educação sexual
Margarita García Robayo Jul 2016 17h02
9 min de leitura
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Eu não gostava do padre Tiago porque ele roçava o polegar na língua da gente quando dava a hóstia. Ou seja, além do corpo de Cristo, você acabava engolindo a saliva de todo mundo que tinha comungado antes. Ainda bem que a missa dele era a última da sexta-feira, e dava para correr direto para casa e fazer gargarejos com água sanitária. Padre Tiago não atendia direto na capela, ele só aparecia em ocasiões especiais. E aquela era uma ocasião especial, porque estávamos quase terminando o último ano e, embora ele fosse rezar a missa da formatura, aquela seria a última no colégio.
Depois da missa, a diretora foi à nossa classe. Pensamos que fosse fazer um daqueles sermões sobre o que nos esperava lá fora, no mundo real, onde deveríamos ter sempre bem claro que não passávamos de um instrumento de Deus, Nosso Senhor: “Barro em suas mãos”, dizia, entrecerrando os olhos como que ofuscada por uma luz muito forte. Tudo o que nos acontecia, de bom ou de mau, fazia parte do plano que Ele tinha para nós. “Então, para que a gente levanta da cama?”, tinha perguntado Marcela dias atrás, mortificada pela ideia de ser uma marionete – estranho mesmo era ela ter feito essa descoberta só agora, depois de quinze anos de educação católica. A diretora respondeu: “Para fazer a vontade d’Ele.”
Mas hoje ela não vinha falar disso. Ou não exatamente.
“Aconteceu uma tragédia.”
A diretora era dentuça. E por isso sua boca nunca se fechava por completo.
Uma garota do 9º ano estava internada com prognóstico reservado, ou seja, “… nas mãos de Deus”.
Seus pais estavam dormindo, ouviram a campainha e quando foram abrir a porta se depararam com ela desmaiada e com a roupa toda rasgada. Um carro sumia na esquina cantando os pneus.
“Aconteça o que acontecer, devemos aceitar a Sua vontade.”
A garota tinha ido a uma festa de 15 anos numa discoteca fechada para o evento. Os pais convidados ficaram numa área reservada, no andar de cima. As meninas e os meninos, no térreo, orbitando ao redor de um DJ europeu e da mesa das bebidas. “Eram coquetéis bem fraquinhos”, diria depois a mãe da aniversariante. Devia ser verdade. Segundo versões incompletas, uma turma de garotos maus cujos nomes ninguém queria dizer – a cidade era minúscula, todo mundo sabia quem eram os garotos maus – tinha colocado Boa Noite, Cinderela no copo dela. Em seguida a levaram para passear, estacionaram na orla, tiraram os sapatos, caminharam pela praia com seus ternos caros.
Até aí: uma propaganda de chicletes de hortelã.
Até aí: o começo de um clipe do ‘N Sync.
Até aí: um bando de mauricinhos.
Mas aí se abria um buraco que nenhuma das versões dava conta de preencher. Tudo o que se sabia era que a garota apareceu jogada na porta de casa, espancada e estuprada. Os exames detectaram em seu corpo o sêmen de sete homens, e não só na frente.
Mas tudo isso era o de menos. Para a diretora – e era essa a razão de sua visita –, o verdadeiro dilema era expulsá-la agora – assim, naquele estado lastimável – ou esperar sua – Deus queira, pronta – recuperação. Em todo caso, devia ser expulsa, não por causa do que lhe acontecera, coitadinha, mas pela atitude que seus pais – cegos de dor, tentados pelo demônio – haviam tomado.
Deve ter sido a primeira vez que ouvi falar na pílula do dia seguinte. Corria o ano de 1997, e eu ainda não conhecia o comprimido que começaram a receitar quase trinta anos antes. Lembro que eu estava sentada no fundo da sala de aula, com um fone de ouvido escondido na blusa – Oh, no, I know a dirty word, sussurrava Kurt no meu ouvido direito. O esquerdo escutava atentamente a diretora, que anunciava o apocalipse porque a potência indeterminada de uma criança com sete pais havia sido extinta.
De tarde, senti febre.
Dormi o bastante para que a noite devorasse minha janela.
