiente?
E me falou um pouco sobre as particularidades de operar crianças. Os tecidos são macios e bonitos, muito diferentes dos de pessoas mais velhas. Uma criança tem, por dentro, o mesmo frescor e a mesma pureza que se vê por fora. Mas a perda de sangue é um perigo muito grande no caso delas: crianças podem perder muito rapidamente uma quantidade de sangue que vai pôr em risco sua vida. E a ansiedade desesperada dos pais é um fardo pesado. Para as crianças em si, é fácil. Se não sentem dor, elas são felizes. Não têm uma perspectiva existencial. Marsh contou-me ainda de seu pai, que era professor de direito em Oxford, e da mãe, que foi para a Grã-Bretanha em fuga da Alemanha nazista, antes da guerra, e de como os dois ajudaram a formar o que é hoje a Anistia Internacional. Falou de sua juventude, de como era tímido, sentado em casa lendo livros, enquanto os outros se divertiam; nunca ia a clubes noturnos nem saía com garotas. Contou-me que teve um colapso nervoso quando jovem, época em que caiu em depressão e passou algum tempo no setor de psiquiatria de um hospital. Disse-me que escreveu poemas então, inspirados em Sylvia Plath. E me contou que a profissão médica que escolhera lhe parecia segura, uma espécie de boia. Falou-me ainda de seu relacionamento com os irmãos e com os próprios filhos.
“Eu competia com meus filhos”, disse, fazendo uma careta ao lembrar. “Dá para imaginar? Sempre quis mostrar a eles como eu era inteligente. É uma das piores coisas que se pode fazer com os filhos.”
Contou-me, por fim, como tinha acabado seu primeiro casamento, e como estava indo o atual.
Marsh mostrou-se inteiramente aberto, mas não de um modo confessional. A questão era, antes, que nossas conversas pareciam tender a assuntos mais sérios, quase que independentemente de como haviam começado; talvez isso acontecesse porque as situações que as motivavam eram tão intensas, envolvendo vida e morte, e porque os lugares nos quais elas aconteciam nos eram, de certo modo, vedados, em meio a uma cultura estrangeira. Esses lugares eram também, sob outra perspectiva, bastante abertos. O terraço do 7º andar em que estávamos sentados, por exemplo, circundados por um mar azul-escuro estendendo-se em todas as direções e cintilando à luz do sol, algumas poucas pessoas minúsculas no verde lá embaixo, a uns 50 metros, talvez, e um céu de um azul um pouco mais claro que o do mar arqueando-se sobre nós. Ou, numa velha igreja ortodoxa de pedra nas montanhas, diante de uma fileira de ícones na parede, em cores radiantes – dourado, vermelho, azul –, debaixo de uma cúpula com três buracos circulares pelos quais entrava a luz. Ou em um carro que avança pela escuridão do campo albanês, depois de um longo dia ao sol. Ou caminhando pelo coração de Tirana, certa tarde, por ruazinhas pequenas, estreitas e em profundo silêncio, passando por casas e paredes em ruínas, dotadas de fiação elétrica precária, puxadinhos improvisados e crianças sujas brincando nos becos, a umas poucas centenas de metros das avenidas principais.
Várias vezes, quando Marsh mencionava algo pessoal, lembrei-lhe de que eu iria escrever sobre ele.
“Você sabe que eu posso escrever sobre o que acabou de me contar, não é?”
Ele sorria apenas, dizendo-me que era uma estratégia: quanto mais pessoal ele se tornasse, mais provável seria que eu acabasse gostando dele e, portanto, escrevesse coisas favoráveis a seu respeito.
A única vez que o vi bravo foi na manhã que antecedeu a segunda cirurgia. Ele planejava ver a paciente, mas foi informado por Petrela de que ela já estava na sala de operação, onde lhe abriam o crânio.
“Maldição!”, exclamou alto, batendo o pé e socando o ar com a mão.
“Você pode falar com ela amanhã cedo, antes da operação”, sugeriu Petrela.
“Está bem, não tem outro jeito”, concordou, mais calmo, embora seus olhos ainda estivessem bravos.
Ele e Petrela então foram ver como estava Hasanaj. Fui junto. Petrela apertou o botão do elevador no final do corredor e nos contou que, quando o rei morreu – ou melhor, o filho dele, seu herdeiro natural[2] –, o corpo foi trazido para aquele hospital e, ao levarem-no embora, usaram aquele mesmo elevador, que parou entre dois andares, com o rei morto lá dentro. Foram necessárias duas horas para consertar o defeito.
