educação sexual

MENINAS FURADAS

Para uma moça católica, abortar era o mesmo que mutilar o Menino Deus com um alicate*
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Dalia estava ficando monotemática com aquela história da viagem pela América do Sul, e eu estava ficando cansada. Volta e meia ela sacava um mapa imenso, que ocupava um espação na mesa da biblioteca onde eu tentava estudar. Não adiantava eu pedir para ela não falar comigo, que aquilo me desconcentrava. Dalia tinha comprado aquele mapa semitranslúcido, que usava como cortina para me dizer coisas, por mais que um minuto antes eu tivesse implorado para ela não abrir a boca. Dalia o suspendia pelos cantos acima da cabeça, e eu podia ver a silhueta de seu corpo acompanhando o litoral do Pacífico. Ela falava e falava, e quando eu reclamava dizia: “Imagina que minha voz é o zumbido de um inseto.”

Uma cigarra. Não, um moscão no cio.

Ela estava com essa mania depois de passar um fim de semana em Bocachica, onde conheceu uns caras que tinham percorrido o Peru, a Bolívia e o Chile tocando numa banda fusion andina, e que agora tinham uma loja de tattoos. O vocalista se chamava Blas, eu o vi pela primeira vez num show a que Dalia me levou. “Oi, gata”, ele falou bem perto da minha orelha, com um bafo quente e fedendo a maconha. Não fui com a cara dele. Mas Dalia insistiu, e eu a acompanhei a mais algumas reuniões com aqueles caras.

A segunda vez foi na loja de tattoos, que era onde eles ensaiavam. Dalia andava de rolo com um tal de Jota, que era o baterista – e o dono de tudo: da banda, da loja e dos perdidos que passavam por lá, fumando a maconha dele e beijando seus pés. Dessa vez Jota e Dalia se jogaram num sofá imundo aos beijos e amassos, e todos acharam a coisa mais normal do mundo. Eu fui me sentar num banco na calçada, porque sentia vergonha do espetáculo que aqueles dois estavam dando. Só que atrás de mim veio o tal do Blas.

“O que é que você quer?”, perguntei.

O sujeito sentou ao meu lado e pôs-se a assobiar uma melodia dos Enanitos Verdes. Dali a pouco, Dalia começou a gritar, a pedir socorro e a xingar o Jota. Quando entrei, ela estava plantada no meio da loja, com a blusa rasgada e um peito à mostra: “Filho da puta! Eu falei pra você parar!”

Dalia tinha chupões no pescoço, no peito e na barriga. Parecia ter sido atacada por uma sanguessuga. Jota exibia um arranhão no rosto e umas marcas de copo quebrado no braço.

“Sua mela-cueca!”, ele gritou.

E os outros? Como se estivessem escutando o barulho da chuva. O das maracas não tinha parado de tocar nem um segundo.

Eu disse a Dalia para irmos embora.

“Eu não vou enquanto esse filho da puta não me pagar a blusa.” Cruzou os braços e inclinou o quadril. O peito era como um adorno, que não parecia incomodar ninguém. Jota a encarava furioso, mas de repente sorriu como um psicopata e disse que, se um dia a pegasse sozinha, a estuprava.

“Vão se foder”, murmurei e saí.

Pensei que Dalia me seguiria, mas chegando à esquina olhei para trás e ela não estava. E quem é que estava ali? O tal Blas. Acenou para que eu o esperasse e se aproximou com uma corridinha cool que queria dizer: sou capaz de te seguir por meio quarteirão sem suar demais, gata.

“Cadê a Dalia?”, perguntei.

Blas tirou um baseado do bolso e o encaixou atrás da orelha. Depois propôs que bebêssemos alguma coisa.

“Beber o quê?”

“Qualquer coisa, está calor.”

Cada vez que o cara abria a boca, o bafo de erva era como um soco no meu nariz. Eu não gostava de maconha. Não gostava de nenhuma droga, e preferia mergulhar numa piscina de antraz a dar uma tragada no baseado de um hippie imundo.