De fora chegavam as vozes da minha avó e da empregada, metidas em alguma discussão doméstica. Saí do quarto. Pela casa, um cheiro horrível: cebola e peixe cozido. A empregada tentava convencer minha avó a, por favor, deixar que ela terminasse o jantar. Aquela mulher era uma santa: oito horas da noite, e lá estava ela, batendo cabeça com uma velha que lhe tossia seu mau hálito na cara. Cruzei por elas, segui até a janela da sala e olhei para a rua: passavam umas carroças vindas do mercado, cheias de coisas podres que não tinham conseguido vender. Havia uma névoa em volta delas, mas não era névoa. Era a poeira da calçada, que àquela hora o vento levantava.
Pensei em Mauricio.
Grande novidade: vivia pensando em Mauricio.
Eu o imaginava com Lucía, lambendo-a como um cachorro. Eu o imaginava estuprando a garota do 9º ano. E com o padre Tiago, recebendo a hóstia e mordendo seus dedos, sua mão, devorando seu braço entre gemidos, bem lascivo e bem canibal. Ele me telefonava todo dia, mas eu tratara de instruir a empregada, deixando uma série de respostas no caderninho de recados: a neta da patroa não mora mais aqui/não, não deixou telefone/parece que se mudou para Houston/isso mesmo, Houston, está prestes a embarcar num ônibus espacial com destino desconhecido. Mas ela nunca chegava a dizer as duas últimas frases, se atrapalhava toda e desligava com um gesto de irritação.
Minha avó saiu sobressaltada da cozinha, arrastando os pés rumo ao seu quarto, mas parou no meio do caminho.
“Vó?”
Não respondeu. Saí da sala e fui até onde ela estava, pus as mãos em seus ombros: “Vovó, você está bem?”
Ela me olhou como se não me reconhecesse. Tinha os olhos lacrimosos e um par de remelas grandes e velhas. Eu já estava acostumada a seu aspecto doentio e suas ausências repentinas, mas dessa vez a vi pior: esmagada e suja como uma almofada velha. Minha avó era baixinha, tinha a pele muito branca e fina, os olhos de um marrom desbotado. E, quando não se penteava, seus cabelos brancos na linha da testa formavam um topete espetado que lhe dava um aspecto desleixado e triste. Respirava com um ruído áspero, como se tivesse calos nas vias respiratórias.
“Estou bem?”, devolveu.
Sua pergunta me apanhou em cheio: tive a sensação de que aquela velha mazelenta que eu segurava pelos ombros não era ela, mas eu. E seu rosto, um espelho.
Cabelo macho.
Era assim que chamávamos aqueles fios duros, escuros, que afloravam no couro cabeludo, eretos e pontudos, em sinal de rebelião contra a docilidade do resto. A certa altura do dia, em geral no tempo morto entre o fim da última aula e a hora da saída, via-se uma fileira de garotas diante do espelho do banheiro arrancando os fios machos e depositando-os num canto da bancada. No fim, ficavam uns montinhos dispersos que a faxineira juntava num saco. Material genético jogado no lixo.
Estávamos nisso, Marcela, Karina e eu, quando Lucía apareceu. Ela se aproximou como um bichinho assustado e se encostou na parede. Eu a olhei pelo espelho e perguntei: “Que foi?”, ela balançou a cabeça, disse que nada, que só estava olhando.
“Coitada da Dianita, o que vocês acham que vai acontecer com ela?”, perguntou por fim.
“Quem é Dianita?”, disse Marcela.
Fazia um tempão que ela estava puxando um fio sem conseguir arrancá-lo pela raiz, o que o deixava cada vez mais curto e difícil de apanhar. Eu me cansei de procurar por fios machos e me sentei na bancada das pias. Karina depilava as sobrancelhas. Pensei que era triste, mas acima de tudo inútil, nosso empenho em nos livrar de pelos e cabelos. Diziam que, ao arrancar um, a raiz se fortalecia e nascia outro mais resistente ainda. Era uma luta absurda: minha natureza ou minha vontade?