A porta se abriu, e nós entramos.
“Ficar preso num elevador com um cadáver é uma coisa”, disse Marsh. “Mas se o cadáver é o do rei, aí é outra, bem diferente.”
Hasanaj estava sozinho num quarto do 3º andar, sentado em sua cama e apoiado em travesseiros. Toda a parte de cima da cabeça estava coberta por bandagens. Seu rosto se iluminou ao ver Marsh e Petrela. Mas tinha algo de ligeiramente grotesco em seu sorriso, porque um lado do rosto estava paralisado, e ele parecia babar um pouco, de modo que era mais uma careta que um sorriso. Marsh informou-o de que ele tinha uma fraqueza temporária de um lado do rosto, mas que aquilo era normal e ele melhoraria bem depressa. Hasanaj assentiu, ele compreendia, e fez a careta de novo, o leve sorriso, com olhos que brilhavam.
Conheci a segunda paciente no dia seguinte. O nome dela era Gjinovefa Merxira. Tinha 21 anos, crescera em Burrel, uma cidadezinha de 15 mil habitantes no norte da Albânia, e se mudara para Tirana para estudar medicina, disse ela, deitada na cama do hospital. Seus olhos eram castanhos, o rosto, largo, os traços, puros e jovens. Pedi a ela que me contasse sobre sua primeira convulsão. Ela me disse que havia tido o primeiro ataque aos 7 anos. Era inverno, e ela patinava no gelo com suas amigas quando aconteceu. Via as amigas como se através de uma névoa. Ao chegar em casa, não reconheceu a mãe: olhou bem para ela e não a reconheceu. A mãe perguntou: “Por que você está me encarando assim?” – Merxira respondeu que não a estava encarando e começou a chorar. Tinha 7 anos e estava com uma dor de cabeça terrível, mas ninguém achou que podia ser coisa grave.
Tinha acessos como aquele uma ou duas vezes por ano. Certa vez, quando assistia à tevê, as letras das legendas começaram a sair da tela do televisor para a sala onde estava sentada. Em outra ocasião, viu fogo num jardim, um grande incêndio, e estava prestes a gritar por socorro quando o fogo desapareceu. Os ataques eram acompanhados de dores de cabeça, pesadelos e uma ocasional dormência. Às vezes, todo barulho que ouvia soava como o repicar de sinos. Como os acessos tinham sempre a mesma intensidade e eram raros, embora regulares, ela não pensou que fosse alguma coisa séria. Não foi ao médico, até que, aos 17 anos, um incidente aconteceu. Estava fazendo uma prova de matemática na escola, quando começou a ver flores em vez de números. Começou a chorar. Queria ir bem na prova, mas não podia fazer os cálculos, porque só via flores, em preto e branco. Foi então que ela fez uma visita ao hospital. Examinaram-na, mas não encontraram nada; deram-lhe um remédio para os ataques e mandaram-na para casa.
Em novembro de 2014, estava sentada num café em Tirana com amigos quando começou a ver coisas flutuando sobre a mesa. Ao chegar em casa, não via nada do seu lado esquerdo, e os amigos, muito preocupados, levaram-na ao hospital. Ela própria estava calma, sabia que aquilo ia passar. Mas dessa vez os médicos descobriram o que havia de errado: tinha um tumor no centro responsável pela visão, no cérebro. Decidiram operá-la, mas não antes de agosto, e a cirurgia seria realizada por Henry Marsh, que agora, naquela manhã, detinha-se finalmente diante da cama dela na enfermaria do 3º andar do hospital em Tirana.
A cabeça de Merxira estava enfaixada desde que seu crânio fora aberto na noite anterior, e ela olhou para Marsh com olhos jovens e assustados.
Ele disse a ela mais ou menos o mesmo que tinha dito a Hasanaj: que já fizera aquela cirurgia mais de 400 vezes, que era um procedimento praticamente inofensivo e que a paciente permaneceria consciente porque era mais seguro. Mas foi um pouco mais minucioso com Merxira do que fora com Hasanaj, supostamente porque ela era estudante de medicina e, portanto, tinha mais familiaridade com que o iria acontecer. Talvez por isso, parecia sentir mais medo.
