educação sexual
Margarita García Robayo Jun 2016 04h13
10 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Acordei sobressaltada por um sonho que esqueci logo em seguida. Depois levei algum tempo para entender o que estava fazendo ali, deitada numa rede pendurada entre duas estacas, sob um teto de sapê que deixava passar pouquíssima luz. Só uns raios fininhos como agulhas de tricô. Bem perto do meu rosto voava um bicho que zumbia. Onde estava? No sítio de Lucía. Por que estava lá? Porque Dalia e eu estávamos brigadas fazia algumas semanas, e Lucía era agora minha companhia mais frequente.
Lucía e seu namorado, Mauricio.
Levantei e fui ao banheiro. Quando terminei e ia sair, escutei um som que vinha de fora: parecia o atrito de um tecido contra outro. Enxuguei a borda do bidê com papel higiênico, subi e me segurei no caixilho. Espiei por uma janelinha alta, protegida com tela, que dava para a varanda onde Lucía e Mauricio estavam terminando a partida de Monopoly que eu tinha abandonado no meio.
Ela estava com a blusa levantada. Seus peitos eram muito brancos, maiores do que eu imaginava, com bicos rosados e pequenos. Mauricio chupava um mamilo de olhos fechados, apalpando os peitos com uma das mãos e, com a outra, tocando-a por baixo da saia. Lucía tinha o olhar fixo na porta por onde sua mãe poderia entrar se acordasse da sesta, e suas pernas relaxadas pendiam do braço da poltrona; suas mãos, antes fechadas, se abriram para empurrar a cabeça de Mauricio para baixo, e ele se enfiou embaixo da saia, e suas mãos mantinham as coxas dela abertas. Eu conseguia ouvir um barulhinho parecido com lambidas de cachorro. Lucía fazia movimentos rápidos e curtos com os quadris, para cima e para baixo, parecia mastigar por aquela parte do corpo, com dentes de esquilo, querendo engolir a cabeça de Mauricio com suas mordidas. Tentei ficar na ponta dos pés para enxergar melhor, mas quase perdi o equilíbrio e, com medo de cair, desci do bidê com cuidado e me sentei na privada.
Duas semanas antes, a situação era radicalmente oposta.
Minha avó roncava na frente da tevê. Ouvia-se um piano romântico, tema de abertura de uma telenovela da tarde que era reprisada de madrugada. Quando desliguei o aparelho, minha avó abriu os olhos e levou uma das mãos ao peito.
“Sonhei com sua mãe”, levantou-se da cadeira de balanço, em direção ao telefone. “Vou ligar para ela.”
“Minha mãe não está, vovó.”
Ela se virou para me olhar:
“Ah, não?”
Mas mesmo assim apanhou o telefone, sentou no banquinho e teclou um número. Só um. Depois voltou a adormecer, o fone ainda pregado à orelha.
Naquela noite eu tinha saído com Dalia e outras meninas do colégio. Dalia nos convencera a ir a um show do Jota num bar do Centro. O lugar se chamava Zaratustra e era um daqueles buracos com cheiro de mijo que havia no interior das muralhas de Cartagena. O público era formado basicamente por gente suja. Falei que tinha nojo do Jota e sua banda, e Dalia se enfureceu: “Você tem nojo de todo mundo”, e virou as costas.
Fui embora. As outras garotas tinham se instalado junto a umas maquininhas caça-níqueis, no fundo do bar.
No caminho para a casa da minha avó, cruzei duas pontes: a que ligava o Centro a Manga, e a que ligava Manga a Pie de la Popa; essa parte da cidade consistia numa sequência de pontes que interligavam os bairros espalhados pela baía. Eu gostava de andar por lá porque era como olhar a cidade por dentro: luzes de lado a lado por toda a água. Mas diziam que à noite os estupradores se escondiam no mangue e no primeiro vacilo saltavam em cima da gente qual onças-pintadas. Por isso corri o mais que pude pelas pontes e continuei correndo até chegar ofegante, suando frio, na porta da casa.
Eu dormia no quartinho de passar roupa.
Entrei e fui até a janela: a sacada gradeada da casa vizinha estava vazia. Minha janela tinha tela, mas estava sempre aberta porque senão o ar quente ficava preso e criava um microclima capaz de fritar as moscas. Alguns anos atrás a sacada ao lado não tinha grades, e um menino meio doido que morava lá vivia se jogando, e a cada tombo ficava mais pancada ainda. Agora ele não podia mais se jogar, mas saía na sacada, se agarrava às grades e ria às gargalhadas. Às vezes observava o morro de La Popa durante horas e ficava triste. Às vezes gritava palavrões, e a mãe dava com um sapato na cabeça dele. Mas nesse dia ele não estava lá. Onde estaria? Dormindo, claro. Sonhando que morria e deixava essa vida lamentável que lhe tocara viver para ir direto para o céu. Minha avó tinha me contado que a mãe do menino se consolava com aquela lenda de que seu filho era um anjo na Terra. E minha avó se zangava: se o céu estiver cheio de mongoloides, prefiro apodrecer no inferno.
