educação sexual
Margarita García Robayo Jun 2016 20h38
9 min de leitura
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Olga Luz decidira juntar suas duas aulas semanais numa só. Agora eram três horas seguidas, com um intervalo no meio. Um dia ela dedicou as três horas inteiras ao aborto; primeiro ela passava um filme, depois a gente discutia. O Teen Aid adorava esses filmes: a cabeça de um feto sendo esmagada por uma pinça gigantesca ou chamuscada por uma enorme seringa que te enfiavam na vagina para bombear ácido. Os bebês saíam estropiados, mas completinhos; eram jogados em sacos pretos, e daí iam para a lixeira.
Sempre que víamos esses filmes, uma das meninas passava mal e tinha que sair correndo para vomitar. Nesses dias era melhor passar longe do banheiro, porque ficava um nojo: por mais que o limpassem, o cheiro não saía. Os filmes sobre aborto deviam ser o equivalente simbólico dos quadros de Bosch que haviam nos mostrado nas aulas de artes, alguns anos antes. O feto morto e o ventre podre eram, assim como o inferno, o resultado inevitável de transar com um garoto. Apesar de tudo, saltava aos olhos a pouca confiança que as catequistas da castidade tinham na própria doutrinação. A mensagem era clara e inequívoca: devemos ser castas. Portanto, dedicar a aula seguinte ao aborto era reconhecer o fracasso.
Isso revelava que transar era um pecado remissível, passível de perdão, e por essa razão o esforço para convencer as meninas a não cometê-lo era pouco vigoroso. Um pecado remissível, como Deus estava cansado de saber, era o atalho que muitos tomaram para se tornar santos. Um pecador arrependido é um prato cheio para a religião. Isso também valia para as meninas castas: um dia a pobre infeliz peca e transa, engravida e sente culpa, e se casa. Daí em diante, leva uma vida irrepreensível: o pecado de transar é redimido com a entrega da vida ao sagrado matrimônio.
“Hora do intervalo”, disse Lucía.
“O.k.”, respondi, mas continuei sentada, vendo a sala de aula se esvaziar de meninas e se encher de luz: retalhos da tarde que penetravam pela janela e serpenteavam entre as carteiras até incidir em Olga Luz, encurvada como um anzol sobre o diário de classe.
“Você não vem?”, Lucía ia saindo da sala. Restava saber para quê: assim que chegávamos ao corredor, ela sempre dizia que estava cansada e logo sentava no chão para ficar olhando as próprias cutículas. Depois começava a dizer que Mauricio isso, Mauricio aquilo, e diante de qualquer mudança de assunto, mínima que fosse, emudecia, como se tivessem desligado seu cérebro.
“Não.”
“Quer que eu fique com você?”
“Não.”
“Está se sentindo bem?”
Lucía sugava minhas energias.
Apoiei os braços na carteira, joguei o corpo para a frente e fechei os olhos. Seguiu-se um longo silêncio.
“Ei.”
Senti uma cutucada no ombro: era Dalia. Seu cabelo tinha crescido um pouco, mas não muito, e agora estava preso num coque que deixava escapar umas mechas ralas.
Endireitei o corpo. Ela se sentou na carteira ao lado, que Lucía passara a ocupar desde que estávamos brigadas.
“Será que a mosquinha-morta vai se incomodar se eu me sentar no lugar dela?”
Bufei: “Nem pense em se levantar, por favor. Estou cheia dela.”
“Ah, é? Pensei que fossem namoradas.”
Tomando cuidado para que Olga Luz não me visse, mostrei a Dalia o dedo do meio, num perfeito Fuck you.