Quando tornei a vê-la, poucas horas mais tarde, com a cabeça presa pela braçadeira na sala de operação, a ansiedade ainda estava lá, nos olhos dela. Merxira parecia sentir tudo que havia na sala, como se tivesse uma relação com tudo aquilo, ao passo que, no caso de Hasanaj, ele parecera abster-se de todo e qualquer encontro, apenas se submetera passivamente a tudo e decidira suportar aquilo até que houvesse terminado. Pellegrin fotografara a cirurgia de Hasanaj quase sem se fazer notar, era apenas parte dos demais movimentos na sala; agora, porém, devido à vulnerabilidade de Merxira, eu tinha uma consciência crescente da presença da câmara e do flash.
Os médicos fixaram o campo cirúrgico, de modo que a cabeça dela ficou debaixo de uma pequena tenda, e a porção inferior do crânio foi recoberta, ao passo que a superior ficou exposta.
“Nas operações em Londres, o campo cirúrgico é transparente”, Marsh comentou. “O cirurgião vê o paciente o tempo todo.”
Preparada a cabeça e administrada a anestesia local, o cirurgião assistente, Arsen Seferi, começou a tirar os pontos. Merxira cobriu os olhos com o braço e emitiu um gemido longo e baixo.
Dashi falou com ela, que respondeu. Depois, tornou a ficar em silêncio.
Seferi pôs de lado o bisturi e começou a remover os clipes cirúrgicos que circundavam o crânio. Logo, a tampa da cabeça foi retirada, abriram-se as meninges e o cérebro foi exposto. De longe, as gazes manchadas de sangue que coroavam o crânio pareciam flores.
Marsh se aproximou para estudar o cérebro.
“Como eu pensei. A superfície parece normal. O tumor está por baixo.”
Uma enfermeira passou-lhe um aparelho de mapeamento, que Marsh e os outros chamaram de GPS, e ele começou a movimentá-lo lentamente sobre o cérebro, enquanto examinava a imagem no monitor.
Passado algum tempo, trocou de instrumento. Agora, pressionava o estimulador elétrico sobre a superfície do cérebro. O aparelho zumbiu por um instante. Dashi falou com Merxira e disse alguma coisa a Marsh, que tornou a estimular o cérebro. Soou o mesmo zumbido elétrico. Dashi falou de novo com a paciente, e Marsh deu início à cirurgia.
“Logo devemos sentir um tumor que parece borracha”, disse.
“Aah”, Merxira gemeu.
Olhei para ela, que apertava o braço contra os olhos de novo.
“Estamos sendo enganados pelo GPS”, disse Marsh. “Ah, aqui está!”
“Se você confia demais no GPS, pode acabar no cemitério”, Petrela comentou comigo em voz baixa.
“Olhe aqui”, Marsh me chamou. “Está vendo a diferença?”
Uma área era de um cinza-amarelado mais forte que a outra, mas a diferença era tão sutil que eu não teria notado, se Marsh não a tivesse mostrado para mim.
Ele continuou esvaziando a área afetada.
Merxira gemeu.
De repente, ouviu-se quase um grito na sala.
“Aah!”
“O cérebro não dói”, Marsh explicou. “O que pode doer são os vasos sanguíneos, quando movimentados ou dobrados. É isso que ela está sentindo. Pode ser uma dor parecida com um choque.”
Ele olhou para Dashi.
“Está doendo muito?”
Dashi disse alguma coisa para Merxira, que respondeu em voz baixa.
“Ela está sentindo alguma dor, mas está tudo bem”, Dashi informou.
Um flash disparou. Ergui os olhos. Pellegrin se agachara junto da parede e tirava fotos da ilha de equipamentos, presumivelmente com o rosto de Merxira visível debaixo do campo cirúrgico verde.
Marsh seguiu extraindo o tumor do fundo do buraco. Merxira gemeu. Estar ali era quase insuportável.
“Melhor não danificar isto aqui”, Marsh comentou e me deixou ver um vaso sanguíneo no microscópio, todo azul entre as dobras do cérebro. “Se ele for danificado, o sangue não consegue sair da cabeça, e o cérebro vai se encher de sangue.”
“Está longe do tumor?”, perguntei.
“Ah, 1 ou 2 milímetros”, respondeu Marsh.