Tinha uma barraquinha do outro lado da calçada. Eu estava com sede, por isso atravessei a rua com Blas. Pedi uma Sprite, e ele uma Coca-Cola. Ficamos um bom tempo sem abrir a boca, olhando as vans e os vendedores ambulantes que passavam pela avenida San Martín. Ninguém tinha pressa nessa cidade, ao contrário: todos caminhavam como que sucumbidos à própria sombra.

“Onde você mora?”, ele perguntou.

Encolhi os ombros: “Por aí.”

Naqueles dias eu estava na casa da minha avó, porque minha mãe e minha irmã Juana tinham ido passear em Medellín. Juana tinha bancado a viagem, tinha dinheiro porque fazia alguns meses que trabalhava como secretária de uma companhia de petróleo – havia largado três faculdades e um curso de idiomas e não ia estudar mais. Para quê, ela dizia, se já estava ganhando um salário? Eu, em compensação, passava o dia inteiro segurando um livro, mas, na verdade, não estudava muito. Lia tudo por cima, e isso já era o bastante para contentar minha mãe, que só queria saber das minhas notas.

Eram tempos de vacas magras e, embora o mais lógico fosse me mudarem para uma escola mais barata – como aquela em que Juana tinha estudado –, minha mãe se empenhou em que me dessem uma bolsa. E acabaram dando, com a única condição de eu manter a média acima de nove. Não era nada do outro mundo, era um colégio fácil: as professoras estavam mais preocupadas com o que chamavam de “formação espiritual” das alunas, e não com que aprendêssemos a tabela periódica. Mas ainda assim eu não queria dar motivo para minha mãe dizer que estávamos mais pobres por minha culpa, e por isso exagerava meu sacrifício: abraçava os livros e me trancava para estudar o mínimo indispensável para manter a média de 9,1. Nem mais, nem menos.

Esse último ano era um pouco mais puxado porque eu ia concorrer a uma vaga na universidade pública e precisava ter boas notas nos exames do estado. Para tanto tinha de estudar de verdade. Outras colegas iam para os Estados Unidos e estavam mais preocupadas com o Toefl. E outras iriam para Bogotá, para universidades particulares onde, para entrar, bastava ter dinheiro. Essas só se preocupavam em continuar magras: passavam recreios inteiros analisando a informação calórica de uma barra de Snickers. E continuavam sempre magras, e sempre bronzeadas. No fim de semana iam às ilhas para comer e vomitar. Todas bebiam muito, se drogavam um pouco, revezavam os namorados e salvaguardavam o hímen.

Eu não as suportava.

Mas nessa época eu não suportava muito ninguém.

Nem minhas colegas, nem minha mãe, nem minha irmã Juana.

Meu pai se salvava porque fazia tempo que tinha ido embora, e não dá para a gente implicar com pessoas ausentes. O problema com minha irmã era mais complicado. Falando claro e grosso: diziam que minha irmã Juana era meio puta. Bom, era o que diziam no meu colégio. Na verdade, era Dalia que me dizia que diziam no colégio, porque ninguém tinha coragem de me falar na cara. Não por pena ou vergonha, mas por medo da minha reação. Se viessem me dizer “Dizem que a tua irmã é puta”, eu poderia responder, sem vacilar: “E dizem que tua mãe toda manhã enfia na xota três bananas verdes e depois tira todas elas derretidas, de tanto fogo no rabo que tem. E sabe o que dizem que ela faz depois? Dizem que amassa as bananas e te serve no café da manhã.” E se me dedassem para alguma professora, fácil: eu negaria tudo.

“Você pode me explicar?”

Era um disco riscado, aquele cara. E um ordinário. Fazia um tempão que vinha com a mesma ladainha: por que as garotas do colégio eram tão mela-cueca, tão passa-a-mão e fecha-as-pernas, tão zelosas do caroço de manga? Eu tinha decidido ignorá-lo para não responder com uma grosseria. Não o conhecia o suficiente para me arriscar, vai que ele me enfiava a mão na cara e me quebrava o nariz. Eu não estava disposta a fazer minha avó correr para o hospital.

“E então?”, disse Blas.

Virei a Sprite.

A tarde estava como todas as tardes: quente e úmida.

Olhei para a porta da loja: nada de Dalia sair.