O filme se chamava O Grito Silencioso e era o preferido de Olga Luz. Mostrava um certo mr. Bernard Nathanson, médico aborteiro arrependido, tentando convencer o mundo de que o feto pedia socorro antes de ser morto – prova de que, segundo o tal doutor, ele farejava o perigo e sentia dor. Ou seja, de que era uma pessoa. Depois exibia cenas de um aborto em que o feto tentava escapar das pinças, da seringa e, quando era atingido pelo ácido, se retorcia como um inseto que acabasse de receber uma borrifada de inseticida. A certa altura, a câmera mostrava o rosto do feto em close up enquanto ele abria e fechava a boca, num gesto desesperado que o dr. Nathanson lia como a palavra “mamãe”. Nessa passagem, Olga Luz fungava e se estremecia como se tivesse levado um choque elétrico nas nádegas. Uma vez, em meio a espasmos de angústia, disse que o pior de tudo era que essas crianças jamais poderiam ver o rosto de Deus, porque, tendo sido mortas antes de nascer, ficavam pairando num limbo de bebês disformes que clamavam aos gritos pela mãe.
Eu levaria anos para entender esse gesto em sua justa medida.
A conduta perturbada das professoras da Opus Dei não se devia apenas ao prazer mórbido de infundir temor em suas alunas, mas à crença real naquilo que diziam. Não era um sofrimento empostado. Bernard Nathanson também deve ter acreditado que os mais de 75 mil abortos que realizara antes de se converter ao catolicismo o condenariam àquele limbo de bebês disformes. E quando foi diagnosticado de câncer deve ter pensado que era um castigo merecido. Naquele segundo antes de expirar em que, dizem, cabe a retrospectiva de toda uma vida, deve ter pensado que seu arrependimento não seria suficiente para lhe permitir ver o rosto de Deus. Como último recurso, ele se aferraria à mão de sua mulher, Christine, e à misericórdia divina. Depois fecharia os olhos e se deixaria levar. Ao final de tudo, para seu alívio e sua desgraça, não veria suas partículas desintegradas, misturadas ao pó, pairando no próprio nada.
De tarde, Dalia passou na casa da minha avó para me buscar. Atravessamos a cidade de caminhonete, ouvindo repetidas vezes You Oughta Know, da Alanis.
Dalia tinha brigado com o Jota.
“Por quê?”
“Porque descobri que ele tem uma namorada.”
“Quem é?”
“Uma tipinha de outro colégio.”
“Que colégio?”
“Algum que não obriga as alunas a ver filminhos de fetos agonizantes, e por isso elas não têm o menor problema em abrir as pernas para o primeiro macho que aparecer.”
Estacionamos junto a um píer.
Tínhamos comprado sorvetes que não duraram muito; quando começaram a derreter, jogamos no mar.
“E a Lucía?”
“Que é que tem a Lucía?”
“Como foi que ela deixou de ser um objeto para virar teu bichinho de estimação?”
“Pelo amor de Deus, olha as coisas que você me diz…”
“Ela continua com aquele namorado?”
“Que namorado?”
“Um que é mané.”
Não respondi. Se respondesse, já ia brigar.
Se brigasse, perdia.
Poucas noites atrás, Mauricio tinha me telefonado. Jogamos conversa fora: oi, como vai?/bem, e você?/bem/que bom/é, que bom. Nenhum dos dois mencionou Lucía. No fim, ficamos quietos, quase adormecidos, o que no meu caso era uma verdadeira proeza, porque o telefone estava no canto mais desconfortável e espremido da sala da minha avó, abarrotada de santos e crucifixos. E justo quando a conversa ia chegando ao clímax – ou seja, à única frase completa da noite –, uma forte pigarreada irrompeu no ar. “Não são horas de uma moça direita falar ao telefone.” Era minha avó – ou o fantasma dela –, metida em um penhoar transparente que deixava ver seu corpo, um traje de rugas e pelancas, camadas e mais camadas de pele decrépita.
“Mané dos manés, é isso que dizem desse cara”, Dalia fitava o horizonte, enquanto me torturava. Eu a imitei: o sol era um punhado de fogo a ponto de se apagar.
Senti fome. Queria voltar para a casa da minha avó e comer sua comida gordurosa, e depois me deitar na cama para olhar as rachaduras do teto até pegar no sono. Que dia inútil, pensei.
De quando em quando me voltavam flashes de O Grito Silencioso.
“É ou não é mané?”, insistiu.
“Quem?”, Dalia tinha conseguido me aborrecer.
“O tal de Mauricio, o namorado da cadelinha da Lucía.”
Dei um suspiro de fastio: “Não sei, Dalia. Não parece.”
Ela desatou a rir: “Eu sabia.”