“A garota do 9º”, respondeu Lucía, um tanto perplexa pelo fato de Marcela não saber o nome dela. Eu também não sabia o nome da garota. Só Karina sabia, porque era uma fofoqueira.
Naquela manhã, os pais da menina estuprada tinham ido à diretoria. Saíram da sala chorosos. Segundo os comentários, foram levar um envelope com a lista dos estupradores, nome e sobrenome.
“Todo mundo sabe o que vai acontecer”, disse Karina.
Os pais da menina não deram queixa na polícia, nem sequer falaram com os pais dos rapazes, mas decidiram aplicar um castigo à altura da cidade: expor os estupradores. Entregaram um envelope igual no colégio deles – era o mesmo que o nosso, mas em versão masculina –, na paróquia do bairro e no jornal, que não daria nenhuma notícia sobre o caso porque o dono era parente de um dos rapazes. O mais provável era que eles fossem mandados para fora por algum tempo. Depois voltariam, fariam um curso chinfrim numa universidade de Bogotá e então estariam de volta a Cartagena para administrar as empresas dos pais, casar e ter filhos que teriam o mesmo nome deles, e que sairiam na coluna social quando fossem batizados, quando fizessem a primeira comunhão e a crisma, quando se formassem e casassem com alguma garota bilíngue que falasse com a Virgem, de hímen intacto e cu arrombado.
Com Dianita, tudo seria bem diferente. Por enquanto, ficaria aqui, rodando pela cidade à procura de um colégio mais ou menos decente onde pousar – não era nada fácil ser aceita num colégio decente depois de ser expulsa de outro.
“Que coisa horrível”, Lucía levou as mãos ao rosto.
Por um lapso muito breve, vi a nós mesmas já crescidas. Não maduras, crescidas – adultas, um pouco velhas e amargas, no fundo de um poço que eu agora podia espiar iluminando da borda com uma lanterna. Enxerguei como um clarão de futuro. Um futuro que se entrevia raso, inócuo e fosco. Tentei nos imaginar diferentes, transformadas em outra coisa.
Ateias. Ninfomaníacas. Lésbicas. Adúlteras. Selvagens.
Ou lúcidas.
Não consegui.
Justo nesse instante, Dalia entrou. Estava com os olhos vermelhos e meio vidrados. Trazia a garrafa térmica do Snoopy embaixo do braço.
“Que é que vocês estão fazendo?”, perguntou. “Estava procurando vocês.”
Trazia a camisa para fora da saia e tinha um bafo de rum.
Karina a mediu da cabeça aos pés com ares de madame indignada, daquelas que dá vontade de vomitar.
“Estávamos falando da Dianita”, disse Lucía. E repetiu: “Que coisa horrível.”
“Quem?”, disse Dalia, mas não esperou a resposta. Apenas riu: “Ela já te contou?”
Apontou para mim com o queixo.
“Hein?”, balbuciou Lucía.
“Ela já te contou que o teu namorado chupou a…”
Reagi a tempo de esticar a perna e dar um pontapé no rosto dela, que a fez soltar um grito e cambalear. A garrafinha rolou pelo chão, Dalia se agachou para pegá-la e caiu, soltando uma risada bêbada. Karina e Marcela correram para ajudá-la. Lucía continuou imóvel e quieta: uma múmia pálida e inexpressiva.
“Nojenta”, eu disse a Dalia, enquanto ela continuava rindo no chão, contorcendo-se como um verme naquele chão sujo. Voltei a chutá-la, desta vez nas costelas, e teria continuado se Marcela não tivesse me botado pra fora do banheiro aos empurrões.
“Você está bem?”, me perguntou lá fora.
Sentamos no chão, junto ao corredor de saída: ondas de alunas caminhavam rumo ao estacionamento e subiam nos ônibus, sentavam em seus lugares, ajeitavam o cabelo, enxugavam o suor com lencinhos de papel. Senti o sol batendo de frente, escurecendo minha vista. Senti sede e cansaço.
Olhei para Marcela.
“Estou bem?”, perguntei. A respiração entrecortada.
E ela sacudiu a cabeça.
– – –
*Este é o sexto e último capítulo de uma série de memórias de adolescência da autora que a piauí publicou.