E prosseguiu com a cirurgia, auxiliado por Petrela, que irrigava a superfície. Dashi falava com Merxira a intervalos regulares, pedindo que ela olhasse para uma cartela específica de exame de vista e avaliando o progresso de Marsh pelas respostas dela.
Marsh removeu todo um pedaço do tumor, que a enfermeira depositou numa tigela.
À parte o sussurro da sucção, a sala de operação se revestira de completo silêncio. O cirurgião trabalhava concentrado. Somente suas mãos se moviam.
Dashi tornou a segurar a cartela diante dos olhos de Merxira.
“Visão um pouquinho borrada do lado esquerdo”, disse.
Marsh parou.
Ele levantou a cabeça do microscópio e olhou para mim.
“A gente para quando começa a ficar mais ansioso”, disse. “É o que dita a experiência.”
Então, curvou-se na direção de Merxira e disse-lhe que a operação tinha sido um sucesso e que tudo tinha saído conforme o planejado.
Eu não ousara falar com ela durante a cirurgia. Mas agora fui até lá. Queria saber como estava, mas quando a vi deitada ali, com a mão protegendo os olhos, eu lhe disse com voz grave: “Você foi muito corajosa.”
Depois, quando joguei no chão o avental descartável, a máscara e a touca, percebi que estava tremendo.
“Minha nossa…”, disse Pellegrin. “Foi como se a mente dela ocupasse a sala toda.”
Mais tarde naquele dia, fui à Galeria Nacional de Arte e contemplei as pinturas da época comunista. Estavam expostas em duas grandes galerias e, durante a hora que passei ali, não vi um único visitante. Vez por outra, ouvia crianças brincando no gramado lá fora; seus gritos e risadas sobrepujavam o zunido uniforme e distante da cidade. Muitas das pinturas mostravam pessoas trabalhando. Numa delas, o que parecia ser uma enorme torre de rádio estava sendo içada para sua posição numa paisagem nua e montanhosa, numa atividade febril, enquanto uma mulher, claramente uma engenheira, estudava plantas, e um homem apontava para a frente. Uma nação estava sendo construída; criava-se um novo mundo.
Na Noruega, na década de 70, a Albânia era considerada pelos jovens intelectuais um país pioneiro – uma espécie de utopia, um país do futuro, o ideal a que devíamos aspirar. Quando mencionei isso a Petrela, em nosso primeiro jantar, ele escondeu o rosto nas mãos.
“Mas aquilo era pura mentira”, disse. “Era tudo mentira. Como podem ter acreditado?”
“Não sei.”
Foi o que respondi então. Mas, quando vi os quadros no museu, senti a atração que exerciam.
A tela que contemplei por mais tempo retratava uma família jovem e moderna. O pai carregava uma criança nos ombros, a mãe segurava uma mochila escolar, outra criança corria à frente deles. Moviam-se por uma paisagem de montanhas e vales, a grama era verde, beirando o pastel, o céu era claro, e bem acima pairava um helicóptero. Todos sorriam, adultos e crianças. Estavam a caminho do futuro, cheios de alegria e esperança.
Tudo era claro, puro, simples e vigoroso.
Por que o mundo não podia ser daquele jeito?
O que havia de tão errado com aqueles quadros? O que havia de errado com o mundo que eles retratavam?
Quando voltei à rua, o sol já ia baixo, e o ar límpido de antes estava um pouco mais sombrio. Havia uma leve neblina, como acontece antes do crepúsculo. Os carros na avenida diante de mim esperavam pelo sinal verde. Uma velha encurvada caminhava entre eles, apoiada numa muleta, uma xícara na mão. Bateu na janela de um dos carros. As duas mulheres sentadas lá dentro viraram a cabeça para o outro lado, como as pessoas sempre fazem para não ver os mendigos. Entrei num parque, rumo a um grande complexo de restaurantes defronte de uma fonte rasa mas ampla, azul, com a tinta descascando. Os chineses tinham construído o complexo, Fejzo me informara, e ele era conhecido ali como “Taiwan”.
Sentei-me numa das poucas cadeiras vazias do lado de fora e fiquei observando as pessoas, especulando sobre os relacionamentos de umas com as outras e com o mundo.
Sempre considerara meus pensamentos coisa abstrata, mas eles não eram: eram tão materiais quanto o coração que bate em meu peito. O mesmo valia para a mente, a alma, a personalidade; tudo isso foi fixado nas células e se originou como resultado das várias formas pelas quais essas células reagiram umas com as outras. Todos os nossos sistemas – comunismo, capitalismo, religião, ciência – também tiveram origem em correntes eletroquímicas fluindo através dessa massa de 1 quilo e meio de carne encapsulada no crânio.