“Sabia o quê?”
“Que você está a fim do namorado da Lucía.”
“Você está louca”, eu disse. “Louca e cheia de merda na cabeça.”
As gargalhadas de Dalia me sacudiram. Não senti irritação, mas um punhal sendo enterrado no meu peito. Levantei e caminhei até a rua. Enxuguei as lágrimas com a manga da camisa. Quando ergui os olhos para continuar andando, já era noite.
Mauricio chegou de táxi.
Eu continuava sentada ao lado da cabine telefônica, olhando as ondas do mar transbordantes de espuma, doentes de raiva. Antes disso tinha visto um navio sumir no horizonte. Era do tamanho de uma baleia e devia carregar centenas de turistas enfiados em casinhas de cachorro.
Mauricio sentou ao meu lado e não disse nada sobre meus olhos inchados. Dali a pouco se levantou e me estendeu a mão.
“Vamos caminhar.”
Achei uma boa ideia, fazia muito calor para ficarmos sentados, derretendo sobre nós mesmos. Atravessamos até a praia, onde um sujeito vendia cerveja num isopor. Mauricio comprou duas. Tirou os sapatos, arregaçou o jeans. Fiz a mesma coisa. Passamos por uma barraca de camarão e ceviche que já estava fechando, um sujeito varria as cascas espalhadas na areia, juntando em montinhos atrás de um tambor. Sentamos. Mauricio abriu uma das latinhas e me ofereceu. Recusei. Perguntou o que eu queria.
“Do quê?”
“Uma Coca-Cola, uma limonada…? Posso ir comprar para você.”
Olhei em volta. Estava tudo fechado.
“Não quero nada”, respondi.
“Nada de nada?”
“Não.”
Mas era evidente que sim, eu queria.
Mauricio passou o braço por minha cintura, aproximou-se e me beijou no rosto. Fiz meia-volta e lhe dei as costas. Ele me abraçou por trás e puxou meu corpo contra o dele. Estávamos tão perto que senti a respiração dele em minha nuca. Subiu as mãos até meus seios; minúsculos, comparados aos de Lucía. Tornei a me afastar. Mas ele insistiu: desta vez se colocou de frente para mim e me deu um beijo na boca. Segundos depois, estávamos deitados na areia, enfiando as mãos por baixo da roupa um do outro, como dois hippies imundos.
“De pé, senhores.”
Um policial apontava uma lanterna em nossa direção.
Levantamos rapidamente, eu fiquei de costas, de tanta vergonha, e sacudi a areia do cabelo. Mauricio pedia desculpas ao guarda, que fingia contrariedade, mas ao mesmo tempo ria e fazia piadinhas machistas.
“Certo, rapaz, eu até o entendo, mas faça o favor de ser cavalheiro e levar a senhorita a um hotel.”
“Sim, senhor.”
“Estamos numa cidade turística, hotéis é que não faltam. Não reparou nesse aí?”
Calculei que devia estar apontando para o Hotel Caribe. Nem em mil anos Mauricio poderia pagar um quarto lá.
“Sim, senhor.”
“Se não gostar desse, posso lhe indicar este outro.”
Espiei com rabo de olho e vi que o sujeito estava lhe entregando um cartão. Na certa de algum motel nojento onde ele e seus colegas levavam as empregadinhas. Eu me senti péssima.
“Muito bem, amigo”, disse o policial, com um enérgico movimento de cabeça, “divirta-se.”
A volta foi ainda mais humilhante: cada um num extremo do banco do táxi. No rádio, um vallenato [1] falava de uma mulher de olhos índios, feiticeiros, pequeninos e brilhantes como safiras. Eu queria sumir, sair dali, mas para onde? Não tinha aonde ir, não era esperada em lugar nenhum. Mauricio, sim.
Quando chegamos à ponte, olhei pela janela: o farol da baía lançava uma luz que se perdia no escuro, como na boca profunda de um lobo.
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[1] Juntamente com a cúmbia, o vallenato é um gênero musical colombiano bastante popular.
* Este é o quinto capítulo das memórias de adolescência da autora, a ser encerrada em agosto. Para ler o capítulo anterior, clique aqui