Tocou o telefone. Minha avó não escutava, mesmo estando bem ao lado do aparelho, fossilizada. Saí do quarto e atendi: “Alô.”
“Filha da puta”, era Dalia.
Segundo ela, eu a abandonara numa situação perigosa, e isso fazia de mim um ser desprezível e egoísta. Ao que tudo indica o show tinha terminado mal: atiraram uma cadeira nas costas do Jota e ele acabou no pronto-socorro. Dalia o deixara lá, abraçado a uma velha com legging de oncinha que depois se soube ser a mãe dele.
“E as outras?”, bocejei. Eu tinha me sentado no chão e estava examinando os pés da minha avó, cheios de veias gordas e pintas marrons.
“Sumiram assim que a gritaria começou.”
“Então por que não xinga elas? Eu pelo menos te avisei que estava indo embora.”
Tirei as sandálias e examinei os pés, atravessados por veias que ainda não tinham saltado para fora. Minhas unhas estavam compridas, por fazer. Meus pés eram mais bronzeados que as pernas, porque eu vivia de chinelos e jeans, e eles pegavam mais sol. Quando vestia shorts, eu parecia estar de tornozeleira bege.
“… você é minha melhor amiga, tinha que ficar comigo até o fim”, Dalia estava a ponto de chorar. Nessa época nada me incomodava mais do que gente chorando. Respondi que ela podia considerar aquilo um ensaio.
“Um ensaio do quê?”
“Da sua viagem à Patagônia.”
“Como assim?”
“Ou você pensa em me levar para segurar vela quando estiver com seus namorados fedorentos?”
“Filha da puta.”
“Nessa viagem você vai estar sozinha, rolando na sujeira.”
“Você é uma ressentida de merda.”
“E você, uma porca.”
Desligou.
Nos dias seguintes, a situação só piorou. Dalia não falava mais comigo e se juntou com umas tipas que passavam o dia inteiro mamando numa garrafa térmica do Snoopy cheia de rum com Coca-Cola. Depois, iam para o pátio e faziam concurso de arrotos até pegar no sono. Em troca de algum dinheiro, seu Tomasito ficava de campana, cuidando para que as professoras não fossem perturbar a sesta delas.
Eu me dediquei a estudar a sério, meu sonho ia muito além da universidade pública: queria conseguir uma bolsa da Nasa e sumir do mapa para sempre. Ufa! Estava sempre sozinha, procurando a sombra de uma árvore para ler em paz. Foi assim que Lucía me encontrou.
“O que você está fazendo?”
Era o primeiro recreio, eu estava na arquibancada da quadra de basquete. Tinha um livro aberto na frente dos olhos, portanto a pergunta da Lucía era bem idiota.
“Estou lendo”, respondi.
Sem contar uma coreana feia, que entrou no nono ano e saiu no décimo, e uma tal de Susy del Río, que entrou no sexto e saiu no oitavo, Lucía nunca teve uma amiga muito estável. Sobretudo depois do que aconteceu com Susy del Río, o jeito como ela saiu da escola: faltou vários dias, e quando as professoras telefonaram para a casa dela foram informadas de que a família inteira havia mudado de cidade. Nunca mais se soube dela. Lucía foi sondada várias vezes, mas não tinha nada a acrescentar sobre o paradeiro da amiga.
“A Virgem me disse que Susy del Río morreu”, anunciou Karina na época, espalhando um zum-zum-zum que chegou aos ouvidos da diretoria. Karina precisou explicar de onde havia tirado aquela história, e ela jurou pela vida dos pais e de seus dois irmãozinhos que ouvira tudo da boca da Virgem. Ninguém, nem a própria diretora, considerou Karina louca; ao contrário, ainda lhe deram corda: “Que mais ela falou?” Mas Karina disse que estava com uma enxaqueca insuportável e foi conduzida à enfermaria. Dalia e eu a acompanhamos, e aí ela nos contou que a Virgem lhe dissera outras coisas sobre Susy del Río, mas que ela não quis revelar em respeito a sua memória. Segundo Karina – segundo a Virgem –, Susy del Río tinha morrido de hemorragia na maca imunda de uma negra de La Boquilla, na periferia, uma aborteira desencavada por sua mãe “E de quem era o bebê?”, Dalia perguntou. Karina fez que não com a cabeça, abriu e fechou os olhos lentamente: “Isso foi tudo que ela disse.”