Mas tudo isso, no fim das contas, não queria dizer nada. Era como buscar na pedra fundamental a resposta para o segredo da Basílica de São Pedro.
Era tudo mentira, dissera Petrela sobre o comunismo albanês.
Mas o que não era?
Eu havia perguntado a Marsh se ele acreditava em Deus, em vida após a morte. Ele apenas balançara a cabeça.
“Isto aqui é tudo”, ele me disse.
Usamos sistemas para “manter o lobo longe da porta”, pensei. E sistemas nada mais são que vastos complexos de noções e conceitos. Tudo que nos ajuda a não ver as porções mesquinhas, patéticas e desprovidas de significado de nós mesmos. É isso, o lobo. A porção esquisita, torcida ou burra da alma, os ressentimentos e a inveja, a desesperança e a escuridão, a alegria infantil e o desejo ingovernável. O lobo é a parte da natureza humana para a qual os sistemas não têm lugar, o aspecto da realidade que nossas ideias – o firmamento que o cérebro arqueia sobre nossas vidas – não conseguem compreender. O lobo é a verdade.
Então por que Marsh quer “manter o lobo longe da porta”? Vendo de fora, parecia que o papel do cirurgião havia lhe fornecido um contexto mais amplo no qual ele podia se destacar e decidir sobre a vida e a morte, onde não havia lugar para o que houvesse de pequeno e inseguro nele. O papel de cirurgião dava sentido a sua vida, alçava o sentido para fora dele mesmo, para dentro de um sistema – mantinha o lobo longe da porta. Ao mesmo tempo, esse papel lhe revelava a falta de sentido disso tudo. Tumores cresciam ao acaso, pessoas morriam ao acaso, todo dia, em toda parte. Você poderia optar por ocultar isso com números, estatísticas, com campos cirúrgicos de plástico verde que privavam os pacientes de um rosto. A grandeza de Marsh foi que ele não ocultou a pequenez; ao contrário, ele se valeu da sua percepção para lutar contra tudo que a escondia, a institucionalização de hospitais, a desumanização de pacientes, todos os rituais implantados pela profissão médica para criar distância e transformar o corpo em algo abstrato, geral, parte do sistema.
Fejzo tinha me contado uma história que ouvira em Londres. Marsh não a mencionou em seu livro e, tanto quanto Fejzo soubesse, nunca havia tocado no assunto – um dos colegas de Marsh é que a contara a Fejzo. Marsh havia operado um bebê de uns poucos meses de vida, e a operação tinha dado errado; o bebê morreu na mesa de operação. Marsh foi pessoalmente falar com os pais. Disse a eles que tinha cometido um erro e que a criança havia morrido. Chorou com eles. “Nenhum médico faz isso”, dissera-me Fejzo: “Nenhum.”
Começou a escurecer ao meu redor. Um homem chegou empurrando um carrinho de bebê por entre as mesas. Levava nele um garotinho de 1 ano e meio, talvez, e, quando o pai se sentou à mesa, o menino estendeu as mãos para ele. O pai soltou os cintos que o prendiam, ergueu o garoto e o sentou em seu colo. Ficou brincando com ele por algum tempo, e o menino ria.
Também isso era a verdade.
Depois, o pai acendeu um cigarro, apanhou o celular e começou a escrever uma mensagem de texto. O garoto protestou contra a súbita falta de atenção, e o pai deu a ele o maço de cigarros, com o qual o menino começou a brincar, todo feliz, enquanto a lua surgia vagarosamente sobre os telhados, de um amarelo brilhante em contraposição ao negro azulado do céu.
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[1] O cirurgião se vale, aqui, da expressão idiomática em inglês to keep the wolf from the door, usada para indicar condições minimamente satisfatórias. Um salário, por exemplo, pode ser o suficiente apenas para “manter o lobo longe da porta”, para garantir que se escape da pobreza.
[2] Referência à morte, em 2011, do príncipe Leka, herdeiro do último monarca albanês, o rei Zog I, destronado pela invasão italiana, em 1939.
Mais: assista a uma das cirurgias de Henry Marsh na Albânia, comentada por Karl Ove Knausgård.