O fato é que o Teen Aid era uma medida desesperada que o colégio tinha sido obrigado a adotar contra a onda de alunas grávidas dos últimos anos. As aulas de religião e os retiros com senhorinhas da Opus Dei – prelazia à qual o colégio pertencia – eram pudicos demais para que neles se ousasse falar daquelas coisas que o Teen Aid tratava com tanta naturalidade, e ainda por cima em inglês, o que tornava tudo bem mais volátil. Todas nós, no colégio, já havíamos testemunhado o momento em que uma garota do último ano – ou até do penúltimo –, depois de alguns dias de ausência, reaparecia no colégio sem uniforme, acompanhada dos pais e com umas olheiras de dar medo, tipo menina judia torturada em Auschwitz. Todas tínhamos visto quando ela entrava na diretoria, escoltada pelos pais com cara de velório, como se lá dentro fosse ser queimada viva e eles não pudessem fazer nada para evitar. A diretora sempre se mostrava até que indulgente: exigia um casamento rápido e simples, e oferecia a matrícula do colégio para o bebê, sem ônus para a família. A futura mamãe saía de lá reconciliada com o mundo, disposta a entregar a criança aos cuidados da Obra. The end.

Mas à medida que a história foi se repetindo, as pessoas começaram a inventar boatos sobre uma creche que ia ser instalada num anexo do colégio, exclusiva para filhos de ex-alunas. E uma colunista ressentida – nas palavras da diretora – escreveu um artigo culpando o colégio pelas barrigas das meninas, por enfiar na cabeça delas que tomar anticoncepcionais era a mesma coisa que abortar – e era evidente que, para uma menina católica, abortar era o mesmo que mutilar o Menino Deus com um alicate. Até que chegou o Teen Aid e sua militância pela castidade. Honestamente, eu achava aquilo preferível ao louco baby boom adolescente que não deixava outra saída senão renunciar para sempre: primeiro, a seu juízo e a sua vontade – já não deixariam a condenada escolher nem a própria calcinha –; segundo, a sua prole precoce.

Bem na hora em que ia explicar isso a Blas, Dalia e Jota saíram da loja. Ainda bem, pensei, porque ia gastar minha saliva à toa. Tipos como Blas nunca entenderiam uma coisa dessas. Tipos como Blas tinham o cérebro torrado de maconha e tudo o que sabiam das mulheres era que traziam um buraco entre as pernas; se esse buraco estava fechado, só restava um monte de carne imprestável em volta. No fundo, se Blas estava gastando seu precioso fôlego narcotizado comigo, era por ter a esperança de me partir ao meio como a uma papaia. Sua estratégia persuasiva era tão obtusa como a das senhoras do Teen Aid.

Uma vez, num aniversário de Juana, houve uma discussão parecida. Quando ela contou para os amigos qual colégio eu frequentava, houve um coro generalizado: Pffffff! E um cabeludo com cara de border resolveu dizer que minha escola achava que as mulheres eram baldes: se estavam furadas, não serviam. Juana e suas amigas – que deviam estar todas furadas desde que vieram ao mundo – endossaram o comentário e fizeram cara de redimidas. Senti vergonha alheia. Pensei que, se essas meninas “furadas” precisavam que um cretino desgrenhado saísse em sua defesa com semelhante analogia, era porque no fundo se sentiam falhas, incompletas, estragadas.

Na calçada em frente, Dalia apoiava as mãos no peito de Jota e ria. Estava contente e chapada. Estava mais quente que o asfalto da avenida. Havia trocado sua blusa por uma camiseta preta muito menor que o número dela, com o rosto do Piu-Piu esticado no peito. Os dois se despediram com um beijo exagerado. Imaginei a língua de Jota avançando frenética por sua garganta como um tentáculo ferido e senti um calafrio. Depois Dalia acenou me chamando para a caminhonete.

* Este é o terceiro capítulo das memórias sexuais da escritora colombiana. Para ler o capítulo anterior, clique aqui. piauí publicará a série até agosto.


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É escritora colombiana radicada em Buenos Aires, autora de Usted Está Aquí, publicado pela Montacerdos