Já naquela primeira conversa na quadra de basquete, Lucía me falou de Mauricio. Disse que ele estudava na universidade pública e estava indo muito bem. Que tinha entrado em engenharia com uma pontuação bem alta.
“E você? Vai prestar o quê?”, perguntei.
“Ainda não sei.”
Enrolou a saia entre as pernas. Depois jogou o corpo para trás e, apoiando-se nos cotovelos, olhou para o céu, e foi como se a visão das nuvens lhe soltasse a língua. Falou dos testes vocacionais – cujos resultados ela achava muito vagos para tomar uma decisão – e da psicóloga do colégio, que se chamava Jasmim – “nome de cadelinha cocker” –, tinha mais de 30 anos e era solteira, “coitada”.
“… é uma dessas que não podem se casar”, continuou: “Concursada, temporária, sei lá.”
“Concursada”, falei.
“Ah, certo. As temporárias são as que casam e têm filhos até definhar.”
“Ahãm.”
“Porque estão proibidas de tomar pílula.”
“É.”
“Como a Olga Luz.”
Aonde ela queria chegar? Continuei minha leitura, mas logo em seguida tocou o sinal do fim do recreio. Lucía se sentou.
“Hoje vou a um aniversário com meu namorado”, disse.
E eu com isso?
“O.k.”, falei.
Me levantei e sacudi o uniforme.
“É no Clube Náutico. Você conhece?”
Dei de ombros: “Só por fora.”
“Não quer ir?”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque não.”
Tomei o rumo do prédio a passo acelerado, Lucía ia atrás de mim. Antes de entrar, vi Dalia deitada embaixo de uma árvore; estava com fones de ouvido, usando a bolsa de travesseiro.
Era tarde para arrependimentos.
Lá estava eu: sentada de cara para a baía com um copo de cerveja na mão e a brisa úmida a cintilar no meu rosto. Eu havia me vestido como se estivesse cagando para aquela festa e seus convidados, o que me custou horas diante do espelho, experimentando roupas. Lucía ainda não tinha chegado e seu namorado provavelmente também não, por isso fui direto para o bar, abracei o primeiro copo que encontrei e saí para o píer.
“Os barcos têm um efeito hipnótico”, um garoto tinha parado a meu lado.
“Os barcos ou a cerveja?”, respondi, e ele riu.
A vista era mesmo incrível: as luzes dos edifícios do outro lado da baía emolduravam a água escura e quieta onde a lua se refletia. Mas o cheiro era insuportável: a baía era uma água parada e fedia como tal. E havia mosquitos do tamanho de um caroço de ameixa. Quando espantei um deles, o carinha sugeriu que fôssemos até uma mesa. Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar e nós sentamos no terraço. Perguntei o que ele fazia da vida, se estudava, ou o quê. Ele então começou a soltar palavras tipo “armação”, “bombordo” e “escotilha”, pretendendo demonstrar um conhecimento inútil sobre embarcações.
“Nada do que estou falando te interessa, né?”, ele disse em seguida. Confirmei, e rimos juntos. Eu só tinha bebido meio copo de cerveja, não dava para culpar o álcool pelo tanto que eu estava achando aquele garoto bonito.
“Ninguém gosta de barcos, até andar num. Um dia vou te levar para navegar”, sentenciou.
E eu viajei para longe, com ele, num navio que zarpava dali mesmo e atravessava o Atlântico numa diagonal furiosa até Portugal. Nesse longo trajeto brigamos três vezes e nos reconciliamos seis. Tivemos dois filhos: uma menina e um menino. E paramos numa ilha para comprar pássaros exóticos, que não pudemos levar conosco porque alguém disse que não sobreviveriam longe da floresta.
“Ah! Vocês estão aí!”, Lucía apareceu. Chegou, se sentou no colo dele e o beijou na boca, e seu cabelo alisado escorreu pelos dois rostos formando uma cortina de ferro. Então choveram pedras de fogo que afundaram nossa embarcação a poucos quilômetros de Cádiz. Voamos em infinitos pedaços que ofuscaram minha vista por um instante e em seguida se desmancharam no ar, como uma esperança cretina.
—
* Este é o quarto capítulo das memórias de adolescência da autora. Para ler o capítulo anterior, clique aqui.